segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O segredo da cozinha mineira

O segredo do sucesso da culinária mineira é simples. É o melhor lugar da casa. Tudo arrumado e bem organizado com muito amor, com muito carinho. Esse é o segredo que nós mineiros guardamos há mais de 300 anos na cozinha mineira. O amor pela nossa culinária. O amor em cozinhar. O amor por nossa comida. (na foto abaixo, de Marselha Rufino, o fogão a lenha do Santuário do Caraça em Catas Altas MG)
Nossas receitas são populares, presente em todos os estados brasileiros e até no exterior, mas, quem experimenta a comida mineira fora do estado, percebe logo que não é a mesma coisa da comida feita em Minas. Constatação obvia. Receita é receita em qualquer lugar do mundo, mas colocar amor, tradição, laços sentimentais e história, só em Minas. (foto abaixo de Sérgio Mourão)          
Além de cores e sabores, nossa cozinha tem história. Em cada casa mineira, em cada fogão a lenha, em cada horta de um quintal, em cada receita anotada no caderno, tem emoção, tem laços de família, tem uma história, tem o prazer de cozinhar, tem um sabor único. E esse sabor único, se encontra em Minas, há mais de 300 anos. (foto abaixo de Rosane Vidinhas)          
Broa de fubá, pão de queijo, vaca atolada, frango com quiabo e angu, taioba com costelinha, feijão tropeiro, mingau de milho verde, pamonha, farofa, doce de leite, ambrosia, carne moída com ora-pro-nobis, galinhada, joão-deitado, queijo, doce de figo, marmelada, goiabada, licores, geleias, bolos, biscoito, tutu de feijão e tantos pratos. De onde veio tanta receita? (foto abaixo de Arnaldo Silva)
Pra saber temos que voltar ao tempo, lá pelo fim do século XVI e início do século XVII, com a chegada de bandeirantes e portugueses ao nosso território. Alguns pratos vieram com os portugueses e foram adaptados de acordo com os ingredientes que existia à época, como a ambrosia, o doce de ovos. Outros surgiram por necessidade, como o pão de queijo, na tentativa de fazer pão numa terra que não tinha trigo, mas mandioca em abundância. Boa parte foi surgindo com a combinação de ingredientes, com a mistura do talento culinário oriundo das senzalas, das tabas indígenas e das cozinhas portuguesas. Nossa cozinha é uma mistura de cores e sabores da cozinha africana, indígena e portuguesa. Por isso é única, deliciosa, cheia de cores, sabores, vida e emoções. (foto abaixo de Arnaldo Silva)
O segredo da nossa culinária é preservar nossas receitas da mesma forma que 300 anos atrás. Mineiro torce o nariz para “invenções” em suas receitas. Agregar ingredientes, valores, isso e aquilo são uma afronta ao paladar mineiro. As receitas são preservadas, valorizadas e valiosas para o mineiro. Ao longo dos séculos, novos pratos foram surgindo, mas modificar as receitas tradicionais, não, isso nunca. Nossas receitas não são simplesmente ingredientes e modo de preparo. São nossas emoções, nossas tradições, legado de nossas famílias e a isso, não se pode agregar nada e sim respeitar, valorizar e preservar. (foto abaixo de Arnaldo Silva)
O segredo da cozinha mineira é o amor pelas tradições nascidas à beira de um fogão a lenha, com a família unida, com muita prosa, cantoria, cigarrinho de palha, causos, cafezinho no bule, queijo, licores e quitandas alegrando esses momentos. (Por Arnaldo Silva)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Os morangos SAT e o colhe e pague em Franceses

O morango é uma das frutas mais apreciadas no mundo. Para a Botânica, morango não é uma fruta e sim uma hortaliça, um pseudofruto. A parte comestível do morango não é o fruto. O morango mesmo são aquelas sementinhas pretas revestidas por uma camada carnuda interna branca e vermelha por fora, conhecida como receptáculo floral, cuja função é proteger os frutos. 
          O morangueiro (Fragata L.) é uma planta da família das Rosáceas, de origem Europeia, presente no mundo todo em cerca de 20 variedades.
          Segundo a Botânica, toda fruta surge após a fecundação, com o amadurecimento do ovário, que por fim se desenvolve em fruta, propriamente dito.
          Com o morango esse processo natural de desenvolvimento de uma fruta não acontece, já que a parte consumida do fruto do morangueiro, não se desenvolve a partir do ovário da planta e sim a partir de um tecido de outras partes florais presentes em sua polpa. Sendo assim o morango é considerado um pseudofruto. O mesmo é o caso do caju, abacaxi e maçã, também, pseudofrutos.
