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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Alagoa e a centenária receita de seu queijo

(Por Arnaldo Silva) Alagoa é uma cidade charmosa, elegante, tradicional, aconchegante e de um povo gentil e hospitaleiro. São pouco mais de 2700 mil habitantes, que vivem do pequeno comércio, da prestação de serviços, da pequena indústria como laticínios, produção de azeite de oliva e queijarias artesanais, além da agropecuária. O município fica no Sul de Minas, a 1132 metros de altitude, no alto da Serra da Mantiqueira. Faz divisa com os municípios de Itamonte, Aiuruoca, Baependi e Bocaina de Minas, estando distante 420 km da capital. Para chegar à cidade, a opção é pela estrada que vem de Itamonte ou por Aiuruoca. (foto abaixo enviada pelo Osvaldo Filho do Queijo D´Alagoa) 
          Embora seja um dos menores municípios de Minas, em número de habitantes, Alagoa é uma das mais antigas povoações mineiras, tendo sua história iniciada em 1710, no século XVII, com a chegada de bandeirantes em busca de ouro. Quando os bandeirantes chegaram à região, encontraram uma enorme lagoa com cerca de 3 km de extensão e ainda, em seu leito, tinha o tão procurado metal, o ouro. A lagoa não tinha nome, era chamada apenas de “a lagoa”. A busca desenfreada pela retirada do ouro foi tão intensa, que da lagoa nada existe. Sobrou apenas o nome pela qual era chamada, “a lagoa” que passou a ser o da cidade, juntando o “a” com “lagoa, ficando, Alagoa, elevada à cidade emancipada em 28 de dezembro de 1962. (foto abaixo enviada pelo Rafael Faria, da queijaria Sítio do Morro)
          A cidade preserva a religiosidade, a cultura, a gastronomia, história e tradições de Minas. Seus moradores tem hábitos tipicamente mineiros. Todos se conhecem e boa parte, tem algum tipo de parentesco. Visita que chega vai logo pra cozinha, tomar café, comer pão de queijo e biscoitos assados no forno do fogão a lenha, tomar aquele café coado em coador de pano e claro, comer queijo.

