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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

As irmandades e igreja inacabada de Sabará

(Por Arnaldo Silva) Sabará é uma das mais importantes cidades históricas de Minas, fundada em 1775, no final do século XVIII. A cidade guarda relíquias da nossa história, presentes em sua em seus casarões coloniais, na Casa da ópera, em seus museus e em suas igrejas imponentes, erguidas durante o Ciclo do Ouro. Muitas dessas igrejas abrigam obras do Mestre Aleijadinho, que já morou na cidade e do Mestre Ataíde, o mestre da pintura. A cidade fica apenas 20 km distante de Belo Horizonte.
          No Centro Histórico da Terceira Vila do Ouro de Minas Gerais, uma construção em pedras e inacabada, chama a atenção, pela imponência e pelas histórias ocorridas ao longo de seus mais de três séculos de existência, que impossibilitaram sua conclusão. (fotografia acima de Andréia Gomes)
          É a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Barra do Sabará. A irmandade dos Irmãos do Rosário foi fundada em 1713 e foi muito atuante em Sabará, durante o período do Ciclo do Ouro.
          É uma obra, que mesmo inacabada, impressiona, pelas sombrias paredes, em pedra sobre pedra e detalhes imagináveis, de uma Igreja que seria uma das mais belas e imponentes de Minas. Estar no interior da construção, emociona e intriga, pelos mais de 300 anos de existência. O que guardam essas paredes? Quais as histórias vividas e contadas neste lugar? Quantas dores e lágrimas foram derramadas em sua construção? (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          Primeiro vamos entender porque da igreja ser construída por uma irmandade, formada por homens negros e leigos e não por homens brancos ou mesmo, pela própria igreja, através de suas ordens religiosas.
          Muitos perguntam, como os escravos podiam construir suas igrejas e se organizarem em irmandades, durante o período da Escravidão. Vamos primeiro entender a questão as irmandades, para depois entendermos porque a Igreja do Rosário, não teve suas obras concluídas.
O Ciclo do Ouro e as Irmandades
          A descoberta do ouro em Minas Gerais, fez surgir vilas e cidades, diferentes povos, que deram origem a formação social, política, arquitetônica, cultura e gastronômica, chegaram nas terras mineiras. Foi um período que permitiu uma maior inserção dos negros, pardos e mamelucos, na vida urbana, com o surgimento crescente de povoados, vilas e cidades, por toda Minas Gerais.
          Passaram a viver nas cidades, trabalhando nas minas de ouro, desempenhando atividades necessárias à época, como a carpintaria, construção civil, atividades artísticas como pintura e ornamentação de casas e templos, além de adornos para casas, fazendo instrumentos musicais, dentre outras atividades, imprescindíveis para a época.
          Com essas atividades, muitos escravos, conseguiram ter influência, acumulando riquezas, comprando suas próprias alforrias ou mesmo, dadas por seus senhores, por exemplo, quando um escravo encontrava uma mina de ouro ou conseguia extrair grandes quantidades do metal. Quem conseguia sua liberdade, passava a ter mais influência em sua comunidade e muitos ex escravos, até se tornaram senhores de escravos.
          Com origem na Europa, as irmandades e confrarias, eram grupos de homens que tinha ideais e objetivos comuns. Em Minas Gerais, as irmandades eram formadas por homens brancos, negros, pardos, mestiços e mamelucos. Cada um com suas respectivas irmandades. Ser aceito e fazer parte de uma irmandade ou confraria, era primordial para o reconhecimento social dos homens no período colonial.
          Entre as irmandades formadas em Minas Gerais, as irmandades dos homens pretos, eram as mais ativas e atuantes. Isso devido à limitação impostas pelos brancos à fé dos escravos, bem como a discriminação e o preconceito que eram submetidos constantemente. Por essa e outras limitações sociais, sentiram a necessidade de se unirem. Decidiram formar suas próprias irmandades e construírem suas próprias igrejas. Assim conseguiam se fortalecer, protegerem-se uns aos outros, além de preservarem suas tradições, cultura e fé, mantendo ainda a unidade dos homens que formavam a irmandade.
