sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O Santuário do Caraça e o jantar com os lobos

O Santuário do Caraça é hoje uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, com conservação de âmbito federal, através da Portaria do IBAMA, nº 32, de 20 de março de 1994. Dos 11.233 hectares da área, 10.187,89 hectares são áreas de preservação permanente, graças ao empenho da Província Brasileira da Congregação da Missão, instalada no local desde o século XVIII, proprietária e mantenedora da área. (foto acima, de Marselha Rufino, do lobo-guará comendo no adro do Santuário) O objetivo com a criação da reserva é proteger o valioso patrimônio natural do Santuário do Caraça. 
A área é uma transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Possui uma flora abundante, córregos e belas cachoeiras, sem contar a rica fauna local, com a presença de 79 espécies de mamíferos como o lobo-guará, onças, jaguatiricas, além de anta e outros animais nativos. (foto acima de Isaac Rangel)
No Santuário existe um maciço rochoso que lembra um rosto humano. (na foto acima de Josiano Melo) Os antigos chamavam o rosto de caraça, uma grande cara. Por existir desde o século 18, a Província Brasileira da Congregação da Missão, com a presença de religiosos, com a construção de um dos primeiros colégios do Brasil e um santuário religioso, a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, construído entre 1876 e 1883, sendo a primeira igreja em estilo neogótico do Brasil, passou a ser chamado de Santuário do Caraça. Com a criação da Reserva, o nome tradicional e popular prevaleceu, sendo este nome reconhecido oficialmente em quatro de março de 2005, com título concedido pelo Arcebispo de Mariana na época, Dom Luciano Mendes. 
O Santuário do Caraça fica em Catas Altas a 120 km de Belo Horizonte. (foto acima de Alexandre Pastre os jardins do Caraça) É um dos mais famosos e procurados destinos de turismo ecológico e religioso em Minas. Todos os anos, cerca de 70 mil pessoas, de Minas, do Brasil e de vários países do mundo, visitam o Caraça, O lugar é excepcionalmente maravilhoso, numa comunhão perfeita entre a religiosidade e a natureza. Não é à toa que é chamado de “paraíso”. 
Por sua importância cultural, histórica e ambiental para Minas Gerais e o Brasil, existe uma campanha para tornar o Santuário do Caraça patrimônio cultural da humanidade, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). 
Dom Pedro II e o jantar com lobos 
Recebido pelos alunos e padres, em visita ao Santuário em 1881, extasiado com tanta beleza, o Imperador Dom Pedro II, fez questão de deixar escrita essa frase: “Só a visita ao Caraça paga a viagem a Minas”. 
Saudado em nove línguas pelos alunos, Dom Pedro II foi muito gentil com todos, fazendo questão de agradecer a saudação e receptividade que teve, presenteando o santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens com um vitral de cinco metros (na foto ao lado de Josiano Melo), retratando Jesus no templo entre os doutores. O vitral é um dos mais fotografados pelos turistas que vem ao Santuário do Caraça, bem como a pedra onde o Imperador escorregou e caiu ao chão. (na foto abaixo de autoria de André Laine)
Estão lá gravados na pedra o dia e ano do escorregão do Imperador. 
Hoje, a vantagem de estar no Caraça é que você tem tudo num só lugar. Igreja, museu, natureza, restaurante e também, pousada. Tudo isso em cerca de 12 mil hectares de paisagens espetaculares e momentos marcantes de fé e a presença dos lobos na hora do jantar.
A presença do lobo-guará no adro do Santuário do Caraça é uma imagem impactante, linda e impressionante. A história do lobo que come nas mãos dos padres corre o mundo e quem vai ao Caraça, não perde a oportunidade de presenciar essa impressionante cena. 
Já é praticamente um ritual. Há mais de 35 anos, sempre na hora do jantar, os lobos aparecem para receber pedaços de carne oferecidos pelos padres. Isso na presença de turistas que ficam completamente extasiados e até perplexo com a cena. Muitos se emocionam. (foto abaixo de Josiano Melo) 
Saindo de Belo Horizonte, siga pela BR 381 sentido Santa Bárbara e Catas Altas. Chegando no trevo de Santa Bárbara, observe a placa de sinalização. Não entrará na cidade mas aconselho a entrar e conhecer já que Santa Bárbara é uma cidade histórica linda, mesmo que por alguns minutos, vale a pena conhecer. 
Mas se não quiser entrar na cidade a partir de Santa Bárbara, seguir as placas de sinalização que são muitas e a estrada é asfaltada e em boas condições de tráfego. (foto acima de Suellen Resende) Os telefones do Santuário do Caraça, para informações sobre hospedagem e visitas ao Santuário são:(31) 3942-1656 (31) 98978-3180 (WhatsApp) (Por Arnaldo Silva)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Macarrão feito na panela de Queijo Alagoa

