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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Sete Orelhas: a saga do vingador mineiro

(Por Arnaldo Silva) São Bento Abade é uma cidade com 5.349 habitantes, segundo o IBGE, em 2020. A cidade faz divisa com São Tomé das Letras, Três Corações, Carmo da Cachoeira e Luminárias e está a 288 km da capital, com acesso pela BR-381.
Logo na entrada da cidade, São Bento dá as “boas vindas” aos visitantes, em frente ao portal de entrada. A Avenida Miguel Nasser, é a principal via da cidade. Atravessa a pequena cidade de ponta a ponta, com ruas paralelas ao longo de seu percurso. (fotografia acima e abaixo de Elpídio Justino de Andrade)
           A cidade conta com uma forte atividade rural, com destaque para a agropecuária e plantações de lavandas. É em São Bento Abade que se encontra plantações de lavandas. Fica na Fazenda Santa Vitória. A fazenda é um dos atrativos para quem vem à região, já que é aberta à visitação. Conhecer a beleza impressionante das lavandas, É um passeio incrível. Estar em meio à essa beleza sem igual da natureza, emociona. (na foto abaixo do @estudioquinas de Varginha MG, a Fazenda Lavandas da Serra em São Bento Abade MG)
          A história da pequena cidade começa a partir de 1752, no século XVIII, com a chegada do Padre José Bento Ferreira de Toledo. Foi o fundador do povoado, que deu origem à cidade hoje. Padre Bento, era devoto de São Bento e construiu uma pequena ermida, dedicada ao seu santo de devoção. Em torno da pequena ermida, um pequeno povoado se formou, passando a se chamar, povoado de São Bento. Desse povoado, surgiu a cidade de São Bento e não mudou de nome ao longo de existência. São Bento Abade é uma das poucas cidades brasileiras que não alteraram o nome durante sua história. Quando de sua emancipação, em 30 de dezembro de 1962, decidiram preservar o nome, acrescentado a palavra “Abade”, por existir outras cidades com o nome de São Bento, pelo país. O Abade era apenas para diferenciar.
          São Bento Abade é hoje uma cidade bem pacata, organizada e tranquila (fotografia acima de Elpídio Justino de Andrade). Seu casario é simples e a cidade bem acolhedora e seu povo, hospitaleiro. O município tem uma forte vocação cultural, preservando tradições como a Folia de Reis, a dança de Catira, o Reinado, as festas juninas, as modas de viola, a Festa do Peão de Boiadeiro, bem como as tradições religiosas católicas como a Semana Santa, Corpus Christi, a Festa do Padroeiro São Bento, em julho, dentro outros eventos.
          Andando pelas ruas de São Bento do Abade, o visitante, já estranha algumas placas indicativas em forma de orelha. Percebe um nome meio estranho logo na entrada da cidade, em praças e monumentos retratando um homem com aparência destemida, montado num cavalo, usando um colar com 7 orelhas penduradas e até na Casa da Cultura da cidade. Esse nome estranho é Sete Orelhas, apelido dado a Januário Garcia Leal, homem branco, rico, influente e Capitão de Ordenanças, que viveu na cidade no século XVIII e início do século XIX. Entrou para a história como o Sete Orelhas, um personagem mineiro que teve sua trajetória de vida, mudada a partir de 1802. Saiu de uma vida pacata para entrar para a história como um dos homens mais populares e ao mesmo tempo, um dos mais temidos de Minas Gerais, principalmente pelos governantes. Sua saga começa a partir de 1802. Durante esses mais de dois séculos, já foi temas de livros, estudos, teses e documentários.
          Nasceu na cidade de Jacuí, no Sul de Minas, em 1761 e faleceu em 16 de maio de 1808, em Lages, Santa Catarina. Era filho de Pedro Garcia Leal, natural dos Açores, região de Portugal e Josefa Cordeira Borba, natural de Cotia/SP. O casal formou uma família bem grande. Além de Januário, eram mais 7 filhos: José Garcia Leal, Joaquim Garcia Leal, João Garcia Leal, Manuel Garcia Leal; Antônio Garcia Leal, Ana Garcia Leal, Maria Garcia Leal, e Salvador Garcia Leal. Januário era casado com Mariana Lourença de Oliveira e com ela teve um filho, Higino Garcia Leal.
