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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Pirapora: origem, economia, cultura e turismo

(Por Arnaldo Silva) Pirapora tem seu nome de origem na língua tupi, que significa “Salto do Peixe”. A formação de Pirapora, tem origem no século XVIII, com o avanço da mineração de ouro e diamantes em Minas Gerais.
          Para abastecer as cidades mineradoras, as mercadorias saiam de Juazeiro, na Bahia e chegava à Minas Gerais de barco e canoas, pelas águas do Rio São Francisco. Era um percurso longo, uma subida de 1371 km até o último ponto navegável do Rio São Francisco, após a foz do Rio das Velhas. (na foto acima de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora, o Rio São Francisco, a Ponte Marechal Hermes e ao fundo, Pirapora)
          Nesse ponto, as mercadorias eram descarregadas e seguiam em carros de bois, aos centros mineradores. Foi a partir desse ponto de baldeação, à margem direita do Rio São Francisco, que se formou um povoado, que deu origem à cidade de Pirapora. O povoado cresceu, foi elevado a distrito em 1847 e finalmente, a município em 30 de agosto de 1911, instalado em 1 de junho de 1912, data em que se comemora sua emancipação.
          Com a chegada das embarcações a vapor, a partir de 1871, o transporte de mercadorias ficou ágil, crescendo ainda mais a partir de 1902, com a chegadas de embarcações maiores, como os vapores, Saldanha Marinho, Mata Machado e o famoso Benjamim Guimarães. Essas embarcações, transportavam, além de cargas, passageiros, percorrendo todas as cidades ribeirinhas, saindo de Pirapora, até Juazeiro, na Bahia. (foto acima de Rhomário Magalhães)
          Desde sua origem, Pirapora sempre foi um dos destaques da região Norte de Minas. É uma das mais importantes cidades mineiras, tanto na cultura, no artesanato, na culinária, no turismo, quanto do desenvolvimento. Fica a 340 km de Belo Horizonte e conta atualmente com cerca de 60 mil habitantes. O município faz divisa com Várzea da Palma e Buritizeiro e está apenas 472 metros de altitude, acima do nível do mar. (foto abaixo de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora)
          Por sua localização, servida por malha ferroviária, que liga a cidade a Tubarão, no litoral do Espirito Santo e estar às margens da BR-365 e BR-496, Pirapora atrai grandes investimentos. Indústrias de vários segmentos, de pequeno, médio e grande porte, como de alimentos, cerâmica, produtos hospitalares, calçados, metalúrgicas, dentre outros segmentos industriais e comerciais, estão instaladas na cidade, com destaque ainda para o Hospital de Olhos do Norte de Minas. Além disso, Pirapora se destaca na produção e exportação de ferro silício, silício metálico, ferro-ligas, ligas de Alumínio e tecidos.
          A ampla atividade industrial do município, faz com que Pirapora, seja atualmente, o segundo maior polo industrial do Norte de Minas.
          Outro setor econômico de grande destaque em Pirapora é a de energia solar. Na cidade está instalada um complexo solar, formado por 11 usinas, com capacidade de geração de 321 MW de energia, sendo atualmente uma das maiores usinas fotovoltaicas da América Latina. Em funcionamento desde 2017, a capacidade de geração de energia da usina, por ano, é suficiente para o consumo de cerca de 400 mil residências. (fotografia acima de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora)
          A área da usina corresponde a cerca de 1500 campos de futebol e foi construída em uma área plana, de sol pleno. São mais de 1 milhão de painéis solares instalados, de forma inclinada, que giram acompanhando o movimento do sol. Esse tipo de usina produz energia 100% limpa e renovável, já que usinas solares não liberam CO2, na atmosfera.
          Um dos grandes geradores de empregos e renda em Pirapora é a agricultura e pecuária, em especial, a fruticultura, produzidos através de sistema de irrigação, no Perímetro de Irrigação. É o quinto maior empregador do município, gerando cerca de 1.100 empregos diretos. (fotografia acima e abaixo de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora)
          A fruticultura em Pirapora, bem como no Norte de Minas, desenvolveu-se bastante no final da década de 1970, com a implantação do Projeto Pirapora, em 1975, pela SUVALE, tendo sido a primeira experiência no Norte de Minas. Em 1976, a projeto foi assumido pela Companhia de Desenvolvido dos Vales do São Francisco e Paranaíba (CODEVASF), utilizando as águas do Rio São Francisco na irrigação de uma área inicial de 1500 hectares, inaugurada em 24/15/1978. Está instalado a 12 km do Centro de Pirapora, na BR-365, rodovia que liga o Norte de Minas ao Triângulo Mineiro e Brasília.
          A ocupação da área irrigável foi feita através de concorrência pública, vencendo a Cooperativa Agrícola Cotia Ltda e a Empresa Frutas Tropicais S/A. Famílias de agricultores começaram a chegar, a partir de então, principalmente de agricultores de origem japonesa. (fotografia acima de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora) 
          Eram cerca de cerca de 20 famílias, de origem nipônica, que viviam do plantio de soja e café no interior de São Paulo e Paraná. Essas famílias, deixaram descendentes e à essas famílias, ao longo do crescimento do projeto, se juntaram outras, também de origem na “Terra do Sol Nascente”. Os orientais e seus descendentes são hoje, predominantes na produção de frutas, em Pirapora, num total de 23 empresários que atuam no Perímetro de Irrigação.
          A partir de 1987 o projeto passa para a gestão da Associação dos Usuários de Projeto Pirapora - AUPPI, responsabilizando pela administração, operação, manutenção e conservação da infraestrutura de uso comum. A área atual do Perímetro é de 1.685 hectares, sendo 1.236,05 hectares de área irrigável.
          Além de toda organização e apoio dos órgãos estaduais, o boa parte do sucesso do Projeto Pirapora se deve aos imigrantes japoneses. Tradicionalmente, os nipônicos tem vasto conhecimento na lida da terra e conhecimentos na irrigação, dando grande contribuição para o desenvolvimento da agricultura em Pirapora e Norte de Minas, bem como também, no Projeto Jaíba.
          A região Norte de Minas é hoje uma das maiores produtoras de frutas do país, com sua produção abastecendo o mercado das grandes cidades e regiões brasileiras como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Juazeiro, Belém, Fortaleza e outras cidades do Brasil. Em Pirapora se destaca a produção de banana, uva, sendo a espécie Niágara, a de destaque, mexerica, laranja, legumes, dentre outras culturas.
O que fazer em Pirapora?
          Pirapora se destaca por suas belezas naturais e principalmente, pelo Rio São Francisco, bem como os pratos típicos de sua culinária, com destaque para os pratos feitos com os peixes do Rio São Francisco. (fotografia acima de Rhomário Magalhães)
          Cidade de tradição e cultura, preserva as festas folclóricas e religiosas, bem como o riquíssimo artesanato local, destacando as carrancas, peças em madeiras colocadas na proa das embarcações, esculpidas em formatos um pouco assustadores. Segundo a crença dos ribeirinhos, as carrancas servem para dar proteção. (fotografia acima de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora) 
          Uma ótima dica para o turista em Pirapora é conhecer o ICAD, um espaço cultural que funciona em um antigo galpão restaurado. Conta com um pequeno auditório, lugar para exposição e vendas do artesanato local e áreas de oficinas.
          Duas feiras públicas, não podem deixar de ser visitadas. Uma delas é a Feirinha da Avenida Pio XII, no bairro Santos Dumont, realizada todos os domingos. Organizada por pequenos produtores do município, a Feirinha, conta com muita animação, comidas típicas e produtos naturais, direto da roça. A outra feira é a Feirarte, que acontece nas manhãs de sábado, no Mercado Municipal da cidade, com exposição dos trabalhos dos artistas e a artesãos piraporenses.
          Durante o ano, vários eventos são realizados na cidade, com destaque para festas religiosas, eventos sociais, gastronômicos, empresariais e agropecuários.
          Em janeiro acontece a tradicional Festa de São Sebastião, padroeiro da cidade. Pirapora se destaca por realizar um dos melhores carnavais do Norte de Minas. Realiza também, com grande destaque e presença de público, o Encontro Nacional de Motociclistas, que acontece entre maio e junho, quando acontece também as comemorações de aniversário da cidade.
          Em setembro, dois eventos de grande destaque, movimentam a cidade. O primeiro é a Expociapi, evento organizado pela associação comercial local, com desfile de modas, comidas típicas, feiras de artesanato, mostras de tecnologias e negócios. O segundo é a Feira do Agronegócio, realizada pelo Sindicado dos Produtores Rurais da cidade, no Parque de Exposições em parceria com empresários do setor e Prefeitura. Nesse evento, além de shows, barraquinhas com comidas típicas, apresenta inovações para o setor, leilão de gado e palestras para os produtores rurais.
          Pirapora conta ainda com muitos atrativos por exemplos, seus telefones públicos, que tem formas de animais de nossa fauna, como onças e peixes.
          Tem o barco a vapor Benjamim Guimarães (na foto acima do Rhomário Magalhães), que é o único barco movido a lenha em atividade no mundo, além de ser um bem tombado pelo IEPHA/MG em 1985, como patrimônio de Minas Gerais. Construído em 1913, nos Estados Unidos, navegou por muitos anos nas águas do Rio Mississipi e também em Rios da Amazônia, até chegar à Pirapora, na década de 1920. Trafegava no Rio São Francisco, de Pirapora até Juazeiro, na Bahia, transportando cargas e passageiros. Com a abertura de estradas e popularização de ônibus e caminhões, o barco passou a transportar somente passageiros. Hoje, o Benjamim Guimarães realiza apenas passeios turísticos de ida e volta. Atualmente, o barco está ancorado no porto de Pirapora, passando por reformas, com previsão para voltar a navegar no Rio São Francisco, ainda esse ano.
          Outro atrativo turístico de Pirapora é a Ponte Marechal Hermes, ponte da linha férrea com tecnologia e material importado da Bélgica. Com 692 metros de comprimento, a ponte foi inaugurada em 10 de novembro de 1922, lingado Pirapora a Buritizeiro, passando sobre o Rio São Francisco. Foi tombada pelo IEPHA/MG, em 1985, como patrimônio do Estado de Minas. (fotografia acima e abaixo de Ronan Rocha/Hitech Vídeo Produtora)
          Próxima a Ponte Marechal Hermes, uma outra ponte, de concreto, faz a ligação da BR-365 entre Pirapora, passando sobre o Rio São Francisco, até Buritizeiro. 
