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sábado, 16 de maio de 2020

O artista que pinta em enxadas

José Roberto de Paula, artisticamente conhecido como Zezim, nasceu no pequeno vilarejo de Cachoeirinha distrito de Ibertioga MG. 
O mais velho de quatro irmãos, teve sua infância e adolescência na roça de milho, feijão e cana de açúcar. Seus pais são agricultores e educaram as crianças com muita simplicidade e amor. Mas garotinho Zezé, como era chamado pelos familiares e pelo Antônio Francisco de Assis, era diferente. 
Antônio Francisco, apelidado de Candonga foi de muita importância no seguimento artístico de Zezim, este homem desenhava com carvão nas tábuas do paiol da casa da avó de Zezim, depois com seu afiado canivete esculpia o desenho feito na tábua, o menino observava aquilo, tinha imensa vontade de aprender aquela arte praticada por Candonga, grande contador de história para as crianças em volta de uma fogueira quentinha de inverno. 
As fazendinhas de gravetos em cerca, os bois de sabugos, as latinhas de sardinhas e as rodinhas feitas com as chupetas de bebes, embalavam a mente fértil do pequeno e magrinho menino. Mas Candonga era essa figura de arte que o menino se espelhava. 
Aos 17 anos o jovem menino inicia seus estudos, após longos anos trabalhando com o seu pai na roça. Na companhia do padre Túlio, da Paróquia de Santo Antônio na cidade de Ibertioga, em 1991 inicia a 5ª série e com mais sete anos de estudo sairia de Ibertioga em direção a Andrelândia, onde ingressaria no convento franciscano. Mas em sua temporada em Ibertioga fez algumas aulas de técnicas de arte com o famoso pintor Lourival Vargas. 
No seminário em Andrelândia o jovem José Roberto continuou suas pinturas em grão de arroz e pequenas pedras. Permaneceu nesta cidade por um ano. Seu novo destino seria Caçapava cidade do Estado de São Paulo. Em Caçapava já noviço franciscano, o jovem foi proibido de pintar para viver intensamente a vocação franciscana na qual sentia se verdadeiramente chamado.
Esse tempo de clausura só serviu para acordar o Zezim cujo nome foi criado pelo seminarista, na época, Ronaldo Trindade, hoje jornalista. Cada dia no Convento em Caçapava, Zezim guardava uma pedrinha para pintar quando saísse de lá. Seis meses depois estava em Barbacena, na UNIPAC, onde fez o curso de Letras por não ter a faculdade de artes visuais que era seu maior sonho. 
Produzindo a arte mini pinturas no grão de arroz, cabeça de alfinetes foi se tornando popular não só nos pequenos jornais da Universidade, mas também no jornal de sábado da cidade. Até a TV Panorama chegou para fazer uma matéria. Em uma exposição, na festa das rosas da cidade de Barbacena, encontra Alam, guia turístico de Juiz de Fora que fica encantado com a enxada pintada que estava na exposição.
Essa peça Zezim não vendeu, alegava que aquela tinha sido sua primeira caneta, caneta que lhe trouxe uma graduação e que muito lhe ensinou sobre a vida. Alam entendeu isso e incentivou Zezim a pintar mais enxadas e fez-lhe duas encomendas de enxadas pintadas. 
Aqui nasce a febre pelas enxadas, e o melhor Zezim percebeu que a enxada seria suas telas para contarem as histórias da roça. Até hoje brinco, essa que aposentou muitos agricultores, depois de tanto trabalhar e não ganhar nada em troca, a não ser alguns dentes e a ferrugem que as destroem, não serão jogadas fora, ou vendidas por miseráveis centavos ao ferro velho, aquelas que eu encontrar ou ver, ganharam um lugar na parede, ou na mesa de pessoas que de fato reconhecem seu valor. 
Assim me tornei o pintor das enxadas que contam a historia dos agricultores e a vida da roça. Elas são folhas de um grande livro que escrevo com tinta a óleo, conto minhas lembranças de criança, a felicidade que vivi, as dores que senti, os sonhos que se tornaram realidade. Sou de Cachoeirinha, vivo em Barbacena, mas todo final de semana estou aqui no Chalezinho do Artista, criando e pintando. Contatos: Facebook: José Roberto Paula, WhatsApp: 32 999038719, Instagram: @ joserobrtopaula. Página José Roberto Paula. Enxadas artísticas.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Os queijos da Serra do Salitre

(Por Arnaldo Silva) Serra do Salitre é um município mineiro, distante 368 km de Belo Horizonte, na região do Alto Paranaíba. Tem cerca de 12 mil habitantes e faz divisa com os municípios de Patos de Minas, Cruzeiro da Fortaleza, Patrocínio, Ibiá, Perdizes, Rio Paranaíba e Carmo do Paranaíba. 