          Era uma pessoa tranquila, trabalhadora e vivia uma vida bastante pacata na fazenda Ventania, hoje o município de Alpinópolis, no Sul de Minas, com sua esposa e filho, além de escravos. Exercia a função de Capitão de Ordenanças do distrito de São José e Nossa Senhora das Dores, hoje, cidade de Alfenas, no Sul de Minas. Recebeu essa patente em 21 de janeiro de 1802, assinada pelo Capitão General da Capitania de Minas Gerais, Bernardo José de Lorena. Essa patente, era concedida pelo Estado a membros da sociedade civil, para atuar como força militar, quando não havia a presença de uma organização militar constituída, na localidade. Tinha função de auxiliar as forças de seguranças da época em ataques de inimigos e proteção dos interesses da Corte Portuguesa na localidade.
          A vida tranquila e pacata de Januário mudou, quando seu irmão, João Garcia Leal, então com 43 anos, se envolveu em uma briga com seu vizinho, Francisco Silva, por disputa de terras. Francisco Silva tinha sete filhos. Ao saberem da briga do pai com João Garcia Leal, tramaram eliminar o vizinho. Numa fazenda em São Bento Abade, João Garcia Leal, foi cercado pelos sete irmãos. Foi facilmente dominado, imobilizado e despido. Em seguida, amarrado a uma figueira, onde, sem a menor chance de defesa, foi esfolado vivo. Januário assistiu toda a cena do alto de um morro, sem nada poder fazer.
          Revoltado, decidiu procurar a Justiça. Numa época de constantes conflitos por disputa de terras e minas de ouro em Minas Gerais, fatos como esses eram comuns e a Justiça pouco agia nesses casos, até porque, a ação das comarcas era de dimensões regionais, sendo pouquíssimas existentes. A comarca mais próxima de São Bento Abade, naquela época, ficava em São João Del Rei, distante hoje 145 km. Numa época em que o único meio de transporte era cortando o sertão a cavalo ou em carros de bois.
          Era uma viagem longa, que levava dias. Mas Januário buscou a Justiça. Esta se demonstrou indiferente ao episódio. Procurou as autoridades da Coroa Portuguesa, que o orientou a resolver a questão por si mesmo, da forma que julgasse justo.
          A justiça e as autoridades do Brasil Colônia, se mostraram completamente indiferentes e, insensíveis, em relação à demanda de Januário Garcia Leal. Simplesmente, lavaram as mãos. Inconformado ao ver os algozes de seu irmão impunes, Januário voltou para São Bento Abade e a única forma que jugou justa para punir os culpados pela morte do irmão foi usar a lei mais comum naqueles tempos, a Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”. Com o apoio de seu irmão caçula, Salvador Garcia Leal e seu primo, Mateus Luís Garcia, também capitães de ordenanças, além de outras pessoas que se juntaram ao seu grupo, buscou fazer sua própria justiça.
          Januário abandonou sua mulher, seu filho, sua propriedade, o status de sua patente e decidiu ir atrás dos sete irmãos, para vingar a morte de João Garcia Leal. Começa então uma das mais terríveis caçadas da história de Minas Gerais. Perseguidos, humilhados, espancados e mortos, foi o fim dos sete irmãos. Para chegar ao sucesso de sua vingança, Januário e seu grupo, foram implacáveis e impiedosos. Desbravaram durante seis anos o sertão mineiro, em busca dos homens responsáveis pela barbárie contra João Garcia Leal.
          Os sete irmãos, temendo a vingança de Januário, começavam a fugir, sendo 3 deles, pegos durante a tentativa de fuga. Por esse ato, Januário Garcia Leal foi denunciado em 1803, por uma moradora de Campo Belo, à Justiça da Vila de São Bento do Tamanduá, hoje, cidade de Itapecerica, na Região Oeste de Minas. A Justiça da época, acatou a denúncia e determinou a prisão de Januário, o que não o intimidou. Continuou com seu objetivo. Dos quatro que conseguiram fugir, foram capturados ao longo dos anos de sua caçada. O último dos sete irmãos, ficou tão apavorado com a ação de Januário, que fugiu para o mais longes possível. Foi parar perto de Diamantina, a 550 km de distância de São Bento Abade. Mas não teve jeito, foi encontrado. Januário mandou o homem andar 100 passos e avisou que no centésimo, atiraria. Se errasse, podia seguir. Mas Januário era bom de mira, acertou em cheio. Finalmente, depois de quase 6 anos de caçada, Januário Garcia Leal cumpriu seu prometido, vingando a morte do irmão.
          Januário fazia questão de cortar a orelha direita de suas vítimas, salgava e as colocava num cordão, formando um “colar”. Somente após a última orelha, no “colar”, Januário se deu por satisfeito. Dos que mataram seu irmão, não sobrou um para contar história.
