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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A noiva e os cajuzinhos do campo

Vestida de noiva, como era costume, Izoldina jazia inerte no caixão. Morrera de repente, num mês de outubro, há muitos anos... Morava com a família na região denominada Guiné, perto da Serra da Canastra, nas Minas Gerais.
          Nos curtos intervalos entre uma reza e outra, ouviam-se frases soltas, ditas por umas e outras pessoas: “Si foi qui nem um passarim... Tá tão bunita... É como se tivesse ino pa igreja casá... Tão moça... Tão pura... Tão boa...”.
          O esquife que levaria a donzela foi feito ali mesmo, na fazenda, pelos carapinas especialmente treinados nesse ofício. Muito choro na despedida e lá se foi uma pequena multidão encarregada de deixar a moça na sua última morada, longe dali umas três léguas.
          Devido ao sol quente e à distância, as pessoas foram se dispersando pelo caminho, cada um com sua própria desculpa:
— Oia, minha gente – disse o Chico Felício – oceis num arrepara não, mais ieu vô pruveitá qui ta pirtim de casa e vô mimbora, tenho de apartá as vaca dus bizerro, lá nu pasto...
— Ieu tamém vô ino – falou dona Leontina – mi alembrei que inda hoje tenho qui relá dois jacá de mandioca pa mode fazê farinha de biju...
— Nóis vai tamém, mode qui deixemo os minino suzim e ês inda num dá conta de fazê os quêjo. Si passá da hora de pô o cuaio, ceis sabe, o leite azeda e disanda. Emendaram o Gaspar e a Cidinha, enquanto também se desobrigavam da caminhada com a defunta.
          De maneira que, do cortejo todo, sobraram apenas os quatro moços 
– Belchior, Geraldo, Bertulino e Dionísio – que carregavam o caixão.
— Tadinha da moça, falou o Bertolino. Num miricia morrê sortêra. Diz qui ela era doidinha pa mode casá!
— Ela num miricia é o pocauso dessa gente, oia proceis vê! Só fiquemo nóis quato pa carregá a difuntinha...
— Ô gente! Eu tô matutano uma coisa aqui, falou o Geraldo. Meu vô dizia qui difunto pesado é condo morre chei de pecado. A Zordina era magrinha im vida, agora tá pesano pa lá de cinco arroba! Num era pr’ela pesá tanto, sô! A Zordina era moça virge, uai! Num divia de tê é pecado ninhum!
— Sei lá se donzelice é mema coisa qui santice! ­— Disse o Dionísio, limpando o suor da testa.
— Uai, e num é não?! —Indagou Bertolino.
— Né nada! A gente peca cós pensamento. É uns pecado mais abrandado, mais é pecado do memo jeito.
— Ieu num concordo coceis não, interveio o Belchior. Pensamento e sonho da gente num pode sê pecado, pruquê nóis num sigura êz não. É qui nem boi brabo, sai rebentano cerca!
— Virge santa! Entonce a minha sonhação é pió qui uma boiada disimbestada! Caçoou o Bertolino.
          E, nessa filosofia de caipiras, os quatro amigos iam conduzindo o ataúde da Izoldina pela estradinha, debaixo de um sol de lascar. O alívio era sentido quando a sombra de uma capoeirinha refrescava um pedaço do caminho.
          Não demorou muito e o estômago reclamou, quando o cheiro de cajuzinho-do-cerrado avisou que era hora de comer. Porém, eles sabiam que ainda faltava muito chão para chegar à cidade.  Belchior, com as pernas bambas, deu de reclamar:
— Num sei ocêis, mais ieu num tô mais dano conta de carregá esse peso na cacunda, dibaxo desse solão quente! Ieu tô morreno de fome, nóis nem lembrô de trazê uma matula!
— Num dianta recramá Brechó. Nóis tem qui levá a moça pa sipurtá, uai. Num pode é dexá ela no mei do caminho!
          Depois de andarem mais um bom tempo, o céu escureceu, anunciando uma tempestade com raios e trovões. Desnorteados, os rapazes ficaram sem saber o que fazer com aquele peso nos ombros.
— Vô largá ocêis e vombora! Avisou o Bertulino que se pelava de medo de chuva.
— Num faiz isso!
— Carma gente! —Atalhou o Geraldo.
—Ocêis viu aquele valo qui separa os pasto, ali atrais? O jeito é nóis sipurtá a Zordina lá memo! É só nóis cavacá cos facão e dispois cubri cum cascaio do barranco.