          Casario colonial bem preservado, ruas calçadas com paralelepípedos. Os poucos carros que circulam em suas estreitas ruas, dividem espaço com as tradicionais charretes ou pessoas montadas em cavalo, pela cidade. Em Alagoa, os dias da semana parecem com os domingos. Dias calmos, sossegados, e tranquilos, rompidos apenas pelo barulho dos sinos da Matriz. (fotografia acima e abaixo de autoria de Marlon Arantes)
          Cidades assim, geralmente passam despercebidas, mas Alagoa é diferente, por um detalhe que a torna famosa e conhecida em Minas, no Brasil e no mundo inteiro: o seu queijo, cuja receita é preservada há mais de 100 anos. Um queijo especial, de sabor único, só encontrado no município e em nenhum outro lugar. 
          No final do século XIX e início do século XX, chegaram ao Brasil centenas de milhares de imigrantes europeus. Alguns desses imigrantes, em especial, dinamarqueses e italianos, vieram para o Sul de Minas.
          Entre esses imigrantes, chegou a Alagoa, Paschoal Poppa, com sua esposa Luiza Altomare Poppa. De origem familiar queijeira, o casal conhecia muito bem a arte de fazer queijos. Perceberam a semelhança do clima das montanhas da Mantiqueira, a qualidade da água e da terra, que permitia uma pastagem de qualidade, além da geologia e da altitude, com as terras italianas. Semelhanças essas que, aliada aos conhecimentos dos italianos sobre a produção de queijos e vontade de, literalmente, pôr a mão na massa, são fatores primordiais para se produzir queijos de qualidade.
          Poppa começou a desenvolver sua receita, inspirada no queijo Parmesão, de Parma, na Itália. Embora tenha percebido semelhanças com o clima italiano, há uma grande diferença entre semelhança e ser igual. Isso porque, em se tratando de queijos, o que define a qualidade, aparência, cor, textura e sabor dos queijos, além da pastagem, manejo de gado, clima e qualidade da água, são as bactérias benéficas presentes no leite e os fungos que se formam durante a maturação e não propriamente dito, uma receita. (na foto abaixo, enviada pelo produtor Renato, a Fazenda Bela Vista, onde se produz o queijo Bela Vista)
          Queijo é um alimento vivo e cada região tem bactérias e fungos lácteos próprios, sendo formados de acordo com as características climáticas da região, bem como a qualidade e manejo do gado. Não é receita que dá textura, cor, característica, aparência e sabor aos queijos e sim bactérias e fungos, formadas durante o preparado e maturação dos queijos.
          Por esse motivo que o queijo feito em Alagoa é o Queijo de Alagoa, com identidade, peculiaridade, com características únicas e próprias, porque as bactérias e fungos presentes nesse queijo, são características de Alagoa, presentes nesta região somente e em nenhuma outra região, por isso é queijo é único.
          Com sua receita, Poppa começou com uma pequena queijaria. em sua propriedade. O negócio foi crescendo, o queijo foi caindo no gosto dos moradores da região. Em parceria como o produtor rural João Luís da Fonseca, construiu três laticínios no município, aumentando a produção e abrindo novos mercados na região, bem como tornando o queijo popular, atraindo o interesse de outros produtores em produzir queijos. Poppa passou sua receita para Gumercindo Ferreira Pinto, que ensinou a seus filhos, passando de pai para filho, de laticínio para laticínio, de família para família, até os dias de hoje. O mesmo aconteceu com outras famílias, que aprenderam a receita de Paschoal Poppa e começaram a fazer queijos e continuam até hoje.
          Aos poucos o Queijo Artesanal de Alagoa foi saindo das divisas alagoense e alcançando outras cidades da região, inclusive cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, na divisa com Minas Gerais. No início, os queijos eram levados por tropeiros, em lombos de burros, cortando a Serra da Mantiqueira. (na foto abaixo, enviada pelo Renato, queijos da Fazenda Bela Vista)
          Assim surgia o Queijo Artesanal de Alagoa, um queijo único no mundo, com sabor inigualável. Hoje, o Queijo Artesanal de Alagoa é a principal identidade gastronômica da cidade.
          Experimentei o Queijo Artesanal de Alagoa e constatei que ele tem um nível maior de umami. Esse nome tem origem japonesa e significa delicioso, saboroso. É o chamado “quinto sabor”, que alguns alimentos especiais, proporcionam e nos fazem descobrir. Alimentos umami se caracterizam por dar água na boca, além de salivar, ao olhar. É aquele alimento que colocamos na boca e demoramos um pouco para engolir, para aproveitar mais o sabor e querer comer mais.
          No caso do Queijo Artesanal de Alagoa, um sabor a mais, diferente e único que desperta o quinto sabor (umami) das pessoas, agradando e aguçando os mais exigentes paladares.
          Seu sabor único e inigualável e seu terroir próprio, são os motivos de tanto sucesso. Terroir (pronuncia-se “terruá) é uma palavra francesa que define um conjunto de características próprias do produto de um determinado lugar, que faz com que a produção local seja única. Em Minas pronunciamos “Trem-ruá”, nominação dada pelo Mestre Queijeiro Túlio Madureira, do Serro MG. 
          No caso de Alagoa, é a combinação das montanhas, pastagens, clima, água, solo, manejo do gado e evidentemente, bactérias e fungos, que resultam no “trem-ruá” próprio e único do Queijo Artesanal de Alagoa. (na foto acima enviada pelo Rafael Faria, Queijo Artesanal de Alagoa Sítio do Morro)
          A centenária receita é guardada com carinho pelos alagoense. A mesma receita pode ser feita em outras cidades, outras regiões com leite de qualidade, mas nunca vai ser igual ao queijo feito em Alagoa, como citei acima, devido às bactérias e fungos, presentes nas regiões, no caso de Alagoa, são bactérias e fungos naturais da região.
          Tem como levar uma receita para outra região ou mesmo fazer a mesma receita em outro país, mas levar fungos e bactérias junto com a receita, é impossível. Pode fazer a mesma receita, seguindo tudo à risca, mas a ausência das bactérias e fungos que caracterizam o queijo, fará que o sabor, textura e até a cor, sejam diferentes, pode até lembrar ou parecer, mas igual, com certeza, nunca será. É isso que define o terroir ou o nosso trem-ruá.
          Das queijarias de Alagoa, dezenas de produtores preservam a tradição da produção de queijo em família e a receita original e centenária do Queijo Artesanal de Alagoa. Mesmo com as atuais exigências legais e sanitárias, dos maquinários modernos usados para fazer os queijos hoje, do trabalho que dá fazer, aguardar a maturação e comercializar os queijos, continuam a produzir um queijo de altíssima qualidade, mantendo o sabor único, tradicional e original dos queijos, desde 1920.
          Ainda tem as famílias alagoenses que produzem seus queijos da forma tradicional, exatamente como no século passado, totalmente artesanal. (na foto abaixo do Jerez Costa, o Queijo D´Alagoa, do produtor Osvaldo Filho)
          O começo da produção do queijo artesanal começa já na pastagem. Tem que ser capim de qualidade, bem como a água, tem que ser limpa e pura, preferencialmente, água vinda direto da mina. Pastagem e água de má qualidade, interferem no sabor do leite, e como consequência, no sabor do queijo.
          O queijo é feito com leite cru, fervido no fogão a lenha. O fermento sai da própria produção que sobra do produto. Os vasilhames usados para produzir o fermento não são lavados com detergentes, para não alterar o ácido e prejudicar a formação do fermento, que é feito num dia e usado no dia seguinte.
          Em seguida o queijo é colocado em gamelas bem limpas, de madeira de pinho, ótimas para conservar melhor o queijo, além de fazer com que a massa absorva a cor da madeira, dando ao queijo uma cor amarela, e ainda, ajuda na maturação. Resumidamente, esse é o processo de produção do Queijo Artesanal de Alagoa.
          O queijo está presente na vida do povo mineiro desde o século XVIII. É uma das principais identidades de Minas Gerais e Alagoa tornou-se uma das principais regiões queijeiras do Estado, justamente pela qualidade de seus queijos, reconhecida e premiados em nível estadual, nacional e internacional. 
          Destaques para os queijos da Fazenda Bela Vista, do produtor Renato, medalha de ouro no último concurso internacional do Mondial Du Fromage, a copa do mundo dos queijos, realizado na França em 2019, além do Queijo D´Alagoa, do produtor Osvaldo Filho, medalhas de prata e bronze, no mesmo concurso. O mesmo queijo, do Osvaldinho, como é conhecido, foi eleito o Queijo do Ano em 2018, em São Paulo. (na foto acima, enviada pelo Osvaldo Filho, o Queijo D´Alagoa, marcando presença em París/França)
          Outros produtores do município, vem entrando no mundo dos queijos artesanais mineiros e se destacando pela qualidade e sabor, como o queijo artesanal Sítio do Morro, da família do produtor Rafael Faria.
          O Queijo Artesanal de Alagoa é tão especial e importante para Minas que a região foi identificada e reconhecida pelo Governo de Minas Gerais, através do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER/MG), órgãos ligados à Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa/MG), como região produtora de queijo artesanal, através das portarias 1985 e 1986, anunciada em junho de 2019.
          Nesse mesmo dia, além do reconhecimento como região produtora de “Queijo Artesanal de Alagoa”, foram reconhecidas as cidades de Aiuruoca, Baependi, Bocaina de Minas Carvalhos, Itamonte, Liberdade, Itanhandu, Passa Quatro e Pouso Alto, no Sul de Minas, como produtoras de “Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas”.
          Tanto o Queijo Artesanal de Alagoa, bem como o “Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas”, tem características, peculiaridades e identidades próprias, que os diferem do Queijo Minas Artesanal (QMA), produzidos nas atuais 7 regiões queijeiras mineiras que são: Canastra, Cerrado, Serra do Salitre, Araxá, Triângulo Mineiro, Campo das Vertentes e Serro. Os queijos das regiões QMA são produzidos com o pingo, ao contrário dos queijos da região queijeira de Alagoa e da Serra da Mantiqueira de Minas, que utilizam fermento natural, além de aquecer o leite durante o processo de produção. A similaridade é que todas essas regiões, usam o leite cru na produção dos queijos. 
          Segundo dados de 2019, da Emater/MG, em Alagoa existem 139 queijarias artesanais, com uma produção anual de 58,4 mil toneladas de queijo, sendo vendidos na região, presentes ainda em pontos de vendas e algumas queijarias, como a Queijo D´Alagoa (na foto acima enviada pelo Osvaldo Filho, se destaca pela venda de seus queijos em loja física e online, com entrega pelos correios.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Conheça Santana do Riacho