Serra do Salitre se destaca nacionalmente na produção de café, considerado um dos melhores do Brasil e exportado para o exterior, através da Cooxupé. Destaca ainda a produção de batata, soja, milho, feijão e produção leiteira. 
O clima da região é diferente, seu solo é rico em salitre, um nitrato de potássio usado na produção de fertilizantes, na indústria alimentícia em carnes defumadas e embutidas, para evitar a proliferação da bactéria causadora do botulismo, para realçar a cor e o sabor dos alimentos e também usado na fabricação de pólvora. 
A Serra do Salitre está a 1220 metros de altitude. Seu clima, solo rio e sua altitude são os fatores responsáveis pela identidade de um dos principais produtos do município: os queijos, considerados um dos melhores de Minas e do Brasil. Pelos fatores climáticos e por sua flora bacteriana ser única, os queijos da Serra do Salitre tem um sabor exclusivo e único e não se compara a nenhum outro tipo de queijo, como por exemplo, o Canastra. São queijos diferentes, com sabores, e texturas diferentes. Queijo feito na Serra do Salitre é único em sabor, não tem outro igual em lugar algum em Minas, seja Brasil e em qualquer outro país do mundo. É um dos poucos queijos no mundo que tem identidade própria. 
Por isso os queijos da Serra do Salitre se destacam a cada ano, com várias e seguidas premiações estaduais, nacionais e internacionais. Um dos queijos que se destaca na região é o produzido pela família do produtor rural João José Melo, produtor de queijos desde 2004, que deu sequência a tradição da família. Além do conhecimento adquirido com a família, “Seu” João, como é conhecido, foi o segundo produtor de queijos de Minas Gerais a ter o Certifica Minas, concedido pelo Governo de Minas Gerais aos produtores artesanais de queijos, reconhecidos pela qualidade de seus produtos.
 O produtor conhece bem a fundo o mundo dos queijos, procurando conhecer as diversas técnicas usadas na produção de queijos mundo tendo representado o Brasil na Itália, na Slow Food, bem como viajou a França em 2010 para conhecer a cadeia produtiva do queijo francês e participando ainda de vários concursos de queijos no Brasil e no exterior. 
Tradicionalmente queijeira, o queijo está presente na família Melo há quatro gerações, sendo produzido na Fazenda Pavão, de propriedade da família, uma média de 100 peças de queijos de leite cru por dia. O rebanho da Fazenda Pavão é composto por vacas Girolando, alimentado a pasto no período das águas e com silagem, caso necessário, no período da estiagem.
 Os queijos produzidos na Fazenda Pavão são especiais e se destacam pela baixa acidez, sabor suave e massa cremosa, ficando mais firme com o tempo de maturação que pode variar de 20 dias a quatro meses. São produzidos queijo branco, meia cura natural e o Imperial Premium. O queijo mais vendido e procurado produzido na Fazenda Pavão é o Queijo Imperial Serra do Salitre Ouro. Esse queijo é feito com leite cru e cada peça pesa entre 900 gramas a 1,2 KG. Nesse queijo é usada uma técnica de impermeabilização de queijos, comum na Europa, com aplicação de resina alimentar. A resina confere uma característica peculiar ao queijo, cuja casca fica com a coloração amarela, preta ou vermelha, dependendo da cor da resina usada. 
Para obter essa coloração é usada uma resina comestível. Essa resina é própria para uso em queijos e seu uso é autorizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
 A resina é aplicada com a ajuda de um pincel, em todo o queijo. Sua função é simplesmente proteger o queijo da formação de colônias de fungos e bactérias durante o processo de maturação, preservar a cor natural e diminuir a perda da umidade do queijo. As resinas não interferem no sabor do queijo, ao contrário, preserva seu sabor original. Após sua aplicação são mais ou menos 15 a 20 dias para que a camada de resina se forme. 
Embora seja comestível, recomenda-se na hora que for comer o queijo, retirar a resina, já que serve apenas para proteger o queijo. 