Pessoas normais costumam ralar o queijo para colocar em cima do prato de macarrão. Em Minas Gerais os mineiros botam o macarrão dentro do queijo e a experiência é deliciosa e marcante!
A receita é inspirada na Itália e adaptada nas montanhas de Minas Gerais. Em Alagoa, o fundador da Queijo d’Alagoa-MG, Osvaldo Filho, ensina como preparar esta receita:
     
Macarrão na Panela de Queijo Alagoa MG
Para preparar este prato você vai precisar de 01 peça do Queijo Alagoa Grande em formato de panela, ela tem em média 5kg, rende no mínimo 120 porções individuais, pode ser utilizada várias vezes.

A Panela de Queijo Alagoa servirá pra receber o macarrão da sua preferência (já cozido e temperado). Então a dica é raspar o queijo antes de colocar o macarrão. 
Em seguida, coloca o macarrão (quente). O próximo passo é colocar o molho branco (pode ser vermelho, se preferir). 
Recomendamos que o molho esteja bem quente e suculento. 
 Feito isso, com duas colheres misture o macarrão ao molho. Ao fazer isso o molho derreterá as raspas dos queijos e incrementará ao macarrão. 
Sirva porção individual e repita o processo.    
Depois de terminar de servir a todos, higienize bem a panela com papel toalha umedecido de forma que não fique resquícios de molho dentro da panela de queijo. 
Embrulhe num pano de prato ou papel filme e pode conservar em geladeira. 
Se preferir o queijo mais curado, pode deixar o queijo fora da geladeira para maturar. 
Quando for repetir a receita em outra ocasião, recomenda-se que despreze a primeira camada da raspagem. 
Por Osvaldo Filho - Texto e fotografias
INFORMAÇÕES: Queijo d’Alagoa-MG - www.queijodalagoa.com.br
Zap: 35 99828 0359 - Redes Sociais: @queijodalagoamg

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Conheça o distrito de Tomaz Gonzaga

Boa parte dos povoados, vilas, distritos e até cidades mineiras, tiveram origem nas paradas dos tropeiros, pelos rincões de Minas. Vários povoados da Região Central Mineira serviram de base de apoio para os tropeiros que cruzavam Minas Gerais, a caminho de Diamantina e sul da Bahia. Numa dessas paradas de tropeiros, surgiu o povoado de Tomaz Gonzaga, hoje distrito de Curvelo MG, importante cidade mineira, distante 168 km de Belo Horizonte. O município de Curvelo faz divisa com Cordisburgo, Corinto, Felixlândia, Inimutaba, Morro do Garça, Papagaios, Paraopeba, Pompéu, Presidente Juscelino, Santana de Pirapama e Santo Hipólito.
          O distrito é uma das mais antigas povoações de Minas Gerais. A região é de terras férteis, com vários cursos d´água e fica no meio do Estado de Minas Gerais, por isso atraiu muita gente que veio à região para investir em fazendas.
         Sua origem data de 1706 com a chegada de Martinho Afonso de Melo, que veio para a região lidar com gado e lavoura, adquirindo uma fazenda às margens do córrego do Papagaio, posteriormente vendendo a fazenda, Antônio Francisco da Silva.
         Naquela época, as fazendas prosperavam rápido, casarões e igrejas eram construídas com a chegada de pessoas vindas de várias regiões para trabalhar e comprar terras. No final do século 18, o distrito era um dos mais importantes da região. Sua arquitetura, tradição e história conta boa parte da era colonial brasileira. 