(Por Arnaldo Silva) Considerada a porta de entrada para a Serra do Cipó, a 750 metros acima do nível do mar, está Santana do Riacho, distante 120 km de Belo Horizonte, ao norte da capital, na região Central, com acesso pela MG-010. 
          O município faz divisa com Congonhas do Norte, Santana do Pirapama, Baldim, Jaboticatubas, Conceição do Mato Dentro e Morro do Pilar. Conta atualmente com cerca de 4.500 habitantes apenas, que vivem da agricultura, além de contar com um comércio variado, da mineração e extração de pedras preciosas, como o mármore, e de ter uma rede de prestação de serviços muito abrangente e eficiente. (na foto acima de Raul Moura, a prática de canoagem no Rio Cipó, tendo Santana do Riacho ao fundo. Abaixo, também de Raul Moura, a entrada da cidade)
          A cidade é charmosa, elegante, com ótima estrutura para receber os turistas, com uma excelente rede hoteleira e gastronômica, além de contar com boa estrutura urbana e atividades culturais, religiosas e folclóricas durante o ano.
          Entre essas atividades, destaque para o Carnaval, a Festa de Santa Ana, em 26 de julho, as Festas Juninas, a Festa de Santa Terezinha. Além disso, no mês de julho acontece tradicionalmente, o Festival Gastronômico Sabores do Cipó, uma mostra da culinária apresentada pelos restaurantes locais, além da cultura, turismo e tradições da região do Cipó, mostrando a maravilhosa cozinha mineira, acompanhada de cervejas e vinhos artesanais. Tudo de primeira. 
          O artesanato é outro atrativo para os turistas. Rico e variado, além de muito criativo, expressa a vida e sentimento do povo riachense, através do bordado, trabalhos com couro, arte em materiais recicláveis, bijuterias, artesanato em madeira, além de outras criações dos artesãos locais. (foto acima de Suelen Rezende)
          Santana do Riacho tem origem no século XVIII, tendo se desenvolvido na agricultura desde essa época, por suas terras férteis. Para trabalhar na agricultura, foram chegando gente de várias regiões, dando origem a um povoado a partir de 1744. O povoado cresceu, foi elevado a freguesia à distrito no século XIX e por fim, à cidade emancipada em 30 de dezembro de 1962. (na foto abaixo de Tom Alves/tomalves.com.br a Cachoeira Grande)
          Com vocação para a agricultura, Santana do Riacho desenvolveu a vocação para o turismo ecológico, já que a cidade está situada na Serra do Cipó, uma das mais espetaculares e deslumbrantes paisagens naturais de Minas Gerais. Sua vegetação é formada por 84%  de campos rupestres,  8% do bioma Cerrado e também, 8% do bioma Mata Atlântica. (foto abaixo de Tom Alves/tomalves.com.br) 
          Conta com diversas nascentes, rios como o Parauninha e Cipó, cânions, cachoeiras, trilhas, montanhas e uma impressionante e rica flora nativa, como sempre-vivas, bromélias, copaíbas, limãozinho, quaresmeiras, pau-pombo, canelas-de-ema, samambaiaçus, cactos, dentre outras variedades e diversos animais de nossa fauna como como o lobo-guará, cachorro-vinagre, tamanduá-bandeira, veado-campeiro, onça-parda, gato-maracajá, sagui, jaguatirica, sanhaço, sapo-de-pijama, râ-diurna, dentre outros. Para proteger todas essas belezas naturais, foi criado em 1972, o Parque Nacional da Serra do Cipó. 
          Além das belezas naturais da Serra do Cipó, do charme e elegância da cidade, do lendário Juquinha, que dá “boas vindas” ao visitantes com sua estátua na entrada da cidade e no topo da Serra do Cipó, os distritos de Serra do Cipó e Lapinha da Serra, são outros grandes atrativos de Santana do Riacho.
          Lapinha da Serra é uma charmosa vila colonial do século XVIII, com seu cume, o Pico do Breu, que está a 1.687 metros de altitude, sendo esse um dos grandes atrativos do distrito, além das cachoeiras em redor, como da Conversa, do Rapel, do Paraíso, do Jurutu, do Lajeado, do Soberbo, do Bicame, além da beleza do Rio Cipó que serpenteia a região. (foto acima do Tom Alves/tomalves.com.br e abaixo de Marcelo Santos, distrito de Lapinha da Serra)
          Já a vila Serra do Cipó é a principal porta de entrada para o Parque Nacional da Serra do Cipó. Além do charme da pequena vila, o visitante encontra lugares propícios para escaladas, como morros e montanhas, além de cânions, cachoeiras que formam piscinas de águas cristalinas, como as cachoeiras do Sobrade de Cima, das Andorinhas, do Gavião, de Congonhas, do Tombador e do Travessão. No distrito Serra do Cipó, o turista conta com uma ótima estrutura, com pousadas e restaurantes de primeira, além de áreas para camping. 
          Conhecer Santana do Riacho, os distritos de Serra do Cipó e Lapinha da Serra, além de desfrutar todo o aconchego que a cidade oferece, tem as belezas e atrativos naturais da Serra do Cipó. Sem dúvida, um lugar que vale a pena conhecer, estar e vivenciar. Quem vem á Santana do Riacho, volta, não uma vez, mas várias vezes. A região é incrível, com belezas impactantes.

