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sábado, 29 de janeiro de 2022

Monte Verde entre as 10 mais acolhedoras do mundo!

(Por Arnaldo Silva) A hospitalidade do povo mineiro é uma das maiores identidades do estado e um dos destaques dos turistas que vem à Minas Gerais. Em algumas cidades mineiras, o jeito acolhedor e hospitaleiro de ser do povo mineiro chama a atenção, se destaca mais.
          É o caso de Monte Verde, distrito de Camanducaia, no Sul de Minas. Fundada no início do século XX, por imigrantes vindos da Letônia, um pequeno país situado no Mar Báltico, entre Letônia e Lituânia, no Leste Europeu. (fotografia acima de Thamires Manfrim/@gotogetherbr)
          Monte Verde personaliza o estilo hospitaleiro e acolhedor do povo mineiro, reconhecida em todo o mundo, sem exagero algum.
          Isso porque, pela segunda vez, o charmoso “cantinho da Europa” em Minas, figura novamente na lista dos 10 lugares mais acolhedores eaconchegantes do mundo, eleita pela plataforma Booking.com. A eleição é anual e visa homenagear as cidades de todo o mundo, tendo como base a hospitalidade e estrutura para acomodações das cidades de todo o mundo.
          Monte Verde foi muito bem avaliada pelo seu estilo romântico, suas belezas naturais, com seus belos mirantes que proporcionam vistas espetaculares, sua estrutura de hospedagem e ótima gastronomia, quesitos muito bem avaliados por casais, viajantes e amantes da natureza e montanhismo. (fotografia acima de Thamires Manfrim/@gotogetherbr)
          Em 2020, Monte Verde foi eleita, pela mesma plataforma, um dos mais destinos mais acolhedores do mundo, ficando em nono lugar no ranking geral, recebendo por isso o prêmio Traveller Review 2020.
          Em janeiro de 2022, a plataforma elegeu as cidades mais acolhedoras do mundo, com base em análises feitas por mais de 230 milhões de usuários da plataforma, ao longo de 2021, em todo o mundo. Acomodações, gastronomia e atendimento, além da estrutura turística das cidades e diversidade de sua flora e fauna, foram as bases para a definição do ranking da entidade.
          No ranking geral da Booking.com, Monte Verde voltou a figurar entre as cidades mais hospitaleiras do mundo, ficando dessa vez na sexta posição.
          Na avaliação dos seguidores da plataforma, Monte Verde se destacou pelo atendimento, sua estrutura urbana, suas charmosas e românticas acomodações, muitas delas, aos pés de montanhas, além de sua gastronomia diversificada, com pratos típicos de Minas Gerais e da culinária europeia e suas belezas naturais, com destaque para a diversidade de pássaros que habitam a localidade. (fotografia acima de Thamires Manfrim/@gotogetherbr)
          O seleto grupo das 10 cidades mais acolhedoras do mundo, recebem o prêmio Traveller Review Awards 2022, da plataforma.
          Veja o ranking das 10 cidades mais acolhedoras do mundo, de acordo com a posição eleita pela plataforma Booking.com
          Entre as 10 cidades mais acolhedoras do mundo, apenas uma está nas Américas, é brasileira, é de Minas Gerais, é Monte Verde, a vila mais acolhedora do mundo.
As 10 cidades mais acolhedoras do mundo, segundo a Booking.com são:
1. Matera – Itália
2. Bled – Eslovênia
3. Taitung City, em Taiwan
4. Nafplio – Grécia
5. Toledo – Espanha
6. Monte Verde – Brasil (na foto acima de Thamires Manfrim/@gotogetherbr)
7. Bruges – Bélgica
8. Nusa Lembongan, Indonésia
9. Ponta Delga – Açores
10. Hoi An, Vietnã
       

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Jequitibá: a pequena joia do interior mineiro

(Por Arnaldo Silva) Com pouco mais de 5 mil habitantes, Jequitibá reúne todas as principais características do interior mineiro, numa só cidade. Pequena, pacata, charmosa em sua arquitetura colonial e eclética, acolhedora, bem cuidada, rica em cultura e folclore e ainda, com um povo simples e hospitaleiro. Jequitibá é uma joia no coração da Região Central da Zona Metalúrgica mineira, distante apenas 112 km de Belo Horizonte.
          Jequitibá faz divisa com os municípios de Sete Lagoas, Baldim, Funilândia, Araçaí, Cordisburgo e Santana do Pirapama. O acesso à cidade é bem fácil e com várias opções rodoviárias que pode ser pela BR-040, MG-238, MG-010, MG-010, MG-323 e MG 238. (fotografia acima de Thelmo Lins)
Origem de Jequitibá
          O município encontra-se numa região de terras férteis, povoada desde o final do século XVII, quando da chegada à Minas Gerais de entradas e bandeiras, em busca de ouro. O grupo, formado por bandeirantes, negros e índios escravos, liderados por Borba Gato, fixou-se às margens de uma lagoa, que recebia as águas do Ribeirão Jequitibá.
          Os primeiros moradores da localidade trouxeram a fé no Santíssimo Sacramento. Por volta de 1788, uma pequena capela, foi edificada e o povoado cresceu em torno da capela. (fotografia acima de Thelmo Lins)
          Como o povoado foi se formando às margens do Ribeirão Jequitibá, o local passou a ser conhecido como Santíssimo Sacramento de Jequitibá.
          O nome do ribeirão, tem origem na Carinjana estreclensis, árvore da família lecythidaceae, espécie conhecida popularmente por Jequitibá branco, comum na região. Planta nativa da Mata Atlântica, pode chegar até 50 metros de altura, sendo muito resistente. Sua madeira é nobre e a espécie um dos símbolos de nossa flora.
          Já no século XIX, com o fim do Ciclo do Ouro, os que ficaram na região trabalhavam na terra, na produção de alimentos para a região.
          O pequeno povoado cresceu, foi elevado a freguesia em 2 de maio 1856, com o nome de Santíssimo Sacramento da Barra do Jequitibá, subordinado a Santa Luzia MG. Em 1891, a freguesia é elevada a distrito, subordinado a Sete Lagoas.
          Finalmente, em 27 de dezembro de 1948, ser elevado a cidade, desmembrando de Sete Lagoas em 1º de janeiro de 1949, com o nome abreviado para Jequitibá.
Folclore e atrativos urbanos de Jequitibá
- A capital mineira do folclore
          O município possui riquezas naturais e arquitetônicas de grande relevância. Faz parte, juntamente com Baldim, Capim Branco, Cordisburgo, Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Sete Lagoas, do Circuito Turístico das Grutas.
          Jequitibá é uma união de povos em sua formação. Portugueses, índios, negros e pessoas que vieram de várias localidades do Brasil. Essa diversidade, é hoje responsável pela identidade gastronômica, social e folclórica da cidade.
          O folclore de Jequitibá é um dos mais variados e ricos de Minas Gerais. É uma das poucas cidades brasileiras onde se encontra variadas manifestações folclóricas. A tradição e folclore regional é tão forte em Jequitibá, que a cidade é, desde 1979, a principal referência folclórica de Minas, sendo considerada a Capital Mineira do Folclore. 
- Culinária típica
          Em Jequitibá, o visitante encontra uma cidade organizada, com boa estrutura urbana, um pequeno e variado comércio, além de bares, lanchonetes, padarias, pousadas e restaurantes com comida típicas. (fotografia acima de Thelmo Lins)

