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sábado, 15 de janeiro de 2022

A tradição da Festa do Divino em Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Por tradição, a Festa do Divino Espírito Santo é realizada 50 dias após a Páscoa, entre agosto e setembro. Algumas cidades podem realizar a festa em meses diferentes, de acordo com sua tradição e história.
          É uma das mais antigas tradições religiosas da humanidade, que antecede a cristandade. Tem origem no Oriente Médio. Nos dias de Pentecostes, no fim da colheita, os israelitas agradeciam a fartura e distribuíam parte da colheita ao povo, conforme ordenança divina (na imagem acima de Carias Frascoli, o monumento ao Divino Espírito Santo em Elói Mendes MG).
          A celebração israelita foi incorporada pela Igreja Católica na Idade Média, passando a festa ser a comemoração da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, nos primórdios da era cristã. Na cristandade, o Espírito Santo é simbolizado em forma de uma pomba branca.(fotografia acima de Giselle Oliveira a Capela de Nossa Senhora do Amparo, construída na primeira metade do Século XVIII é conhecida ainda por Capela Imperial, por ser a sede da Festa do Divino em Diamantina MG)
          Segundo a fé cristã, o Divino Espírito Santo não é um santo ou um padroeiro e sim uma divindade, que junto a Deus e Jesus Cristo, forma a Santíssima Trindade.
A tradição milenar da Festa do Divino
          Na Festa do Divino, os devotos fazem pedidos e promessas ao Divino Espírito e também, agradecem pelas bênçãos, colheita e fartura. (acima, a Festa do Divino em Diamantina MG, registrada por Giselle Oliveira)
          É uma festa totalmente diferente das festas cristãs tradicionais, como conhecemos. As festas religiosas, comemoram um fato que aconteceu no passado, como vitórias em batalhas, o nascimento, a morte ou os feitos de um santo, um líder religioso ou mesmo, um herói.
          A Festa do Divino Espírito Santo, não reverencia o passado ou os feitos de alguém, e sim, o futuro. É algo que vai acontecer. É a celebração do Reino de Deus. Um mundo justo, fraterno, de paz, que virá através da ação do Espírito Santo de Deus em nossas vidas e no mundo.
          Ao longo dos séculos, essa tradição foi preservada e se estendeu pela Europa, durante a Idade Média. Era uma forma de agradecimento pela colheita e um momento de caridade coletiva, pois os devotos eram exortados a ajudar os mais necessitados com doações.
          A devoção ao Divino Espírito Santo passou a se tornar festa, na Alemanha, tornando-se tradição nesse país. A festa se expandiu para vários países da Europa, como Portugal.
          No país lusitano, a devoção ao Divino Espírito Santo foi instituída pela Rainha Isabel (1271/1336, posteriormente canonizada pela Igreja Católica como Santa Isabel de Portugal.
A Festa do Divino Espírito Santo
          A Festa do Divino, em sua origem no Brasil, consistia na escolha de uma pessoa, seja adulta ou criança, como Imperador do Divino. Com as bênçãos do Espírito Santo, a pureza invadia o coração do escolhido, e sua benevolência trazia fartura, paz, perdão e prosperidade. Cheio do Espírito Santo de Deus, o Imperador do Divino, se tornava mais bondoso e benevolente. Distribuía alimentos aos mais necessitados, promovia justiça, dentre outras benevolências. (na foto acima de Ane Souz, Festa do Divino e de São Bartolomeu em São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto MG)
          Na tradição original, o Espírito Santo é simbolizado por uma pomba branca, com bandeira de uma pomba, hasteada em um mastro colorido. O ritual simboliza o recebimento dos sete dons, de quem recebe suas bênçãos que são a piedade, o temor a Deus, a ciência, a sabedoria, a fortaleza, o conselho e o entendimento.
          A Festa do Divino Espírito Santo, chegou ao Brasil no século XVII, pelos portugueses. Com o tempo, a devoção ao Divino Espírito Santo, saiu dos casarões e igrejas suntuosas da fidalguia, para as camadas mais simples do Brasil, se tornando popular, principalmente, a figura do Imperador, já que era o Imperador do Divino, que recebia os dons do Espírito Santo e distribuía benevolências.