          Os outros três relutaram cismados, porém a chuva pendurada não deu alternativa e, de comum acordo, os quatro fizeram um pacto de silêncio. Sepultaram a moça ali mesmo. E o assunto, esse enterraram na mesma cova.
          Izoldina, então, jazia perto da porteira do brejinho quando a chuva caiu molhando o chão encascalhado do Guiné. Nem colocaram cruz, pois, segundo o Geraldo era para não deixar rastros.
          Daí em diante, a vida voltou à mesmice de sempre para os moradores do lugarejo, inclusive para os quatro rapazes.
          Dizem os antigos que quando chove depois de um enterro é sinal que o defunto ganhou salvação eterna. Porém, a partir daquele dia, muita gente jurava de pé junto, ter visto uma noiva a caminhar pelo cerrado ao entardecer, colhendo cajuzinhos, todo mês de outubro.
          Certa feita, Geraldo – o único dos quatro que ainda vivia – foi parar outra vez naquele lugar, perto da porteira do brejinho. Já de barba branca, caminhando com alguma dificuldade, ele viu a lua cheia surgir por detrás das árvores. Olhou ao redor e se lembrou do segredo ali enterrado, há mais de cinquenta anos. Tentou afastar as lembranças da ideia, mas não teve jeito!
          Um cheiro de caju-do-campo entrou-lhe pelas narinas, deixando-o meio cabreiro, pois ali não se via um só pé da tal planta. É que há tempos o capim braquiária substituíra o nativo do cerrado, extinguindo para sempre algumas frutas delicadas e saborosas como o cajuzinho, o pequi, o araçá, a gabiroba, o murici e tantas outras...
          Naquele instante, Geraldo apressou o passo, se maldizendo por ter vindo parar ali naquela hora. Viu que não havia outro jeito senão procurar firmar os pés na estrada. E assim fez. No entanto, ao parar para abrir a porteira, sentiu um leve roçar na coxa direita... Arrepiou-se até a raiz da barba! Balbuciando uma oração desconexa, tentou se afastar rápido, mas continuou sentindo aquele toque.
          Podia jurar que era uma mão de mulher que saía da sua cintura e escorregava sobre sua perna, quase até o joelho, pressionando a coxa, provocando calafrios, deixando-o apavorado! Reuniu um restinho de coragem e tentou argumentar:
— Zordina... Se fô ocê qui tivé aí mi fazeno cosquinha... Mi perdoa pelamor de tudo quanté santo... Ieu num tive curpa... Ieu bem qui quiria ti levá pru cimitéro... Inté quiria ponhá uma cruiz aqui, foi a chuva qui num dexô... Quero qui ocê discansa im paiz, viu?!
          Não ouvia passos, mas podia jurar que era seguido! Sentia na nuca um hálito frio com cheiro de caju... E a mão... Ah! Aquela mão fria deslizava insistente e audaciosa à medida que ele andava. Só a lua testemunhava seu desespero! Geraldo, então, começou a correr como um louco, tentando se livrar das mãos que lhe davam palmadas no traseiro, nas coxas... Enlaçado por braços, sentia o toque de dezenas de mãos geladas, e o odor insuportável de caju. Continuou correndo sem rumo, dentro da noite escura...
          Amanhecia, quando foi encontrado na estrada pelos netos, em estado de choque. Tentou narrar-lhes o acontecido, as horas de tormento que passara. Falou das mãos que o atacaram.
— Ô, vô Gerardo, ispia bem, falou um dos espertos netos. Será que essas mão qui roçô nas perna do sinhor num é a bainha do facão qui tá na cintura du sinhor? Ieu acho qui é! Quando o sinhor apressava o passo, é capaiz qui ela batia cum mais força nas sua perna e isbarrava pa tudo quanté lado, vô!
          Ainda com as pernas bambas, tentando se recuperar do susto, Geraldo montou no cavalo trazido pelos meninos. Fez o sinal da cruz e, naquele mesmo dia, tratou de fincar uma cruz bem lá, no barranco onde haviam sepultado a Izoldina.
          Daí por diante, nunca mais se teve notícia da noiva que colhia cajuzinhos todo mês de outubro à hora do ângelus. Porém, ainda hoje, há quem passe pela porteira do brejinho e sinta o misterioso aroma dos cajuzinhos que por ali havia...
Texto de Maria Mineira, professora e escritora mineira, de São Roque de Minas, com foto ilustrativa de Sila Moura