O contato do “Seu” João Melo para mais informações e aquisição do queijo pode ser feito pelo Whatsapp: 34 99961-2284
(as fotografias da reportagem foram enviadas pelo "Seu" João Melo)

terça-feira, 5 de maio de 2020

As plantações de rosas em Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) As rosas não falam, mas conquistam corações. São flores admiradas no mundo inteiro. Seu perfume, sua delicadeza, sua beleza encantam e emocionam. (na foto abaixo, de Guilherme Augusto/@mikethor, fazenda de rosas em Andradas MG)
          Qual mulher não gosta de receber rosas? Poucas podem dizer que nunca foi presenteada com pelo menos uma rosa sequer na vida. Símbolo da paixão, da conquista e do amor, as rosas fazem toda a diferença em ocasiões especiais, seja como presente de aniversário, de casamento, numa conquista ou mesmo, como forma de pedir perdão. O homem romântico, que busca alegrar, agradar e conquistar sua amada todos os dias, prefere oferecer flores como presente, rosas, principalmente. Presentear alguém com rosas, é mostrar que a pessoa que as recebe, é especial. 
          Existem milhares de flores no mundo, com cheiros, perfumes e cores variadas, mas as rosas são as flores mais populares. Em qualquer arranjo floral, decoração de festas ou ambiente, dificilmente as rosas não estão presentes. Até mesmo na hora da dor da perda de um ente querido, essas flores estão presentes. O perfume das rosas suaviza a dor desse momento. 
          Rosas estão presentes na humanidade, da forma que conhecemos, há mais de cinco mil anos. Pertencendo a família Rosaceae e ao gênero Rosa L, são mais de 100 espécies de rosas existentes no mundo, em sua forma natural e outros milhares de espécies com cores que variam do negro, verde, azul, cinza, e até coloridas, obtidas através de cruzamentos híbridos e cultivares. 
          Uma simples rosa faz sorrir, um buquê pode derramar lágrimas de emoção, mas qual a emoção traria uma fazenda inteira só de rosas, aos milhares de várias cores, tamanhos e perfumes? Já imaginou?
          Sim, existem fazendas de rosas e ficam em Minas Gerais. O estado mineiro é o segundo maior produtor em área plantada de flores do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo. Nossas flores abastecem o mercado interno, brasileiro e exportadas para outros países, no caso, as rosas produzidas em Barbacena MG. 
          Além das flores ornamentais, em Minas Gerais, são produzidas ainda flores comestíveis como a capuchinha, o amor-perfeito e a calêndula, destacando essa produção na cidade de São João Del Rei MG, (na foto acima de Kiko Neto) no Campo das Vertentes. 
          Já em Santa Luzia, no Mosteiro de Macaúbas (na foto acima de Thelmo Lins), as freiras enclausuradas do mosteiro, produzem vinhos feitos com pétalas de rosas, tradição preservada á mais de 300 anos. É o famoso Vinho de Rosas de Macaúbas, tinto suave ou seco fino.
          As fazendas de rosas mineiras estão concentradas em Andradas, no Sul de Minas e em Barbacena e cidades em seu entorno, no Campo das Vertentes. São fazendas que plantam em larga escala, colhem e comercializam essas flores, gerando empregos, renda e impostos.
Rosas em Andradas MG
          A charmosa e atraente cidade de Andradas (na foto acima de Alexandre Pastre), distante 463 km de Belo Horizonte, na divisa com os municípios de Poços de Caldas, Caldas, Ibitiura de Minas, Santa Rita de Caldas, Ouro Fino, Jacutinga e Albertina, é conhecida por suas belezas naturais e como a Terra do Vinho, tradição que surgiu na cidade no início do século XX, com a chegada de imigrantes italianos. As vinícolas da cidade produzem vinhos finos, de qualidade. Em Andradas também se produz cafés especiais e azeites, tendo o Azeite Borriello, premiado e reconhecido no Brasil e no mundo pela sua qualidade, sendo comparado às melhores marcas dos azeites europeus. 