          Banhada pelo Rio São Francisco, o Velho Chico proporciona belezas que atraem os moradores e turistas como a prática de esportes náuticos, pesca profissional e esportiva, espetáculos naturais como o pôr do sol e belas praias fluviais, formadas ao longo de seu percurso como a Praia do Areão em Pirapora. Nessa praia os banhistas, além de aproveitar o sol e as águas do Rio São Francisco, praticam esportes como vôlei de praia, peteca, futebol e futevôlei. (foto acima de 2019, de autoria de Rhomário Magalhães)
          Pirapora é uma cidade bem estruturada, com uma boa rede hoteleira e gastronômica, um setor de serviços amplo e de qualidade, com um comércio variado, bons bares, lanchonetes. Além disso, seu povo é hospitaleiro e acolhedor. O turista será sempre bem-vindo e se sentirá em casa.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

A Escrava Isaura, Ouro Preto e a Capela Imperial

(Por Arnaldo Silva) Escrito num período, onde a escravidão estava sendo contestada, com manifestações pedindo a abolição da Escravidão no Brasil, o livro de Bernardo Guimarães, A Escrava Isaura, foi considerado antiescravagista, por incutir no seio da sociedade, a discussão sobre o tema. O sofrimento de uma mulher branca, nascida escrava e a forma incisiva e racional que o autor dá à sua trama, prendiam a atenção dos leitores. Por isso o impressionante sucesso do livro na época do lançamento e em nossa época atual.
          A Escrava Isaura, foi um romance escrito, em 1875, por Bernardo Guimarães. Era a história de uma escrava, branca, que vivia numa fazenda em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Se perguntar quem leu o livro, poucos vão responder, mas da novela, exibida pela Rede Globo, em 1976, a maioria vai responder que viu ou pelo menos, ficou sabendo da novela. A geração atual pôde assistir à novela em sua nova versão, exibida pela à Rede Record. A primeira versão, protagonizada por Lucélia Santos e Rubens de Falco, em 1976, fez tanto sucesso que foi exportada para cerca de 150 países, assistido por de milhões de pessoas. 1 bilhão de pessoas, assistiram a novela, somente na China, além de cerca de 300 mil exemplares do livro, terem sido vendidos nesse país.
        
          Agora você pergunta: o que Ouro Preto tem a ver com A Escrava Isaura? É que o autor do livro, Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, é mineiro e nasceu em Ouro Preto, em 15 de agosto de 1825. Faleceu também em Ouro Preto, em 10 de março de 1884. Era casado com Teresa Maria Gomes de Lima Guimaraes, com quem teve 8 filhos. Além de escritor, romancista, jornalista, crítico literário, advogado, juiz, poeta, foi também professor, lecionando francês e latim em Queluz MG e professor de retorica e poética do Liceu Mineiro, em Ouro Preto MG (na foto acima de Peterson Bruschi/@guiapeterson). Homem culto e viajado, Bernardo Guimarães viveu boa parte de sua vida em sua cidade natal, Ouro Preto.
          A cidade de Ouro Preto foi fundada em 1711 e é uma das mais importantes cidades do mundo. Tanto é que foi a primeira cidade brasileira e uma das primeiras do mundo, a ser reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco, em 1980.
          Construída no auge do Ciclo do Ouro, não pelas mãos de construtores ou engenheiros, mas pelas mãos de escravos e artistas, por isso que as construções ouro-pretanas são pura arte. Ouro Preto não foi construída, foi esculpida à mão, num tempo em que em que se valorizava arte, tanto no casario, quanto nas igrejas e prédios públicos. (foto acima de Leandro Leal)
          Construções feitas pelas mãos habilidosas de artesãos e artistas talentosos, que trabalhavam com perfeição, suas obras em pedra sabão, madeira e em ouro. Entre os mestres que construíram Ouro Preto, destacam-se Manuel da Costa Ataíde, o grande Mestre da Pintura Barroca, além de Manuel Francisco Lisboa e principalmente, seu filho, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, dentre outros grandes artistas, famosos ou não. Ouro Preto é uma relíquia, um tesouro, um museu a céu aberto. É a história viva e praticamente preservada, desde suas origens. (foto acima de Peterson Bruschi/@guiapeterson)
          O grande escritor mineiro ocupou a Cadeira de nº 5 da Academia Mineira de Letras. Além de A Escrava Isaura, Bernardo Guimarães escreveu outros romances, poesias, dramas e contos de grandes sucessos. Foram dezenas de obras publicadas e não publicadas e mais de 20 livros escritos. Como são muitos livros, não vou alongar muito o texto, apenas destacar os livros de Bernardo Guimarães, que eu li, ainda estudante: O Garimpeiro (romance/1872); O Seminarista (romance/1872); O Pão de Ouro (conto/1879); Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos ossos; História e Tradições da Província de Minas Gerais (crônicas e novelas – 1872: A Cabeça do Tiradentes, A filha do fazendeiro, Jupira), além claro, A Escrava Isaura.
          Já falamos de Ouro Preto, de Bernardo Guimarães, e da Escrava Isaura. Onde entra agora a Capela Imperial?
          A Capela Imperial era o nome antigo da Igreja de São José. Era chamada de Capela Imperial, devido ao título concedido pelo Imperador Dom Pedro II, em 1889. Voltou ao seu nome original, após o fim do Império, permanecendo até os dias de hoje, como Igreja de São José. (fotografia acima de Peterson Bruschi/@guiapeterson)
          A antiga Capela Imperial começou a ser erguida a partir de 1753. Em 1772, Mestre Aleijadinho fez os riscos do retábulo do altar-mor. A obra foi concluída em 1811. Foi construída pela Irmandade do Patriarca São José dos Homens Bem-Casados. A irmandade era formada por músicos, artesãos, artistas e pintores da época, que queriam um espaço próprio, para a Irmandade. A igreja e seu cemitério ao lado, são modestos em tamanho, mas é um dos mais belos exemplares da arte setecentistas de Minas. É única, em toda a sua singeleza externa com sua única torre, sacada e sineira, além da riqueza de suas talhas douradas, ornamentos e pinturas em seu interior.
          Irmandade do Patriarca São José dos Homens Bem-Casados, tinha atividades e convivências, diferentes do restante das irmandades ouro-pretanas. As esposas dos membros da irmandade, tinham participação ativa nas decisões da Irmandade. A igreja abria suas portas para diferentes camadas da sociedade, como brancos, pardos, pobres e ricos, tendo sido frequentada também por governadores da Capitania de Minas Gerais. O que era incomum naquela época.
                    Em 1992, foi iniciada a restauração da igreja. As obras de restauro se estenderam por longos anos, tendo sido concluída 20 anos depois, entregue, restaurada à comunidade, em 2012.
          Ao lado da Igreja de São José, tem um cemitério e é aí que entra Bernardo Guimarães na história da Igreja. É nesse cemitério que o escritor foi sepultado. O túmulo do escritor Bernardo Guimarães, é um dos mais visitados e fotografados. (na foto acima do Wellington Diniz, o túmulo do escritor no cemitério da Igreja de São José, com a Igreja de São Francisco de Paula ao fundo)        
          A Igreja de São José fica próxima a Igreja de São Francisco de Paula. Está um pouco distante do Centro Histórico, na rua Teixeira Amaral, 130. Por isso, passa despercebida, pelos turistas. Fica boa parte do tempo fechada, abrindo de terça à sexta-feira, de 9:30h às 11:30 horas. O melhor dia e horário para conhecer a igreja por dentro é nas quartas-feiras, a partir das 18:30 hs, quando acontece as missas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O começo e o fim das ferrovias em Minas

(Por Arnaldo Silva) A partir de meados do século XIX e até o final do século XX, os trens de passageiros cortavam o Brasil em trilhos. Levava e trazia gente. Quando chegava, levava emoções e sonhos de quem partia, deixando saudades e lágrimas, em quem ficava. Muitos sonhos, muitas esperanças, muitas alegrias, estavam presentes nas milhares de estações espalhadas por toda Minas e pelo sertão brasileiro. (na foto abaixo do Fabrício Cândido, a velha estação Mantiqueira em Santos Dumont MG)
          Os sonhos embarcaram no trem que, durante décadas, ligavam estados e cidades, ligavam também emoções e saudades, de quem ia e de quem chegava. Mas um dia, o trem que levava emoções, partia com gente, que deixava corações partidos, em lágrimas, se foi também. (na foto abaixo de Marselha Rufino, a antiga estação de Itumirim MG)
          O trem partiu para sua última viagem, deixando em seus vagões, um pouco da vida do povo brasileiro, principalmente do mineiro, porque trem é alma e identidade de Minas Gerais. O trem foi e não voltou mais. Os trilhos ficaram sem vida, as estações foram se deteriorando, esquecidas e abandonadas. O trem que outrora levada saudades, sonhos, esperanças, emoções, ficou no passado.
          No coração do mineiro, ficou o trem, onde os trilhos são as veias. O trem para o mineiro é tudo e tudo é trem para o mineiro, de tão importante que foi para a economia, emoções, sensações, esperanças e na identidade do povo mineiro. (na foto abaixo do Fabrício Cândido, antiga Estação de Trem de santos Dumont MG)
          O Brasil foi o terceiro país da América do Sul a construir ferrovias, depois de Peru e Chile. Em meados do século XIX, foi criada, no Rio de Janeiro, a Companhia de Estrada de Ferro e Navegação Petrópolis e a E. F. Mauá, ambas da iniciativa privada. A primeira estrada de ferro construída no Brasil foi a E. F. Mauá, inaugurada em 30 de abril de 1854, que ligava o Porto de Mauá a Fragoso, ambas no Rio de Janeiro. A ferrovia, tinha apenas 15 km, com ideia original de ligar o Rio de Janeiro ao Vale do Paraíba e por fim, a Minas Gerais, até então, o Estado mais rico do país, onde o café despontava como a principal economia do país, depois do ouro.
          Pouco tempo depois, com o objetivo de estender as ferrovias para todo o país, o governo Imperial criou a estatal, Estrada de Ferro Dom Pedro II (1888-1889), mudando os nomes para E.F. Central do Brasil (1889-1964), E.F. Leopoldina (1964-1975), por fim para RFFSA (1975-1996).