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Turismo e férias na Serra da Mantiqueira

Uma região montanhosa de muitas belezas naturais, temperaturas agradáveis, águas medicinais, além de grande exportadora da agricultura brasileira. O cenário é a Serra da Mantiqueira, que possui 60% de sua extensão no Sul de Minas Gerais.
          A serra tem atraído cada vez mais a atenção dos turistas e o incentivo de governos. Prova disso foi o lançamento, no último mês de dezembro, do Destino Mantiqueira, projeto que visa fortalecer os circuitos turísticos e culturais da serra nos três estados que a integram: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. A iniciativa busca fortalecer os atrativos turísticos e culturais e valorizar os produtos e roteiros regionais, fomentando parcerias e valorizando o turismo de experiência nas mais de 100 cidades que integram sua extensão. (na foto acima de Rinaldo Almeida, paisagem de Pedralva MG e na foto abaixo, de Cássia Almeida, o Trem das Águas, entre São Lourenço e Soledade MG)
          Ao se falar em férias no Sul de Minas, muitos se lembram, por exemplo, das cidades do Circuito das Águas, com estâncias minerais, fontes e balneários terapêuticos. Além desses atrativos, os municípios mineiros pertencentes à Serra da Mantiqueira têm grande variedade de atrações para famílias, grupos de amigos e casais no período de férias. As atividades vão desde uma visita à fazenda de café especial a um voo, passando por inúmeras trilhas e cachoeiras nas montanhas.
          A superintendente de Marketing Turístico da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), Fernanda Fonseca, salienta a riqueza e a diversidade da região, que vem se destacando no turismo gastronômico. São possibilidades de vivências em cafezais, queijarias e plantações de oliveiras, além da natureza que propicia prática de esportes e contemplação. “Os roteiros aguçam os nossos sentidos e emoções, transformando a viagem em uma experiência sensorial inesquecível”, afirma. (na foto acima, de Thelmo Lins, paisagem de Passa Quatro MG)
Rota do Café Especial
O turismo cafeeiro tem registrado grande procura nos últimos tempos. O município de Carmo de Minas, a 378 quilômetros de Belo Horizonte, promove a Rota do Café Especial – um passeio em meio a lavouras de café das grandes fazendas da região que termina em uma típica mesa mineira com quitutes e a famosa bebida das xícaras brasileiras. (na foto acima, de Sandra Walsh, cafezal em Cristina MG) Os apaixonados por café devem incluir no roteiro de viagem uma visita às fazendas do Sertão, Serrado e IP. Devido à localização em alta altitude, elas cultivam e exportam grãos especiais de café: Bourbon amarelo, Bourbon vermelho, Mundo Novo, Catuaí Vermelho e Amarelo, Acaiá e Icatu.
Circuito do Azeite
          Outra experiência gastronômica irresistível na Mantiqueira é a degustação de azeites extravirgens. Trabalhos realizados pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) fizeram da região a pioneira na extração deste tipo de azeite no país. (na foto acima, de Rinaldo Almeida, uma das fazendas produtoras de azeite de oliva em Maria da Fé MG) Os produtores de oliveiras locais oferecem aos visitantes produtos de alta qualidade e sabores suaves, frutados, amargos e picantes, completamente diferentes de outras regiões brasileiras.
          Para os interessados em conhecer os olivais e o processo produtivo do azeite, há circuitos de visitas guiadas em algumas cidades do Sul do estado. São elas: Gonçalves, Poços de Caldas e Maria da Fé, esta última conhecida nacionalmente como a Cidade das Oliveiras.
Balonismo
          Os relevos das montanhas da Serra da Mantiqueira são um show à parte. Agora, imagine poder apreciar de longe a mistura de cores dos vales tomados por plantações de frutos variados. Outra atração da região que permite apreciar esse panorama é o circuito do balonismo. Uma experiência única de fazer um passeio pelos ares da serra, viajando em um balão. Além da paisagem serrana, a vista privilegiada do nascer do sol conquista os turistas.(foto abaixo de Gislene Ras em São Lourenço MG)
          Os passeios têm total segurança: são organizados pela Federação de Balonismo de Minas Gerais e duram cerca de uma hora. A partida para essa aventura é da cidade de São Lourenço, 386 quilômetros ao Sul da capital mineira.
Circuito das Terras Altas
          Aventureiros que preferem manter os pés no chão têm muitas opções na Serra da Mantiqueira. A região possui cidades onde são encontrados alguns dos mais altos picos do país e os maiores complexos ecológicos de Minas e do Brasil. Em Passa Quatro, o Pico da Pedra da Mina fica a 2.797 metros de altitude; em Itamonte está localizada a Pedra do Sino de Itatiaia, a 2.670 metros de altitude, e na cidade de Aiuruoca se encontra o Pico do Papagaio, a 2.100 metros de altitude (na foto abaixo de Jerez Costa). Até o topo, o viajante desfruta de um cenário exuberante em meio à floresta tropical da Mata Atlântica com bosques de araucária entrecortados por lindas cachoeiras. Daí o nome Serra da Mantiqueira, que em tupi-guarani significa “serra que chora”.
          O Circuito das Terras Altas em Minas Gerais oferece, ainda, práticas de canoagem, bóia-cross, rapel, escalada, tirolesa, trilhas de moto, jipe ou bike e caminhadas. Com temperaturas entre 4 °C negativos e 27 °C positivos, é o lugar perfeito também para o descanso, o aconchego, o queijo e o vinho. (Com Agência Minas)