domingo, 8 de novembro de 2020

O forno feito de barro, água e açúcar

(Por Arnaldo Silva) Desde a descoberta do fogo, na Idade da Pedra, o homem vem aprimorando as formas de preparar seus alimentos. O primitivo fogão de pedras evoluiu para os fogões a lenha que temos hoje, muito mais sofisticados e mais eficientes, bem como, temos os fogões a gás, que vem evoluindo a cada dia, com avanços tecnológicos impressionantes. (foto abaixo de Edson Borges em Felício dos Santos MG)
          O fogão a lenha e o forno de barro, são criações universais, há milhares de anos, presentes no mundo inteiro, mas em Minas, tanto o fogão a lenha, quanto o forno de barro, faz parte da identidade, tradição e cultura mineira, e claro, o sabor dos tradicionais pratos mineiros, tem ligações diretas com o fogão a lenha e o forno de barro. Esses dois, estão presentes nas cozinhas do interior mineiro.
          Mesmo com as novas tecnologias dos fogões e fornos hoje, como os fornos elétricos, a gás e micro-ondas, o mineiro não dispensa um fogão a lenha e muito menos, o preparo de suas quitandas no velho, rústico e tradicional, forno de barro. 
          É fato que os fornos e fogões mais rústicos, evoluíram, em relação aos de séculos anteriores, e obviamente, de milhares de anos atrás, quando o homem passou a cozinhar seus alimentos e descobriu também que o fogo, além de cozinhar, podia assar os alimentos. (foto acima de Edson Borges em Felício dos Santos MG)
          Para assar, usavam a argila que retiravam do fundo dos rios e colocavam no chão em forma de círculo, para isolar o fogo e evitar que ele se apagasse. O alimento a ser assado era colocado no centro. Com o passar do tempo, o homem foi aprendendo a trabalhar melhor a argila e usar pedras para fazer fogões e fornos, para assar seus alimentos. 
          Para chegar à atual evolução que temos hoje dos fornos de barro e a gás, bem como dos fogões, foram mais de 5 mil anos. Os primeiros registros da existência de forno nos moldes parecidos que temos hoje, vem da antiga região da Mesopotâmia, hoje formada pelo Iraque, Kuwait e Síria.
          Isso mesmo, fazer um forno de barro hoje, um fogão com forno, parece ser bem simples, mas a humanidade levou cerca de 5 mil anos para chegar a esse estágio hoje. Mesmo com toda a evolução que temos atualmente, com fornos industriais e domésticos super modernos, o velho, rústico e antigo forno de barro, ainda é o preferido, principalmente dos mineiros. 
          Nos quintais mineiros, o forno de barro está presente, praticamente feito da mesma forma que há séculos. O que mudou, é que ao invés de usar pedras, usa-se tijolos e a tampa da entrada é de chapa de aço. A base do forno é mais trabalhada, com revestimento, bem como usa-se açúcar cristal na mistura do barro. Isso mesmo, açúcar, que é misturado ao barro, para dar firmeza, tornando-o mais resistente ao calor das chamas, evitando assim as trincas nas paredes do forno. (foto acima de Sônia Fraga em São Tiago MG)
          Seja em qualquer país do mundo, essa forma de fazer os fornos é a mesma. O que mudou são os materiais usados hoje, mais resistentes, tornando os fornos mais bonitos e duráveis, graças ao maior conhecimento da humanidade, atualmente. Mas a ideia original, de como assar os alimentos, continua do mesmo jeito. Quanto maior o forno, mais calor interno, podendo chegar a uma temperatura de 1000º C, fazendo com que as quitandas assem bem rápido, por isso sua eficiência e grande economia. 
          A lenha é colocada no interior do forno para queimar e com a ajuda de uma colher de ferro, as chamas são espalhadas para os cantos, distribuindo o calor para o interior de todo o forno. Quando estão em brasa, colocasse as fôrmas no centro, tampa-se o forno e deixa os alimentos assando. As chamas não devem ficar acesas com os alimentos, para evitar que queimem. (foto acima de Márcia Rodrigues em Felício dos Santos MG)
Como fazer o forno de barro com açúcar 
- Para cada 20 quilos de barro, deve se misturar 1 quilo de açúcar com o barro, dissolvê-los na água e amassar a mistura, de preferência com os pés, até que fique uma passa densa e homogênea. (na foto acima de Ernani Calazans, de Araçuaí MG, Vale do Jequitinhonha, o barro mais usado na fabricação de fornos) 
- Preparado a massa, monta-se uma base quadrada de mais ou menos 1,30 metros de diâmetro, com tijolos ou pedras assentadas com cimento e se preferir, revestidas com pedra ardósia. A altura ideal é 80 centímetros do solo.
- Sobre a base, espalhe uma densa camada do barro feito com açúcar. Passe sobre a base uma densa camada de barro e comece a assentar os tijolos em forma circular, com diâmetro de 1,20 metros, deixando espaço nas bordas da base.
- Deixe um espaço de mais ou menos 30 centímetros, que será a entrada para a lenha e das fôrmas.
- Em forma circular, vá colocando os tijolos, a massa, tijolos e ao mesmo tempo, passando a massa na parede inferior, tipo um reboco.
-  Espere secar e passe novamente o barro, deixando secar mais uma vez e por fim, passe a terceira camada, continuando o assentamento dos tijolos e barreando por três vezes o interior, até o topo do forno.
- A partir da terceira ou quarta camada de tijolos, vá afunilando a base, até o topo ficar em forma que lembre a metade de um ovo, tipo chaminé. A altura do forno é de mais ou menos 80 centímetros, de altura. (foto acima de Ernani Calazans em Araçuaí MG)
- Todo o interior do forno deve ser bem preenchido com o barro e com a massa bem socada mesmo
Tem fornos que não tem a chaminé, porque fazem a abertura do outro lado, a porta de entrada, de mais ou menos 20 centímetros, mas o mais comum, é usar uma chaminé no topo do forno. Se for deixar a outra porta no fundo, tampe a parte superior com tijolos e barro.
- Concluída essa etapa, passa-se o barro na parte exterior do forno, deixando secar.
- Ao secar, aparecerão rachaduras, devendo passar outra camada de barro e açúcar, aguardando a secagem e por fim, aplicando a terceira camada.
- O acabamento final pode ser feito com caiação do exterior do forno, ou mesmo, o uso de tabatinga, um barro na coloração branca, muito comum no Vale do Jequitinhonha.
- Antes de usar o forno, deve se colocar lenha dentro do forno, queimar, tampar o forno e deixar a lenha ardendo em chamas por várias horas, até que o topo da fornalha comece a ficar vermelho. 
          Por fim, limpe o forno e já pode usá-lo para assar pães, bolos, roscas, biscoitos e várias outras quitandas.
          Não esqueça de manter a porta do forno fechada, quando estiver assando, para evitar que o calor do forno saia e provoque ausência de calor no interior, prejudicando o preparo das quitandas.
Agora é só aproveitar as delícias que saem dos nossos fornos de barro e tomar com café, como estes biscoitos de polvilho, preparado pela mãe de Márcia Rodrigues em Felício dos Santos MG