          Entre esses pratos típicos da cidade, estão os feitos com Cansanção, uma planta muito comum na região, que lembra a urtiga, em aparência. Além de ser rica em nutrientes, é uma planta medicinal. Usada em saladas, como refogados e no preparo de carnes, como na costelinha de porco.
- A Lagoa Pedro Saturnino e a Ilha do Castelinho
          Como atrativo urbano, o destaque é para a belíssima Lagoa Pedro Saturnino. Os casarões coloniais e construções ecléticas do século XX, refletidos na lagoa, dão mais beleza ao seu conjunto arquitetônico. (fotografia acima de Thelmo Lins)

          Em 1978, foi construído na lagoa a Ilha do Castelinho, desde essa época, um cartão postal da cidade e um dos pontos de encontro e entretenimento dos jequitibaenses.
- Capela do Rosário
          Como em toda cidade mineira, a religiosidade é um dos pilares da identidade cultural de Jequitibá. Destaque para a Capela de Nossa Senhora do Rosário, datada de 1887, onde se concentram os cortes de Reinado, Congadas e Folias do Divino nos dias de festas, com enorme participação popular. (fotografia acima de Thelmo Lins)

          Durante os dias de festas, são realizados leilões, apresentações folclóricas e ainda, barracas com comidas típicas da cidade, além de mostras de artesanato feitos por artesão locais.
- A Matriz do Santíssimo Sacramento
          Embora a Igreja do Rosário, seja um importante ponto turístico e religioso de Jequitibá, a matriz da cidade, é desde suas origens no século XVIII, a Igreja do Santíssimo Sacramento de Jequitibá (na foto acima e abaixo do Thelmo Lins).
          Erguida em 1788 e recebendo modificações, ao longo do século XIX, devido ao crescimento do povoado é a referência religiosa da cidade. Mesmo com as reformas que recebeu ao longo de sua história, sua essência foi preservada, bem como sua riqueza arquitetônico, nítidos em seus detalhes tanto exterior.

          Sua riqueza pode ser facilmente percebida em seu exterior e principalmente, em seu interior, como as belas talhas em madeira, ornamentações, retábulos, imagens esculpidas em tamanho natural, assoalho de madeira de aroeira vermelha e a beleza singular e única de seu altar-mor, dedicado ao Deus Vivo, o protetor da cidade. É protetor e não padroeiro, como são geralmente os santos, porque o Divino é o próprio Deus Vivo.
          É uma das mais belas arquiteturas do barroco mineiro. A Matriz é um bem tombado pelo IEPHA/MG como patrimônio histórico mineiro, desde 1979.
- O cemitério dos escravos
          Ainda nos tempos do Brasil Colônia, 10 anos após a construção da Igreja do Santíssimo Sacramento de Jequitibá, em 1798, foi construído o Cemitério, inicialmente para serem enterrados os escravos. No início do século XX, o cemitério passou a ser usado pela população em geral. Hoje é um patrimônio histórico e turístico da cidade. (fotografia acima de Thelmo Lins)

Atrativos naturais de Jequitibá
          Dotada de belezas naturais espetaculares como grutas e rochas do grupo Bambuí, montanhas, rios, matas nativas, uma fauna e flora diversificada, Jequitibá é um destino muito procurado pelos amantes da natureza da prática de esportes radicais como mountain bike caminhadas, trekking e também cavalgadas.
          Embora esteja numa propriedade particular, uma enorme cratera, aberta naturalmente, conhecida como “Buraco do Inferno” é um importante bem natural de Jequitibá. É tão profunda a cratera que não dá para ver o fundo.
          Além de ser bastante procurada por amantes da natureza, ufólogos são sempre vistos na região. Isso porque, notícias de aparecimento de Ovnis, são bastante comuns na região, atraindo curiosos e pesquisadores do tema.
Principais eventos de Jequitibá
          Por ser uma cidade de forte manifestação folclórica, em Jequitibá acontecem vários eventos, de janeiro a dezembro. (foto abaixo de Sérgio Mourão/@sergio-mourao)
 
- Cavalgadas 
          As cavalgadas estão sempre presentes na cidade, que praticamente triplica nos dias de cavalgadas, recebendo cerca de 15 mil visitantes para participarem de uma das mais tradicionais cavalgadas do Brasil.
- Festival de Folclore
          No início de setembro, acontece o tradicional Festival de Folclore. Durante os dias de eventos, diversos grupos folclóricos, mostram a diversidade do folclore mineiro, em cantos, danças e manifestações da mais pura e genuína raiz folclórica mineira.
          O festival tem início com desfile de todos os grupos folclórico, para na sequência, se apresentarem pelas ruas e praças de Jequitibá.
          Toda a cidade passa a ser um palco a céu aberto de manifestações folclóricas. É um show de cores vibrantes, alegria, fé, danças e cantorias, das tradições mineiras preservadas há séculos.
          São grupos que fazem apresentações de danças e cânticos folclóricos diversos, Congadas, Dança do Serrador, Folia do Divino, Reinado, de Santos Reis, Boi da Manta, Contradança, Fim de Capina, Dança da Vara, Incelência para Chuva, Encomendação das Almas, Batuque, Pastorinhas, Dança do Tear, Cantiga de Roda, entre outros.
- Festa de Nossa Senhora do Rosário
          A Festa de Nossa Senhora do Rosário, acontece na cidade e nos 21 povoados de Jequitibá, entre agosto e outubro, de acordo com o calendário de cada comunidade.
- Jubileu do Santíssimo Sacramento
          Em julho, no 3ºdomingo do mês, acontece a Festa do Santíssimo Sacramento, protetor da cidade, com procissões, novenas e demonstração de fé. Na festa é adorado o Deus Vivo, simbolizado pela Hóstia Consagrada, que representa o Corpo de Cristo. (fotografia acima do Thelmo Lins, da Matriz)
          Jequitibá (acima uma rua da cidade, registrada pelo Thelmo Lins) é um convite para os apaixonados pela cultura e folclore mineiro vivenciarem e conhecerem as mais belas e genuínas manifestações de nossa cultura, além da beleza e charme da cidade, com seu casario colonial e seu povo acolhedor.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A sanfoninha de oito baixos