          A Central do Brasil iniciou suas operações, em direção a Minas Gerais, cortando nossas serras, ligando o Rio de Janeiro a importantes cidades mineiras, como Ouro Preto, Diamantina, Belo Horizonte, São João Del Rei, Juiz de Fora, Cataguases, Leopoldina, Governador Valadares, Poços de Caldas, Três Pontas, etc. Minas já era ligada ao Rio de Janeiro pelas estradas abertas durante a exploração do ouro e havia ainda, naquele tempo, uma ligação entre Petrópolis a Juiz de Fora, por uma rodovia de terra. Agora, seriam os trilhos que passariam pelas terras mineiras. Em 1869, era inaugurada a Estação de Chiador MG, Zona da Mata, com a presença do Imperador Dom Pedro II, sendo esse ano, o marco da chegada dos trens à Minas Gerais, através da E. F. Central do Brasil. (na foto acima do Duva Brunelli, a Estação de Chiador, recentemente restaurada e abaixo de Peterson Bruschi, a Maria Fumaça em Tiradentes, inaugurada em 1881, pelo Imperador Dom Pedro II)
          Em 1874 os trilhos da Estrada de Ferro Leopoldina, chegam à Minas Gerais, abrindo estradas de ferro na Zona da Mata, com a inauguração de estações e do ramal de Leopoldina MG. Em 1880, foi a vez da E.F. Oeste de Minas construir seus trilhos em Minas Gerais. Em 1882, era criada a E.F. Bahia e Minas, que ligava o arraial de Ponta de Areia, em Caravelas, no litoral Sul da Bahia a Araçuaí MG, no Vale do Jequitinhonha, numa extensão de 578 km. Em 1884, surgia a E. F. Minas e Rio.
          No ano de 1886, foi a vez da E. F. Morgiana, entrar no território mineiro, através de Poços de Caldas, no Sul de Minas. Em 1891, foi a vez dos trilhos da Viação Férrea Sapucaí. Em seguida, surgiram a E. F. Muzambinho, em 1892, depois a E. F. Três-pontana, em 1995. Em 1907, chegaram em Formiga MG os trilhos da E. F. Goiás, bem como, neste mesmo ano, a E.F. Vitória Minas.
          Em 1910 chega a Machadense e a E.F. São Paulo-Minas. Em 1911, a E.F. Piranga. Em 1912, a linha férrea chega a Paracatu MG, no Noroeste de Minas. O Norte de Minas passou a contar ligação por trens apenas em 1951, através da Viação Férrea Leste Brasileiro.
          Com o objetivo de promover e gerir o desenvolvimento do setor ferroviário no Brasil, foi criado em 1957, a RFFSA, sendo dissolvida a partir de 1997, quando iniciou-se o processo de privatização das ferrovias brasileiras. (na foto abaixo, do Rogério Salgado, a rotunda de Ribeirão Vermelho MG, construída em 1885, considerada a maior da América Latina. As rotundas tinham a forma circular e serviam como depósitos de locomotivas)
          Essas ferrovias ligavam as regiões mineiras. Eram centenas de km de trilhos cortando Minas Gerais, ligando cidades, povoados e distritos, pelos trilhos. Levando e trazendo gente, levando e trazendo mercadorias e desenvolvendo as cidades. Não foram apenas essas as ferrovias, existiam outras pequenas ferrovias, de particulares. Muitas dessas pequenas ferrovias foram incorporadas às maiores, ao longo do crescimento da malha ferroviária.  
          Os trens transportavam cargas e também passageiros, cortando nossos sertões, adentrando túneis, passando por pontes (como na foto acima do Rhomário Magalhães, da Ponte Marechal Hermes, sobre o Rio São Francisco em Pirapora/MG), e parando em estações, ao longo de seus trechos. As linhas se expandiam muito rápido, principalmente para o transporte de passageiros. Para atender o maior número possível de cidades, novas estações e paradas eram construídas, facilitando a vida das pessoas e melhorando o escoamento da produção industrial e agropecuária das cidades. Foram milhares de estações construídas. 
          Em torno dessas estações, moradias para operários eram construídas, bem como, pessoas que vinham de outras cidades e em torno das estações viviam, oferecendo comida, quitandas, doces para os viajantes que chegavam e partiam. Muitas dessas estações deram origem a distritos e até mesmo cidades, existentes hoje. (na foto acima do Aender Mendes, Estação de Garças de Minas, em Iguatama MG)
          No início do século XX, começaram a se popularizar na Europa e Estados Unidos, carros, ônibus e caminhões. Esses veículos começaram a chegar, aos poucos no Brasil. Como o trem não chega a todas as cidades, as famosas jardineiras, faziam as baldeações, entre as cidades e estações.
          Aos poucos os carros, caminhões e ônibus começaram a tomar conta de nossas ruas e a mentalidade dos governantes começou a mudar, em relação as ferrovias. Washington Luís, Presidente da República de 1926 a 1930, tinha como lema em sua campanha a frase: “governar é abrir estradas”. E parece que os governantes assimilaram essa frase na prática, fazendo menos investimentos em ferrovias e mais em estradas, para enfim, começar o desmantelamento das ferrovias no país, principalmente de transporte de passageiros.
          A prioridade passou a ser a abertura de estradas, ligando todo o Brasil, através de rodovias. Com isso, as ferrovias começaram a ser esquecidas e aos poucos desativadas. Priorizando as rodovias, em detrimento das ferrovias, começou a acelerar a partir da década de 1950, na era Juscelino Kubistchek, quando chegaram ao Brasil, montadoras de veículos. Até o final da década de 1990, os trens que transportavam passageiros, ligando cidades e capitais brasileiras, praticamente, já não existiam.
          O povo mineiro sentiu mais os efeitos dessa política, porque além da identidade com o trem, boa parte do nosso Estado era cortado por trilhos, com milhares de estações, construídas desde o século XIX. Ao longo da segunda metade do século XX, os trens de passageiros foram sendo desativados, um a um, restando apenas uma única linha em atividade, a Ferrovia Vitória Minas, ativa desde 1907.
           A Ferrovia Vitória Minas (na foto acima, passando por Barão de Cocais MG/Foto: Vale/Divulgação), transporta passageiros, com viagens diárias, de ida e volta, saindo da Estação de Belo Horizonte, parando para pegar passageiros em 30 estações ao longo de seu itinerário de 644 km, com parada final na Estação de Cariacica, no Espírito Santo.
          Com a preferência pelas rodovias, as ferrovias foram sendo esquecidas, abandonadas, os trens sucateados e as estações, entregues aos cuidados do tempo (como na foto acima do Rogério Salgado, da Estação das Rosas, em Lavras, construída em 1923).
          Algumas cidades valorizam o patrimônio ferroviário, restaurando suas antigas estações, recuperando os trens, transformando-os em museus e espaços culturais, com algumas estações se transformando em cartões postais, como esta acima, de Moeda MG (como na foto acima do Thelmo Lins). Mas em sua maioria, as antigas estações do século XIX e XIX, estão completamente esquecidas e abandonadas e os trens que outrora transportaram gente e alguns até luxuosos, como o Trem de Prata, que ligava BH ao Rio de Janeiro, estão se deteriorando nos pátios da RFFSA.
          Alguns trechos de nossas ferrovias foram reativados para fins de passeios turísticos em fins de semana, como o Trem das Águas, que liga São Lourenço a Soledade no Sul de Minas. O trem da Mantiqueira, que liga Passa Quatro a Estação Coronel Fulgêncio, no sul de Minas. O trem que liga Ouro Preto a Mariana e a Maria Fumaça que liga São João Del Rei a Tiradentes, no Campo das Vertentes (na foto acima do César Reis).
          Existem ainda projetos de reativação de trechos da Ferrovia Rio Minas, ligando Cataguases MG a Três Rios, outro que pretende ligar Belo Horizonte à Serra da Piedade. Outro projeto que está na expectativa de sair do papel é o que ligará Belo Horizonte ao Museu do Inhotim, em Brumadinho, além de mais um, que pretende ligar Divinópolis, passando pela cidade histórica de Itapecerica e com estação final em Bom Sucesso, no Oeste de Minas. (na foto acima do Jad Vilela, trem de carga em Divinópolis MG)
          Hoje vemos a necessidade e importância dos trens de passageiros, devido ao grande crescimento populacional, evidenciando o erro dos governantes do passado, em ignorar a importância dos trens de passageiros, como transporte de massa. Vem crescendo a cada dia, no seio do povo brasileiro, a necessidade de investimentos em ferrovias, lingado, principalmente as grandes cidades, através do trem de passageiros. Isso aliviaria o sistema viário das cidades, reduziria os custos com manutenção das vias, bem como os congestionados, bem como facilitaria a locomoção da população.
          A volta dos trens de passageiros nos trilhos, não é por mero saudosismo, mas por necessidade. Voltem com os trens de passageiros nos trilhos, que o povo usará. Um país desenvolvido, tem que ter ligações por ferrovias, não só para transportar cargas, mas também, passageiros. (foto acima de Marselha Rufino em Itumirim MG)
          Trem é um transporte eficiente, seguro, necessário e menos poluente que os veículos. No século XX, os governantes tinham a visão que ferrovia era atraso, rodovia, desenvolvimento. Com isso optaram pelas rodovias. Isso aqui no Brasil, no restante do mundo, principalmente na Europa, os trens, tanto de carga, quanto de passageiros, são primordiais e continuam nos trilhos, transportando gente, ligando cidades e inclusive, países. Que assim seja no Brasil, que assim seja em Minas Gerais.
          Que os trens saiam das veias do mineiro e voltem a circular nos trilhos, bem como o nosso coração, apitar, quando o trem chegar na Estação.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Vida e obra da escritora Carolina de Jesus

(Por Arnaldo Silva) Nascida em 14 de março de 1914, em Sacramento MG, no Triângulo Mineiro, Carolina Maria de Jesus, faleceu em São Paulo, em 13 de fevereiro de 1977. Em Sacramento, Carolina estudou até a segunda série do Ensino Primário.
          O pouco tempo de estudo foi o suficiente para que se encantasse pela escrita e leitura. Sua família era bem humilde e não tinham condições de comprar livros para que pudesse ler. Para poder ler, pedia emprestado livros aos vizinhos. Um dos livros que conseguiu ler em sua infância, foi Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães.