         Em 1714 a fazenda já era um povoado e passou a se chamar Papagaio até 1882, quando o povoado já em franco desenvolvimento, foi elevado pela Lei nº 2.905 a Freguesia de Nossa Senhora do Livramento do Papagaio. Em 1906, o nome do vilarejo foi alterado para Silva Jardim. Foi em 1931, que passou a se chamar Tomaz Gonzaga, em homenagem ao poeta Inconfidente Tomaz Antônio Gonzaga. O motivo do porque da homenagem ao Inconfidente, autor dos versos para Marília de Dirceu, ainda é desconhecido.
         Antes parada de tropeiros, hoje é parada para descanso e refúgio para quem busca sossego, tranquilidade e vivência com a natureza e simplicidade, bem como para quem quer conhecer um pouco da história do Brasil Colonial.
         O casario da vila é bem preservado, o povo é simples, hospitaleiro e recebe muito bem os visitantes. As ruas são calmas, tranquilas. Um local para quem gosta do sossego e de qualidade de vida.
          O distrito de Tomaz Gonzaga fica apenas 17 km de distância da sede, Curvelo, numa gostosa viagem em estrada de terra, pelas veredas do sertão mineiro. A região que faz parte do famoso circuito Guimarães Rosa, famoso escritor, nascido em Cordisburgo, distante apenas 45 km de Curvelo. (Por Arnaldo Silva, com fotos de César Rocha)

A festa do Divino Espírito Santo em Diamantina

A Festa do Divino Espírito Santo é, depois da Semana Santa, uma das maiores festas religiosas de Minas Gerais, sendo também uma das mais antigas tradições folclóricas e religiosas brasileiras, comemorada e preservada em Minas Gerais da mesma forma que na época do Brasil Colonial e Imperial.
Representação do Brasil colonial na Festa do Divino (foto: Prefeitura de Diamantina/Divulgação)
A festa chegou ao Brasil no século 17, nos primórdios da colonização do Brasil. Segundo o ritual, uma pessoa era escolhida como imperador do Divino, passando a ter as bênçãos do Espírito Santo, tornando-se pura e bondosa como uma criança, distribuindo alimentos, soltando presos políticos, trazendo fartura, paz e perdão ao mundo. Após a Proclamação da Independência, em 1822, Dom Pedro I, ao invés do título de Rei, como era normal na época, optou pelo título de Imperador, por orientação de José Bonifácio de Andrada, justamente inspirado no significado e na forte popularidade que o Imperador do Divino despertava em todo povo brasileiro.
Grupos de Congado animam a festa de Diamantina (foto: Prefeitura de Diamantina/Divulgação)
Com mais de 200 anos de tradição em Minas Gerais, a cidade histórica de Diamantina, no Alto Jequitinhonha, a 292 km de Belo Horizonte, revive todos os anos a tradição da Festa do Imperador do Divino Espírito Santo. É a perfeita comunhão da fé com a preservação das tradições do Brasil Colônia e Imperial, vividas durante os três dias de duração da festa, que acontece geralmente no mês de junho. Pelas ruas de Diamantina o cortejo representando a Família Imperial, vestidos da mesma forma que à época do Brasil Colônia, representando o luxo e glórias de nossa história passada. A corte imperial é acompanhada por grupos de Congado e Pastorinhas, simbolizando a escolta do Imperador até a Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Pelo caminho, o cortejo é reverenciado fogos de artifícios, palmas, sons de chocalhos e atabaques dos populares e pelos tambores da banda da Polícia Militar.
Diamantina é a terra de Chica da Silva, de JK e Patrimônio da Humanidade. Fotografia de Elvira Nascimento
Quem conhece a Festa do Divino do Espírito Santo, em Diamantina, se impressiona com o extremo zelo de seu povo com a festa. Nenhum detalhe passa despercebido, principalmente na vestimenta, penteados e joias. Tudo revivido da mesma forma que nos tempos glamoroso da Coroa Portuguesa e do Império Brasileiro. É sem dúvida a mais autêntica e genuína manifestação folclórica e religiosa do Estado de Minas Gerais, devido a sua amplitude, simbologia e participação popular. (Por Arnaldo Silva)