(Por Maria Mineira*) O casal criava galinhas para ajudar nas despesas da casa. Liduína trabalhava na fazenda como lavadeira e o marido Zeizefo não pegava no pesado, se dizia chagado, perrengue pra lida no cabo da enxada. Passava os dias no seu ranchinho de sapé cantando e tocando moda caipira na sua sanfoninha oito baixos.
          Estranho é que o galinheiro do casal era cheio de galinhas coloridas. Não eram da cor normal de galinha de roça, mas cor de rosa, azul, verde, amarelo e roxo. Eles afirmavam serem de uma raça diferente, porém dos ovos que vendiam, não nasciam pintinhos da cor das mães...
          A raposa devastava o galinheiro de todo mundo, menos o deles, pois Zeizefo sabia rezas para espantar bichos predadores.
          Minha família morava ali perto. O sonho meu e dos irmãos era aprender tocar sanfona.
          Um dia, Zeizefo apareceu tristonho lá em casa com a sanfoninha no lombo, foi logo dizendo:
— O cumpadi Vicente num qué comprá a sanfoninha prus minino, não?
— Uai cumpade Izé, prá quê tá quereno vendê? Um trem qui ocê tem tanta istima, isturdia memo ocê falô qui essa sanfona é um fio que ocêis num teve.
— Na minha vontade ieu nunca qui mi separava dela não, mais a Liduína incasquetô cá ideia de querê ponhá dentadura na parte de riba da boca e só o dinhêro das galinha dela, num vai dá pá pagá o home qui faiz. Ieu vô tê qui ajudá.
— Mais a cumadi tá certa, ficá sem dente deve de sê ruim memo.
— Cá pra nóis, cumpadi, ieu acho bobage. Se Deus Nossu Sinhô queresse a gente de dente a vida intêra, num fazia ês duê e nem dirrubava ês, né memo? Prá mim, dente só faiz farta na hora de chupá cana ô cumê guaiaba.
— Vortano no assunto da sanfoninha... Quanté qui o cumpadi tá pidino?
— Uai sô... Quanté qui ocê dá nela?
— Uai, ocê cunhece o ditado, né? O dono do boi é quem pega no chifre.
— Tava pensano im pidi um leitãozin da quês lá do seu chiquêro...
— Oia cumpadi, pá sê franco cocê, num vale isso não. Ela já tá meia dirrubadinha...
— Só pru fora... Cumpá Vicente... Só pru fora. Mode quê ela inda toca munta moda boa. As du Tunico e Tinoco ela inté sabi de có.
— No leitãozin num posso não. O trem anda custuso, será qui serve umas cinco galinha gorda? Nóis inté tinha munta penosa, mais um bicho cumedô de galinha deu uma roçada nu galinhêro.
— Negoço feito! A oito baxo é sua!
          Zeizefo dobrou o morro com as cinco galinhas nas costas enquanto meu pai chamava a mim e ao Roberto, meu irmão, pulamos de alegria quando vimos a sanfona. Era um sonho realizado!
          Dali em diante nós cantávamos todo dia, até ficarmos roucos. Já nos imaginando a cantar “na rádio”. Era uma desafinação de dar dó, mas estavámos felizes demais. Para os tios não tinha nada melhor que me ouvir cantar “Cafezal em flor,”/ Cascatinha e Inhana, “Moreninha linda” / Tunico e Tinoco. Arrancávamos lágrimas dos avôs ao cantarmos “Ipê florido”, "A Sementinha" / Liu e Léu
          Há um ditado que diz que alegria de pobre dura pouco. Num domingo ensolarado de agosto, o capim estalava de tão seco. Os vizinhos haviam ido à nossa casa para ouvir a cantoria.
          Por volta do meio dia, eu tive a infeliz ideia de mandar o Roberto até a cozinha buscar fogo. Já que o fogão a lenha estava aceso.
— Beto, vai lá dento e pega um tição. Bamu quemá o pasto! Ieu vi o pai falano antionte com o vô Joãozim qui tava quereno quemá o pastim, pá modi brotá capim novo pás vaca.
Roberto foi correndo cumprir a ordem da irmã mais velha.
          Meu avô dizia um ditado que eu não me esqueço. “Fogo morro arriba, água morro abaixo e muié quando qué namorá, nada cerca”. Então, o fogo se alastrou pelo pasto e o vento ajudou a esparramar mais ainda.
          Foi um Deus nos acuda! Quando o povo viu a fumaça, o fogaréu já dobrava a encosta. Latas de água, galhos de ramo verde, vassouras para tentar conter o incêndio que consumia todo o pasto.
          Alguns tiravam o gado para não morrer queimado, outros batiam com os ramos no capim, alguns capinavam tentando fazer aceiros para evitar que pulasse fogo para as outras propriedades.
          Inocentes, eu e o meu irmão assistíamos tudo aquilo nos divertindo demais e ainda gritávamos, incentivando o povo!
— Vai Ti João, corre, tira os bezerros!
— Corre Zé Mário, acode o cavalo!
— Vai tia Maria, leva mais uma lata d’água!
          Estava todo mundo estropiado, o pasto queimado e o gado chamuscado quando o fogo foi contido. Ao sair, vovô Joãozinho com sua eterna paciência, ainda recomendou ao genro:
— Oia lá, cumpadi Vicente, num bati nos meu neto, não, heim! Ês num sabi o que faiz... Minino piqueno é assim memo...
          Quem disse que o pai não bateu? Foi a maior sova que nós dois tomamos na nossa vida! Foi a conta do povo dobrar na estrada, que meu pai tirou a correia e tundou nós dois até fazer vergão.
          Infelizmente, a sova, a tunda, não foram o pior, criança de roça daquele tempo tinha o couro curtido. O mais triste foi que meu pai pegou a sanfoninha oito baixos, botou nas costas e foi lá no Zeizefo, dizendo que ia buscar as galinhas de volta.
          Choramos muito aos virmos nosso pai dobrar o morro. Não era a dor de ter apanhado, era a tristeza de no fundo do coração de perder o tão amado instrumento musical.
          Esse fato ficou gravado para sempre em nós. A tenra idade não nos permitiu entender o motivo pelo qual, nosso pai estava nos tirando a sanfona. Só sei que junto com ela, foram-se nossos dias de cantoria. Nunca mais se ouviu meu irmão sanfoneiro e eu, a cantarmos Cafezal em flor.
— Cumpadi Zeizefo, ieu vim devorvê a sanfona.
— Mais pra quê, cumpadi? Os minino tava tão filiz cum ela.
— Mais os fedazunha botaro fogo no pasto e ieu vô castigá os dois.
— Mas as galinha qui o cumpadi breganhô cumigo a Liduína já vendeu na cidade.
— Serve das otras, a Tereza inté pidiu pá vê se a cumade troca naqués galinha de raça, ela qué uma cor de rosa e duas verdinha. Só ocêis qui tem essa raça de galinha.
          A comadre Liduína não estava em casa e sem alternativa, querendo a sanfona de volta, Zeizefo foi lá ao terreiro e pegou três frangas coloridas da esposa.
          Poucos dias depois choveu muito naquelas bandas. Meus pais ficaram boquiabertos quando gritamos avisando:
— Paiêeeeeeeeee! Mãêeeeeeeeeeee... As galinha colorida da cumadi Liduína tão perdeno as cor e ficano igualim as franga qui a raposa pego mêis passado pá cumê.
* Maria Mineira é professora e escritora em São Roque de Minas. A história acima fará parte de seu próximo livro. (imagens ilustrativas de Arnaldo Silva)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Romaria de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja

(Por Arnaldo Silva) Água Suja, Nossa Senhora da Abadia de Água Suja e por fim, Romaria, é um dos maiores destinos religiosos de Minas Gerais. A fé em Nossa Senhora da Abadia movimenta a pequena cidade do Triângulo Mineiro, bem como toda região, no mês de agosto, quando acontece a festa em louvor à assunção de Maria ao céu, segundo a crença Católica. (na fotografia abaixo, o Santuário de N. S. da Abadia de Água Suja)
A cidade
          A cidade de Romaria fica no Triângulo Mineiro e conta atualmente com pouco mais de 3.500 habitantes. O município está a 490 km de Belo Horizonte, a 163 km de Araxá, a 87 km de Araguari e a 86 km de Uberlândia. Faz divisa com Estrela do Sul, Iraí de Minas e Monte Carmelo.
         Sua economia tem como base a agricultura, como do café e soja, a pecuária de corte e leiteira, a agricultura familiar, pequenas indústrias e o turismo religioso. A cidade conta com uma boa estrutura urbana, com acesso fácil às grandes cidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, bem como um comércio variado, pousadas e restaurantes com culinária típica e um setor de serviços de bom nível. (na fotografia acima de Vanessa Frasson, vista parcial de Romaria MG)
O povoado de Água Suja
          A povoação do que é hoje a cidade de Romaria teve início a partir de 1867, no século XIX, com a descoberta de jazidas de diamantes no leito de um córrego, de águas barrentas, por isso chamado de Água Suja, afluente do Rio Bagagem.
          Com a descobertas de diamante no córrego de Água Suja, garimpeiros de Estrela do Sul, que trabalhavam na extração do mineral nessa cidade, se mudaram para o local para explorar as novas jazidas.
         Às margens desse córrego, foi formando um povoado que passou a ser conhecido pelo nome Água Suja, em alusão ao nome do córrego.
Elevação à cidade emancipada
          Em 19/07/1872, a vila de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja foi elevada a distrito, subordinado a Monte Carmelo. O distrito passou a ser um local de fé, peregrinação e romaria à Nossa Senhora da Abadia, passando a se chamar, a partir de 17/12/1938, de Romaria.
          Em 30 de dezembro de 1962, o distrito de Romaria é elevado por lei à cidade emancipada, instalado em 1 de março de 1963, mantendo o nome de Romaria. O aniversário e festejos de emancipação do município é comemorado em 1 de março.
A padroeira
          Nossa Senhora da Abadia, é padroeira da cidade e também, padroeira da Arquidiocese de Uberaba, na qual Romaria MG está subordinada
          A cidade é bem tranquila, pacata e seu povo simples, trabalhador, hospitaleiro e acolhedor. A cidade tem origem na devoção à Nossa Senhora da Abadia.
          A devoção à santa católica está presente em Minas Gerais, principalmente nas cidades do Triângulo Mineiro, Patos de Minas, no Alto Paranaíba e Martinho Campos e Iguatama, no Centro Oeste Mineiro, além do Mato Grosso do sul, Tocantins, São Paulo e Goiás, onde a tradição, presente desde os tempos do Império, se expandiu para Minas Gerais e São Paulo. (na fotografia acima do Deocleciano Mundim, dia de peregrinação no Santuário da Abadia em Romaria MG)
A origem do nome Nossa Senhora da Abadia
          É uma das várias denominações dadas ao longo da cristandade à Maria, mãe de Jesus. A devoção à Nossa Senhora da Abadia é milenar.
          Tem origem em Portugal, no século IX. A denominação tem origem na abadia do Mosteiro de Bouro, na região de portuguesa de Braga, no ano de 883.
          Uma abadia é uma comunidade de religiosos que tem como superior, um abade. Nesta abadia em Portugal a imagem de Mãe de Jesus era guardada e venerada, por isso o nome, Nossa Senhora da Abadia.
          A partir da imagem existente no Mosteiro de Bouro, a fé em Nossa Senhora da Abadia se expandiu por Portugal, surgindo templos e imagens da santa, semelhantes à original, da abadia.
          Na imagem, Nossa Senhora está em pé, vestida com túnica, ornada com flores, uma coroa de rainha na cabeça, segurando o Menino Jesus coroado, em seu colo e um cetro de rainha, com sua mão direita. É a simbologia do mistério da Assunção da Mãe de Jesus ao céu, que se deu, segundo a tradição da Igreja Católica, no dia 15 de agosto. (na fotografia acima do Jorge Nelson, fieis em oração no Santuário de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja em Romaria MG)
A origem da devoção em Minas Gerais
          Os garimpeiros que vieram de Estrela do Sul, tinham forte devoção à Nossa Senhora da Abadia, introduzido no Brasil pelos portugueses, durante o período imperial.
          Para agradecerem ou fazerem pedidos à santa, o santuário mais próximo na região era em Muquém, distrito de Niquelândia, em Goiás. A distância dificultava a peregrinação à ermida de Muquém, mesmo assim, os devotos de Nossa Senhora da Abadia participavam da romaria anual ao local.
Construção da capela
          Com o crescimento do povoado e a longa distância percorrida até Goiás para louvar à Nossa Senhora da Abadia, os moradores de Água Suja decidiram construir uma capela dedicada à santa de sua devoção.
          Conseguiram a autorização de Dom Joaquim Gonçalves, bispo de Goiás e em 1870, deram início a construção do pequeno templo com o altar tendo ao centro, a imagem de Nossa Senhora da Abadia, que veio de Portugal de navio pelas mãos de Custódia da Costa Guimarães, viajante português.
          Após desembarcar no porto do Rio de Janeiro, o viajante seguiu com a imagem no lombo de cavalos até Barra do Piraí/RJ, seguindo a viagem por trem. Onde não passava trem, fazia-se baldeação em carro de bois, até chegar seu destino, no Triângulo Mineiro. A chegada da imagem da santa à Água Suja, foi recebida com enorme entusiasmo pelos moradores locais, em seguida, consagrada e colocada no altar-mor da capela.
          Com o passar do tempo e crescimento do povoado, a pequena capela deu lugar a outra maior, mas mesmo assim, ainda pequena para o crescente número de fiéis, que a cada ano aumentava, em milhares.
Um novo santuário
          Isso porque peregrinos da região do Triângulo Mineiro e São Paulo, que iam à Muquém em Goiás pagar ou fazerem promessas, passaram a fazer romaria para Água Suja. Com o aumento da peregrinação, o local passou a ser chamado pelos peregrinos de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja em alusão ao nome do vilarejo. Eram tantos, que o santuário já não comportava a presença de tanta gente. (na fotografia acima do Jorge Nelson, o interior do Santuário de N. S. da Abadia de Água Suja em Romaria MG)
          O enorme crescimento do número de romeiros motivou o então vigário de Água Suja, Padre Eustáquio Van Lishout (natural de Aarle-Rixtel/Holanda em 3/11/1890 – falecido em Belo Horizonte em 30/08/1943 e beatificado em 15/06/2006) a construir um novo santuário, maior, mais espaçoso e em condições de atender o crescente número de romeiros. O novo templo foi iniciado em 1926 e concluído totalmente em 1975.
          A grandiosa e imponente igreja idealizada pelo Padre Eustáquio foi erguida usando a pedra Tapiocanga, tradicional na região do Triângulo Mineiro, muito usada em construções e esculturas, devido sua facilidade em ser esculpida. 
          Esse tipo de pedra tem a coloração vermelha natural, devido à alta concentração de ferro em sua composição mineral. O Interior do santuário é revestido, mas no seu exterior, não. É a pedra em sua cor natural. Não tem pintura.
A Festa de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja
 