          De tão popular que era a figura do Imperador do Divino, representado na festa, que serviu de inspiração para José Bonifácio Andrada, mudar a nominação monárquica do Brasil, em 1822. Em Portugal e na Família Real portuguesa, não existia o título de imperador ou imperatriz e sim, rei e rainha.
          Dom Pedro I não foi coroado Rei do Brasil e sim, Imperador do Brasil. O objetivo era popularizar a figura do líder do Império brasileiro, Dom Pedro I, ligando a figura do Imperador, à popularíssima figura do Imperador do Divino.
A Festa do Divino em Minas Gerais
          A devoção ao Divino se tornou uma das mais importantes festas religiosas portuguesas, tendo sido introduzida no Brasil no século XVII, tornando-se uma das mais populares festas religiosas e folclóricas do Brasil, principalmente em Minas Gerais, onde a Festa do Divino é uma das maiores identidades culturais do Estado.
          As comunidades se organizavam em grupos, geralmente entre parentes, vizinhos e amigos mais próximos e formavam os chamados “cortes”.
          O objetivo dos cortes é o de reverenciar o Divino Espírito Santo, preservar a tradição, agradecer bênçãos, visitar os lares dos fiéis, entoando cantos e fazendo rezas, além de arrecadar fundos, através de doações, para suprir a carência da própria comunidade.
          Em pouco tempo, se tornou uma das mais populares festas da religiosidade brasileira, principalmente mineira, já que o Estado, recebeu um grande número de portugueses, durante o Ciclo do Ouro. Os portugueses trouxeram sua gastronomia, arquitetura, cultura, música, vestuário, artesanato e tradições religiosas para Minas Gerais.
          Embora sua origem seja estritamente religiosa, tendo em sua essência novenas, missas e procissões, no Brasil e em Minas Gerais, a festa recebeu elementos da cultura local, de acordo com as características de cada região do país. Além de festa religiosa, tornou-se festa folclórica, devido a incorporação de elementos culturais dos negros, índios e portugueses.
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo é registrada como Patrimônio Imaterial de várias cidades mineiras de tão importantes que é para cultura e histórias dessas cidades.
          Durante a festa, que dura em média, 10 dias, é levantado um mastro, pelos homens, nos dias que antecede a Páscoa, simbolizando a força masculina e o início do período da Festa, que acontece 7 semanas após a Páscoa cristã. No última dia da Festa, é feito o descerramento da bandeira do Divino do mastro, simbolizando o encerramento da Festa.
          Nesse tempo, os membros dos cortes preparam suas roupas, seus instrumentos musicais, ensaiam os cânticos, coreografias e buscam doações da comunidade para preparem a festa.
          Nos dias da Festa do Divino, os membros da corte, formados por grupos de Congadas, Marujadas, Moçambiques e Folias de Reis, se reúnem, cantam e dançam pelas ruas da cidade, parando nas casas para recolherem ofertas e doações dos devotos.
          À frente do cortejo está a Corte Imperial, com figurinos vestidos com roupas coloridas e luxuosas, do tempo do Império, representando o imperador, imperatriz, príncipes e princesas, escolhidos pela comunidade.
          Toda a comunidade cristã participa da festa, seguindo a corte, aplaudindo, rezando e soltando foguetes
          A comunidade organiza as quermesses, no entorno da Igreja do Divino, bem como também, nas casas, onde a Corte passará. Quermesse são comidas e bebidas típicas de cada cidade e região, preparadas pela comunidade, seja em barracas ou mesmo, em suas casas.
          Em algumas cidades, durante a Festa do Divino, são realizadas as tradicionais encenações das batalhas entre Cristãos e Mouros, na Idade Média, as cavalhadas. É uma incorporação brasileira, à festa, bem como os mascarados que participam da festa, com o rosto e corpo todo cobertos, a pé ou a cavalo.