sábado, 3 de agosto de 2019

O Passo da Santa Ceia em Congonhas

De acordo com a tradição religiosa, a Ceia é a última refeição que Jesus Cristo fez com seus apóstolos, durante a qual prenunciou a traição de Judas. Na bênção ritual, Jesus pegou o pão e disse aos apóstolos: "Tomai e comei, este é o meu corpo". O mesmo fez com o vinho: "Este é o meu sangue derramado por muitos." Os dois gestos incorporaram-se à liturgia e permanecem até hoje como símbolo da comunhão cristã. Na ocasião, Jesus lavou os pés de seus discípulos, para lhes dar exemplo de humildade e de caridade fraterna.
O Passo da Ceia (foto acima de Wellington Diniz) abre os trabalhos do escultor, arquiteto e entalhador Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e do pintor Manoel da Costa Athaíde, na série da Paixão, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Sua capela é mais antiga do conjunto e a única a ser construída durante a estada de Aleijadinho em Congonhas, possivelmente sob a sua orientação.
As imagens do Passo da Ceia em Congonhas são um autêntico drama teatral, conforme a tradição barroca. (foto acima de Josiano Melo) À palavra acusadora de Cristo ("Em verdade vos digo, um de vós me há de entregar"), os apóstolos, transtornados, voltam-se bruscamente para sua figura. Dois servos, postados lateralmente à porta de entrada, realizam a transição entre o espaço real do espectador e o espaço físico, no qual se movimentam os atores. (foto abaixo de Wilson Fortunato)
Um desses servos, o da direita, veste-se pitorescamente à moda setecentista com colete justo e casaco cintado, abotoado na frente, num dos raros exemplos de liberdade tomada por Aleijadinho com relação à iconografia tradicional, que mantém túnicas longas e mantos para os personagens evangélicos, indumentária típica das populações mediterrâneas.
Do ponto de vista arquitetônico, a capela da Ceia supera todas as outras em qualidade de execução e perfeição de acabamento. (foto acima de Josiano Melo) Seu volume externo se resume a quatro muros de alvenaria caiados de branco. Uma pequena cartela em pedra-sabão, emoldurada por ornatos de contas de rosário, permite ler uma inscrição em latim, cuja tradução é a seguinte: "Enquanto ceavam, tomou Jesus o pão (e disse); Este é meu corpo." (Mateus, cap. 26, v. 27).
A identificação dos apóstolos se torna um pouco difícil, posto que nenhum deles traz atributos específicos. Apenas Judas, Tadeu, Pedro, Tiago Maior e João podem ser reconhecidos com segurança.(foto acima de Josiano Melo)
Todas as peças são em cedro e em tamanho próximo ao natural. A maioria é constituída de um único bloco, com exceção das mãos, que são móveis, fixadas por cavidades nas mangas. As únicas esculturas completas são os dois servos e os quatro primeiros apóstolos, mais diretamente visíveis. As restantes, de meio corpo e escavadas na parte posterior, repousam em suportes dissimulados por detrás da mesa elíptica.(foto acima e abaixo de Josiano Melo)
A predominância de tons pastéis se deve à opção feita por Manoel da Costa Athaíde de colorir apóstolos e personagens sagrados em tons claros e finalmente matizados, reservando as cores fortes e agressivas para os algozes de Cristo.
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Fontes: Secretaria de Turismo de Congonhas e Dicionário Cultural da Bíblia (Edições Loyola, 1998) - https://www.mg.gov.br/conteudo/conheca-minas/turismo/passo-da-ceia

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A Casa dos Inconfidentes e o tesouro de Tiradentes