          A tradicional festa, realizada há mais de 150 anos, tem início no dia 6 de agosto e se estende até o dia 15. Nesse período, a cidade se mobiliza para organizar os festejos, preparando a igreja, para receber os fiéis, com decoração, barracas com produtos religiosos e culinária típica. (na fotografia acima do Deocleciano Mundim, fiéis concentrados em frente ao santuário de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja, em Romaria MG)
         As Congadas e Folia de Reis são também tradição na cidade, bem como a Cavalhada de São Benedito, que acontece em junho.
          Todos os anos, dezenas de milhares de fiéis comparecem à Romaria MG para celebrar, agradecer, pedir ou mesmo, participar da tradicional festa. Os romeiros vêm a pé, a cavalo, de bicicleta, carro, em carros de bois e de ônibus, de várias cidades mineiras e inclusive, de outros estados.
          É a maior festa católica do Triângulo Mineiro e uma das mais importantes de Minas Gerais. Durante os dias de festa, estima-se uma média de 40 a 50 mil peregrinos presentes, com esse número chegando a quadruplicar no último dia da festa, 15 de agosto. (na fotografia abaixo de Jorge Nelson, a entrada da cidade de Romaria)
          A Festa de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja em Romaria MG, é uma das maiores demonstrações da fé e religiosidade mineira. Uma tradição que nasceu no coração dos fiéis e se solidificou pela fé, coragem, persistência e gratidão, ao longo de mais de 150 anos.