           Outro destaque que pouca gente conhece, é que em Andradas existem várias fazendas de rosas (na foto acima, de Guilherme Augusto/@mikethor, uma dessas fazendas), plantadas em dezenas de hectares por vários produtores de rosas, organizados na Associação dos Produtores de Flores e Plantas em Cultivo Protegido da Serra de Andradas e Região (ANDRAFLORES). São cultivados cerca de 29 variedades de rosas, da linhagem europeia, nas terras do município e nas cidades próximas. As rosas vermelhas, brancas e amarelas se destacam nas fazendas da Serra de Andradas e região, com tendência de crescimento a cada ano, já que rosas são especiais, sempre presente na vida das pessoas e é um presente muito lembrado em dias especiais como Dia das Mães e dos Namorados.
As rosas de Barbacena
          As rosas fazem parte da cultura de Barbacena desde meados do século XX (fotografia acima de Wagner Rocha). O município é um dos mais antigos importantes de Minas Gerais e faz parte da história do Brasil. Hoje, Barbacena é conhecida como a “Capital das Rosas”. São vários produtores de rosas, cultivando dezenas de variedades da flor, tanto em Barbacena, quantos nas cidades vizinhas, como Alfredo Vasconcelos MG.
          A rosa é tão importante para Barbacena que todos os anos, geralmente no mês de setembro, acontece na cidade a Festa das Rosas, tradição desde 1968. A Festa das Rosas de Barbacena é hoje um dos principais eventos de Minas Gerais, atraindo gente de todo o país e também do mundo, para conhecer as rosas e a festa em si, que é cheia de atrações como estandes de flores, shows musicais, comidas típicas, desfiles, baile de gala onde acontece a eleição da Rainha das Rosas, Brotos e Brotinhos de Rosas, com desfile das eleitas e de todas as candidatas pelas ruas das cidades em carros todos decorados com as flores.
A simbologia das rosas
          Especiais, apaixonantes, perfumosas, as rosas compõem o imaginário das pessoas, sempre voltada para o bem estar, alegria, felicidade, amor e suavidade. Veja as principais rosas que existem, são centenas de espécies e sua simbologia, adquirida ao longo os milênios, não dá para colocar todas, mas essas são as mais comuns e populares. 
· Rosas vermelhas: paixão, amor, respeito, adoração.
· Rosas vermelhas com amarelas: felicidade .
· Rosas amarelas: diz-se que podem significar amor por alguém que está a morrer, ou um amor platônico, ou amizade.
· Rosas brancas: reverência, segredo, inocência, pureza e paz.
· Rosas cor-de-rosa: gratidão, agradecimento, o feminino (muitas vezes aparece simbolizando o útero em algumas culturas).
· Rosas vermelhas com brancas: harmonia, unidade.
· Rosas laranja: entusiasmo e desejo.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Cordisburgo: a cidade do coração

(Por Arnaldo Silva) Com menos de 10 mil habitantes, Cordisburgo, na Região Central Mineira, a 120 km de Belo Horizonte, é uma cidade de grande importância para a história e cultura de Minas Gerais, já que foi em Cordisburgo que nasceu o escritor, médico, diplomata, contista, novelista, romancista João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de julho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 19670), considerado um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. 
          A cidade reconhece e valoriza a obra de seu ilustre filho, homenageado em com o portal "Grande Sertão Veredas", obra de autoria do artista Leo Santana. Em tamanho natural, o monumento feito em bronze é composto por seis cavaleiros montados em seu cavalo, entre eles, o próprio Guimarães Rosa, em pé e um cachorro. Os cavaleiros são emoldurados por um pórtico de chapa de aço.
          O nome do município vem junção da palavra Cordis, do latim, que significa coração e burgo, palavra da língua alemã, que significa cidade. Ou seja, Cordisburgo significa “Cidade do Coração”. Sua origem começa no século XIX com a formação de um pequeno arraial em 1883 a partir da chegada à região do padre João de Santo Antônio. O povoado cresceu e foi reconhecido como distrito entre 1890/1891 com o nome de Cordisburgo da Vista Alegre e por fim, emancipada em 23 de dezembro de 1938, adotando o nome de Cordisburgo. O município faz divisa com Curvelo, Araçaí, Paraopeba e Santana de Pirapama.
A cidade é cidade pacata, aconchegante, charmosa e com atrativos turísticos, naturais e arquitetônicos impressionantes, belas praças, igrejas singelas como a Capela de São José que vê abaixo e outros atrativos, mostrados na sequência.
Pontos turísticos de Cordisburgo
Matriz do Sagrado Coração de Jesus
          A Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus é um dos destaques de Cordisburgo por sua beleza arquitetônica, tanto interior, quanto no exterior e pela bela praça e casario, que compõem o conjunto da Matriz. 