          Januário tinha parentesco com um dos mais assustadores homens do século XVIII, Bartolomeu Bueno do Prado, Capitão-Mor e Capitão do Mato. Com certeza, sabia da fama deste homem, que corria solta na tradição popular. Era um dos homens mais temidos da sua época, por suas ações e barbáries cometidas em seus atos. Sua especialidade era desmantelar grupos de quilombos, por isso era um dos capitães do mato mais requisitados por fazendeiros e governos. Para comprovar que suas ações tiveram êxito, tinha o hábito de cortar as orelhas de suas vítimas. Foi assim que fez em 12 de maio de 1757, quando contratado pelo Governador da Capitania de Minas Gerais, José Antônio Freire de Andrade, entregou três mil e novecentos pares de orelhas, resultado da ação por 3 anos em território mineiro, em combate a movimentos quilombolas. Acredita-se que Januário tenha se inspirado no comportamento de Bartolomeu Bueno do Prato.
          Com esse ato de cortar e amarrar num cordão as orelhas de suas vítimas. passou a ser conhecido como Sete Orelhas. Ganhou fama e respeito, conseguindo a simpatia e adesão de muitos, que se juntaram a seu grupo. Mas também provocava medo nos poderosos, que temiam a justiça dos Garcias, já que tinham fama de implacáveis e rápidos em seus julgamentos e execuções de suas decisões. Por esse motivo, tinham a simpatia do povo, que consideravam a justiça lenta, burocrática, ausente e inacessível para boa parte da população naquela época. Ninguém se atrevia a enfrentar o Sete Orelhas.
          Em 1808, a fama dos Garcias e seu grupo, chegou à Corte, dada tamanha ousadia e popularidade do grupo, liderado por Januário Garcia Leal. Conquistaram respeito popular na Capitania de Minas Gerais, exercendo autoridade que sobrepunham inclusive, à autoridade da polícia e do judiciário, à época, em boa parte do território mineiro.
          Isso passou a incomodar a Corte Portuguesa, provocando uma forte reação do Príncipe Regente de Portugal, Dom João VI. A Corte julgava que Januário e seu grupo, poderiam colocar em risco a soberania do domínio português, na Capitania de Minas Gerais. A preocupação da Corte com o grupo de Januário Garcia Leal era tão grande que a Monarquia mandou, nada mais, nada menos que o temido Fernando Vasconcelos Parada e Souza. Foi esse o homem que perseguiu e prendeu os Inconfidentes.
          Tinha a clara missão de colocar fim a revolta dos capitães, em 1808. O Príncipe Regente, determinou que, as forças públicas agissem de forma a desmobilizar e desmantelar totalmente o grupo. Januário, que empreendeu uma forte caçada pelo sertão mineiro, passou a ser duramente caçado e perseguido, sem tréguas, pelas tropas de Fernando Vasconcelos. Salvador Garcia Leal, irmão de Januário e integrante do grupo foi preso. Seu primo, Mateus Luís Garcia, conseguiu fugir, bem como Januário, que fugiu para bem longe de Minas Gerais
          Foi para Lages, em Santa Catarina, onde vivia alguns de seus parentes, de origem açoriana. Em Lages, exercia a função de mercador, mas morreu pouco tempo depois, que chegou, aos 47 anos, em 16 de maio de 1808. Mas não morreu devido a perseguição das tropas de Fernando Vasconcelos. Foi vítima de um acidente, quando tentava impedir um cavalo de pular uma porteira. No salto, as patas do cavalo atingiram uma das tábuas, que se desprendeu e acertou com muita força, sua cabeça, próximo a sua orelha direita, causando-lhe traumatismo craniano e fratura do queixo, levando-o à morte.
          Esta é a história de Januário Garcia Leal. (foto acima de Elpídio Justino de Andrade) É fato histórico e comprovado. Um personagem real de nossa história, bem longe de ser uma lenda. É a história viva de São Bento Abade MG. Na cidade, podem ser vistos, monumentos dedicados ao Vingador de Minas Gerais, montado em seu cavalo, com o colar de orelhas em seu pescoço. Bem como ainda, a figueira, onde aconteceu o suplício de João Garcia Leal, conhecida hoje como “Figueira do Tira-Couro".
          A figueira foi tombada em 12 de abril de 2004, pelo Conselho do Patrimônio Cultural de São Bento do Abade, sendo protegida desde então como patrimônio. O lugar é cercado, sinalizado e bem cuidado. Em 2014, a Saga de Sete Orelhas, com base em estudos e pesquisas, em documentos e inventário de Januário Garcia Leal, sobre a vida de Januário Garcia Leal, foi registrada como patrimônio da cidade, resgatando a história de um dos mais intrigantes personagens mineiros. Sua saga é hoje um dos atrativos do Sul de Minas.

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