sábado, 15 de janeiro de 2022

A tradição da Festa do Divino em Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Por tradição, a Festa do Divino Espírito Santo é realizada 50 dias após a Páscoa, entre agosto e setembro. Algumas cidades podem realizar a festa em meses diferentes, de acordo com sua tradição e história.
          É uma das mais antigas tradições religiosas da humanidade, que antecede a cristandade. Tem origem no Oriente Médio. Nos dias de Pentecostes, no fim da colheita, os israelitas agradeciam a fartura e distribuíam parte da colheita ao povo, conforme ordenança divina (na imagem acima de Carias Frascoli, o monumento ao Divino Espírito Santo em Elói Mendes MG).
          A celebração israelita foi incorporada pela Igreja Católica na Idade Média, passando a festa ser a comemoração da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, nos primórdios da era cristã. Na cristandade, o Espírito Santo é simbolizado em forma de uma pomba branca.(fotografia acima de Giselle Oliveira a Capela de Nossa Senhora do Amparo, construída na primeira metade do Século XVIII é conhecida ainda por Capela Imperial, por ser a sede da Festa do Divino em Diamantina MG)
          Segundo a fé cristã, o Divino Espírito Santo não é um santo ou um padroeiro e sim uma divindade, que junto a Deus e Jesus Cristo, forma a Santíssima Trindade.
A tradição milenar da Festa do Divino
          Na Festa do Divino, os devotos fazem pedidos e promessas ao Divino Espírito e também, agradecem pelas bênçãos, colheita e fartura. (acima, a Festa do Divino em Diamantina MG, registrada por Giselle Oliveira)
          É uma festa totalmente diferente das festas cristãs tradicionais, como conhecemos. As festas religiosas, comemoram um fato que aconteceu no passado, como vitórias em batalhas, o nascimento, a morte ou os feitos de um santo, um líder religioso ou mesmo, um herói.
          A Festa do Divino Espírito Santo, não reverencia o passado ou os feitos de alguém, e sim, o futuro. É algo que vai acontecer. É a celebração do Reino de Deus. Um mundo justo, fraterno, de paz, que virá através da ação do Espírito Santo de Deus em nossas vidas e no mundo.
          Ao longo dos séculos, essa tradição foi preservada e se estendeu pela Europa, durante a Idade Média. Era uma forma de agradecimento pela colheita e um momento de caridade coletiva, pois os devotos eram exortados a ajudar os mais necessitados com doações.
          A devoção ao Divino Espírito Santo passou a se tornar festa, na Alemanha, tornando-se tradição nesse país. A festa se expandiu para vários países da Europa, como Portugal.
          No país lusitano, a devoção ao Divino Espírito Santo foi instituída pela Rainha Isabel (1271/1336, posteriormente canonizada pela Igreja Católica como Santa Isabel de Portugal.
A Festa do Divino Espírito Santo
          A Festa do Divino, em sua origem no Brasil, consistia na escolha de uma pessoa, seja adulta ou criança, como Imperador do Divino. Com as bênçãos do Espírito Santo, a pureza invadia o coração do escolhido, e sua benevolência trazia fartura, paz, perdão e prosperidade. Cheio do Espírito Santo de Deus, o Imperador do Divino, se tornava mais bondoso e benevolente. Distribuía alimentos aos mais necessitados, promovia justiça, dentre outras benevolências. (na foto acima de Ane Souz, Festa do Divino e de São Bartolomeu em São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto MG)
          Na tradição original, o Espírito Santo é simbolizado por uma pomba branca, com bandeira de uma pomba, hasteada em um mastro colorido. O ritual simboliza o recebimento dos sete dons, de quem recebe suas bênçãos que são a piedade, o temor a Deus, a ciência, a sabedoria, a fortaleza, o conselho e o entendimento.
          A Festa do Divino Espírito Santo, chegou ao Brasil no século XVII, pelos portugueses. Com o tempo, a devoção ao Divino Espírito Santo, saiu dos casarões e igrejas suntuosas da fidalguia, para as camadas mais simples do Brasil, se tornando popular, principalmente, a figura do Imperador, já que era o Imperador do Divino, que recebia os dons do Espírito Santo e distribuía benevolências.
          De tão popular que era a figura do Imperador do Divino, representado na festa, que serviu de inspiração para José Bonifácio Andrada, mudar a nominação monárquica do Brasil, em 1822. Em Portugal e na Família Real portuguesa, não existia o título de imperador ou imperatriz e sim, rei e rainha.
          Dom Pedro I não foi coroado Rei do Brasil e sim, Imperador do Brasil. O objetivo era popularizar a figura do líder do Império brasileiro, Dom Pedro I, ligando a figura do Imperador, à popularíssima figura do Imperador do Divino.
A Festa do Divino em Minas Gerais
          A devoção ao Divino se tornou uma das mais importantes festas religiosas portuguesas, tendo sido introduzida no Brasil no século XVII, tornando-se uma das mais populares festas religiosas e folclóricas do Brasil, principalmente em Minas Gerais, onde a Festa do Divino é uma das maiores identidades culturais do Estado.
          As comunidades se organizavam em grupos, geralmente entre parentes, vizinhos e amigos mais próximos e formavam os chamados “cortes”.
          O objetivo dos cortes é o de reverenciar o Divino Espírito Santo, preservar a tradição, agradecer bênçãos, visitar os lares dos fiéis, entoando cantos e fazendo rezas, além de arrecadar fundos, através de doações, para suprir a carência da própria comunidade.
          Em pouco tempo, se tornou uma das mais populares festas da religiosidade brasileira, principalmente mineira, já que o Estado, recebeu um grande número de portugueses, durante o Ciclo do Ouro. Os portugueses trouxeram sua gastronomia, arquitetura, cultura, música, vestuário, artesanato e tradições religiosas para Minas Gerais.
          Embora sua origem seja estritamente religiosa, tendo em sua essência novenas, missas e procissões, no Brasil e em Minas Gerais, a festa recebeu elementos da cultura local, de acordo com as características de cada região do país. Além de festa religiosa, tornou-se festa folclórica, devido a incorporação de elementos culturais dos negros, índios e portugueses.
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo é registrada como Patrimônio Imaterial de várias cidades mineiras de tão importantes que é para cultura e histórias dessas cidades.
          Durante a festa, que dura em média, 10 dias, é levantado um mastro, pelos homens, nos dias que antecede a Páscoa, simbolizando a força masculina e o início do período da Festa, que acontece 7 semanas após a Páscoa cristã. No última dia da Festa, é feito o descerramento da bandeira do Divino do mastro, simbolizando o encerramento da Festa.
          Nesse tempo, os membros dos cortes preparam suas roupas, seus instrumentos musicais, ensaiam os cânticos, coreografias e buscam doações da comunidade para preparem a festa.
          Nos dias da Festa do Divino, os membros da corte, formados por grupos de Congadas, Marujadas, Moçambiques e Folias de Reis, se reúnem, cantam e dançam pelas ruas da cidade, parando nas casas para recolherem ofertas e doações dos devotos.
          À frente do cortejo está a Corte Imperial, com figurinos vestidos com roupas coloridas e luxuosas, do tempo do Império, representando o imperador, imperatriz, príncipes e princesas, escolhidos pela comunidade.
          Toda a comunidade cristã participa da festa, seguindo a corte, aplaudindo, rezando e soltando foguetes
          A comunidade organiza as quermesses, no entorno da Igreja do Divino, bem como também, nas casas, onde a Corte passará. Quermesse são comidas e bebidas típicas de cada cidade e região, preparadas pela comunidade, seja em barracas ou mesmo, em suas casas.
          Em algumas cidades, durante a Festa do Divino, são realizadas as tradicionais encenações das batalhas entre Cristãos e Mouros, na Idade Média, as cavalhadas. É uma incorporação brasileira, à festa, bem como os mascarados que participam da festa, com o rosto e corpo todo cobertos, a pé ou a cavalo.
          No tempo da Escravidão no Brasil, os escravos não podiam participar das festas e como forma de devotar ao Divino Espírito Santo, usavam máscaras e roupas que os cobriam por inteiro, para não serem reconhecidos. Virou tradição e faz parte da Festa do Divino.
          Durante os dias da Festa do Divino, outros eventos foram incorporados aos festejos tradicionais, como shows, apresentação de fanfarras, bandas e corais locais, cavalgadas, carreadas de bois, mostra de artesanatos, barraquinhas com comidas e bebidas típicas, são feitos leilões para arrecadar fundos para a comunidade, dentre outras atividades, de acordo com as tradições de cada cidade.
A Festa do Divino é tradição secular, presente em Minas Gerais há mais de dois séculos.
          São centenas de cidades mineiras onde a Festa do Divino é tradicional e faz parte do calendário folclórico, cultural e litúrgico.
          Citaremos apenas algumas, como exemplo, como as cidades de Porteirinha, Espinosa, Montes Claros, Lontra, Cristália, São Romão e Espinosa (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade) no Norte de Minas.
          No Vale do Jequitinhonha, a Festa do Divino é bastante popular, em Francisco Badaró, Coronel Murta, Turmalina e Veredinha (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade).
          Na Zona da Mata, a festa é uma das maiores festividades religiosas nas cidades de Juiz de Fora, Ubá, Leopoldina, Belmiro Braga, Lamim, Piau, Mar de Espanha, Divino e Divinésia (na foto acima do Pedro Henrique.
          Belo Horizonte, Lagoa Santa, na Grande BH. Divinolândia de Minas, Divino das Laranjeiras e Carmésia (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade) no Vale do Rio Doce
          Barbacena no Campo das Vertentes, Cristina, Alterosa, Claraval, Varginha, Campanha, Pratápolis, Elói Mendes e Delfinópolis, no Sul de Minas.
          Tem ainda Uberaba e Uberlândia no Triângulo Mineiro, Patos de Minas, no Alto Paranaíba, Curvelo, Sete Lagoas e Quartel Geral, na Região Central e Divinópolis, no centro Oeste. 
          Nessas cidades a Festa do Divino, é uma de suas mais importantes festividades religiosas. Toda a comunidade católica se envolve na festa, ajudando nos adornos e preparativos.
Há 300 anos em Minas
          Introduzida em Minas Gerais, durante o Ciclo do Ouro no século XVIII, pelos portugueses que para o Estado vieram, nas cidades históricas mineiras, a Festa do Divino Espírito Santo é uma das mais populares e tradicionais das cidades formadas nos séculos XVIII e XIX.
          Nas cidades histórica, como Ouro Preto, Minas Novas, Datas  (na foto acima de Elpídio Justino a Matriz do Divino de Datas), São João Del Rei, Ouro Branco, Sabará e Diamantina, a Festa do Divino é um secular e com forte participação popular.
          A festa nessas cidades, mobiliza os moradores, bem como faz parte da identidade cultural dessas cidades.
          Através desta Festa do Divino, o povo mineiro revive sua história, demonstra sua fé e mostra seus sabores e saberes tradicionais.
Diamantina 
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo, tem como protagonista, a cidade histórica de Diamantina (na foto acima da Giselle Oliveira).
          A cidade histórica, Patrimônio da Humanidade desde 1999, revive a época do Império Brasileiro, com figurinos rigorosamente representando a Família Real Brasileira e todo o cortejo e cortes, seguindo a Corte Imperial.
          Diamantina realiza há mais de 200 anos, geralmente no mês de maio, é uma das mais belas, emocionantes e originais festas do Divino no Brasil. A Festa do Divino é tão importante pra Diamantina que, desde 2014, é reconhecida como Patrimônio Imaterial da cidade.
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo é mais que uma festa religiosa, é uma das maiores identidades culturais, folclóricas e históricas do Estado.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