A história do que é o hoje o Museu Casa dos Inconfidentes é cercada de mistérios, e se não fosse a intervenção das autoridades, este importante imóvel, que pertenceu ao Inconfidente Álvares Maciel, por pouco não foi destruído por completo. 
No decorrer da matéria vou te apresentar as dependências internas e externas da Casa dos Inconfidentes para você conhecer o rico acervo desse museu, o único de todos os museus na cidade administrado exclusivamente pela Prefeitura Municipal. 
Para começarmos a entender a história, vamos voltar aos tempos da Inconfidência Mineira. Naquele tempo a perseguição da Coroa Portuguesa aos Inconfidentes e a todo movimento contra a Cora, eram reprimidos com violência e condenações que em sua maioria, terminava com morte na forca. E ainda, os bens dos condenados eram confiscados sem nenhuma pena. A maioria dos Inconfidentes eram pessoas ricas e para não terem seus bens confiscados, caso fossem pegos, não viam alternativa, a não ser esconder sua riqueza, como moedas de ouro e outros bens valiosos. A forma com que faziam isso era bem simples. Enterravam, faziam um mapa, com dizerem e códigos e escondiam esse mapa em lugar que poderiam encontrar ou indicar alguém para procura-lo. Se escapassem, retornavam e desenterravam os tesouros. Mas em sua maioria não era assim, morriam ou eram degradados e os tesouros enterrados se perdiam no tempo, instigando o imaginário popular, com histórias fantásticas e também horripilantes. 
Essa busca por supostos tesouros enterrados mobilizou muita gente ao longo dos séculos. Em várias cidades onde existia ouro em abundância nos séculos 18 e 19, existem relatos de tesouros enterrados. Em Ouro Preto também, além de histórias de fantasmas e escravos que assombram algumas ruas e casarões da cidade. Isso faz parte do imaginário popular.
No caso da Casa dos Inconfidentes, não é diferente. Você vai conhecer "estórias" recheadas de mistérios, assombrações e ganância.
A parte mais interessante do casarão do Inconfidente Álvares Maciel começa mesmo na década de 1940. Nesse tempo, o casarão estava completamente abandonado e em ruínas. Nele vivia um mendigo, conhecido por Zé Canivete. Vivia de esmolas que conseguia durante o dia andando pela cidade. À noite, ia para o casarão para dormir. 
Numa fria noite de inverno, sem lenha para acender uma fogueira para se aquecer, Zé Canivete pegou um machado e rachou uma porta de madeira maciça e bem grossa ao meio. Ao ver a porta rachada, levou um susto enorme. De dentro da porta havia várias moedas de ouro que o deixou completamente atônito. Zé Canivete não tinha estudo e ao invés de mendigar, passou a comprar comida, cigarros e bebidas com as moedas de ouro que encontrou na porta. Ficou totalmente alucinado com a situação que enlouqueceu por completo. 
Anos depois, a Prefeitura de Ouro Preto assumiu o controle do imóvel, reformando-o por inteiro. Após essa reforma, o imóvel passou a ser usado como residência de uma rica família. O casarão era enorme e para mantê-lo em ordem e organizado, necessitava de vários empregados. Assim foi feito. Vários empregados foram contratados pela família para cuidar e zelar do casarão. Entre esses empregados, uma cozinheira de nome Petronília e sua filha de uns 10 anos terão participação importante nessa história.
Foi numa tarde tranquila que a menina brincava de casinha com outra criança da família no porão do casarão. E como criança é criativa, viram um pequeno pedaço de pau fincado numa viga de sustentação do casarão e resolveram pegar esse tronco para servir de mesinha. Fizeram um esforço muito grande para tirar o tronco até conseguirem. AS meninas perceberam que ficou um buraco na viga e a curiosidade de criança instigou a menina a olhar melhor. No buraco tinha um papel envelhecido, enrolado a pedaços de carvão e cascas de arroz. Essa era uma técnica bem antiga para evitar que os escritos perecessem pela umidade. 
Ao desenrolar o papel, viram que tinha vários desenhos e algumas palavras. A menina pegou o papel e foi pra cozinha mostrar para sua mãe, Petronília. Ela tinha pouca leitura, mas entendeu ser o mapa da indicação de um tesouro e foi correndo mostrar o papel para seu patrão. Este pegou o papel e como tinha cultura, conhecimento e estudo, leu e entendeu muito bem o que era. Pelas características do papel, da forma que foi encontrado e protegido da umidade, concluiu que o documento era autêntico. Petronília estava certa. Era o mapa de um tesouro. O homem deu pulos de alegria, além de dar balas e biscoitos para as meninas, como agradecimento. 
Claro, debruçou sobre o mapa para tentar localizar o tesouro e concluiu que o tesouro estava próximo a uma antiga mina de ouro, já exaurida, na parte lateral da casa. Foi explorada no tempo da escravidão. Na entrada tinha um portão de ferro. Escavada pelos escravos, suas paredes tiveram reboco de adobe, uma mistura de barro com estrume de gado. Dentro da mina havia uma mesa e banquinhos de pedra e alguns objetos de uso dos escravos na época, como vasilhas e outros utensílios. 
O patrão sabia que o imóvel era da Prefeitura e diante de uma provável fortuna, decidiu manter em segredo o mapa e mobilizou todos da casa para ajudarem na busca do tesouro e claro, prevalecendo à lei do silêncio. Ninguém podia saber de nada. Para evitar suspeitas, as buscas pelo tesouro eram feitas à noite. 
Arriscaram na investidas, mesmo sabendo do risco em entrar numa mina abandonada, geralmente habitada por cobras e outros bichos peçonhentos. Tinha ainda o imaginário popular, que acreditavam que as almas dos escravos maltratados e que morriam nas minas, ficavam a atormentar e a perambular pelas dependências das minas, arrastando correntes, fazendo barulhos e assombrando as pessoas. Vale lembrar que naquela época não existia energia elétrica e entrar numa mina dessas à noite, com lampião, era para quem tinha muita coragem. Mas ali tinha um tesouro e pelo vil metal, não tem cobra e nem fantasma que impeça o homem de encontra-lo. 
Sabendo disso, o patrão chamou um benzedor e antes de entrarem na mina, rezavam e se benziam muito. Assim se sentiam mais protegidos. 
E assim foi. Foram dias e dias de escavação, tirando toneladas de terra até faltar pouquinho, alguns metros para chegar ao ponto onde o mapa indicava haver o tesouro. Só que um dos empregados da casa, vendo aquilo tudo e pelo visto não achou correta a atitude do patrão de esconder da Prefeitura a existência do tesouro numa propriedade que era do município. Resolveu então procurar o prefeito da cidade e contou tudo.
Ao saber do fato, o prefeito ficou irritadíssimo por ter confiado um imóvel à família. Resolveu verificar a situação. À noite, subiu até o Morro da Forca e com o uso de um binóculo avistou a Casa dos Inconfidentes e realmente comprovou que estavam retirando terra de uma antiga mina e concluiu que o empregado falou a verdade.