          A vida difícil no interior, e o falecimento de sua mãe, fez com que Carolina de Jesus, optasse em se mudar para São Paulo, em 1937. Na capital paulista, foi morar num pequeno barraco, na Comunidade do Canindé, na Zona Norte. Ela mesma construiu sua moradia, usando madeira, lata, papelão e tudo que encontrava, que pudesse ser útil na construção de sua casa. (na fotografia acima, Carolina de Jesus, autografando seu livro, Quarto de Despejo, em 1960. Foto: Arquivo Nacional - Fundo Correio da Manhã/Dominio Público)
          Na capital, trabalhou como doméstica na casa do cardiologista e cirurgião, Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, um dos mais conceituados e respeitados médicos brasileiros. Na casa do Dr. Zerbini, tinha uma enorme biblioteca e deu permissão para que Carolina de Jesus, lesse os livros que se interessasse, em suas horas de folga. Em 1947, aos 33 anos, engravidou de seu primeiro filho, João José, que nasceu em 1948. Grávida, teve que deixar o trabalho. Teve ainda mais dois filhos, José Carlos, nascido em 1949 e Vera Eunice, nascida em 1953.
          Nunca se casou e cuidava dos três filhos sozinha, fazendo faxinas, lavando roupas para fora e catando papéis pelas ruas de São Paulo. Seus filhos pegaram o gosto pela leitura, incentivados pela mãe e estudaram em escolas públicas. Carolina, dava ainda aulas de alfabetização para os membros de sua comunidade, que queriam aprender a ler e escrever.
          Catando papéis pelas ruas de São Paulo, tinha o cuidado de separar as folhas que estivem em melhores condições para escrever seus diários, sobre o cotidiano da vida nas comunidades pobres de São Paulo. Se encontrasse algum livro no lixo, lia e guardava em casa, em um pequeno armário que tinha em sua casa.
          A falta de escolaridade, a discriminação, fome e a pobreza, não foram obstáculos para impedir que fizesse o que mais gostava, escrever. Carolina de Jesus era escritora auto ditada. Mulher de personalidade forte, coração sensível, mãe dedicada, lutadora, não se entregava às dificuldades que a vida lhe impunha e nem guardava respostas para depois.
          Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, do Jornal Folha de São Paulo e Revista O Cruzeiro, esteve na Comunidade para fazer uma reportagem e ficou sabendo, pelos moradores, que no lugar, tinha uma mulher que escrevia, em folhas de papel que catava nas ruas de São Paulo. Audálio se interessou em conhecer os escritos da moradora.
          Apresentado à Carolina de Jesus, leu e se impressionou com a qualidade literária de seus textos. Selecionou alguns e os publicou em uma das edições do Jornal Folha de São Paulo e na Revista O Cruzeiro. Publicou na íntegra alguns escritos, mesmo com os erros gramaticais. A publicação foi um sucesso e chamou a atenção dos leitores do jornal e revista para uma realidade que poucos conheciam e não eram muitos divulgados pela mídia, na época.
          Dois anos depois, em 1960, os diários escritos por Carolina de Jesus, são transformados em livro. Quarto de Despejo - Diário de uma favelada. Foram mais de 10 mil livros vendidos em apenas uma semana, tendo sido traduzido para 14 idiomas e vendido para mais de 40 países, totalizando mais de 1 milhão de exemplares vendidos, desde sua publicação. Quarto de Despejo foi um dos livros brasileiros mais conhecido no exterior.
          Numa parte do livro, Quarto de Despejo, percebe-se a visão da escritora sobre os contrastes e realidade social das grandes cidades brasileiras. "Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trechos”. Para Carolina de Jesus, o Centro das cidades eram as “salas de visitas”.
          Nas primeiras décadas do século XX, os governantes retiravam as pessoas que viviam nas ruas e os levavam para lugares mais distantes, da parte urbana, impulsionando assim ampliação e criação de favelas. Por isso que Carolina considerava as favelas, o quarto de despejo das cidades, e a parte central, a sala de visitas.
          Com o sucesso da venda de seu livro, Carolina mudou-se da comunidade para o bairro de Santana, também na Zona Norte e por fim, para Parelheiros, na Zona Sul. A região que ela escolheu viver, embora na Zona Sul paulistana, era mais afastada e um local mais simples, que lembrava um pouco as pequenas cidades do interior, com casas simples e gente humilde, formada por pessoas que deixaram suas terras de origem, passando a viver na cidade grande, em busca de vida melhor. A vantagem que Carolina de Jesus via em sua nova região era que tinha ônibus e escolas públicas por perto, o que facilitava o acesso da comunidade ao estudo e locomoção para o trabalho.
          Considerada uma das maiores escritoras do século XX, em seus inúmeros diários, Carolina de Jesus deixou um legado para gerações de todo o mundo, descrevendo numa linguagem simples, direta, clara, mas ao mesmo temo, poética e humana, como é sobreviver e lutar contra a fome e pobreza extrema.
          Em sua cidade natal, Sacramento, a escritora teve o merecido reconhecimento, dando nome a uma escola estadual, bem, como 37 escritos de Carolina de Jesus, fazem parte acervo, do Arquivo Público de Sacramento MG.
          Recentemente, em 25 de fevereiro de 2021, Carolina Maria de Jesus, recebeu o título póstumo de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aprovado pelo Conselho Universitário (Consuni/UFRJ). Trata-se de uma honraria concedida a pessoas de destaque por suas virtudes, atitudes e méritos, independente de seu grau de instrução. 
          Sua principal obra, Quarto de despejo: Diário de uma favelada, é leitura obrigatória para quem quer conhecer a realidade das comunidades pobres das grandes cidades e também está presente em vestibulares de grandes universidades do Brasil.
          Contemporânea da época, onde se destacavam grandes nomes femininos da literatura brasileira, como Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Cora Coralina, Cecília Meireles, dentre outras, Carolina de Jesus está inserida entre os maiores nomes da literatura brasileira.
          Sua vida e obra merecem ser conhecidas pelo povo brasileiro, pelo exemplo que foi como mulher, pela atualidade de seus escritos e qualidade de suas obras. Os livros da escritora mineira formam um dos mais importantes clássicos da nossa literatura moderna, tanto que recebeu elogios de Clarice Lispector, tida por Carolina de Jesus como "uma escritora de verdade", sendo respondida por Clarice Lispector: "Escritora de verdade é Carolina, que conta a realidade”.
          Carolina de Jesus sofria de asma desde o nascimento e morreu aos 62 anos, em 13 de fevereiro de 1977, em consequência do agravamento desta doença, que lhe causou insuficiência respiratória. Após sua morte, em 1977, foram publicados novos livros, escritos e contos inéditos da escritora como: Diário de Bitita (1977), Um Brasil para Brasileiros (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014) e Meu Sonho é Escrever, além de escritos e contos (2018).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Sete Orelhas: a saga do vingador mineiro

(Por Arnaldo Silva) São Bento Abade é uma cidade com 5.349 habitantes, segundo o IBGE, em 2020. A cidade faz divisa com São Tomé das Letras, Três Corações, Carmo da Cachoeira e Luminárias e está a 288 km da capital, com acesso pela BR-381.
Logo na entrada da cidade, São Bento dá as “boas vindas” aos visitantes, em frente ao portal de entrada. A Avenida Miguel Nasser, é a principal via da cidade. Atravessa a pequena cidade de ponta a ponta, com ruas paralelas ao longo de seu percurso. (fotografia acima e abaixo de Elpídio Justino de Andrade)
           A cidade conta com uma forte atividade rural, com destaque para a agropecuária e plantações de lavandas. É em São Bento Abade que se encontra plantações de lavandas. Fica na Fazenda Santa Vitória. A fazenda é um dos atrativos para quem vem à região, já que é aberta à visitação. Conhecer a beleza impressionante das lavandas, É um passeio incrível. Estar em meio à essa beleza sem igual da natureza, emociona.
          A história da pequena cidade começa a partir de 1752, no século XVIII, com a chegada do Padre José Bento Ferreira de Toledo. Foi o fundador do povoado, que deu origem à cidade hoje. Padre Bento, era devoto de São Bento e construiu uma pequena ermida, dedicada ao seu santo de devoção. Em torno da pequena ermida, um pequeno povoado se formou, passando a se chamar, povoado de São Bento. Desse povoado, surgiu a cidade de São Bento e não mudou de nome ao longo de existência. São Bento Abade é uma das poucas cidades brasileiras que não alteraram o nome durante sua história. Quando de sua emancipação, em 30 de dezembro de 1962, decidiram preservar o nome, acrescentado a palavra “Abade”, por existir outras cidades com o nome de São Bento, pelo país. O Abade era apenas para diferenciar.
          São Bento Abade é hoje uma cidade bem pacata, organizada e tranquila (fotografia acima de Elpídio Justino de Andrade). Seu casario é simples e a cidade bem acolhedora e seu povo, hospitaleiro. O município tem uma forte vocação cultural, preservando tradições como a Folia de Reis, a dança de Catira, o Reinado, as festas juninas, as modas de viola, a Festa do Peão de Boiadeiro, bem como as tradições religiosas católicas como a Semana Santa, Corpus Christi, a Festa do Padroeiro São Bento, em julho, dentro outros eventos.
          Andando pelas ruas de São Bento do Abade, o visitante, já estranha algumas placas indicativas em forma de orelha. Percebe um nome meio estranho logo na entrada da cidade, em praças e monumentos retratando um homem com aparência destemida, montado num cavalo, usando um colar com 7 orelhas penduradas e até na Casa da Cultura da cidade. Esse nome estranho é Sete Orelhas, apelido dado a Januário Garcia Leal, homem branco, rico, influente e Capitão de Ordenanças, que viveu na cidade no século XVIII e início do século XIX. Entrou para a história como o Sete Orelhas, um personagem mineiro que teve sua trajetória de vida, mudada a partir de 1802. Saiu de uma vida pacata para entrar para a história como um dos homens mais populares e ao mesmo tempo, um dos mais temidos de Minas Gerais, principalmente pelos governantes. Sua saga começa a partir de 1802. Durante esses mais de dois séculos, já foi temas de livros, estudos, teses e documentários.
          Nasceu na cidade de Jacuí, no Sul de Minas, em 1761 e faleceu em 16 de maio de 1808, em Lages, Santa Catarina. Era filho de Pedro Garcia Leal, natural dos Açores, região de Portugal e Josefa Cordeira Borba, natural de Cotia/SP. O casal formou uma família bem grande. Além de Januário, eram mais 7 filhos: José Garcia Leal, Joaquim Garcia Leal, João Garcia Leal, Manuel Garcia Leal; Antônio Garcia Leal, Ana Garcia Leal, Maria Garcia Leal, e Salvador Garcia Leal. Januário era casado com Mariana Lourença de Oliveira e com ela teve um filho, Higino Garcia Leal.