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A casa em que eu nasci

Da casa em que eu nasci, não resta mais nem tapera. 
Mas eu volto todo ano pra visitar o lugar.
Vou rever velhos amigos que diferentes de mim, lá nasceram e cresceram e nunca saíram de lá.
Mas um grande fazendeiro comprou a nossa fazenda, transformou tudo em pastagens para o seu gado pastar.
Hoje eu vejo a minha história sendo aos poucos apagadas pelas patas da boiada. Só tristeza é o que me dá.
          A Casa de alvenaria que hoje eu moro na cidade, se difere da palhoça que eu nasci lá no sertão. 
Feita de madeira grossa, com paredes pau á pique, reboco de terra e água, amassado pé á pé.
          Foi ali que á muitos anos começou a minha história.
          Lá vivi alguns momentos que não esqueço jamais.
          As origens de um homem, às vezes ficam pra trás, mas nunca são esquecidas; isso eu aprendi com meus pais.
          E me lembro do velho pai puxando cana pro engenho; no seu bom e velho carro, com duas juntas de bois. 
          O roxinho e o vibrão, o malhado e o arboredo. 
Pantaneiros de origem....gigantes de força bruta. 
          Não precisava ferrão, nem chicote na labuta.
          Bastava a voz do papai.
          Vibrante, forte e astuta.
          Com duas juntas de bois, criou a família inteira, sem deixar faltar pra gente o alimento e a esteira.
          Hoje ali resta esquecido o velho engenho de madeira. 
          O velho carro de boi há tempos virou lareira.
          Um moirão de cerne puro onde era a porteira, resistindo á tanto tempo por ser de boa madeira.
          Mas da casa não se vê nem sombra e nem poeira.
          O capim já cobriu tudo.
          Formando bela touceira
          Onde alimenta o gado, as lembranças do meu passado estão sendo enterradas; eita vida passageira. 
          O meu pai sempre dizia: filho; pra vencer na vida, não precisa ter vergonha de falar do seu passado.
          Não se é bom coronel, quem não foi um bom soldado. 
          Os conselhos do meu pai me fez homem respeitado.
          Vou comprar essa fazenda e resgatar a minha história. 
          Só pra não sob as patos do gado tudo apagado.
          E vou reerguer uma casinha do jeito que era a nossa, só pra matar a saudade da nossa velha palhoça .
Por Edson Borges - O Poeta do Vale - Felício dos Santos MG

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Vinho Syrah da EPAMIG conquista medalha de ouro

(Belo Horizonte, 21/10/2020) O vinho Syrah marca própria da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) conquistou a medalha de ouro no Brazil Wine Challenge 2020. O concurso, com a chancela da Organização Internacional do Vinho e da Vinha (OIV) e da União Internacional de Enólogos (UIOE), foi realizado entre os dias 13 e 15 de outubro, em Bento Gonçalves (RS) e os resultados foram divulgados na última sexta-feira (16).
          A 10a. edição do evento recebeu 774 amostras enviadas por vinícolas de 16 países diferentes. A avaliação dos vinhos foi feita em provas às cegas, de acordo com as normas internacionais, por uma comissão composta por 57 degustadores vindos de diferentes regiões do Brasil, da Bolívia, do Chile, da França e da Itália. Além do Syrah EPAMIG, vinhos das vinícolas Bramasoli, Casa Geraldo e Casa Verrone, que empregam a metodologia da dupla poda, também receberam medalha de ouro. (foto acima Epamig/Divulgação)
          Esta foi a primeira participação da EPAMIG em concursos de qualidade. “A ideia da inscrição surgiu em decorrência do potencial verificado nesse vinho, que apresenta uma coloração muito boa, vermelho rubi com boa profundidade, límpido e brilhante. É aromático, frutado, mas também com notas de especiarias e leve couro. Na boca, é um vinho macio, com boa estrutura, taninos maduros, acidez agradável, bom corpo e potencial para envelhecimento”, avalia a enóloga Isabela Peregrino, responsável técnica pelo produto.
          O vinhedo institucional da EPAMIG foi implantado em 2010 no Campo Experimental de São de Sebastião do Paraíso. “A altitude de 900m permite a condução do parreiral sob o manejo de dupla poda. Algo que não conseguiríamos no Campo Experimental de Caldas que está localizado a 1150m e tem como característica o inverno rigoroso demais”, explica Isabela, acrescentando que a produção das mudas e o processamento das uvas acontecem na vinícola Experimental da Empresa em Caldas. (foto acima Epamig/Divulgação)
          O vinho premiado é da safra de 2018, com colheita das uvas e elaboração no segundo semestre daquele ano. “Os tratos culturais do vinhedo foram conduzidos de acordo com manejo comercial em dupla poda, sendo uma poda de formação de ramos em agosto de 2017 e uma poda de frutificação em janeiro de 2018, e colheita manual”, destaca Isabela. (foto abaixo: Epamig/Divulgação)
          O produto foi engarrafado no segundo semestre de 2019 e já vem sendo comercializado nos Empórios EPAMIG em Belo Horizonte e Juiz Fora e no Campo Experimental da EPAMIG em Caldas. Para mais informações entre em contato com a Assessoria de Negócios Agropecuários (31) 99564-0855.
Fotografias e reportagem enviadas pela Ascom/Epamig

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Arroz com costelinha na beira do Rio São Francisco

(Por Arnaldo Silva) Viver já é bom, imagina viver em Minas e na beira do Rio São Francisco. É um privilégio! São centenas de rios, milhares de cachoeiras espalhadas por Minas Gerais e o mineiro não perde tempo. Fim de semana ou em feriados, está lá, na beira dos rios, pescando e principalmente, fazendo o tradicional piquenique em família. 
          Foi o que fez Maria Mineira, autora das fotos que ilustram a matéria, de São Roque de Minas e família, na beira das águas limpas do Rio São Francisco, já próximo a Vargem Bonita. É na região onde estão as nascentes que formam o Rio São Francisco, com as águas correndo limpas e cristalinas. Ótimo para passar o dia, nadar, brincar, praticar esportes e claro, cozinhar. 
          Maria Mineira preparou um legítimo arroz mineiro com costelinha de porco, ao ar livre, feito num fogão de pedras, num caldeirão de ferro. Não tem coisa mais mineira e deliciosa que isso. 
Vamos aprender a fazer esse arroz com costelinha:
INGREDIENTES
. 2 quilos de costelinha de porco cortadas em pedaços miúdos
. 2 copos (requeijão) de arroz
. 4 dentes de alho picados
. 5 copos (americano) de água quente
. 2 folhas de louro
. 1 cebola grande picada em pedacinhos
. Sal a seu gosto
. 1/2 copo (americano) de óleo
MODO DE PREPARO
- Ferva a água e reserve
- No fogão a lenha, coloque o caldeirão, despeje o óleo e frite um pouco as costelinhas.
- Em seguida, acrescente o sal, o alho, a folha de louro, a cebola e mexa bem por 1 minuto.
- Agora, coloque o arroz e mexa até misturar bem, refogando por uns 3 minutos.
- Despeje aos poucos a água fervente, acerte o sal e tampe.
- Numa panela de ferro e em fogão de pedra, o cozimento é bem rápido. Fique sempre atento para caso a água secar e queimar o arroz. Se precisar, coloque mais água, até que o arroz esteja bem cozidinho.
- Acompanha uma salada de tomate com repolho e uma limonada ou laranjada, bem gelada.
          Depois do almoço, o bom é relaxar, deitar numa rede e curtir a som da natureza, ouvindo a sinfonia do vento, o barulho da correnteza das águas e a suavidade da sinfonia dos pássaros.
          Agora, na foto acima, prestem atenção num detalhe: sacos plásticos pendurados nas árvores. Quando vamos passear ou acampar na natureza, levamos comidas e bebidas. Se levamos, podemos trazer de volta as embalagens, nas mesmas sacolas que vieram. Foi o que foi feito. Deixaram no lugar apenas suas pegadas e tiraram apenas fotografias
          Garrafas, latas, plásticos, papel, todo o lixo que produziram, foi recolhido e colocado nas mesmas sacolas que vieram, para ser descartado corretamente, na cidade. Nada de usar a natureza, curtir, aproveitar e deixar rastros de sujeira e destruição. Outros irão usar, até mesmo quem sujou. É simples, se trouxe comida, pode muito bem trazer de volta, o lixo. A natureza agradece. 