          A arquitetura da igreja foi inspirada no ecletismo, um estilo arquitetônico que surgiu na Europa no final do século XIX, cuja ideia principal era combinar os principais elementos da arquitetura medieval, clássica, renascentistas, barroca e neoclássica num só estilo. O ecletismo influenciou a arquitetura em todo o mundo. Posteriormente, este estilo sofreu grande influência da Art Déco, que também surgiu na Europa, em 1910. Esse estilo abrangia não apenas a arquitetura, mas as artes visuais, moda, pinturas, design, etc., combinando estilos modernistas com o estilo eclético, surgindo uma arte diferente e moderna, para a época. O Ecletismo e Art Déco foram os principais estilos para as novas construções no mundo, principalmente de templos religiosos, até meados do século XX, quando estes estilos predominavam na arquitetura e artes visuais.
          No Brasil, boa parte dos templos construídos no início do século XX foi em estilo eclético ou eclético e Art Déco junto. Um desses templos é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, cujas linhas arquitetônicas têm a influência do ecletismo e Art Déco em seus traçados, principalmente na parte exterior frontal e em seu interior, destacando o piso em ladrilho hidráulico, na iluminação com luminárias verticais, uma das marcas do ecletismo e nas janelas e vitrais.
Casa de Guimarães Rosa
          A casa em que nasceu Guimarães Rosa foi transformada em museu em 1974, dedicado à vida e obra do famoso escritor brasileiro, bem como mostra como era a vida, os móveis, os utensílios domésticos, as vendas, roupas do início do século passado e outros objetos que pertenciam à família do escritor de “O Grande Sertão Veredas”. 
          É uma típica casa do interior mineiro do início do século XX, bem preservada e com história em cada detalhe, bem como a venda do pai de Guimarães Rosa, que funcionou até 1923. Tudo original com uma imensa riqueza cultural e histórica.
Zoológico de Pedras Peter Lund
          A Praça Peter Lund é um atrativo interessante de Cordisburgo. Têm bancos, coreto, jardins, árvores, mas um toque especial mestre de obras e escultor Stamar de Azevedo Júnior, o popular Tazico, transformou a praça num dos grandes atrativos da região.
          O escultor esculpiu estátuas de animais do período Pleistoceno, usando telas, areia e cimento. Esses animais foram identificados pelo dinamarquês Peter Lund, que encontrou fósseis de várias espécies de animais que viveram na região há centenas de milhares de anos Dentre essas espécies estão a Preguiça-gigante, o Tigre-dente-de-sabre, o Toxodante, a Preguiça-pequena, o Tatu-gigante e o Mastodonte. Por isso a praça passou a ser chamada popularmente de Zoológico de Pedras.
Casa do Elefante
          Outra grande obra do Stamar, que pode ser vista logo na entrada da cidade, é a Casa do Elefante. Com 8,5 metros de altura e 12 metros de largura foi construída em estrutura de ferro, tijolo e cimento. A casa replica um elefante com detalhes artísticos nas unhas, pintadas de bege, cílios de arame, olhos de acrílico, dentes feitos com ferro, gesso, fibra e papelão. Da tromba, jorra água que rega um pequeno jardim com uma flor que representa, para os budistas, a pureza espiritual, a flor de lótus. 
          A obra, custeada com recursos próprios do escultor, foi inspirada na deusa hindu Lakshmin, que representa vitória e sucesso, representado na figura de uma elefanta e não de um elefante. Seria então a Casa da Elefanta, mas popularizou-se como Casa do Elefante e assim é chamada. A elefanta é ornamentada de acordo com as tradições indianas.
Gruta do Maquiné
           É uma das principais grutas do Brasil, considerada como o berço da paleontologia brasileira e uma das mais belas do mundo. Foi descoberta em 1825 pelo fazendeiro Joaquim Maria Maquiné, por isso o nome. O cientista e naturalista dinamarquês, Peter Wilhelm Lund, passou a estudar e pesquisar a gruta a partir de 1834. A Gruta de Maquiné (foto acima de Fernando Campanella)  tem 650 metros de galerias e sete salões que são o Salão do Vestíbulo, o Salão das Colunas, do Trono, do Carneiro, dos Lagos, das Fadas e do Dr. Lund, todos devidamente iluminados e com passarelas, que permitem aos visitantes conhecerem a gruta. A visita é acompanhada por guias especializados. Na gruta existem pinturas rupestres e formações rochosas impressionantes.