          Era uma pessoa tranquila, trabalhadora e vivia uma vida bastante pacata na fazenda Ventania, hoje o município de Alpinópolis, no Sul de Minas, com sua esposa e filho, além de escravos. Exercia a função de Capitão de Ordenanças do distrito de São José e Nossa Senhora das Dores, hoje, cidade de Alfenas, no Sul de Minas. Recebeu essa patente em 21 de janeiro de 1802, assinada pelo Capitão General da Capitania de Minas Gerais, Bernardo José de Lorena. Essa patente, era concedida pelo Estado a membros da sociedade civil, para atuar como força militar, quando não havia a presença de uma organização militar constituída, na localidade. Tinha função de auxiliar as forças de seguranças da época em ataques de inimigos e proteção dos interesses da Corte Portuguesa na localidade.
          A vida tranquila e pacata de Januário mudou, quando seu irmão, João Garcia Leal, então com 43 anos, se envolveu em uma briga com seu vizinho, Francisco Silva, por disputa de terras. Francisco Silva tinha sete filhos. Ao saberem da briga do pai com João Garcia Leal, tramaram eliminar o vizinho. Numa fazenda em São Bento Abade, João Garcia Leal, foi cercado pelos sete irmãos. Foi facilmente dominado, imobilizado e despido. Em seguida, amarrado a uma figueira, onde, sem a menor chance de defesa, foi esfolado vivo. Januário assistiu toda a cena do alto de um morro, sem nada poder fazer.
          Revoltado, decidiu procurar a Justiça. Numa época de constantes conflitos por disputa de terras e minas de ouro em Minas Gerais, fatos como esses eram comuns e a Justiça pouco agia nesses casos, até porque, a ação das comarcas era de dimensões regionais, sendo pouquíssimas existentes. A comarca mais próxima de São Bento Abade, naquela época, ficava em São João Del Rei, distante hoje 145 km. Numa época em que o único meio de transporte era cortando o sertão a cavalo ou em carros de bois.
          Era uma viagem longa, que levava dias. Mas Januário buscou a Justiça. Esta se demonstrou indiferente ao episódio. Procurou as autoridades da Coroa Portuguesa, que o orientou a resolver a questão por si mesmo, da forma que julgasse justo.
          A justiça e as autoridades do Brasil Colônia, se mostraram completamente indiferentes e, insensíveis, em relação à demanda de Januário Garcia Leal. Simplesmente, lavaram as mãos. Inconformado ao ver os algozes de seu irmão impunes, Januário voltou para São Bento Abade e a única forma que jugou justa para punir os culpados pela morte do irmão foi usar a lei mais comum naqueles tempos, a Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”. Com o apoio de seu irmão caçula, Salvador Garcia Leal e seu primo, Mateus Luís Garcia, também capitães de ordenanças, além de outras pessoas que se juntaram ao seu grupo, buscou fazer sua própria justiça.
          Januário abandonou sua mulher, seu filho, sua propriedade, o status de sua patente e decidiu ir atrás dos sete irmãos, para vingar a morte de João Garcia Leal. Começa então uma das mais terríveis caçadas da história de Minas Gerais. Perseguidos, humilhados, espancados e mortos, foi o fim dos sete irmãos. Para chegar ao sucesso de sua vingança, Januário e seu grupo, foram implacáveis e impiedosos. Desbravaram durante seis anos o sertão mineiro, em busca dos homens responsáveis pela barbárie contra João Garcia Leal.
          Os sete irmãos, temendo a vingança de Januário, começavam a fugir, sendo 3 deles, pegos durante a tentativa de fuga. Por esse ato, Januário Garcia Leal foi denunciado em 1803, por uma moradora de Campo Belo, à Justiça da Vila de São Bento do Tamanduá, hoje, cidade de Itapecerica, na Região Oeste de Minas. A Justiça da época, acatou a denúncia e determinou a prisão de Januário, o que não o intimidou. Continuou com seu objetivo. Dos quatro que conseguiram fugir, foram capturados ao longo dos anos de sua caçada. O último dos sete irmãos, ficou tão apavorado com a ação de Januário, que fugiu para o mais longes possível. Foi parar perto de Diamantina, a 550 km de distância de São Bento Abade. Mas não teve jeito, foi encontrado. Januário mandou o homem andar 100 passos e avisou que no centésimo, atiraria. Se errasse, podia seguir. Mas Januário era bom de mira, acertou em cheio. Finalmente, depois de quase 6 anos de caçada, Januário Garcia Leal cumpriu seu prometido, vingando a morte do irmão.
          Januário fazia questão de cortar a orelha direita de suas vítimas, salgava e as colocava num cordão, formando um “colar”. Somente após a última orelha, no “colar”, Januário se deu por satisfeito. Dos que mataram seu irmão, não sobrou um para contar história.
          Januário tinha parentesco com um dos mais assustadores homens do século XVIII, Bartolomeu Bueno do Prado, Capitão-Mor e Capitão do Mato. Com certeza, sabia da fama deste homem, que corria solta na tradição popular. Era um dos homens mais temidos da sua época, por suas ações e barbáries cometidas em seus atos. Sua especialidade era desmantelar grupos de quilombos, por isso era um dos capitães do mato mais requisitados por fazendeiros e governos. Para comprovar que suas ações tiveram êxito, tinha o hábito de cortar as orelhas de suas vítimas. Foi assim que fez em 12 de maio de 1757, quando contratado pelo Governador da Capitania de Minas Gerais, José Antônio Freire de Andrade, entregou três mil e novecentos pares de orelhas, resultado da ação por 3 anos em território mineiro, em combate a movimentos quilombolas. Acredita-se que Januário tenha se inspirado no comportamento de Bartolomeu Bueno do Prato.
          Com esse ato de cortar e amarrar num cordão as orelhas de suas vítimas. passou a ser conhecido como Sete Orelhas. Ganhou fama e respeito, conseguindo a simpatia e adesão de muitos, que se juntaram a seu grupo. Mas também provocava medo nos poderosos, que temiam a justiça dos Garcias, já que tinham fama de implacáveis e rápidos em seus julgamentos e execuções de suas decisões. Por esse motivo, tinham a simpatia do povo, que consideravam a justiça lenta, burocrática, ausente e inacessível para boa parte da população naquela época. Ninguém se atrevia a enfrentar o Sete Orelhas.
          Em 1808, a fama dos Garcias e seu grupo, chegou à Corte, dada tamanha ousadia e popularidade do grupo, liderado por Januário Garcia Leal. Conquistaram respeito popular na Capitania de Minas Gerais, exercendo autoridade que sobrepunham inclusive, à autoridade da polícia e do judiciário, à época, em boa parte do território mineiro.
          Isso passou a incomodar a Corte Portuguesa, provocando uma forte reação do Príncipe Regente de Portugal, Dom João VI. A Corte julgava que Januário e seu grupo, poderiam colocar em risco a soberania do domínio português, na Capitania de Minas Gerais. A preocupação da Corte com o grupo de Januário Garcia Leal era tão grande que a Monarquia mandou, nada mais, nada menos que o temido Fernando Vasconcelos Parada e Souza. Foi esse o homem que perseguiu e prendeu os Inconfidentes.
          Tinha a clara missão de colocar fim a revolta dos capitães, em 1808. O Príncipe Regente, determinou que, as forças públicas agissem de forma a desmobilizar e desmantelar totalmente o grupo. Januário, que empreendeu uma forte caçada pelo sertão mineiro, passou a ser duramente caçado e perseguido, sem tréguas, pelas tropas de Fernando Vasconcelos. Salvador Garcia Leal, irmão de Januário e integrante do grupo foi preso. Seu primo, Mateus Luís Garcia, conseguiu fugir, bem como Januário, que fugiu para bem longe de Minas Gerais
          Foi para Lages, em Santa Catarina, onde vivia alguns de seus parentes, de origem açoriana. Em Lages, exercia a função de mercador, mas morreu pouco tempo depois, que chegou, aos 47 anos, em 16 de maio de 1808. Mas não morreu devido a perseguição das tropas de Fernando Vasconcelos. Foi vítima de um acidente, quando tentava impedir um cavalo de pular uma porteira. No salto, as patas do cavalo atingiram uma das tábuas, que se desprendeu e acertou com muita força, sua cabeça, próximo a sua orelha direita, causando-lhe traumatismo craniano e fratura do queixo, levando-o à morte.
          Esta é a história de Januário Garcia Leal. (foto acima de Elpídio Justino de Andrade) É fato histórico e comprovado. Um personagem real de nossa história, bem longe de ser uma lenda. É a história viva de São Bento Abade MG. Na cidade, podem ser vistos, monumentos dedicados ao Vingador de Minas Gerais, montado em seu cavalo, com o colar de orelhas em seu pescoço. Bem como ainda, a figueira, onde aconteceu o suplício de João Garcia Leal, conhecida hoje como “Figueira do Tira-Couro".
          A figueira foi tombada em 12 de abril de 2004, pelo Conselho do Patrimônio Cultural de São Bento do Abade, sendo protegida desde então como patrimônio. O lugar é cercado, sinalizado e bem cuidado. Em 2014, a Saga de Sete Orelhas, com base em estudos e pesquisas, em documentos e inventário de Januário Garcia Leal, sobre a vida de Januário Garcia Leal, foi registrada como patrimônio da cidade, resgatando a história de um dos mais intrigantes personagens mineiros. Sua saga é hoje um dos atrativos do Sul de Minas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

As irmandades e igreja inacabada de Sabará

(Por Arnaldo Silva) Sabará é uma das mais importantes cidades históricas de Minas, fundada em 1775, no final do século XVIII. A cidade guarda relíquias da nossa história, presentes em sua em seus casarões coloniais, na Casa da ópera, em seus museus e em suas igrejas imponentes, erguidas durante o Ciclo do Ouro. Muitas dessas igrejas abrigam obras do Mestre Aleijadinho, que já morou na cidade e do Mestre Ataíde, o mestre da pintura. A cidade fica apenas 20 km distante de Belo Horizonte.
          No Centro Histórico da Terceira Vila do Ouro de Minas Gerais, uma construção em pedras e inacabada, chama a atenção, pela imponência e pelas histórias ocorridas ao longo de seus mais de três séculos de existência, que impossibilitaram sua conclusão. (fotografia acima de Andréia Gomes)
          É a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Barra do Sabará. A irmandade dos Irmãos do Rosário foi fundada em 1713 e foi muito atuante em Sabará, durante o período do Ciclo do Ouro.