          As irmandades dos homens pretos tinham uma afeição por Nossa Senhora das Mercês, Santa Efigênia, São Benedito e em especial por Nossa Senhora do Rosário. A predileção dos escravos pela santa Católica se deu devido ao seu rosário, semelhante ao “rosário de ifá”, usados pelos sacerdotes africanos.
          A maioria das igrejas mineiras, durante o Ciclo do Ouro, foram construídas por irmandades e confrarias religiosas. As irmandades, uma tradição que veio da Europa para nossas terras, foram se formando durante o período da mineração do ouro. A criação de irmandades e confrarias, foi necessário devido os desentendimentos entre a Igreja Católica e a Coroa Portuguesa, durante a exploração do ouro em Minas Gerais.
          As ordens religiosas da Igreja Católica, foram proibidas de atuar e de existirem em Minas Gerais. Cabia então as irmandades, construir, zelar pelas igrejas e fazerem os serviços religiosos, além de construírem e manterem seus cemitérios. As igrejas contavam com padres, mas não organizados em ordens religiosas. Quem construía, dirigia e administrava as igrejas, eram as irmandades e não a Igreja Católica, por intermédio de suas ordens.
          Assim foram surgindo as irmandades e confrarias pelas cidades mineiras, com o objetivo de unir homens em prol de seus ideais comuns, defendendo seus interesses e a devoção em seus santos, dedicando a eles as igrejas que construíam. Quanto mais irmandades existia numa cidade, mais igrejas eram construídas.
          Em Ouro Preto, por exemplo, durante o Ciclo do Ouro, existiam 29 irmandades. Cada igreja ou capela ouro-pretana, nessa época, foi construída por uma irmandade diferente. E assim foi por todas as cidades mineiras, surgidas durante o Ciclo do Ouro, como Sabará, Serro, Mariana, Tiradentes, São João Del Rei, Diamantina, etc.
          E era cada um na sua, cada irmão em sua irmandade. Cada irmandade, tinha seu santo de devoção e se dedicavam a construir os templos em honra a seus respectivos santos.
          As irmandades não viam a carência religiosa da sua cidade em si, mas sim, os seus interesses. Não se incomodavam e nem se importavam em construir suas igrejas, próximas umas das outras.
          Isso porque suas igrejas não eram para a cidade, e sim, para a própria irmandade. Por isso cada irmandade construía sua igreja, mesmo que à frente, na rua do lado ou atrás da sua igreja, exista outra. Por isso que nas cidades históricas, existem tantas igrejas e todas, bem próximas. Havia até disputa de poderio econômico entre irmandades. Quanto ouro e ornamentos tinha as igrejas, mais prestigio e poder social, tinha a irmandade. As sedes das irmandades eram em salões construídos junto às sacristias nas igrejas, onde se reuniam com frequência
          Com o fim da riqueza gerada pelo ouro, finalizou também a proibição da presença das ordens religiosas oficiais. As irmandades continuaram a existir, por um bom tempo, dando apoio às ordens e ajudando nos trabalhos das igrejas, que passaram a ser administradas diretamente pelas ordens oficiais católicas, bem como na manutenção e na construção de novos templos.
A igreja inacabada de Sabará
          Entendido a questão das irmandades, agora ficará mais fácil entendermos a questão da igreja inacabada de Nossa Senhora do Rosário, em Sabará. Por que começou e porque foi concluída até hoje? Vamos lá.
          No lugar onde foi projetada a igreja do Rosário em Sabará, existia uma pequena ermida, feita de madeira, dedicada à Nossa Senhora do Rosário. Foi demolida e no lugar, construída uma capela em melhores condições para os membros da irmandade exercerem sua fé, enquanto se construía o novo templo. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          Era bem simples e rústica em seu interior, com piso e detalhes em madeira, ornamentação e talhas dos altares bem singelos. As pinturas no forro da capela diferem da simplicidade do altar capela. São pinturas mais bem trabalhadas, simbolizando a Ladainha de Nossa Senhora.
          A Irmandade, conseguiu com muito esforço, em 1757, a doação, por carta régia, de seu tão sonhado terreno, onde finalmente, conseguiram dar início a construção de sua igreja. Buscaram recursos, juntaram dinheiro e ampliaram a área doada, com a compra de dois terremos próximos, em 1766.