O Arraial do Conto
          O casario, a cozinha, a capela e os traçados das ruelas do Arraial do Conto foram inspirados nas construções do barroco mineiro dos séculos XVIII e XIX. Lembra perfeitamente uma típica vila colonial com ruas calçadas em pé-de-moleque, casas e casarões em estilo colonial, cozinha tradicional, com fogão a lenha de onde saem os tradicionais pratos da culinária mineira e ainda, uma charmosa capela com traços arquitetônicos das antigas igrejas do interior mineiro, dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
No Arraial do Conto podemos encontrar um alambique tradicional que produz a autêntica cachaça mineira, passeios de charretes, um enorme galpão que lembra as antigas fábricas de tecidos da região, bem como a Venda do Emídio, uma autêntica e impressionante réplica das antigas vendas mineiras, em todos os seus detalhes. 
          Lugar charmoso, aconchegante, com uma tranquilidade e sossego impressionante! Esse lugar que mais parece um sonho é um hotel e fica na zona rural de Cordisburgo. Rodeado por exuberante paisagem, o Arraial do Conto mostra de forma viva e concreta, a cultura mineira em sua arquitetura, religiosidade, tradição e culinária.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A menina da roça e a panelinha preta

(Por Maria Mineira) Demorou, mas finalmente a família se mudou para a cidade e o sonho de ir para a escola, se realizaria! Caderno e lápis no embornalzinho feito no tear da avó. Rosto emoldurado por duas tranças, chinelos havaianas, um pé de cada cor...Assim, aquela menina tímida adentrou o portão do Grupo Escolar pela primeira vez.
          Receosa, sob os olhares de dezenas de crianças, muitas iguais a ela, mas outras calçadas com sapatos de verniz preto e meias brancas. Ao perceber que era alvo de cochichos e risos, encolheu-se feito bichinho do mato. O sinal tocou avisando que a aula começaria...
          De volta à casa, pergunta à mãe:
— Mãe, gente que vem da roça é tudo bobo?
—"Não, minha fia, nóis é tudo igual, tanto faiz nascê na roça ou na cidade, é todo mundo fi de Deus..."
— É qui os minino da escola dissero que eu sou boba e feia e qui num tenho sapato. Ês falaro qui num qué rocêra lá, não.
          A mãe passou a mão nos olhos tentando socorrer a tempo, uma lágrima teimosa que começava rolar...
          Maria, desde que se mudara para a cidade levava almoço até onde o pai trabalhava. O cardápio era sempre o mesmo: arroz com feijão, carregados numa panelinha de ferro, pois na casa faltava uma marmita de alumínio.
          De pés no chão e vestido de chita, ia satisfeita pelas ruas poeirentas, que na época não eram calçadas. Seu sossego teve fim quando em uma rua deserta, quatro meninas maiores e muito bem vestidas se aproximaram:
— Olha só, se não é a bobinha da roça que entrou na escola!
— Ieu tô levano armoço pro meu pai... Ocêis qué, o quê?
— Queremos ver o que tem nessa panelinha preta de carvão!
— Uai, é cumê , igual todo mundo come.
— Aposto que só tem arroz com feijão, porque você é pobre e gente pobre de roça, come só isso.
— Num vô contá e nem mostrá procêis o qui tem aqui, não!
— Então, vamos tomar sua panelinha à força!
          Maria era ágil, acostumada a correr pelos campos, foi fácil se adiantar, escapulindo das meninas. A partir desse dia, sua vida virou um tormento. Inúmeras vezes chegou ao trabalho do pai, suada de tanto correr e ele reclamava do almoço frio e revirado na panela. Houve dias em que Maria tropeçou, deixando a panela cair entornando todo o conteúdo, o que lhe rendeu umas boas chineladas. Mas nunca teve coragem de contar a ninguém, pois ameaçavam bater também em seus irmãos menores, caso ela contasse.
          Acreditava em anjos da Guarda, desde que seu avô lhe dissera que toda criança tem um anjo que a protege dos perigos. Toda noite pedia ao seu anjo Benedito, (ela o batizara assim).
— Dito, ajuda eu a corrê munto! Ajuda eu a num trupicá! Ajuda eu a num dirrubá o armoço do pai! Dito, protege eu sempre. Amém!