sábado, 3 de outubro de 2020

Ouro Fino e a história do Menino da Porteira

(Por Arnaldo Silva) Fundada em 1749 e emancipada em 1880, Ouro Fino é uma charmosa, atraente, hospitaleira e acolhedora cidade do Sul de Minas, contando hoje com cerca de 35 mil habitantes. É uma das mais antigas e importantes cidades do Sul de Minas, além de ser cortada por vales, montanhas e serras, com altitudes variando entre 997 metros a 1591 metros. De sua história, destaca-se belos casarões e a Praça da Matriz, marco da cidade, com mais de 250 anos, com seu santuário, dedicado à Nossa Senhora de Fátima, além de vários monumentos espalhados pela cidade, que marcam a história de Ouro Fino. (foto acima da Cássia Almeida)
Entre seus monumentos, destaque para as estátuas do Boi Sem Coração, Berrante e do Menino da Porteira. Isso porque a cidade, foi a fonte de inspiração para o compositor Teddy Vieira, compor uma das mais famosas canções sertanejas do século XX, o Menino da Porteira. (foto acima do Leonardo Souza/@jleonardo_souza_srs)
A origem da música Menino da Porteira
          Teddy Vieira nasceu em 1922, em Itapetinga, no interior paulista e faleceu, vítima de acidente automobilístico, em 1965. É um dos mais importantes compositores sertanejos de todos os tempos, tendo composto, além de Menino da porteira, outras 300 músicas caipiras. Entre suas composições, destaca-se os clássicos sertanejos, além do “Menino da Porteira, de 1955, interpretada por Luisinho e Limeira, música que o consagrou como compositor, Teddy Vieira “A Caneta e a Enxada”, em parceria com Capitão Barduino, gravado por Zico e Zeca, em 1956, “Boiadeiro Errante”, imortalizada na voz de Liu e Leo, em 1959, Pagode em Brasil, em parceria com Lourival dos Santos, interpretada por Tião Carreiro e Pardinho, em 1961, e neste mesmo ano, o “Rei do Gado”, também nas vozes de Tião Carreiro e Pardinho.
          Teddy Vieira tinha laços sentimentais com Minas Gerais. Por muito tempo, era figura presente em Andradas, no Sul de Minas, já que sua namorada, América Rizzo, com quem casou-se tempos depois, morava na cidade. 
           Para chegar à Andradas, passava pelas estradas de terra de Ouro Fino. As duas cidades são distantes, cerca de 80 km, uma da outra. Naquela época, a Região Sul de Minas, era rota de transporte de gado, feito basicamente em Comitivas, com vários boiadeiros, a cavalo, com seus berrantes, conduzindo o gado, abrindo e fechando porteiras e cortando as estradas do sertão mineiro.
        Foi numa dessas idas à Andradas, que Teddy Vieira, teve inspiração para compor sua principal canção. Passando pelas estradas de terra de Ouro Fino, tinha que passar por algumas porteiras, que dividiam fazendas. Sair do carro, abrir e em seguida, fecha-la, era cansativo, ainda mais que viajava num dia de intenso calor. Ao se aproximar de outra porteira, Teddy percebeu a aproximação de um menino, correndo em sua direção. O garoto abriu a porteira com muita alegria para ele passar. Teddy agradeceu a gentileza acenando e jogando uma moeda, que deixou o menino saltitante, feliz e agradecido. (na foto acima, uma das estradas de Ouro Fino MG, na foto do Guilherme Augusto/@mikethor)
Seguiu seu caminho, mas a cena ficou em sua mente e dirigindo, começou a criar uma história, baseado na atitude do menino. No mesmo dia, começou a compor a história. De real, apenas a alegria do menino ao abrir a porteira e ficar feliz com a moeda que lhe foi jogada, descrita nos primeiros versos da canção: “Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino. De longe eu avistava a figura de um menino. Que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo. Toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo...”. O restante da história, o berrante, o boi sem coração e o trágico fim, que na sua composição, ele deu ao menino, foram criações do compositor. Assim surgia uma das mais conhecidas e importantes composições da música caipira brasileira. (foto acima de Leonardo Souza/Entre seus monumentos, destaque para as estátuas do Boi Sem Coração, Berrante e do Menino da Porteira. Isso porque a cidade, foi a fonte de inspiração para o compositor Teddy Vieira, compor uma das mais famosas canções sertanejas do século XX, o Menino da Porteira. (foto acima de Leonardo Souza/@jleonardo_souza_srs)
          Entre seus monumentos, destaque para as estátuas do Boi Sem Coração, Berrante e do Menino da Porteira. Isso porque a cidade, foi a fonte de inspiração para o compositor Teddy Vieira, compor uma das mais famosas canções sertanejas do século XX, o Menino da Porteira. (foto acima de Cássia Almeida eabaixo, Matriz de Santa Isabel, na fotografia de Leonardo Souza/@jleonardo_souza_srs)          A música foi gravada posteriormente por Tonico e Tinoco e vários outros artistas, mas não estourou de imediato. Havia um certo preconceito com a música caipira, principalmente nas grandes cidades, naquela época. Apenas nos povoados das roças e pequenas cidades do interior, que a música caipira fazia sucesso, já que as composições sempre relatavam a vida e cultura do sertanejo. Eram interpretadas por duplas vestidas em estilo caipira, com viola e violão apenas, cantando em duas vozes. As apresentações ou shows dos artistas, eram feitos nos povoados e cidades interioranas e também em circos. Até mesmo as rádios, restringiam as músicas caipira, tocando-as em horários noturnos, tipo, entre 3 da madrugada até as 5 ou 6 da manhã.
          Essa realidade começou a mudar a partir de 1973, quando o cantor da jovem guarda, Sérgio Reis, foi apresentar-se em Tupaciguara MG, no Triângulo Mineiro, num baile de debutantes. Após sua apresentação, uma banda local se apresentou aos presentes e começaram a cantar “Menino da Porteira”, impressionando Sérgio Reis pela comoção e envolvimento do público, com a música. Não era seu estilo, na época, Sérgio Reis tinha saído da Jovem Guarda e cantava músicas românticas. Seria uma mudança brusca de estilo, mas experimentou, gravando o sucesso de Teddy Vieira. A música estourou e começou a ser tocada nas rádios, inclusive FM´s, do interior, fato raro na época. Assim nascia o Sérgio Reis que conhecemos, uma das mais belas vozes da música sertaneja brasileira. O sucesso da música foi tanto, que o Menino da Porteira, virou filme, produzido pelo diretor de cinema, Jeremias Moreira Filho, em 1976, estrelado pelo próprio Sérgio Reis, que interpretou o peão de boiadeiro, Diogo.
          O Menino da Porteira é uma das músicas imortais. Segue até hoje fazendo sucesso. O filme, de 1976, virou remake, em 2009, interpretado dessa vez pelo cantor Daniel, que fez o mesmo papel de Sérgio Reis, interpretando o peão de boiadeiro, Diogo.
          Diversos outros artistas da música sertaneja brasileira já interpretaram Menino da Porteira. Hoje é praticamente o hino de Ouro Fino MG, cidade mineira que inspirou a canção.
          Como foi dito acima, naquela época havia muito preconceito com a música caipira, nas grandes cidades, realidade que começou a mudar, a partir do final dos anos 1970, tendo como base, Sérgio Reis. A música sertaneja atual deve muito a Sérgio Reis. Nos anos de 1980 novas duplas começam a surgir, mudando um pouco estilo, de duas vozes, para segunda voz, estourando de vez a partir de 1990, com a música sertaneja dominando os programas de TVs e rádios, passando a estar presente em shows nas grandes cidades. Duplas que até os anos 1970 se apresentavam em circos, passaram a fazer mega shows em estádios e casas de shows famosas pelo Brasil.
          