          Independentemente da classificação botânica, se o morango é hortaliça, pseudofruto ou não, ninguém no mundo vai deixar de chamar morango de fruta e por sinal, uma das mais apreciadas frutas do mundo, junto com a uva. 
          No Brasil o fruto é cultivado em vários estados, principalmente em Minas Gerais, que é o maior produtor da fruta no país, respondendo por 65% da produção de morangos no Brasil.
          O morangueiro é um dos campeões no uso de defensivos agrícolas, pelo fato da hortaliça ser muito vulnerável a ataques de pragas e doenças. O uso de defensivos nas plantações diminui os nutrientes da fruta, bem como coloca os consumidores vulneráveis aos efeitos nocivos de agrotóxicos nos alimentos. 
          Esse cenário ruim para o consumidor vem mudando a cada ano, com o aumento da produção de morangos, cultivados sem uso algum de agrotóxicos, portanto, saudáveis e mais nutritivos.
          Por não conter agrotóxicos, esses morangos duram menos tempo que o convencional, mas com a vantagem de ter a polpa mais firme, mais doce e mais avermelhada. 
          Esse crescimento da agricultura sem veneno, principalmente em Minas Gerais, vem trazendo resultados significativos na economia mineira, por não ter gastos com os agrotóxicos, nem risco para a saúde de quem os produz, e vem ganhando a confiança do consumidor, que está adquirindo um produto de qualidade e saudável. Ganham todos. 
          É o caso de uma pequena propriedade no Sul de Minas, que iniciou sua plantação de morangos SAT (Sigla para Sem Agrotóxico, certificado que é concedido pelo Instituto Mineiro de Agropecuária - IMA). O convencional usa defensivos químicos permitidos por lei. O orgânico usa adubos naturais produzidos na propriedade ou não, controlados por uma certificadora. O SAT utiliza produtos naturais e biológicos produzidos na propriedade ou não e não utiliza defensivo químico.
          As propriedades para usarem o sistema SAT têm que ter certificado concedido pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), com renovação anual. O próprio instituto orienta os produtores como proceder para manter a produção natural, de acordo com as regras, sendo indicada também, acompanhamento e orientação de profissionais especializados, como agrônomos. O produtor deverá seguir as regras exigidas pelo IMA. Uma dessas regras é não usar nenhum tipo de agrotóxicos na plantação. Durante o ano, os fiscais do IMA visitam as propriedades, colhem amostras das folhas, frutos e adubo para análises. Estando de acordo com as normas, não tendo, por exemplo, nenhum tipo de agrotóxicos, o certificado é mantido, caso contrário, é suspenso e o produtor tem prazo para se adequar as exigências para ter de volta o certificado SAT.
          Um dos exemplos da iniciativa de produzir morangos SAT é o Sítio Cedro Vermelho localizado em Franceses, distrito de Carvalhos MG, no Sul de Minas, esse sitio conta com a consultoria técnica na propriedade de uma empresa de São Paulo. 
          Os proprietários adquiriram cerca de três mil pés de morangos, da espécie Albion, importados da Espanha, sendo cultivados no sistema semi-hidropônico, onde a nutrição chega diariamente via gotejamento, essas mudas foram plantadas suspensas em calhas recicladas em uma estufa de 40mts x 9mts, cujo substrato foi feito com compostagem feita na propriedade, com esterco, calcário, melaço termo fosfato, muita matéria orgânica e palha de arroz carbonizada. 
A grande vantagem do cultivo sem agrotóxicos é a qualidade, bem como produtividade do produto. Os morangos produzidos no Sítio Cedro Vermelho são saudáveis, maiores, chegaram de 70 a 80 gramas na primeira florada em setembro, época do morango. O que garante maior rentabilidade da fruta. São grandes, vistosos, bem avermelhados e pelo tamanho, a proprietária diz que seus morangos eram chamados de morango maçã. 
O auge da colheita do morango se faz entre agasto e dezembro, mas por estar protegido na estufa e com adubação profissional são colhidos mensalmente 150 kg fora da época. 
Colhe e Pague
          Você conhece com certeza Pesque e Pague, e agora vai conhecer o Colhe e Pague.
O Sítio Cedro Vermelho recebe visitantes que tem a oportunidade de ter uma experiência única no sul de minas. O visitante tem a oportunidade de entrar na estufa, colher os morangos que desejar, pesar e pagar. Ou seja, você mesmo escolhe e colhe o morango que irá consumir. O interessante é que os morangos são embalados, mas não em sacolas plásticas, mas em cestos artesanais de bambu, feitos por artesãos da região. 