          É uma obra, que mesmo inacabada, impressiona, pelas sombrias paredes, em pedra sobre pedra e detalhes imagináveis, de uma Igreja que seria uma das mais belas e imponentes de Minas. Estar no interior da construção, emociona e intriga, pelos mais de 300 anos de existência. O que guardam essas paredes? Quais as histórias vividas e contadas neste lugar? Quantas dores e lágrimas foram derramadas em sua construção? (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          Primeiro vamos entender porque da igreja ser construída por uma irmandade, formada por homens negros e leigos e não por homens brancos ou mesmo, pela própria igreja, através de suas ordens religiosas.
          Muitos perguntam, como os escravos podiam construir suas igrejas e se organizarem em irmandades, durante o período da Escravidão. Vamos primeiro entender a questão as irmandades, para depois entendermos porque a Igreja do Rosário, não teve suas obras concluídas.
O Ciclo do Ouro e as Irmandades
          A descoberta do ouro em Minas Gerais, fez surgir vilas e cidades, diferentes povos, que deram origem a formação social, política, arquitetônica, cultura e gastronômica, chegaram nas terras mineiras. Foi um período que permitiu uma maior inserção dos negros, pardos e mamelucos, na vida urbana, com o surgimento crescente de povoados, vilas e cidades, por toda Minas Gerais.
          Passaram a viver nas cidades, trabalhando nas minas de ouro, desempenhando atividades necessárias à época, como a carpintaria, construção civil, atividades artísticas como pintura e ornamentação de casas e templos, além de adornos para casas, fazendo instrumentos musicais, dentre outras atividades, imprescindíveis para a época.
          Com essas atividades, muitos escravos, conseguiram ter influência, acumulando riquezas, comprando suas próprias alforrias ou mesmo, dadas por seus senhores, por exemplo, quando um escravo encontrava uma mina de ouro ou conseguia extrair grandes quantidades do metal. Quem conseguia sua liberdade, passava a ter mais influência em sua comunidade e muitos ex escravos, até se tornaram senhores de escravos.
          Com origem na Europa, as irmandades e confrarias, eram grupos de homens que tinha ideais e objetivos comuns. Em Minas Gerais, as irmandades eram formadas por homens brancos, negros, pardos, mestiços e mamelucos. Cada um com suas respectivas irmandades. Ser aceito e fazer parte de uma irmandade ou confraria, era primordial para o reconhecimento social dos homens no período colonial.
          Entre as irmandades formadas em Minas Gerais, as irmandades dos homens pretos, eram as mais ativas e atuantes. Isso devido à limitação impostas pelos brancos à fé dos escravos, bem como a discriminação e o preconceito que eram submetidos constantemente. Por essa e outras limitações sociais, sentiram a necessidade de se unirem. Decidiram formar suas próprias irmandades e construírem suas próprias igrejas. Assim conseguiam se fortalecer, protegerem-se uns aos outros, além de preservarem suas tradições, cultura e fé, mantendo ainda a unidade dos homens que formavam a irmandade.
          As irmandades dos homens pretos tinham uma afeição por Nossa Senhora das Mercês, Santa Efigênia, São Benedito e em especial por Nossa Senhora do Rosário. A predileção dos escravos pela santa Católica se deu devido ao seu rosário, semelhante ao “rosário de ifá”, usados pelos sacerdotes africanos.
          A maioria das igrejas mineiras, durante o Ciclo do Ouro, foram construídas por irmandades e confrarias religiosas. As irmandades, uma tradição que veio da Europa para nossas terras, foram se formando durante o período da mineração do ouro. A criação de irmandades e confrarias, foi necessário devido os desentendimentos entre a Igreja Católica e a Coroa Portuguesa, durante a exploração do ouro em Minas Gerais.
          As ordens religiosas da Igreja Católica, foram proibidas de atuar e de existirem em Minas Gerais. Cabia então as irmandades, construir, zelar pelas igrejas e fazerem os serviços religiosos, além de construírem e manterem seus cemitérios. As igrejas contavam com padres, mas não organizados em ordens religiosas. Quem construía, dirigia e administrava as igrejas, eram as irmandades e não a Igreja Católica, por intermédio de suas ordens.
          Assim foram surgindo as irmandades e confrarias pelas cidades mineiras, com o objetivo de unir homens em prol de seus ideais comuns, defendendo seus interesses e a devoção em seus santos, dedicando a eles as igrejas que construíam. Quanto mais irmandades existia numa cidade, mais igrejas eram construídas.
          Em Ouro Preto, por exemplo, durante o Ciclo do Ouro, existiam 29 irmandades. Cada igreja ou capela ouro-pretana, nessa época, foi construída por uma irmandade diferente. E assim foi por todas as cidades mineiras, surgidas durante o Ciclo do Ouro, como Sabará, Serro, Mariana, Tiradentes, São João Del Rei, Diamantina, etc.
          E era cada um na sua, cada irmão em sua irmandade. Cada irmandade, tinha seu santo de devoção e se dedicavam a construir os templos em honra a seus respectivos santos.
          As irmandades não viam a carência religiosa da sua cidade em si, mas sim, os seus interesses. Não se incomodavam e nem se importavam em construir suas igrejas, próximas umas das outras.
          Isso porque suas igrejas não eram para a cidade, e sim, para a própria irmandade. Por isso cada irmandade construía sua igreja, mesmo que à frente, na rua do lado ou atrás da sua igreja, exista outra. Por isso que nas cidades históricas, existem tantas igrejas e todas, bem próximas. Havia até disputa de poderio econômico entre irmandades. Quanto ouro e ornamentos tinha as igrejas, mais prestigio e poder social, tinha a irmandade. As sedes das irmandades eram em salões construídos junto às sacristias nas igrejas, onde se reuniam com frequência
          Com o fim da riqueza gerada pelo ouro, finalizou também a proibição da presença das ordens religiosas oficiais. As irmandades continuaram a existir, por um bom tempo, dando apoio às ordens e ajudando nos trabalhos das igrejas, que passaram a ser administradas diretamente pelas ordens oficiais católicas, bem como na manutenção e na construção de novos templos.
A igreja inacabada de Sabará
          Entendido a questão das irmandades, agora ficará mais fácil entendermos a questão da igreja inacabada de Nossa Senhora do Rosário, em Sabará. Por que começou e porque foi concluída até hoje? Vamos lá.
          No lugar onde foi projetada a igreja do Rosário em Sabará, existia uma pequena ermida, feita de madeira, dedicada à Nossa Senhora do Rosário. Foi demolida e no lugar, construída uma capela em melhores condições para os membros da irmandade exercerem sua fé, enquanto se construía o novo templo. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          Era bem simples e rústica em seu interior, com piso e detalhes em madeira, ornamentação e talhas dos altares bem singelos. As pinturas no forro da capela diferem da simplicidade do altar capela. São pinturas mais bem trabalhadas, simbolizando a Ladainha de Nossa Senhora.
          A Irmandade, conseguiu com muito esforço, em 1757, a doação, por carta régia, de seu tão sonhado terreno, onde finalmente, conseguiram dar início a construção de sua igreja. Buscaram recursos, juntaram dinheiro e ampliaram a área doada, com a compra de dois terremos próximos, em 1766.
          No ano seguinte, começa a preparação do terreno, com a construção da igreja, iniciada em 1768. A parte de execução da alvenaria e cantaria, foi executada pelo mestre de obras, Antônio Moreira Gomes, contratado pela irmandade.
          Era um projeto grandioso e ambicioso para a época. Mesmo durante a riqueza do Ciclo do Ouro, era um projeto bem caro, já que os membros da Irmandade, não tinham tanto dinheiro assim. Esse foi um dos fatores para a lentidão das obras de alvenaria e cantaria, que só foram concluídas, 12 anos depois, em 1780, com a conclusão das obras da capela-mor e da sacristia, na alvenaria, sem o reboco e ornamentações. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          A partir desse ano, com a falta de recursos, as obras continuaram bem lentas, passando pelas mãos de diversos outros mestres de obras, durante décadas, até o ano de 1878, quando os Irmãos do Rosário, decidiram concluir de vez as obras da Igreja.
          Nessa época, o Brasil vivia um período conturbado em sua história, com pressão sobre a Monarquia e pelo fim da Escravidão. Isso fez com que vários os negros, se dispersassem ou mesmo, fugissem para quilombos, cada vez mais comuns naquele tempo.
          Nas grandes cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, a sede da Monarquia Imperial, a pressão pelo fim do Império e instalação da República e abolição da Escravidão eram cada vez mais frequentes, o que de fato ocorreu, anos depois. Em 13 de maio de 1888, foi abolida a escravidão no Brasil. No ano seguinte, em 15 de novembro, cai a monarquia e é instalada a República no Brasil.
          Nessa situação, a Irmandade do Rosário, se viu esvaziada, sem dinheiro e sem a mão de obra, bem como a própria Igreja Católica, que não tinha também recursos para finalizar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Sabará. Encerraram-se então os esforços para a conclusão das obras. Do jeito que deixaram, está até os dias de hoje.
          Se tivesse sido concluída, seria um dos mais imponentes e belos templos do período barroco e rococó, em Minas Gerais. Seria uma igreja singular, rica em detalhes em sua fachada e nos ornamentos internos, com seus altares ornados em ouro, pinturas e talhas finíssimas e bem trabalhadas. A igreja chama a atenção para o projeto de seu adro, que lembra a escadaria do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas MG. (na foto acima de Arnaldo Silva)
          Por sua história, ao longo de três séculos, e importância, no dia 13 de junho de 1938, todo o acervo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Sabará, foi tombado pelo (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Com o tombamento, garante-se a preservação integral de toda a obra. Como é um bem tombado, não pode sofrer modificações ou alterações, apenas restaurações e reformas estruturais e necessárias, que possam garantir a integridade e preservação da obra, em sua originalidade, como foi feito entre 1944 a 1945.
          O visitante pode conhecer a Igreja, por dentro e por fora, além de conhecer o Museu de Arte Sacra, que funciona em uma das sacristias da Igreja. Neste museu, estão mobiliários e peças religiosas dos séculos XVIII e XIX. 