domingo, 26 de janeiro de 2020

O Carnaval a Cavalo de Bonfim

Tradicionalmente festejado desde 1840, o Carnaval a Cavalo de Bonfim MG, com cerca de 7 mil habitantes é um dos mais tradicionais eventos populares de Minas Gerais. Distante apenas 90 km de Belo Horizonte, vizinha a Belo Vale, a cidade tem acesso fácil pela BR 040 e BR 381. No carnaval, Bonfim recebe cerca de 20 mil turistas, atraídos pelo tradicional e famoso Carnaval Cavalo,  participar dos festejos carnavalescos, bem como conhecer a charmosa cidade, com seu belo casario, seu povo acolhedor e hospitaleiro. 
Fotografia de Alisson Gontijo
Na Idade Média, mouros, um povo oriundo do norte da África, que professavam a fé Islâmica, invadiu a Península Ibérica, de predominância cristã, Católica. A reação dos cristãos foi imediata. Montados em cavalos, armados com flechas, lanças e arcos, os cristãos travaram sangrentas batalhas com os mouros.
Fotografia de Alisson Gontijo
As Cavalhadas em Minas Gerais, em especial, o Carnaval a Cavalo da cidade de Bonfim, consiste em reencenar essa batalha nas ruas da cidade. No lugar de lanças, flechas e arcos, usam confetes e serpentinas.
 Fotografia de Alisson Gontijo
É uma das mais antigas tradições mineiras, introduzida em Minas Gerais no século XIX por padres europeus. Após um bom tempo da tradição em Bonfim, por divergência entre o padre e participantes, a Igreja local proibiu a festa, fazendo com que os moradores da cidade, que valorizavam a tradição, optassem por manter a cavalhadas, porém desvinculadas da fé católica.
Fotografia de Alisson Gontijo
Com o passar dos anos, a tradicional festa passou a ser realizada nos dias de carnaval. Assim surgiu em Bonfim o Carnaval a Cavalo, uma das mais tradicionais festas populares de Minas Gerais. Uma tradição passada de geração para geração, preservada pelas famílias bonfinenses.
Fotografia de Alisson Gontijo
O evento conta com desfile de cavalos, cavaleiros e amazonas na praça principal da cidade, usando máscaras e trajando luxuosas fantasias confeccionadas em veludo e bordados, fazendo lembrar as vestimentas de mouros e cristãos. A população recebe os participantes no “campo de batalha” com foguetes e jogando confetes e serpentinas. 
Fotografia de Alisson Gontijo
Na encenação da batalha entre mouros e cristãos, os cavaleiros e amazonas fazem evoluções, simulando uma guerra, mas ao invés de armas, apenas com confetes e serpentinas.
Fotografia de Alisson Gontijo
A festa começa no domingo, continua na segunda e termina na terça, quando todos os cavaleiros e amazonas apeiam dos cavalos, tiram as máscaras e se juntam ao povo na festa, celebrando a vitória dos cristãos sobre os mouros. 

(Por Arnaldo Silva, com fotos de Alisson Gontijo)