 No dia seguinte, bem pela manhã, estava lá o prefeito bravo com a família e não foi sozinho. Foi acompanhado de autoridades policiais. E não teve muita conversa não. 
O prefeito deu 24 horas para que a família saísse do imóvel da Prefeitura. Em meio à confusão e bate boca, a esposa revoltada com tudo que estava acontecendo, pegou o mapa escondido e botou fogo. Eles saíram do imóvel, com o sonho de riqueza frustrados, mas sem o mapa, ninguém encontrava o tesouro. E não encontraram mesmo, tentaram, mas sem o mapa, não encontraram nada, só terra. E a história acabou sendo esquecida com o tempo. 
Anos depois, a Prefeitura cedeu o imóvel à outra família, dessa vez pequena Tinham apenas um filho. Antigamente os filhos tinham que ir ás vendas para comprar o que os pais mandavam. Como o casarão era um pouco afastado do centro da cidade, era uma boa caminhada e o menino não gostava muito disso. Mesmo assim tinha quer ir. A mãe pediu para que ele fosse à venda comprar algumas coisas para ela. Já era noite e mesmo com o clarão da lua cheia, o menino não quis ir, por medo, mas teve que ceder diante da insistência da mãe. O pai estava no trabalho e só tinha ele então para ir. 
O menino foi comprar as coisas e o marido ainda não tinha chegado. Ela ficou sozinha, naquele enorme casarão. Nesse momento começou a sentir um calafrio, ao ouvir passos fortes de botas pisando no assoalho de madeira. Ela estava de costas e sentia os passos mais fortes, se aproximando por trás. Já trêmula, arrisca a olhar para trás e vê um homem vestido com o uniforme dos alferes, com casaca e espada na cintura. 
O homem olhou pra ela fixamente. A mulher tentou se mexer, encostou-se à parede e foi devagar tentando sair da sala, se apoiando na parede. Ao andar, deixava rastros molhadas na parede. O medo foi tanto que ela urinou. Mas não conseguia fazer nada. Ficou paralisada. Nem gritar conseguia. Até porque não tinha ninguém na casa, não ia adiantar nada. 
Depois de olhá-la fixamente, o homem falou mais ou menos assim: “Aqui nessa casa, há mais de 200 anos, enterrei um tesouro e não consigo ter sossego até hoje. Fica ali, na lateral da casa, numa mina abandonada. Tire esse tesouro da mina para eu ter sossego.”
Mesmo em pânico e colada na parede, conseguiu coragem para abrir a boca e meio gaguejando de medo, perguntou:
- Quem é o senhor? E ele responde:
- “Minha senhora, meu nome é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes”. 
Ao ouvir isso, nem urina a mulher tinha mais, ficou verde, trêmula e caiu desmaiada no assoalho da sala. 
Quando o filho e o marido chegaram a casa, encontraram a mulher desmaiada e desacordada. Tentaram reanima-la até que ela voltou a si. Meio atordoada, demonstrando desequilíbrio e medo ainda, conseguiu falar o que viu. Ganhou foi uma boa risada dos dois. Não acreditaram em nada. Levaram ela para o quarto para que se acalmasse. 
Eles não acreditaram, mas essa história chegou aos ouvidos do povo, bem como a história do mapa encontrado pela família que viveu no casarão antes. E sabe como é o povo né. Falou em dinheiro, aparece gente de todos os lados para tentar conseguir algum. Sempre foi assim. E foi só chegando gente com picaretas na mão para escavar e encontrar o tesouro do Tiradentes, numa escavação desenfreada, alucinada e louca. 
A situação chegou ao ponto de a Prefeitura e autoridades policiais ter que intervir de forma enérgica mesmo para retirar as pessoas de lá. Se não tivessem agido, com certeza um dos grandes patrimônios da cidade teria sido destruído por completo pela insanidade de pessoas, que acreditando ou não na história, dão uma de São Tomé, quer ver para crer. 
Mas o instinto de preservação do ouro-pretano falou mais alto. As autoridades agiram sempre com energia para evitar a destruição e preservação do patrimônio histórico da cidade. 
O casarão chegou a ser usado como alojamento para hóspedes da Prefeitura. Desde 2010 é Museu e totalmente administrado pela Prefeitura Municipal. Foi totalmente restaurado e é muito bem cuidado, preservando assim um pouco da história de Ouro Preto, da Inconfidência Mineira, contada em fatos, fotos, móveis, objetos domésticos, vestimentas, etc. Neste Museu, os s visitantes conhecem parte do cotidiano da vida de uma família ouro-pretana dos séculos XVIII e XIX.
Além disso, a direção do Museu Casa dos Inconfidentes promove diversas ações voltadas para a comunidade local e ações culturais com oficinas de arte e história, palestras, tardes culturais. 
O Museu Casa dos Inconfidentes fica à Rua Engenheiro Correa, s/nº, Vila Aparecida, Ouro Preto. Telefone: 3551-2739. Horário de Funcionamento: segunda a sábado, das 10h às 16h. (Por Arnaldo Silva, com fotografias de Ane Souz)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Ora-pro-nobis: a planta que substitui a carne