          A curiosa obra inacabada, desperta curiosidades e instiga a imaginação dos visitantes. É um dos lugares mais visitados de Sabará, além de ser um dos lugares mais enigmáticos de Minas Gerais. As paredes erguidas em pedra bruta, assentadas, pedra, sobre pedra, pelos escravos, tem muitas histórias para contar. São mais de três séculos, com histórias reais e outras nem tanto, contada em forma de lendas, muitas delas, fantasmagóricas, criadas pelo imaginário popular. (fotografia acima de Andréia Gomes)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

As águas quentes e medicinais de Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Minas Gerais é conhecida no mundo inteiro pela arte barroca e suas cidades históricas, mas também é considerada a caixa d´água do Brasil, por seus rios, milhares de cachoeiras e nascentes e por suas águas medicinais, que brotam naturalmente de suas terras. Em Minas não tem mar, mas nas profundezas do seu nosso subsolo, brota um mar de águas que curam e rejuvenescem. O subsolo mineiro sempre foi rico em minerais. Das terras mineiras, brotavam em abundância ouro, prata, diamantes, esmeraldas e outras pedras preciosas, que ainda continuam saindo de nossas terras, hoje em maior escala, o minério de ferro, o nióbio e outros minerais. (na foto abaixo, o Parque das Águas da Estância Hidromineral de São Lourenço, no Sul de Minas)
          Hoje, a grande riqueza que brota do nosso subsolo são as fontes de águas medicinais. São as águas gasosas, sulfurosas, alcalinas, carbonatadas, ferruginosas, radioativas, magnesianas, minerais e outras mais, além de lama vulcânica, com variadas composições químicas, que brotam diretamente da terra. Águas mineiras atraem turistas do mundo inteiro, em busca das propriedades curativas de nossas águas.
          As fontes de águas minerais começaram a ser descobertas em Minas Gerais, a partir do no início do século XIX, numa época de bem pouco conhecimento sobre os poderes curativos das águas. Não sabiam porque elas curavam, apenas sabiam que curavam. Antes mesmo da chegada dos portugueses, os índios já conheciam os benefícios de beber e se banhar nas fontes naturais. Era prática comum entre os indígenas. Naquela época, por desconhecimento científico, as pessoas atribuíam os poderes de cura das águas, a presença de divindades no local e milagres inexplicáveis. Hoje, com o avanço da ciência, os benefícios e propriedades curativas das águas termais e lama vulcânica, foram confirmados pelos cientistas, com estudos realizados ao longo do século passado.
          Águas termais são águas puras, ricas em substâncias naturais e livres de impurezas e bactérias, dispensando assim, tratamento. As águas absorvem os minerais, oligoelementos e nutrientes do solo e das rochas. Essas substâncias são benéficas à saúde humana, renovam as células, são ricas em cálcio, manganês, ferro, zinco e selênio, além de conter até 2.000 mg de sais minerais naturais. Brotam da terra em temperaturas que variam de 37°C a 50°C, dependendo da variação do calor nas profundezas da terra.
          Beber ou banhar-se nas águas e lamas medicinais, comprovadamente, ajudam no complemento de tratamentos contra problemas de pele, porque repõe os sais minerais e antioxidantes perdidos pela pele, hidratam a pele ressecada, além de diminuir sua oleosidade. Equilibram o PH da pele, combatem o estresse, auxiliam em tratamentos estético, alergias, distúrbios do intestino e estômago, dores musculares, hipertensão arterial, arteriosclerose, dentre outras doenças. Além disso, as águas e lama promovem bem estar, descanso para o corpo e mente, além de relaxamento. Isso porque, onde estão as fontes, são lugares rodados por vasta natureza, com espaços aprazíveis, bem cuidados, propícios para quem quer fugir da correria do dia a dia. (foto abaixo de Arnaldo Silva)
          Onde estão as principais fontes de águas termais em Minas Gerais? No Vale do Jequitinhonha, Norte de Minas e principalmente no Sul de Minas. Você vai conhecer algumas dessas cidades mineiras, onde brotam águas medicinais, que curam e rejuvenescem.
Felício dos Santos MG
          Vamos começar nosso roteiro por Felício dos Santos, no Vale do Jequitinhonha, a 370 km distante da Capital, com acesso pela BR-259. Faz divisa com os municípios de Senador Modestino Gonçalves, Itamarandiba, Rio Vermelho, Couto de Magalhães de Minas e São Gonçalo do Rio Preto. (na foto abaixo, a Praça da Matriz da cidade e um dos mais belos artesanatos mineiros, feito com papel de jornal reciclado, pela artesã Márcia Rodrigues/@marciaartescomjornal, que também fez a foto) 
          Uma pequena, charmosa e acolhedora cidade tipicamente mineira, com pouco mais de 5 mil habitantes. Se destaca no artesanato, nas festas folclóricas e religiosas, por suas belezas naturais e exuberantes, como a Cachoeira do Sampaio, a Mata do Isidoro, o Lajeado e a impressionante Cachoeira do Sumidouro, onde suas águas despencam de um enorme penhasco, com 80 metros de queda. (na foto abaixo do Marcelo Santos)
          Tem ainda sua rica culinária, com pratos do Cerrado, como o pequi. Está se tornando conhecida em toda Minas Gerais e Brasil, por suas águas quentes e medicinais.
          As fontes de águas de Felício dos Santos brotam da terra quentes, (como podem ver na foto acima do Luís Carlos da Silva/Divulgação). Saem quentes da rocha,  a uma temperatura de 37 graus centígrados. São medicinais, minerais, hipotermais e radioativas. 
          Estão apenas 9 km do Centro da cidade. O local onde estão as fontes, conta com uma boa infraestrutura para receber os turistas, com pousada com quartos e chalés, restaurante e estacionamento (foto acima e abaixo de Luis Carlos da Silva/Divulgação)
          A área onde estão as fontes de águas quentes, possui 780 hectares, com matas nativas, nascentes, trilhas, uma rica e variada flora e fauna, além de muita água. Tem todo o conforto para que o turista possa relaxar e aproveitar as águas quentes que brotam direto da terra.
Montezuma MG           
          Saindo do Vale do Jequitinhonha, nosso destino agora é Montezuma, no Norte de Minas, a 700 km distante de Belo Horizonte, com acesso pelas BR-122 e BR-135. Faz divisa com os municípios de São João do Paraíso, Vargem Grande do Rio Pardo, Santo Antônio do Retiro, Rio Pardo de Minas, Espinosa. (foto acima e abaixo enviada por Eduardo Vieira Amorim/Arquivo do Balneário)
          Suas águas são famosas no Brasil desde o século XIX, quando foram descobertas suas fontes de águas termais. Das profundezas das terras de Montezuma, brotam águas termais, que chegam à superfície a uma temperatura de 45 graus centígrados. As fontes estão concentradas no Balneário de Montezuma Águas Termais. (foto acima e abaixo arquivo do Balneário de Montezuma/Enviado por Eduardo Vieira Amorim)
          O balneário conta toda estrutura e conforto para receber os turistas, como hotel, restaurante, e bar, além de duas piscinas de água quente, vindas das fontes naturais, outra de água fria, banheiros privativos com piscinas, salão de eventos, play ground, vestiários, banheiros privativos com piscina e loja de conveniência. (foto abaixo arquivo do Balneário de Montezuma/Enviado por Eduardo Vieira Amorim)
          A cidade tem cerca de 9 mil habitantes, é charmosa, pacata e tranquila. Seu povo é muito acolhedor e hospitaleiro. Possui uma boa estrutura urbana para receber os visitantes, com as pousadas e hotéis, uma boa rede gastronômica, um comércio variado e um setor de serviços muito bom. Além disso, Montezuma faz parte do Circuito Turístico Serra Geral do Norte de Minas e tem como atrativos, o Parque Estadual de Montezuma, o Mercado Municipal, a Igreja de Nossa Senhora Santana e as pinturas rupestres da Serra da Macaúba, além de poder ver o maior pequizeiro do mundo, dentre outros atrativos naturais e urbanos.
Araxá MG
          Partindo de Montezuma, estamos indo agora para a Região do Alto Paranaíba, em Araxá (na foto acima de Arnaldo Silva), uma das mais importantes cidades mineiras, com cerca de 110 mil habitantes. A cidade faz divisa com Perdizes, Sacramento, Tapira e Ibiá e está a 215 km de Belo Horizonte, com acesso pela BR-262. 
          A cidade de Araxá está presente na história de Minas Gerais, pela herança dos índios “Arachás”, por suas tradições, principalmente na produção artesanal de doces e seus queijos, premiados no Brasil e exterior. Por sua gastronomia típica, pelo Grande Hotel do Barreiro, também pela história de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, famosa cortesã do século XIX.
          O grande destaque mesmo de Araxá são suas águas sulfurosas, radioativas, cálcicas, magnesianas, carbonatadas e sódicas, que brotam de várias fontes, sendo as principais, a Fonte Dona Beja e Andrade Júnior (na foto acima de Arnaldo Silva).
          Concentradas no Parque das Águas de Araxá, onde está um dos mais imponentes hotéis do Brasil, o Grande Hotel, inaugurado por Getúlio Vargas em 1944 (fotografia acima de Arnaldo Silva). É uma obra prima da arquitetura do século XX. Inspirado nos castelos europeus, o Grande Hotel do Barreiro, em Araxá, tem ornamentação e acabamento em mármores importados da Europa e ainda, lustres de cristais vindos da Boêmia, também na Europa, além de salões com mobiliário do século XX, muitos deles, também importados. Seus salões e corredores impressionam. Uma beleza singular e uma das joias de Minas Gerais.
          No entorno do Grande Hotel, um bucólico lago, um bosque e cascatas, projetados pelo paisagista Burle Marx, se destacam. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          É nas Termas de Araxá, ao lado do Grande Hotel, onde estão as banheiras e piscinas de águas para tratamentos de saúde com duchas, saunas, hidroterapia, mecanoterapia e aplicação de lama vulcânica preta, indicada pra reumatismo e doenças de pele. (foto acima e abaixo, de Arnaldo Silva, das Thermas de Araxá)
          Além da beleza do Parque das Águas, Araxá é uma cidade bem organizada e muito bem estruturada e desenvolvida, com indústrias de vários segmentos, além da mineração do nióbio. Conta com uma sofisticada e aconchegante rede hoteleira e gastronômica, um artesanato valioso, principalmente bordados e crochês, um comércio variado, fácil acesso pelos principais pontos turísticos da cidade, como o Morro do Cristo, o Museu Dona Beja, a Igreja de São Domingos, o Museu de Arte Sagra da Igreja de São Sebastião, a Avenida Imbiara.
          Além de suas belezas arquitetônicas, Em Araxá encontra-se belas paisagens naturais, como serras, rios que foram belas cascatas e cachoeiras, tendo acesso ainda para o Parque Nacional da Serra da Canastra. A cidade conta ainda com um aeroporto, com voos regulares, além de acesso fácil para BR-262.