Conheça Januária

O município de Januária está situado na região do Médio São Francisco, localizada ao lado esquerdo do rio do mesmo nome, na região Norte de Minas, fazendo divisa com os municípios de Chapada Gaúcha, São Francisco, Pedras de Maria da Cruz, Itacarambi, Bonito de Minas, Cônego Marinho e estado da Bahia. (foto acima de Thelmo Lins) Conta com uma população de 67.742 habitantes (Estimativa IBGE em 2019), sendo a 3º em população geral do Norte de Minas, sendo também a 54º maior do estado. Januária, considerada uma cidade universitária, conta com um campus do IFNMG, Unimontes, Unopar, Unip, FUNAM e Funorte Campus Januária. Sua economia concentra-se na agricultura, na pecuária e nos serviços gerais. Januária é uma das principais cidades do Norte de Minas, sendo cidade-polo da microrregião do alto médio São Francisco.
História
Mapa da Província de Januária, proposta de redivisão do Império do Brasil feita em 1873, em que a capital seria a cidade de mesmo nome.Imagem: Arquivo Nacional
          Existem três versões que dão conta do surgimento do município. De acordo com a primeira versão, o nome do município é uma alusão ao atuante fazendeiro Januário Cardoso de Almeida, que morava na região e era proprietário da fazenda Itapiraçaba, localizada onde hoje se encontra o município.
          Outras versões, porém, atribuem o nome a uma homenagem à princesa Januária, irmã do Imperador Dom Pedro II e, ainda, à escrava Januária que, fugindo do cativeiro, teria se instalado no Porto do Salgado (atual município de Januária), estabelecendo ali uma estalagem, onde os barqueiros e tropeiros do povoado se encontravam.
          O município se situa às margens do rio São Francisco, que oferece excelentes praias fluviais temporárias (foto acima de Pingo Sales), pesca, cachoeiras, destacando-se também grutas de formação calcária, com algumas pinturas rupestres (na foto abaixo de Manoel Freitas). A presença do casario colonial no município pode ser observada na avenida São Francisco e ruas transversais.
         Januária, com seus três séculos de história, encanta os visitantes e a população local, não só por seus atrativos históricos e culturais, mas também por suas belíssimas e variadas belezas naturais.
         Terra de gente hospitaleira, já teve grande importância como porto e entreposto comercial nos tempos áureos da navegação a vapor no "Velho Chico". (foto acima de Pingo Sales)
          O município busca o seu desenvolvimento na prestação de serviços, no artesanato, na produção da cachaça de alta qualidade, no extrativismo de frutos e essências do cerrado, e, principalmente, no incremento da atividade turística. (na foto acima, de Manoel Freitas, uma das cavernas do Parque Nacional do Vale do Peruaçu em Januária)
Brejo do Amparo
         Antigo Brejo do Amparo foi o núcleo do povoado do município de Januária. Possui casario colonial e uma joia do barroco mineiro: a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, datada de 1688 (na foto acima de Pingo Sales) , construída em um quilombo orientado pelos jesuítas. Este templo foi um dos primeiros em Minas Gerais, e tem proporções médias, sendo que no interior há um coro ao fundo e à esquerda a tribuna, cercada com guarda-corpo, em ripas trabalhadas. O piso é em campas de madeira. A nave possui dois altares, a capela-mor tem o forro pintado com motivos religiosos e altar-mor, de confecção popular, possui vários arcos com colunas torcidas, tendo ao fundo nichos para imagens.
          Nos arredores localiza-se a principal zona produtora de cachaça de Januária, a comunidade denominada Sítio.
          Lá os visitantes tem a oportunidade de conhecer o roteiro dos alambiques e todo o processo de fabricação artesanal da cachaça.
          O distrito conta com trilhas e ruas propícias para a prática do ecoturismo, e também com uma belíssima gruta,a Gruta dos Anjos.
Cultura
Cachaça
          Januária possui ótimas referências na produção de cachaça. O segredo está na umidade natural do solo e no clima do distrito de Brejo do Amparo (na foto acima de Pingo Sales).
          O município produz a cana-de-açúcar desde o seu surgimento. São mais de trinta engenhos nas imediações do povoado. Parte da produção da cachaça é exportada para outros estados e para todos os países europeus e asiáticos, dado o alto grau de qualidade da cachaça ali produzida. (na foto abaixo de Arnaldo Silva)
          A cachaça de Januária é considerada uma das melhores do Brasil.
Artesanato
          O artesanato da região é passado de geração em geração como forma de sobrevivência. De origem indígena, tem características primitivas, conservando sua forma pura. A matéria-prima utilizada é extraída da natureza. (foto acima e abaixo da artesão Pingo Sales)
          São utilizados barro, fibras vegetais, madeira, flandres ou folha de zinco, couro, algodão. 
          O artesanato pode ser encontrado na Casa do Artesão,Casa da Memória, Centro de Artesanato e Mercado Municipal.
Culinária
          A culinária regional apresenta vários pratos saborosos, como o arroz com pequi, carne de sol, moquecas de surubim, pão de queijo, angu com quiabo, paçoca, papudo, manué, galinha ao molho pardo, feijão tropeiro com torresmo, beiju, rapadura, panelada, picado de arroz, dourado assado, vários pratos feitos com o tradicional surubim do Rio São Francisco, e ainda saborosas frutas do cerrado e da caatinga, como umbu, pinha, tamarindo, fruta do conde, coquinho, cagaita, caju, cajuí, maxixe, cabeça-de-nego, buriti, babaçu, fava-d'anta, jenipapo, anajá, banana-caturra, utilizados na produção artesanal de sucos, licores e doces.
          Maior destaque cabe ao famoso fruto do cerrado, rico em vitamina "A" e excelente no combate dos radicais livres, o "pequi" (na foto acima de Eduardo Gomes) é encontrado com grande fartura na região e largamente usado na culinária em pratos diversificados como, o picado de arroz com pequi, frango com pequi e mandioca, farofa de pequi e até o fruto cozido, podendo acrescentar sal ou açúcar. A polpa e o óleo do pequi, também muito utilizado na culinária januarense, podem encontrados durante todo o ano em pequenas fabriquetas artesanais. Do pequi ainda se extrai a castanha que é vendida no mercado municipal e na feira livre aos sábados. A castanha é muito saborosa e também é usada na culinária, devendo ser reidratada antes do consumo, pois é vendida seca.
Folclore
É bastante expressivo o folclore de Januária, e muitas das expressões folclóricas continuam puras, preservadas de influência externa como Cavalhada, Reisado e Folia de Reis. (na foto acima, de Pingo Sales, Reis de Bois de Brejo do Amparo)
Manifestações religiosas
          Uma das manifestações mais tradicionais e festejadas pela comunidade religiosa do município de Januária, acontece anualmente no dia 3 de maio, festejos de Santa Cruz. Acontece sempre na praça Santa Cruz (largo de santa cruz) com celebrações e novena culminando com procissão, missa festiva, leilão e apresentações folclóricas. Ao final do leilão é escolhido o festeiro do ano seguinte.(Fonte: Wikipédia - Ilustrações nossa)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Brejo do Amparo: berço do Norte de Minas