          No tempo da Escravidão no Brasil, os escravos não podiam participar das festas e como forma de devotar ao Divino Espírito Santo, usavam máscaras e roupas que os cobriam por inteiro, para não serem reconhecidos. Virou tradição e faz parte da Festa do Divino.
          Durante os dias da Festa do Divino, outros eventos foram incorporados aos festejos tradicionais, como shows, apresentação de fanfarras, bandas e corais locais, cavalgadas, carreadas de bois, mostra de artesanatos, barraquinhas com comidas e bebidas típicas, são feitos leilões para arrecadar fundos para a comunidade, dentre outras atividades, de acordo com as tradições de cada cidade.
A Festa do Divino é tradição secular, presente em Minas Gerais há mais de dois séculos.
          São centenas de cidades mineiras onde a Festa do Divino é tradicional e faz parte do calendário folclórico, cultural e litúrgico.
          Citaremos apenas algumas, como exemplo, como as cidades de Porteirinha, Espinosa, Montes Claros, Lontra, Cristália, São Romão e Espinosa (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade) no Norte de Minas.
          No Vale do Jequitinhonha, a Festa do Divino é bastante popular, em Francisco Badaró, Coronel Murta, Turmalina e Veredinha (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade).
          Na Zona da Mata, a festa é uma das maiores festividades religiosas nas cidades de Juiz de Fora, Ubá, Leopoldina, Belmiro Braga, Lamim, Piau, Mar de Espanha, Divino e Divinésia (na foto acima do Pedro Henrique.
          Belo Horizonte, Lagoa Santa, na Grande BH. Divinolândia de Minas, Divino das Laranjeiras e Carmésia (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade) no Vale do Rio Doce
          Barbacena no Campo das Vertentes, Cristina, Alterosa, Claraval, Varginha, Campanha, Pratápolis, Elói Mendes e Delfinópolis, no Sul de Minas.
          Tem ainda Uberaba e Uberlândia no Triângulo Mineiro, Patos de Minas, no Alto Paranaíba, Curvelo, Sete Lagoas e Quartel Geral, na Região Central e Divinópolis, no centro Oeste. 
          Nessas cidades a Festa do Divino, é uma de suas mais importantes festividades religiosas. Toda a comunidade católica se envolve na festa, ajudando nos adornos e preparativos.
Há 300 anos em Minas
          Introduzida em Minas Gerais, durante o Ciclo do Ouro no século XVIII, pelos portugueses que para o Estado vieram, nas cidades históricas mineiras, a Festa do Divino Espírito Santo é uma das mais populares e tradicionais das cidades formadas nos séculos XVIII e XIX.
          Nas cidades histórica, como Ouro Preto, Minas Novas, Datas  (na foto acima de Elpídio Justino a Matriz do Divino de Datas), São João Del Rei, Ouro Branco, Sabará e Diamantina, a Festa do Divino é um secular e com forte participação popular.
          A festa nessas cidades, mobiliza os moradores, bem como faz parte da identidade cultural dessas cidades.
          Através desta Festa do Divino, o povo mineiro revive sua história, demonstra sua fé e mostra seus sabores e saberes tradicionais.
Diamantina 
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo, tem como protagonista, a cidade histórica de Diamantina (na foto acima da Giselle Oliveira).
          A cidade histórica, Patrimônio da Humanidade desde 1999, revive a época do Império Brasileiro, com figurinos rigorosamente representando a Família Real Brasileira e todo o cortejo e cortes, seguindo a Corte Imperial.
          Diamantina realiza há mais de 200 anos, geralmente no mês de maio, é uma das mais belas, emocionantes e originais festas do Divino no Brasil. A Festa do Divino é tão importante pra Diamantina que, desde 2014, é reconhecida como Patrimônio Imaterial da cidade.
          Em Minas Gerais, a Festa do Divino Espírito Santo é mais que uma festa religiosa, é uma das maiores identidades culturais, folclóricas e históricas do Estado.

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