O pastel de fubá de Machado

(Por Arnaldo Silva) Cidade charmosa, tradicional e acolhedora, Machado, no Sul de Minas, conta atualmente com cerca de 43 mil habitantes. Distante 381 km da capital Mineira, e a menos 100 km de Varginha, Pouso Alegre e Poços de Caldas, o município faz divisa com Alfenas, Carvalhópolis, Poço Fundo, Serrania, Campestre, Turvolândia, Paraguaçu e Cordislândia.
          A cidade de Machado tem origem no início do século XIX com a formação de um pequeno povoado. Ao longo dos anos, o povoado foi crescendo, sendo elevado a freguesia, vila, distrito e por fim, à cidade emancipada em 13 de setembro de 1881.
          Machado se destaca em Minas Gerais pela produção de café desde as primeiras décadas do século XIX, pela festa de São Benedito, na foto acima, pelas Congadas e pelo pastel de fubá.
Da senzala para a Casa Grande
          O pastel de fubá de Machado tem origens no final do século XIX nas fazendas cafeeiras de famílias de origens lusitanas. Saiu das senzalas para a cozinha das casas grandes.
          Diferente dos pasteis portugueses, a base da massa do pastel de fubá não era o trigo e sim o fubá e o polvilho. Era preparado pelas escravas e chegou às mesas dos senhores das casas grandes.
          A iguaria agradou o paladar da grande colônia de imigrantes italianos que chegaram à cidade nas últimas décadas do século XIX e início do século XX, para trabalharem nas fazendas de café. Foram os italianos os responsáveis pela preservação e difusão do modo de fazer do pastel de fubá.
Patrimônio cultural imaterial
          O pastel de fubá surgiu junto com a formação social, política, econômica e cultural de Machado, sendo um bem de grande valor para a cidade (na foto acima).
          De tão tradicional e importante que a iguaria é para a cidade, foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município.
          Além disso, está em discussão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, projeto de lei que reconhece o pastel de fubá de Machado, como bem imaterial de relevante interesse cultural e gastronômico do Estado de Minas Gerais.
Identidade única
          O pastel de fubá de Machado não tem nada a ver com o pastel de angu de Itabirito MG, que usa o angu já pronto em seu preparo e nem com pastel de farinha de Milho de Pouso Alegre MG, que usa a farinha de milho como base em sua receita.
          O ingrediente principal do pastel de fubá de Machado é o fubá puro, com polvilho azedo, água, sal e o recheio, tradicionalmente de queijo e carne moída.
          Já o modo de preparo é um segredo guardado a sete chaves, desde o final do século XIX, há mais de 130 anos. Consiste em saber a temperatura exata do óleo quente para iniciar a fritura, a proporção de um a um dos ingredientes para evitar que a massa venha a rachar e o pastel perder sua crocância.
           Você pode até encontrar um pastel parecido com o de Machado, mas não será igual ao original. O pastel de fubá de Machado é único, não tem igual em lugar algum no Brasil. Pode encontrar um parecido, mas igual, nunca.
          Mesmo sendo encontrado em grandes mercados do Brasil, como no Mercadão de São Paulo e de Brasília, o bom mesmo é experimentar o pastel de fubá em sua origem, nas cozinhas das fazendas, casas, Mercado Municipal, lanchonetes e padarias da cidade Machado.
          E vale a pena. Sabor único, inconfundível e especial.
Informações fornecidas pelo professor João Alexandre, secretário de Cultura e Turismo de Machado MG. Fotografias: Arquivo Público Municipal/Casa da Cultura/Secretaria de Cultura e Turismo de Machado.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Esmaltados: origem, tradição e arte

(Por Arnaldo Silva) Canecas, bules, chaleiras, pratos e outros utensílios esmaltados, fizeram parte da vida da maioria do povo brasileiro. Substituídas pelos utensílios de vidro e cerâmica, os esmaltados estão voltando às nossas casas, para uso e até mesmo, decoração.
          São peças com acabamentos simples, mas carregada de beleza, charme e nostalgia, principalmente. Ter um utensílio esmaltado, hoje, é como ter um pedaço de nosso passado em casa. É uma gostosa lembrança, uma saudade da casa da avó, da vida no interior.
          Mesmo que seja uma simples canequinha branca, ela traz sempre lembranças em nossas vidas. É esse o encanto que os esmaltados proporcionam. É nostalgia pura.
Origem dos esmaltados
          Esmaltar utensílios é uma prática bem mais antiga que se pensa. Essa técnica surgiu no século 13 a.C, no antigo Egito. Era usada pelos egípcios na decoração de pedras, utensílios domésticos de cerâmicas, artesanatos e objetos de metal, principalmente joias. (acima, esmaltados da década de 1960 em antiquário em Bom Despacho MG)
          A partir do Egito, a técnica se expandiu para o mundo antigo e passou a ser usada também pelos persas, celtas, gregos, chineses, georgianos, romanos, bretões, etc. 
          Na antiguidade, o esmalte era usado na decoração e ornamentação, joias em metal, utensílios e artesanato em cerâmica e nos ornamentos religiosos.
          Uma técnica revolucionária, desde a antiguidade, presente na decoração dos mais belos templos religiosos e palácios e em detalhes arquitetônicos de cidades.
          Artesanatos e joias esmaltadas da antiguidade, são hoje valiosíssimas peças de museus em vários países do mundo, principalmente na Ásia e Oriente Médio.
O processo dos esmaltados
 