Lugar pacato, de povo simples, com um charmoso casario, uma igreja histórica, cuja construção marca a presença da influência dos Jesuítas na região e outras relíquias de nossa história. Assim é Brejo do Amparo. A tranquilidade do lugar é quebrada pelo som dos pássaros, pelos turistas que visitam a pequena vila e às vezes, pelos caminhões que transportam cana para os alambiques. Em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo há um enorme espaço, com um pouco de grama, sem calçamento. É a mostra da tranquilidade de um lugar que guarda uma história fascinante e de grande importância para o Norte Mineiro. (foto acima e abaixo de Pingo Sales)
Brejo do Amparo é distrito de Januária, no Norte de Minas. A região foi desbravada por bandeirantes no século XVII, entre eles, Borba Gato. Em uma de suas paradas pela região, fundou no local uma pequena aldeia. Com a chegada de novos bandeirantes e sertanistas, o local começou a crescer e prosperar. Esse lugar é hoje, Brejo do Amparo, foi um dos berços da ocupação do Norte de Minas e uma das primeiras povoações do Estado de Minas Gerais. O distrito foi a base para a formação de Januária, a mais antiga e principal cidade do Médio São Francisco. (foto abaixo de Pingo Sales)
A região onde estava o povoado era habitada por índios Caiapós que resistiram à invasão do homem branco. Coube ao sertanista Manuel Pires Miguel, liderar a expulsão dos índios da região. Após sangrentas batalhas, os índios foram expulsos. Parte do povoado foi transferida para a beira do Rio São Francisco, com o nome de Porto Salgado. Exatamente onde é hoje a cidade de Januária. Naqueles tempos, os colonizadores optavam por construir cidades a beira de rios para facilitar o escoamento das riquezas para os portos mais próximos. A região de Brejo do Amparo e Porto Salgado foi um importante entreposto de mercadorias, como cana de açúcar, grãos, bem como distribuição de sal, que chegavam de navios e seguia pelo Rio São Francisco que era estratégico para os colonizadores pela sua extensão e facilidade de navegação. As mercadorias iam de barcos até o porto e vice-versa. (na foto abaixo, de Pingo Sales, portinho no Rio São Francisco em Januária)
Com o passar dos anos e pelo fato de boa parte da economia da época ser movimentada pelos rios, Porto Salgado foi se desenvolvendo e passando a ser sede e por fim cidade de Januária. Brejo do Amparo, antes a sede, passou a ser distrito, mas sua importância para a história de Januária, do Norte de Minas e de toda Minas, é reconhecida. 
O distrito guarda relíquias de nossa história, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, datada de 1688 (na foto acima de Pingo Sales). Sua construção, numa área distante 3 km de Brejo do Amparo teve influência dos padres Jesuítas. É a segunda igreja mais antiga de Minas Gerais, tendo sido recentemente restaurada. A nova igreja construída no centro da Vila é outro atrativo por sua imponente construção. Com o casario colonial, forma um conjunto arquitetônico magnífico. 
É em Brejo do Amparo que é produzida a famosa cachaça de Januária, uma das mais apreciadas do Brasil. As cachaçarias da região são abertas aos visitantes e tem o privilégio de conhecer em detalhes todo o processo de produção da cachaça artesanal de Januária. (foto acima de Arnaldo Silva e abaixo de Eduardo Gomes)
Outro atrativo de Brejo do Amparo é a Gruta dos Anjos, distante apenas 6 km do distrito. Rica em quantidade e variedades de formações espeleológicas, é uma das mais belas cavernas de Minas. É permitida visita ao local, desde que acompanhada por condutores capacitados. Além da gruta, Brejo do Amparo conta com trilhas e paisagens lindas, propícias para os amantes do ecoturismo. (Por Arnaldo Silva)

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

6 Parques Nacionais para visitar em Minas

(Por Arnaldo Silva) Quem gosta de curtir a natureza, contemplar montanhas, fazer caminhadas, mergulhar em águas limpas e cristalinas, fazer trilhas, praticar esportes radicais e vivenciar a natureza em sua forma original, tem que vir à Minas. Uma boa dica é visitar os parques nacionais (na foto acima, de Amauri Lima, o Parque Nacional da Serra da Canastra). São áreas de preservação ambiental de proteção do Governo Federal, sobre os cuidados do Ibama e Icmbio. Você vai conhecer 6 parques nacionais em Minas Gerais que recebem visitantes e possuem infraestrutura para um passeio completo em meio a exuberante natureza mineira. Escolha o seu destino pela natureza de Minas Gerais:
Parque Nacional da Serra da Canastra
É um dos mais importantes parques do Brasil. Criado para proteger as nascentes do Rio São Francisco. Para conhecer a parte alta da nascente do Rio São Francisco o acesso é pela portaria de São Roque de Minas, no Oeste do Estado. Já para visitar a cachoeira da Cascadanta, o acesso é por Vargem Bonita. A região tem paredões rochosos e inúmeras quedas d’água. Os destaques são a nascente do Rio São Francisco e a Cachoeira Casca D'Anta (na foto acima de Arnaldo Silva). O melhor período para visitação é entre abril e outubro, quando chove menos na região podendo então curtir melhor as belezas da Serra da Canastra. 
• Funcionamento: diariamente, das 8h às 16h
• Entrada: Cobra-se ingresso (menores de 12 anos 
e idosos não pagam)
Parque Nacional do Caparaó

É um dos mais visitados em Minas Gerais por estar nessa unidade o Pico da Bandeira com 2892 metros de altitude, sendo o terceiro mais alto do Brasil. A porta de entrada mais fácil para o Pico é por Alto Caparaó MG. Na cidade, pousadas oferecem, além de hospedagem completa, guias especializados, já que a subida é bem difícil, com mais ou menos 8 horas de trilhas. É importante um guia para evitar que o visitante se acidente ou se perca pelo caminho. 
O principal atrativo é o Pico da Bandeira, (foto acima de Sairo C. Guedes, Guia de Turismo na região) 
• Funcionamento: diariamente, das 7h às 18h
• Entrada: Cobra-se ingresso
Parque Nacional de Itatiaia

Criado em 1937 por Getúlio Vargas, foi o primeiro parque nacional criado no Brasil, (foto acima de Paulo Santos as famosas prateleiras do Itatiaia, em Bocaina de Minas). Muitos pensam que o Parque do Itatiaia fica no Rio de Janeiro. São 30 mil hectares de área nativa sendo que apenas 40% desta área está em território fluminense, nos municípios de Resende e Itatiaia. Os outros 60% estão em Minas Gerais, nos municípios de Bocaina de Minas, Alagoa e Itamonte, no Sul do Estado. Um dos atrativos do parque são as prateleiras naturais, o Pico das Agulhas Negras e belas cachoeiras.
• Funcionamento: diariamente, das 8h às 17h
• Entrada: Cobra-se ingresso
Parque Nacional Grande Sertão Veredas