Por Arnaldo Silva
     Muito popular nos quintais e nas cozinhas dos restaurantes de Minas Gerais, principalmente em Sabará MG, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a ora-pro-nóbis, palavra em latim que significa "orai por nós" enriquece os tradicionais pratos da cozinha mineira. Esse nome foi dado por acaso. Foi em Sabará, quando senhoras estavam colhendo as folhas da planta no quintal da paróquia do histórico distrito de Pompéu. Faziam uso da planta, mas não sabiam o nome. O padre estava no altar rezando a oração em latim - O Ora-pro-nobis - e um garoto, sem tomar conhecimento da concentração do padre, começou a perguntar o nome da planta no quintal. Irritado, o padre fez sinal para o garoto que estava rezando e repetiu "Ora-pro-nobis" seguidas vezes para o garoto. Este sorriu para o padre, fez o sinal da cruz e saiu correndo e dizendo que o padre tinha dito que a planta se chamava Ora-pro-nobis. Assim surgiu o nome a planta presente em todos os quintais e cozinhas do distrito de Sabará. Todos os anos, em maio, acontece o Festival do Ora-pro-nobis em Pompéu.
     Os nutrientes da planta enriquece e dá mais sabor à rica e saborosa culinária mineira. Da folha da planta são feitos pratos, como esse da imagem acima de Marino Júnior, Costelinha com Ora-pro-nobis (veja receita abaixo). 
     Pereskia aculeata, seu nome científico, é uma planta rica em nutrientes como vitaminas A, C e ferro, sendo popularmente chamada de "carne dos pobres" com a vantagem de não ter gordura saturada. É fácil de encontrar, barato e muito nutritiva. 100 gramas da folha da Ora-pro-nobis equivalem a 20 gramas de proteína, sendo ainda rica em propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Suas folhas possuem alto teor de fibras, que ajudam no bom funcionamento do intestino. Por ser rica em ferro, fortalece nosso sistema imunológico, além de ser uma grande aliada no combate a anemia, radicais livres e desnutrição. 
     É uma planta que se adapta bem a todo tipo de clima. Suas flores são lindas. Tem com flores rosadas e brancas. As com flores rosadas são usadas como cerca viva, por se alastrarem com facilidade e terem muitos espinhos. A de flor branca (na foto ao lado de Beatriz do Lino, de Bocaiuva MG), é a usada na culinária e ainda tem menos espinhos em seu tronco, ficando assim mais fácil de colher as folhas e os caules, usados na culinária. As folhas são usadas em diversas receitas, especialmente em saladas, sorvetes, sopas, massas, pães, omeletes, tortas, refogados, sucos, enriquecendo o feijão e no preparo do tradicional prato mineiro, frango com ora-pro-nobis. Pode ser desidratada para fazer farinha muito usada no combate a desnutrição e reforço na alimentação para quem opta por uma dieta sem carne. 
Uma outra receita boa é com costelinha de porco. Quem ensina é o Marino Júnior. Aprenda a fazer:
Receita de costelinha de porco com Ora-pro-nobis
A foto acima é do Restaurante Jotapê, de Pompéu, distrito de Sabará MG
Ingredientes:
1kg de costelinhas de porco cortadas entre os ossos
2 ½ litros de água
1 colher (sopa) de banha
2 fatias de toucinho, picadas
1 cebola média, ralada
2 dentes de alho, amassados e fatiados
½ colher (sopa) de colorau
1 folha de louro
½ cálice de cachaça
½ cálice de limão
1 linguiça calabresa
4 espigas de milho-verde
Ora-pro-nobis picado a gosto
Cheiro-verde a gosto
Pimenta a gosto