          O esmalte é obtido através da dissolução de vidro em pó com outros componentes minerais. As peças já prontas, em metal ou cerâmica, mergulhadas no esmalte. (escondidinho debaixo da cama, estava sempre o penico esmaltado. Peça que fotografei em fazenda do início século XX em Bom Despacho MG)
          Após secarem, as peças são levadas ao forno, onde são aquecidas entre 750°C a 850°C. Com o aquecimento, acontece a fusão do esmalte com o suporte (metal ou cerâmica) ocasionando a incorporação do esmalte às peças, garantindo assim sua fixação e segurança no uso.
A popularização dos esmaltados
          Até o século XVIII, esmaltado era restrito a camadas mais abastadas, já que seu uso era mais comum nas artes e na decoração de joias. Foi durante a Revolução Industrial (1760/1840), na Alemanha, que a antiga técnica egípcia começou a se popularizar. (acima, uma foto que fiz de uma máquina de fazer sorvetes no século passado, em uma antiquário em Bom Despacho MG)
          Com o surgimento da siderurgia, utensílios domésticos em ferro fundido como panelas e canecas, começaram a serem feitos em larga escala. Eram mais práticos e mais resistentes que os utensílios em cerâmica e pedras, que existiam.
          Porém, eram bastantes rústicos, enferrujavam com rapidez e modificavam o sabor dos alimentos, já que desprendiam os metais existentes no ferro durante o cozimento e obviamente, causavam problemas à saúde.
          A necessidade de melhorar a qualidade dos utensílios feitos em ferro fundido, fez com que se buscasse um revestimento que evitasse os problemas causados pelo ferro bruto fundido.
          Além disso buscavam melhorar a qualidade e aumentar a segurança dos utensílios em ferro fundido durante o cozimento e que não encarecesse muito as peças, para que fossem acessíveis à todas as camadas da sociedade.
          Foi aí que a antiga técnica de esmaltar peças dos egípcios começou a ser usada pelos alemães, sendo aperfeiçoada, surgindo assim uma tinta esmaltada que atendesse às indústrias de fundição na época.
          Esse tipo de esmalte garantia a qualidade e beleza das peças, além de torna-las mais resistentes, por exemplo, aos ácidos presentes nos alimentos e evitar a ferrugem e desprendimento de metais.
A popularização dos esmaltados
          Com o avanço da Revolução Industrial e popularização da tinta esmaltada, foram surgindo inovações ao longo do tempo como o uso do esmalte em fogões, utensílios para lojas, hospitais, móveis, sinalizações de ruas, brinquedos em metal, outros utensílios domésticos como penicos, bacias, lavatórios, etc. (na imagem acima que fiz em um antiquário em Bom Despacho MG, bicicletas do século passado)
          Com a industrialização e novas tecnologias, novos tipos de esmaltes foram surgindo, bem como a inovação de cores e produção industrial em larga escala. Antes tradicionalmente brancos, passaram a ter a coloração vermelha, preta, amarela, azul, verde, etc.
          São peças lindas e acima de tudo, refletem a cultura, estilo de vida e tradição de uma família, comunidade e até de uma cidade.
A arte nos esmaltados
          Esmaltar objeto de cerâmica como vasos e jarras, joias e metais, na antiguidade, tinha fins artísticos. Os objetos esmaltados recebiam por fim, acabamentos em pinturas diversas, de acordo com as tradições e estilo de vida dos povos e de quem os encomendava. (a imagem acima de autoria de Sila Moura, mostra um bule e canecas esmaltadas)
          As peças esmaltadas, encontradas no antigo Egito, na Pérsia, Grécia, Roma, China e outros países, mostram claramente isso. São desenhos que retratam a arquitetura, personagens, instrumentos camponeses, animais, batalhas, etc.
          A beleza da arte antiga nos esmaltados, impressiona, principalmente no acabamento final das joias.
Diferencial
          Os esmaltados coloridos e artísticos se destacam, tem personalidade e um diferencial que cristais e peças mais bem trabalhadas, não tem. (a imagem acima da Katita Jardim da loja Trem de Ferro em Belo Horizonte, mostra uma pratos e canecas esmaltadas com desenhos feito pela artesão Fabiana Natalino)
          Esse diferencial é a nostalgia, o laço sentimental e familiar que esses utensílios carregam, até mesmo por gerações.
          Em algumas famílias, esmaltados compõe herança familiar. São relíquias herdadas de pais, avós e bisavós, de alto valor sentimental, que os herdeiros guardam e preservam com muito carinho e dificilmente vendem.
          Isso porque seria como se fossem vender uma parte da vida de seus antepassados, uma parte de suas histórias.
Em Minas Gerais
          Em sua origem, o esmalte era usado pelos povos antigos para fazer pinturas nas peças, em cerâmica e metal. Na produção em larga escala predominava a cor branca, sem desenhos. (acima, uma chaleira esmaltada e com desenhos artísticos feitos por Fabiana Natalino de Espera Feliz MG, fotografada pela Katita Jardim da loja Trem de Ferro em Belo Horizonte)
          Essa prática de mais de 3 mil anos, está voltando aos esmaltados pelas mãos de nossos artistas, que colocam seus talentos na arte de pintar, em bules, chaleiras, pratos, copos e canecas.
          No caso de Minas Gerais, as pinturas nos utensílios esmaltados retratam o cotidiano do interior, a vida na roça, o mineirês e a simplicidade do povo mineiro. (na imagem acima e abaixo, canecas esmaltadas com escrita em mineirês e com direito a caixa personalizada, feita pela Thalyta Moreira/@amoreira_loja em Divinópolis MG)
          Os esmaltados são trabalhados com a arte mineira, com figuras de galinhas, ovos, vacas, carro de bois, fogão a lenha, cavalos, paisagens rurais, café no coador, flores, etc.
As canequinhas
 
          As charmosas canequinhas esmaltadas são as queridinhas, tanto para uso doméstico, quanto para a arte e decoração. Estão mais presentes no cotidiano da vida no interior e também, na vida dos que deixam sua terra natal, para viverem na cidade grande. (a imagem acima da Marluce Ferreira Barros, de Ipatinga, mostra a hora do cafezinho e sempre uma canequinha esmaltada está presente)
          Não tem um que não conheça, tenha em casa ou ao menos, usado um dia na vida uma canequinha esmaltada.
          Elas transmitem simplicidade, nos faz voltar ao tempo e reviver uma gostosa saudade da vida no interior, em família. É a lembrança da casa de vó, da infância, dos cafés da manhã e da tarde nas canequinhas. (na imagem acima, prato esmaltado com desenhos feitos pela artesã Daniela, registrado pela Katita Jardim da loja Trem de Ferro em Belo Horizonte)
          Os esmaltados antigos são difíceis de encontrar. Bem resistentes, pesados, mas charmosos. São relíquias de famílias, encontradas em casarões seculares e em antiquários, mas continuam sendo fabricadas e presentes em nossas casas.
          Tanto as canecas, como os bules, panelas, chaleiras, copos, são práticos, bem resistentes e até os dias de hoje, continuam a nos encantar e emocionar. Continuam ainda acessíveis a todas as camadas sociais sendo feitos em escala industrial.

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