          No ano seguinte, começa a preparação do terreno, com a construção da igreja, iniciada em 1768. A parte de execução da alvenaria e cantaria, foi executada pelo mestre de obras, Antônio Moreira Gomes, contratado pela irmandade.
          Era um projeto grandioso e ambicioso para a época. Mesmo durante a riqueza do Ciclo do Ouro, era um projeto bem caro, já que os membros da Irmandade, não tinham tanto dinheiro assim. Esse foi um dos fatores para a lentidão das obras de alvenaria e cantaria, que só foram concluídas, 12 anos depois, em 1780, com a conclusão das obras da capela-mor e da sacristia, na alvenaria, sem o reboco e ornamentações. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          A partir desse ano, com a falta de recursos, as obras continuaram bem lentas, passando pelas mãos de diversos outros mestres de obras, durante décadas, até o ano de 1878, quando os Irmãos do Rosário, decidiram concluir de vez as obras da Igreja.
          Nessa época, o Brasil vivia um período conturbado em sua história, com pressão sobre a Monarquia e pelo fim da Escravidão. Isso fez com que vários os negros, se dispersassem ou mesmo, fugissem para quilombos, cada vez mais comuns naquele tempo.
          Nas grandes cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, a sede da Monarquia Imperial, a pressão pelo fim do Império e instalação da República e abolição da Escravidão eram cada vez mais frequentes, o que de fato ocorreu, anos depois. Em 13 de maio de 1888, foi abolida a escravidão no Brasil. No ano seguinte, em 15 de novembro, cai a monarquia e é instalada a República no Brasil.
          Nessa situação, a Irmandade do Rosário, se viu esvaziada, sem dinheiro e sem a mão de obra, bem como a própria Igreja Católica, que não tinha também recursos para finalizar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Sabará. Encerraram-se então os esforços para a conclusão das obras. Do jeito que deixaram, está até os dias de hoje.
          Se tivesse sido concluída, seria um dos mais imponentes e belos templos do período barroco e rococó, em Minas Gerais. Seria uma igreja singular, rica em detalhes em sua fachada e nos ornamentos internos, com seus altares ornados em ouro, pinturas e talhas finíssimas e bem trabalhadas. A igreja chama a atenção para o projeto de seu adro, que lembra a escadaria do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas MG. (na foto acima de Arnaldo Silva)
          Por sua história, ao longo de três séculos, e importância, no dia 13 de junho de 1938, todo o acervo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Sabará, foi tombado pelo (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Com o tombamento, garante-se a preservação integral de toda a obra. Como é um bem tombado, não pode sofrer modificações ou alterações, apenas restaurações e reformas estruturais e necessárias, que possam garantir a integridade e preservação da obra, em sua originalidade, como foi feito entre 1944 a 1945.
          O visitante pode conhecer a Igreja, por dentro e por fora, além de conhecer o Museu de Arte Sacra, que funciona em uma das sacristias da Igreja. Neste museu, estão mobiliários e peças religiosas dos séculos XVIII e XIX. 
          A curiosa obra inacabada, desperta curiosidades e instiga a imaginação dos visitantes. É um dos lugares mais visitados de Sabará, além de ser um dos lugares mais enigmáticos de Minas Gerais. As paredes erguidas em pedra bruta, assentadas, pedra, sobre pedra, pelos escravos, tem muitas histórias para contar. São mais de três séculos, com histórias reais e outras nem tanto, contada em forma de lendas, muitas delas, fantasmagóricas, criadas pelo imaginário popular. (fotografia acima de Andréia Gomes)

Um comentário:

  1. Muito interessante. Uma pequena informação. Nos anos 1850, houve uma grande tentativa de reiniciar a obra da igreja. Sou testemunha, pois tenho inclusive um recibo do meu Trisavô, Luis Filisbino e Costa, grande minerador, referente retirada de pedra ( sabão ?)do Galego ( região nas imediações da cidade sabarense ), para as "vergas" das portas principais da Igreja, incluindo o transporte. Existe toda uma vasta documentação sobre a Irmandade do Rosário e obras da igreja, no arquivo do Museu do Ouro, onde trabalhei organizando o acervo, por 13 anos.

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