Até mesmo as cidades que evitavam se considerar sertanejas ou caipiras, mudaram, sendo hoje, referências na música e eventos sertanejos, como rodeios e exposições agropecuárias. Nas grandes, medias e pequenas cidades pelo Brasil, começaram a surgir ainda, restaurantes, bares e casas de shows, com temas rurais e monumentos públicos, que lembram a vida na roça, passaram a fazer parte do dia a dia do brasileiro, mesmo que alguns não assumam o nome sertanejo ou caipira, usando nomes como "country", está bom, um grande avanço.
          Um exemplo disso é Ouro Fino, que incorporou à sua cultura, tradição e arquitetura, a obra de Teddy Vieira.
          Embora, todas as evidências apontem para cidade mineira de Ouro Fino, como inspiração para a composição da música o “Menino da Porteira”, e mesmo todos sabendo que Teddy Vieira, estava sempre presente na região Sul de Minas, tendo namorada, que posteriormente, se tornou sua esposa, vivendo em Andradas. E mesmo sabendo que para chegar até a cidade em que a moça vivia, tinha que passar pelas estradas de Ouro Fino, tem quem, por desconhecer a história da música sertaneja ou mesmo, a história de Teddy Vieira, aponta Ouro Fino, em Goiás, como tendo sido a inspiração para o “Menino da Porteira”.
          A goiana Ouro Fino, foi em tempos passados, local de pouso e parada de tropeiros e boiadeiros. Fica lá no sertão de Goiás e tem muita tradição sertaneja e na música, mas não tem nada a ver com a música “Menino da Porteira”, de Teddy Vieira e sim com a música “Chico Mineiro”, composta por Tonico e Francisco Ribeiro, interpretada originalmente pela dupla Tonico e Tinoco. A Ouro Fino goiana, inspirou esta canção e seu mais famoso verso é bem claro nisso: “Fizemos a última viagem. Foi lá pro sertão de Goiás. Fui eu e o Chico Mineiro. Também foi o capataz. Viajamos muitos dias. Pra chegar em Ouro Fino. Aonde nós passemo a noite. Numa festa do Divino. A festa tava tão boa. Mas antes não tivesse ido. O Chico foi baleado. Por um homem desconhecido. Larguei de comprar boiada. Mataram meu cumpanheiro. Acabou-se o som da viola. Acabou-se o Chico Mineiro.”
          Que fique bem claro, o “Menino da Porteira” é de Ouro Fino, em Minas Gerais. 
          Por ser a terra do Menino da Porteira, a cidade incorporou por completo em sua cultura, a história da música, inspirada num menino da cidade, virou monumento, que dá as boas-vindas, ao visitante que chega à cidade. Na entrada de Ouro Fino, no KM 51, da rodovia MG-290, o monumento de 20 metros de largura por 10 de altura, retrata a porteira e o menino. Dificilmente alguém passa direto pelo movimento. Sempre param para tirar fotos. (foto acima do Anderson Sá/@meuolhar.andersonsa)
          Dentro da cidade, foi instalado o monumento ao Boi sem Coração, com um menino sobre a porteira, além outro monumento, simbolizando o Berrante. As obras são do artista plástico Genésio Moura e viraram pontos turísticos na cidade, atraindo ainda, visitantes de outras localidades para conhecer os monumentos, bem como a bela cidade do Menino da Porteira. (na foto acima, o Boi sem Coração e abaixo, o Berrante. Fotos do Anderson Sá/@meuolhar.andersonsa)
          Além do Menino da Porteira, que tornou a cidade conhecida em todo o país, Ouro Fino faz parte do Circuito Turístico Malhas do Sul de Minas e conta ainda com belas paisagens, como rios, cascatas, cachoeiras e picos, que possibilitam a prática de Canoagem, paraglider, motocross, passeio de boia, cavalgadas, pesca, trekking, trilhas para bikes, dentre outros. (foto abaixo de Anderson Sá/@meuolhar.andersonsa)
          Na cultura, destaca na cidade a Ourofolia, um dos melhores carnavais da região. A festa Italiana do Circuito Italo-Braziliano, realizado em março. A Semana Santa e Corpus Christi. A Feira das Indústrias e Ouromalhas, em maio. As festas juninas em junho, além da realização do Festival de Interpretação de Música Sertaneja, com entrega do Troféu O Menino da Porteira. Em julho acontece a Festa do Peão e em agosto o Ouro Rock, além de outros eventos ecológicos, religiosos, esportivos e musicais durante o ano.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Vinhos mineiros se destacam em competição internacional