Sul de Minas
          Saindo do Alto Paranaíba, vamos para o Sul de Minas, onde estão concentradas as principais estâncias hidrominerais de Minas Gerais e as mais famosas também.
          A maioria das estâncias hidrominerais do Sul de Minas, estão na Serra da Mantiqueira. Região montanhosa, de altitudes elevadas, com matas nativas, rios e cachoeiras e paisagens de tirar o fôlego, com fauna e flora riquíssimas. Além das águas que brotam do subsolo, tem ainda os frutos da terra para serem conhecidos e apreciados, nessa região. Fazendas centenárias de café, com seus imponentes casarões, fazendas de plantações de oliveiras e morangos, além de alambiques e cachaçarias, queijos especiais e várias vinícolas, produzindo vinhos finos, de qualidade. Muitas dessas fazendas, abrem suas porteiras para recebem visitantes. Em todas essas cidades, o turista poderá experimentar a genuína cozinha mineira e os pratos típicos do Sul de Minas, como os pratos feitos com a truta, morangos, marmelo, queijos, dentre outros.
          As estâncias hidrominerais do Sul de Minas são as mais conhecidas e mais procuradas por turistas de todo o Brasil e do mundo. São águas com ações curativas e medicinais, encontradas principalmente nas cidades de São Lourenço, Poços de Caldas, Pocinhos do Rio Verde, distrito de Caldas, Maria da Fé, Três Corações, Lambari, Campanha, Carmo de Minas, Conceição do Rio Verde, Heliodora, Lambari, Soledade de Minas, Baependi, Cambuquira, Caxambu e Passa Quatro.
          Além das águas medicinais, são cidades acolhedoras, e boa parte dessas cidades, com boa estrutura para receber os visitantes, com rede hoteleira e gastronômica de qualidade, além de artesanato, cultura, arquitetura, tradições populares marcantes. Duas delas conta com passeios de trem, como o Trem das Águas de São Lourenço a Soledade e o Trem da Mantiqueira, em Passa Quatro.
          Das estâncias hidrominerais da Região Sul de Minas, destacamos três cidades com ótima boa estrutura e atrativos variados para receber os turistas. São Lourenço, Poços de Caldas e Pocinhos do Rio Verde, distrito de Caldas.
São Lourenço MG
          As águas termais de São Lourenço estão concentradas no charmoso Parque das Águas, formado pela Ilha dos Amores, um lago com 90 mil metros quadrados, área verde, construções com arquitetura eclética, lugares próprios para banhos, como os banhos turco, infravermelho e ultravioleta, além de saunas, locais para massagens e duchas. É no Parque das Águas que estão concentradas as fontes de águas gasosas, magnesianas, alcalinas, ferruginosas e sulfurosas. Todas com gases próprios, formados durante milhões de anos, pelas atividades vulcânicas extintas. (na foto acima, de Wilson Fortunato, a entrada da cidade e abaixo, do Rinaldo Almeida, o Parque das Águas)
          São Lourenço é uma cidade tranquila, com um rico artesanato, famosa por seus doces, licores, culinária típica e produção de roupas de lã. É uma cidade charmosa, com arquitetura variada, com traços coloniais, ecléticos e europeus, graças a presença de imigrantes, que vieram para região no início do século passado. A cidade é muito bem estruturada para receber turistas, com ótima rede hoteleira e gastronômica. Conta hoje com cerca de 48 mil habitantes, fazendo divisa com os municípios de Soledade de Minas, Carmo de Minas, Pouso Alto e São Sebastião do Rio Verde. Está a 400 km distante da Capital, com acesso pela BR-381.
Poços de Caldas MG
          Poços de Caldas é outra importante estância turística e hidromineral mineira. Situada a 1184 metros de altitude, a cidade está literalmente na “boca” de um vulcão extinto há milhões de anos. O acesso à cidade é pela BR-351, estando distante 451 km da capital, contando com cerca de 170 mil habitantes. Faz divisa com os municípios de Andradas, Bandeira do Sul, Caldas, Campestre, Botelhos e com os municípios paulistas de Águas da Prata, Divinolândia, Caconde e São Sebastião do Grama. (na foto acima do Luís Leite, a Rodoviária da cidade e abaixo, vista parcial de Poços, do Morro do Cristo)
          As águas que brotam das terras poços-caldenses são sulfurosas, radioativas, alcalino-sulfurosas-hipertermais, ferruginosas e radioativas. Diferente das outras estâncias hidrominerais, onde as águas se concentram em Parques, em Poços de Caldas as fontes são espalhadas na área central da cidade, em belíssimas e bem cuidadas praças. São nove fontes ao todo, com alguns chegando à superfície a 45 graus centígrados. 
          Para banhos, a fonte mais indicada é a Fonte Antônio Carlos (na foto acima de Thelmo Lins), que está dentro de um complexo arquitetônico construído nas primeiras décadas do século passado. Uma das mais belas arquiteturas do século XX, em Minas. Os banhos nessas águas ajudam a aliviar a tensão e desintoxicar o organismo. 
          Poços de Caldas vai muito além de suas águas medicinais. É uma das cidades mais desenvolvidas de Minas e uma das mais procuradas por turistas, principalmente, casais em lua de mel. A cidade inspira romantismo. (fotografia acima de Arnaldo Silva)
          Possui como atrativos a Praça Pedro Sanches, em frente ao Palace Cassino (na foto acima do Luis Leite), o Mercado Municipal, a Praça Dom Pedro II, onde está a Fonte dos Macacos, onde acontece todos os domingos, a Feira de Artes e Artesanatos, o Relógio Floral, a Fonte das Rosas, o Represa Bortolan, o teleférico, que leva os turistas ao Morro do Cristo, a 1.678 metros de altura.
          A cidade conta ainda com uma gastronomia típica, parques urbanos com cachoeiras, como a Cascata das Antas, das Andorinhas e do Véu da Noiva, a Fonte dos Amores, o Recanto Japonês, a bela Matriz de Nossa Senhora da Saúde, a sua charmosa rodoviária, suas festas religiosas, como as Congadas, seu portal de entrada (na foto acima do Luís Leite) e várias outras belezas urbanas. Sem contar a sua sofisticada e aconchegante rede hoteleira, sua rica gastronomia e seu valioso artesanato, principalmente artesanato em vidro, arte introduzida na cidade por imigrantes italianos, vindos da Ilha de Murano, no início do século passado.
Caldas MG e a Estância de Pocinhos do Rio Verde 
          Vizinha a Poços de Caldas, está Caldas, uma das mais antigas cidades do Sul de Minas, fundada em 27 de março de 1813. Inclusive, Poços de Caldas, era distrito de Caldas, antes de ser elevada à cidade emancipada. Caldas conta com cerca de 15 mil habitantes e está a 465 km, com acesso pela BR-381. Faz divisa com os municípios de Andradas, Poços de Caldas, Ibitiúra de Minas, Santa Rita de Caldas, Campestre e Bandeira do Sul.
          Caldas, sedia a Estação Experimental da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) (na foto acima de Erasmo Pereira/EPAMIG/Divulgação), com grande destaque na produção de vinhos finos, reconhecidos e premiados no Brasil exterior, nos últimos anos. Caldas tem tradição vinícola, desde a chegada dos imigrantes italianos à região, no início do século XX. A cidade realiza todos os anos, sempre na segunda quinzena de janeiro, a Festa da Uva.
          O grande atrativo de Caldas são suas águas medicinais, concentradas no distrito de Pocinhos do Rio Verde (na foto acima de Luís Leite), onde está também o Gran Hotel de Pocinhos.
          Construído na segunda metade do século XIX, em estilo colonial, é o mais antigo hotel em funcionamento no Brasil. (créditos da imagem acima e abaixo: Summit Concept Pocinhos/Divulgação) 
          Pelas dependências do Grande Hotel, passaram milhares de hóspedes, entre gente anônima ou famosa, que vindos de vários lugares do Brasil e do mundo, em busca de cura para suas enfermidades ou mesmo para descanso. Dentro do Grande Hotel, encontra-se o Livro de Ouro.
          É um livro, com relatos de turistas estrangeiros que se curaram de enfermidades, fazendo tratamento nas águas da Estância, como podem ver na foto acima (créditos da imagem:Summit Concept Pocinhos/Divulgação)
          Além do Grande Hotel, na bucólica Vila, encontra-se vinhedos e vinícolas por toda a parte, além de antigos prédios de vinícolas desativadas, com alguns transformados em bistrôs. Em Caldas e em Pocinhos, encontra-se cerca de 30 hotéis, pousadas e chalés, charmosos e tradicionais, a preços variados.
          Região de ar puro e belíssimas paisagens, Pocinhos do Rio Verde é procurada por turistas do mundo todo, em busca das propriedades medicinais de suas águas. Lugar ideal para quem deseja sossego e descanso. No Parque Balneário de Pocinhos o visitante pode desfrutar das três fontes de águas minerais, além de ducha circular, hidromassagem, sauna e banhos de imersão. (créditos da foto acima e abaixo: Summit Concept Pocinhos/Divulgação)
          Na região, as águas do Rio Verde e Rio Soberbo descem entre as montanhas e paisagens com Mata Atlântica, formando em seu percurso cascatas como a Cascata Antônio Monteiro e cachoeiras incríveis, como a Cachoeira da Rapadura e Cachoeira da Margarida, que forma poços de águas limpas, cristalinas e geladas. U um convite para relaxamento em dias quentes de verão. (na foto abaixo, com créditos a Summit Concept Pocinhos/Divulgação, um dos aconchegantes espaços do Gran Hotel de Pocinhos)
          Pocinhos do Rio Verde é um lugar charmoso, com um povo muito acolhedor. É no distrito que acontece nos quatro fins de semana do mês de julho a tradicional Festa do Biscoito. As receitas dos biscoitos saíram dos fornos das centenárias fazendas da região, para se tornar um dos mais tradicionais eventos gastronômicos do Estado de Minas Gerais. São receitas diversas de biscoitos de variados tipos, além de barracas com pratos típicos, doces tradicionais, queijos e vinhos finos, produzidos na estação da Epamig e vinícolas da região, além de eventos culturais e shows musicais.
          Agora é só escolher o roteiro e vivenciar a beleza, tranquilidade, sossego que as nossas estâncias hidrominerais oferecem, bem como os benefícios para a saúde, que as águas que brotam das terras mineiras, proporcionam.

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