          Um dia, a mãe de Maria foi ajudar numa festa em homenagem aos santos Cosme e Damião, onde seria oferecida uma mesa farta à crianças menores de sete anos. Evento muito comum naquele tempo, denominado “Mesa dos Inocentes”. Era um verdadeiro banquete que acabava virando festa para várias famílias.
          A menina brincava com as outras crianças, quando a mãe lhe entregou a velha panelinha preta para levar o almoço do pai. Esse dia, ela estava cansada, pois havia acordado cedinho para tomar conta dos irmãos menores.
          Na rua, antes que pudesse correr, foi cercada pelas famigeradas meninas. Nesse dia, não teve como fugir. Por mais que pedisse, não tiveram piedade e aos arrancos lhe tomaram a panela das mãos.
— Hoje vamos ver o arroz com feijão que a Jequinha leva pro pai dela!
— Anda logo! Vamos derramar tudo no chão de uma vez!
Impotente, Maria chorou... Prevendo a vergonha que ia passar dali em diante, depois que o assunto se espalhasse na escola. Todos saberiam que em casa comiam praticamente só arroz com feijão.
          Enquanto duas meninas seguravam-na pelos braços, outra abriu a panela e olhou... Rosto corado e sem graça, a menina da cidade saiu devagar sem dizer palavra. As outras após virem o conteúdo da panelinha, se foram mudas e sem olharem para trás...
          Maria levantou-se do chão, sem entender o que havia acontecido. Retirou a tampa e qual não foi sua surpresa quando viu lá dentro: arroz, feijão tropeiro, macarronada, batatas, salada e um grande pedaço de lombo assado.
          Limpou as lágrimas com as mãozinhas sujas de poeira da rua, na inocência seus nove anos de idade, olhou para o céu e disse:
— Dito, brigada, purque hoje ocê, colocou cumê bão na panela do pai.
          O tempo passou... aquela menina cresceu e nunca perguntou à mãe se foi ela quem abasteceu a panelinha com as comidas da festa de Cosme e Damião. Desconfio que acredita em anjos, até hoje...
(História real vivida por Maria Mineira, professora e escritora em São Roque de Minas)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Detalhes tão pequenos de uma vida

(Por Maria Mineira) Conservo na pele, algumas cicatrizes dos tombos e arranhões que machucaram a menina de roça que fui e acho que ainda sou, na alma, pelo menos...
          Era tarefa minha, recolher gravetos para acender o fogão e esquentar no grande caldeirão, a água para o banho de bacia dos irmãos menores. Eu não gostava de catar lenha; costumava espinhar o pé, me arranhava toda, andando no mato.
          Várias vezes subi nas árvores para ficar mais perto de Deus e pedir uma vida melhor. Hoje, vejo que as marcas na pele são insignificantes quando me lembro daquele tempo...
          O fogão à lenha da cozinha de meus avós era de cimentado de cor vermelha. O que ficava na varandinha era barreado com tabatinga, tinha em cima um bule esmaltado com desenho de um ramo de flores. O fogo sempre aceso, aliás o ato de se acender fogo era uma arte.
          A vassourinha não deixava o fogão sujo de cinzas. Minha avó aproveitava a cinza para fazer barrela, que facilitava a limpeza das panelas e a diquada — um caldo marrom extraído das cinzas — era usada para fazer sabão preto de bola, que ficava guardado debaixo do fogão para não melar.
          As escritas das latas de mantimento despertavam minha curiosidade. Pedia a mamãe que lesse o que estava escrito e ela dizia que as bolachas tinham meu nome, “Bolachas Maria.”
As prateleiras eram forradas com toalhinhas bordadas à mão, ainda do enxoval. Os panôs na parede com dizeres escritos com linhas e agulha, o banco com as latas de querosene, guardavam a carne de porco, o bucho recheado, latas de biscoito de polvilho, de farinha de milho, de mandioca, de moinho... Tudo muito limpo e asseado!
          A banquinha com os dois potes de barro conservavam a água sempre fresquinha. Os potes eram cobertos com toalhinhas redondas de renda turca ou crochê. Sem esquecer a caneca boca-dentada, destinada a tirar a água estrategicamente feita para as crianças não colocá-la na boca e assim “babujar” a água.
          As toalhas de banho, os panos de prato, feitos com sacos de sal ou açúcar alvejados e arrematados com franjas torcidas. Os embornais, com retalhos das calças de brim ou tergal. Hoje seriam chamados hoje, de sacolas ecológicas em patchwork.