Modo de Preparo:
Ponha as costelinhas em uma panela, cubra com água, junte a cachaça e o limão e leve ao fogo para uma leve fervura.
Escorra e reserve.
Aqueça a banha em uma panela, derreta o toucinho e junte as costelinhas para fritar levemente.
“eu gosto de preparar o um ora-pro-nobis desta forma: Em uma panela eu refogo o ora-pro-nobis,com alho e cebola picadinha deixo a cebola e o alho dourar, ai eu coloco as folhas do ora-pro-nobis dou uma mexida rápida nas folhas e adiciono a cachaça para flambar. Deixe o álcool da cachaça evaporar, ai refogo mais um pouco até as folhas ficarem cozidas.”
Retire as costelinhas e o excesso de gordura que se formar, ponha a cebola e alho e deixe refogar por alguns instantes.
Volte com a carne para a panela, tempere com sal e junte o urucum. Misture bem e deixe pegar cor.
A partir daí, junte a folha de louro e vá pingando água fervente aos poucos, para ir cozinhando devagar, com a panela tampada.
Deixe cozinhar, sempre pingando mais água.
Nesse meio tempo, corte as espigas de milho-verde em rodelas e leve para cozinhar em água (sem sal) até que comecem a amaciar – de 10 a 15 minutos. Quando estiverem nesse ponto, junte-as às costelinhas, juntamente com as rodelas de linguiça.
Continue cozinhando e pingando água até a carne amaciar bem e formar um caldo suculento.
Acerte o tempero e retire do fogo.
Lave e escorra as folhas de ora-pro-nobis, pique-as e cubra as costelinhas. Tampe e deixe (por 5 minutos), sem mexer, para não soltar baba.
Sirva com arroz, angu de fubá ou farinha de milho.