A sede do parque está localizada no município de Chapada Gaúcha, no Norte de Minas. Com mais de 230 mil hectares de área, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas foi batizado de Parque João Guimarães Rosa, em homenagem ao grande escritor mineiro, autor do livro Grande Sertão Veredas. (foto acima de Thelmo Lins) O parque preserva parte do planalto chamado Chapadão Central, que divide as bacias dos rios São Francisco e Tocantins.
Funcionamento: a visita deve ser agendada e com acompanhamento de um condutor cadastrado 
• Contato: (38) 3634-1465
Parque Nacional da Serra do Cipó

É um santuário de flores. São milhares de espécies nativas, fazendo com que a Serra do Cipo seja considerada o jardim do Brasil. A área do parque possui 34 mil hectares, com cerca de 65% dessa área pertencente ao município de Jaboticatubas. Além da rica flora, na Serra do Cipó pode-se encontrar cânions, cachoeiras, nascentes e riachos. Abriga também animais de nossa fauna como lobos-guarás, tamanduás-bandeiras, jaguatiricas e outras espécies. (na foto acima de Marcelo Santos, a Cachoeira Grande)
Funcionamento: diariamente, das 8h às 18h, com entrada até as 16h
• Entrada: O acesso ao parque é gratuito, em algumas áreas do parque cobra-se entrada 

Parque Nacional Cavernas do Peruaçu
O Vale do Peruaçu é uma unidade de conservação com 56.448,32 hectares, criado em 1999 com o objetivo de proteger uma dos maiores tesouros naturais do mundo. Está localizado a aproximadamente 45 km do município de Januária e 15 km de Itacarambi, na região norte de de Minas. Por todo o Vale do Peruaçu existem 140 cavernas, mais de 80 sítios arqueológicos e pinturas rupestres em paredões, com destaque para o "Santuário", um paredão com mais de 3 mil desenhos rústicos, com aproximadamente 12 mil anos.(foto acima e abaixo de Manoel Freitas)
Esse tesouro natural é aberto à visitação pública e com entrada gratuita. Mas pessoas ou grupos só podem circular por dentro do Vale acompanhadas por um guia especializado e autorizado pela administração. Para fazer esse serviço de acompanhamento, o guia cobra um valor por pessoa ou por grupo de pessoas. O preço varia de acordo com as trilhas a serem percorridas. Quem quiser visitar o Vale do Peruaçu, terá que agendar a visita entrando em contato com o ICMBio em Januária, pelo telefone (38) 3623-1038, ou pelo e-mail cavernas.peruacu@icmbio.gov.br 

As três primeiras igrejas de Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) No século XVII, chegam ao território mineiro, bandeirantes paulistas e desbravadores, vindo da Bahia, em busca de ouro, diamantes e esmeraldas. Traziam consigo a força e a coragem para desbravar essas terras e sua fé. Por onde se instalavam, traziam sempre uma pequena imagem dos santos que devotavam, erguiam uma pequena capela e faziam suas orações. Desses gestos de fé, em meio à vida bruta do sertão, com todos os seus perigos e caminhos para desbravarem, em torno dessas capelas, surgiram pequenos povoados, que viraram vilas e por fim cidades. Ainda no século XVII, três dessas capelas podem ser consideradas o marco da fé dos desbravadores por terem sido as primeiras edificações religiosas de Minas Gerais. São construções bem simples, diante das dificuldades da época, que hoje são joias da nossa história, patrimônios de Minas e dos mineiros.
          A primeira igreja a ser construída em Minas Gerais foi a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Matias Cardoso, no Norte de Minas, erguida em 1670. Datada de 1688, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Brejo do Amparo, distrito de Januária, no Norte de Minas foi a segunda igreja a ser construída no Estado. O terceiro templo religioso edificado em Minas Gerais foi capela de Nossa Senhora do Rosário, em Fidalgo, na Quinta do Sumidouro, distrito de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, erguida pelo bandeirante Fernão Dias no final do século XVII, por volta de 1694. 
1ª - A trisavó de Minas
Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Matias Cardoso no Norte de Minas 
          Foi erguida entre 1670 e 1673 e provavelmente a construção mais antiga do Estado que ainda se encontra de pé, com pedra fundamental datando da época do desbravamento dos bandeirantes no atual território mineiro, anterior ao ciclo do ouro e da criação da Capitania de São Paulo e Minas D’Ouro. Com 33 metros de comprimento, 20 metros de largura e com duas torres de 20 metros de altura, a matriz está situada na Praça Cônego Maurício, no centro da cidade, a 300 metros da margem direita do Rio São Francisco. (foto acima de Manoel Freitas)
2ª - A bisavó de Minas
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos em Brejo do Amparo, distrito de Januária MG, Norte de Minas 
          Datada de 1688, a Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, em Brejo do Amparo, distrito de Januária, no Norte de Minas. Em tons brancos, sua fachada é composta de uma única torre e singelos detalhes arquitetônicos. Em seu interior constam escritas em letras romanas. O piso é em placas de madeira, com pinturas em sua abóboda. A capela, altar e guarda-corpo com detalhes retorcidos. Ao longo dos anos, já na primeira fase do Barroco Mineiro, a igreja passou a receber elementos ornamentais do estilo nacional-português, com pinturas em estilo rococó. (foto acima de Pingo Sales)
3ª - A avó de Minas
Capela de Nossa Senhora do Rosário na Quinta do Sumidouro, distrito de Pedro Leopoldo MG
          Sua construção iniciou-se  no final do século XVII, por volta de 1694, quando vivia na região o bandeirante Fernão Dias. De proporções modestas, possui ornamentação interna de grande valor artístico como a imagem de Nossa Senhora do Rosário, atribuída ao Mestre Aleijadinho e o retábulo-Mor, a peça de maior representatividade do conjunto, confeccionado em meados do século XVIII, no estilo Joanino, já na segunda fase do nosso barroco mineiro. 
          Já no período Ciclo do Ouro, o povoamento do então território mineiro se expandiu rapidamente, dando origem a várias vilas e cidades,bem como o surgimento de centenas de templos religiosos, que são verdadeiras obras de arte, espalhados por todas as regiões de Minas como em Diamantina, Pitangui, Mariana, Ouro Preto, Catas Altas, Santa Bárbara, Serro, Caeté, Ouro Branco, Belo Vale, Barbacena, Itapecerica, Conceição do Mato Dentro, Paracatu, Estrela do Sul, Itabirito, Datas, etc. 