          A mesa da cozinha com garrafas de pimenta, farinheiro e moinho para moer o café torrado a cada vez que era coado, sempre adoçado com as rapaduras guardadas numa tábua acima do fogão.
          As gamelas, os balainhos, jacás, canudos para transportar galinha, o tacho de cobre comprado da tropa de ciganos, a cestinha de ovos, feita de litro, parecida com lanterna japonesa. As lamparinas que iluminavam as noites e nos faziam amanhecer com o nariz cheio de fuligem. As colheres de ferro encomendadas ao senhor Rodantino, um artesão, salvador da pátria, o faz tudo, conserta tudo. Obrigada, Seu Rodantino, onde estiver...
          E o alpendre? Se tinha uma caixa de marimbondo ninguém mexia, pois trazia prosperidade, era bom. Inesquecíveis os mistérios do “isso faz mal”. Era costume colar na porta de entrada, uma oração forte como, por exemplo, a da Estrela do Céu. Pregava-se também o calendário, a Folhinha Eclesiástica, que trazia a previsão do tempo, para o ano inteiro, os nomes dos santos dos 365 dias do ano. Foi a Folhinha Mariana que serviu de inspiração para meus pais me batizarem de Maria do Carmo, pois dia 16 de julho: Nossa Senhora do Carmo — a folhinha era brinde da loja do senhor Edgar Matos.
          Os almanaques de farmácia, meu avô colecionava o “Almanaque Fontoura”, brinde muito aguardado, pois trazia informações, curiosidades e passatempos. Infelizmente não foram preservados e hoje não tenho o prazer da leitura, de observar as ilustrações.
          Os compridos jiraus branquinhos de blocos de polvilho para isbrugá. Ou melhor dizer, esfarelar e secar ao sol. O feijão para bater, pegar a roupa do coradouro, levar o doce de manga para a cristaleira. Lavar a casinha de queijo, dar milho às galinhas, coisa que eu mais gostava, sempre havia um bando de galinhas, patos, angolas, perus me acompanhando quando me viam no terreiro, pois eu carregava uma espiga de milho. Outas tarefas eram: procurar o olho das formigas cortadeiras dos pés de rosa, regar o pé de jasmim, sem esquecer de jogar água nos penicos onde se plantava flor-de-maio e malva cheirosa. Após construírem a “casinha”, os penicos esmaltados serviram para plantar flores.
          Minha avó Geralda era adepta dos chás. Sabia fazer chá para curar de um a tudo. Havia uma horta de couve que era cortada por um rego d’água, para facilitar na hora de aguar as hortaliças, que cresciam viçosas. Eu e os irmãos ajudávamos no plantio do alho, plantado religiosamente na Sexta-Feira da Paixão, da alface e do quiabo. Quiabo só podia ser semeado por crianças, para o pé não ficar muito e produzir rápido.
          Aprendi a rezar o terço ainda menina e acompanhava vovô Joãozinho nas rezas em torno do oratório de madeira, decorado com os santos de devoção da família. Nas novenas, unidos, os vizinhos rezavam apertando as contas do rosário com fé, pedindo e agradecendo as bênçãos do céu.
          Era costume guardar as folhagens benzidas no Domingo de Ramos e quando se via o clarão seguido daquele ronco de trovão, ecoando no cinza escuro do céu, recorríamos aos ramos bentos, enquanto com as mãos postas pedíamos socorro aos santos das tempestades:
          – Santa Bárbara, São Jerônimo, valei-nos!
          À noite, nos reuníamos na cozinha para contar muitos causos, acompanhados de café com quitandas e muitas risadas. Naquele tempo não se usava a palavra serão ou hora extra, apenas se combinava para descascar mandioca à noite, depois da lida diária.    A vizinhança se ajuntava para ajudar e todo o trabalho era para se produzir a farinha ou polvilho no outro dia cedinho.
          Sei que hoje em dia é preciso de muito mais que brasas para aquecer o caldeirão onde moram os sonhos, é necessário mais que rapaduras para adoçar uma vida. Mas quem viveu algo parecido sabe que essas lembranças são preciosas. Nem o tempo vai conseguir esfriar o calor da chama do fogão à lenha da nossa memória.
*As fotos ilustram um pouco da minha história... Maria Mineira, professora e escritora em São Roque de Minas

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