(Por Arnaldo Silva) Decantar World Wine Awards é a maior e mais respeitada competição internacional de vinhos do mundo, organizada pela revista inglesa Decanter, estando atualmente em sua 17ª edição.
          Realizado tradicionalmente em Londres, na Inglaterra, o resultado final divulgando no final de setembro de 2020 e surpreendeu. Foram inscritos 16.518 rótulos diferentes de todo o mundo, sendo eleitos, os 50 melhores vinhos do mundo nas categorias super ouro, tendo ainda as categorias ouro, prata e bronze. Dentre os vinhos brasileiros premiados com medalhas, 12 são vinhos produzidos no Sul de Minas e São Paulo, usando a técnica da dupla poda, criada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG). (na foto acima, adega da Epamig em Caldas MG - Foto: Ascom Epamig/Divulgação)    
          O vinho Fumé Blache Sauvignon Blanc, da vinícola Ferreira em Piranguçu MG, conquistou a medalha de prata, obtendo 92 pontos, bem como o vinho Tempos de Góes Reserva Sauvgnon Blanc, da vinícola Góes de São Roque/SP, que obteve 90 pontos, levando também, a medalha de prata.
          
Dez rótulos do Sudeste brasileiro, foram premiados com medalhas de bronze: o Espumante Nature, da Carvalho Branco (Caldas MG) (89 pontos); Vale da Pedra, da Guaspari (Espírito Santo do Pinhal SP) (88 pontos); Luiz Porto Cabernet Sauvignon, da Luiz Porto Vinhos Finos (Cordislândia MG) (88 pontos); Brandina Assemblage, da Villa Santa Maria (São Bento do Sapucaí SP) (88 pontos); Bárbara Eliodora Sauvignon Blanc (São Gonçalo do Sapucaí MG (87 pontos); Syrah Speciale, da Casa Verrone (Itobi SP) (87 pontos); Vale da Pedra, da Guaspari (Espírito Santo do Pinhal SP) (87 pontos); Colheita Especial Viognier, da Casa Verrone (Itobi SP) (86 pontos); Vista da Serra Syrah, da Guaspari (Espírito Santo do Pinhal SP) (86 pontos); Eva Syrah, da Maria Maria (Três Pontas MG) (86 pontos).
          A 17ª edição do Concurso Internacional de vinhos ocorreu durante 28 dias consecutivos, em setembro de 2020, com provas à cega, dos 16.158 rótulos inscritos.           
          
As premiações internacionais conquistadas pelos vinhos brasileiros são positivas, porque desperta o interesse do brasileiro pela bebida nacional, bem como incentiva os produtores a investirem na ampliação da produção e buscando cada vez mais excelência na qualidade.
Os vinhos e espumantes brasileiros estão pouco presentes nos bares e restaurantes brasileiros, que preferem os importados, mas aos poucos, nossos vinhos vem rompendo essas barreiras, de preconceito com o produto nacional, graças a investimentos e cada vez mais, melhorando a qualidade da bebida, resultando em seguidas premiações no exterior, principalmente, os vinhos produzidos com a técnica da dupla poda, da empresa mineira, Epamig, a grande responsável pela considerável melhora na qualidade dos vinhos mineiros e do Sudeste brasileiro nas últimas décadas. (foto acima de Erasmo Pereira/Epamig)
A técnica da dupla poda
A melhora na produção e qualidade dos vinhos finos no Sudeste só foi possível graças a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), quando da criação do Núcleo Tecnológico de Uva e Vinho da EPAMIG, em Caldas MG, Sul de Minas, há cerca de 20 anos. (na foto acima de Erasmo Pereira - Ascom Epamig/Divulgação)         
          O homem do campo, no mundo inteiro, sabe que dependendo da época da poda, a planta irá produzir em determinada data. Os pesquisadores da Epamig aprimoraram esse conhecimento antigo, com anos de estudos, permitindo a produção de frutos com maior qualidade, o que permite, melhoras significativas na produção final oriunda das frutas, no caso, os vinhos finos de inverno. (na foto acima, videiras da Epamig no núcleo da empresa em Caldas MG e abaixo, uvas já em ponto de colheita. Fotos: Epamig/Divulgação)      
           Sem poda não há uva, por isso as podas nas videiras, são necessárias. Com a poda sendo feita anualmente, tradicionalmente feita no fim da primavera, para que os frutos se desenvolvam e possam ser colhidos no verão, em janeiro. Uma época de intenso calor e chuvas fortes o que permite a proliferação de pragas, o que leva os produtores a um intenso trabalho de controle de suas videiras. (Foto abaixo em Caldas MG - Epamig/Divulgação)
          Para fugir dos efeitos no verão e pragas nos parreirais, foi criado a técnica da dupla poda. No caso, a técnica desenvolvida em Minas, permite a poda duas vezes. A dupla poda nada mais é do que a inversão do ciclo produtivo das uvas, ou seja, ao invés da poda tradicional no fim da primavera, faz-se a poda para a formação dos ramos, no inverno, com a colheita dos frutos sendo feita em agosto. As uvas da primeira colheita, são as usadas na produção dos vinhos de inverno em Minas Gerais. Essa técnica permite ainda uma segunda poda, a tradicional, no fim do ano, com a colheita dos frutos, em janeiro. (na foto abaixo, a vinícola da Epamig em Caldas MG. Foto: Ascom/Epamig)
          A Epamig, que é vinculada à Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (SEAPA), desenvolveu e implantou em Caldas MG, o método da dupla poda, desenvolvido no Brasil pelo ex-pesquisador da Epamig, Murillo de Albuquerque Regina, Coordenador do Programa Estadual de Pesquisa em Vitivinicultura da Epamig. Essa técnica, faz com que a uvas sejam mais sadias, tenham maturação plena, mais concentração de cor e mais aroma. Resultado, é uma nítida melhora na qualidade dos vinhos. (abaixo, a sede da Estação Experimental da Epamig em Caldas MG. Foto: Erasmo Pereira/Ascom/Epamig)
          O sucesso da técnica da dupla poda vem da qualidade do solo, clima e investimentos dos produtores, bem como a assistência da Epamig, com pesquisas, orientações e apoio aos produtores, o que vem tornando Minas Gerais, especialmente o Sul de Minas, num dos maiores produtores de vinhos finos de qualidade, no país. A técnica desenvolvida pela Epamig, não só beneficia os produtores mineiros, mas os produtores de vinhos de toda a região Sudeste do Brasil.

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