A 2ª mais antiga igreja de Minas Gerais

Datada de 1688, a Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, em Brejo do Amparo, distrito de Januária, no Norte de Minas, é considerada a segunda mais igreja mais antiga de Minas Gerais. Brejo do Amparo é uma das primeiras povoações de Minas Gerais, sendo o berço da formação de Januária e também do Norte de Minas. (na foto abaixo, de Pingo Sales, a Igreja totalmente restaurada)
          A primeira igreja a ser construída em Minas Gerais foi a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Matias Cardoso, também do Norte de Minas, erguida em 1670 e a terceira, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Fidalgo, distrito de Pedro Leopoldo na Região Metropolitana de Belo Horizonte, erguida pelo bandeirante Fernão Dias no final do século XVII, por volta de 1694. (na foto abaixo, de Pinto Sales, o estado em que estava a Igreja, antes da restauração)
          A partir de meados do século XVII, começou o desbravamento de Minas Gerais por bandeirantes em busca de ouro, diamantes e esmeraldas. As construções àquela época eram bem simples, sem muitos detalhes e adornos, contrastando com o glamour das edificações religiosas do auge do Ciclo do Ouro. (na foto abaixo, de Pingo Sales, trabalhos de restauração)
          O povoamento do que é hoje o município de Januária se deu por volta de 1640, já que a região Norte de Minas era uma das mais antigas rotas de penetração de bandeiras no interior do Brasil, anteriormente habitada por índios. Com a chegada de desbravadores, os índios foram expulsos da região à força. Um desses desbravadores foi o sertanista Manuel Pires Maciel, que após a expulsão dos índios, deu início a formação de um pequeno arraial, denominado de Arraial de Nossa Senhora do Amparo, posteriormente chamado de Brejo do Amparo, o berço da criação do município de Januária. (na foto acima de Pingo Sales, detalhes da pintura no forro da nave )
          Com o crescimento do povoado, padres Jesuítas começam a chegar à região e iniciaram a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Datada de 1688, foi construída num pequeno povoado, chamado de Barro Alto a 3 km de Brejo do Amparo. (na foto acima, de Pingo Sales, o altar da igreja e abaixo o teto, já restaurado)
          Sua construção teve influência da arquitetura baiana e paulista, obviamente pela presença dos bandeirantes paulistas e sertanistas baianos entre os desbravadores. (na foto abaixo, de Pingo Sales, detalhes detalhes do teto da igreja)
          Em tons brancos, sua fachada é composta de uma única torre e singelos detalhes arquitetônicos. Em seu interior constam escritas em letras romanas. O piso é em placas de madeira, com pinturas em sua abóboda. A capela, altar e guarda-corpo com detalhes retorcidos. Ao longo dos anos, já na primeira fase do Barroco Mineiro, a igreja passou a receber elementos ornamentais do estilo nacional-português, com pinturas em estilo rococó. Ao lado da igreja, como era comum naquela época, existe um cemitério. 
          Por sua importância para Minas e Brasil, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de Brejo do Amparo, foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) em 21 de abril de 1989. (na foto acima e abaixo, de Pingo Sales, detalhes da restauração da Igreja)
          Ao longo de mais de 300 anos de existência, a igreja passou por poucas reformas, tendo sido nos últimos anos, praticamente esquecida e em completo abandono. (na foto abaixo, de Pingo Sales, detalhes da igreja restaurada)
          Após o desabamento do teto da igreja, os órgãos governamentais perceberam a necessidade urgente de salvar um dos maiores patrimônios de Minas Gerais e iniciaram a restauração completa da segunda igreja construída em Minas Gerais e uma das mais antigas do Brasil. (na foto abaixo, primeira missa celebrada na igreja após restauração)
          Foi entregue totalmente restaurada e preservada em todas as suas características originais à comunidade em 2018. Hoje é um dos pontos turísticos da região e de fé, já que na Igreja, voltou a ser celebrada missas, uma vez por mês, ao domingos. 
(Por Arnaldo Silva)

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