No sítio está sendo iniciado o plantio de árvores frutíferas. Já foram plantados 400 pés de mirtilo (blue berry), 300 de amoras e 200 de framboesas. Dentro das estudas, estão sendo plantados 26 pés de uvas sendo das variedades Niágara-rosa, Niágara-branca e Uva Itália sem sementes, juntamente com os morangos. Com o passar do tempo, os pés crescerão e darão sombra para os morangos nos dias de verão. 
Além das frutas, os visitantes podem adquirir compotas, doces, sucos, polpas, geleias feitos com morango, em cozinha com fogão a lenha. 
Para visitar o Sítio Cedro Vermelho, entre em contato com a Mônica Rodrigues pelo Whatsapp 35 9 9805-2287 ou pelo email: monicarodrigues1605@gmail.com
Como chegar ao Sítio Cedro Vermelho? 
          Chegando à Carvalhos, pegue a estrada para o distrito de Franceses. São 12 km de estrada de terra, mas bem conservada. Já no distrito, encontrará placas de sinalização apontando o caminho para chegar. São apenas 800 metros do povoado.
 Carvalhos MG fica no Sul de Minas e tem menos de 5 mil habitantes, com trilhas, picos e lindas cachoeiras, como esta abaixo, da Estiva, a mais conhecida na região. Faz divisa com os municípios de Aiuruoca, Seritinga, Liberdade, Bocaina de Minas, próximo às divisas de Minas com o Rio de Janeiro e São Paulo. (na foto abaixo a Cachoeira dos Franceses)
Distância de Carvalhos às capitais:
De Belo Horizonte a Carvalhos são 390 km via BR 267 e BR 040 Do Rio de Janeiro a Carvalhos são 272 km via BR 116
De São Paulo a Carvalhos são 367 km, via BR 316
Por Arnaldo Silva com colaboração e fotografias de Mônica Rodrigues

São João Del Rei na história de Minas

De um simples arraial em 1704, a uma das principais cidades de Minas Gerais com mais de 90 mil habitantes atualmente, distante 200 km da capital. Assim é São João Del Rei (na foto acima de Kiko Neto), cidade na Região do Campo das Vertentes, que alia história, tradição e cultura com o charme das pequenas vilas mineiras e o modernismo das grandes cidades. A mistura da arquitetura barroca com a eclética e a modernista, faz de São João Del Rei um perfeito cenário de cores e emoções, marcados por épocas diferentes, tão bem a mostra em seus detalhes, cores vivas e história. 
Andar pelas ruas estreitas de São João Del Rei, calçadas com pedras, perceber a beleza, cores e o estilo barroco mineiro, do século 18, inconfundível em sua arquitetura, bem com suas igrejas centenárias, é um sentimento de volta ao passado. (foto acima de Kiko Neto) Saindo um pouco do Centro Histórico, pode se conhecer a beleza dos casarões em estilo eclético, do final de século 19, para o início do século 20. Esse estilo surgiu na França e mescla o barroco, com o modernismo do início do século 20.
Conhecendo mais São João Del Rei (na foto acima de Kiko Neto), encontramos a arquitetura moderna, em prédios, casas, praças, restaurantes, comércio, etc. São João Del Rei é a história antiga, viva, presente e moderna ao mesmo tempo. 
Ao andar pelas bucólicas ruas de São João Del Rei (na foto acima de Kiko Neto), percebe-se o silêncio e a paz que transmite. Esse silêncio guarda a magia daquele tempo quando, nós mineiros, lutávamos pela Independência do Brasil. Nos tempos da Inconfidência Mineira, a cidade, junto com a vizinha Tiradentes, foi ativa e importante na luta contra as forças da Coroa Portuguesa, tendo sido cogitada pelos Inconfidentes, ser a cidade a Capital de Minas Gerais, caso o movimento saísse vitorioso. 
São João Del Rei (na foto acima de Kiko Neto) sempre esteve na vanguarda dos mais importantes movimentos políticos em Minas e também no Brasil, como por exemplo, na Revolta Militar de Ouro Preto, em 1833, na Revolução Liberal, em 1842, bem como na Revolução de 1930 e no Movimento Militar de 1964. Tancredo Neves, filho ilustre da cidade, manteve a tradição de São João Del Rei à frente de um dos mais importantes fatos da história recente de nossa política, a redemocratização do país, em 1985. 
Ao longo dos mais de 300 anos da cidade, São João Del Rei evoluiu, cresceu e se desenvolveu, sendo hoje um polo comercial e educacional na região, além de ser uma das cidades mais importantes para o turismo em Minas Gerais. (na foto acima o Beco da Rameira, de César Reis) No século 18 a exploração do ouro era a principal atividade da cidade, hoje o ouro é outro. É o turismo. 
A cidade recebe todos os anos milhares de turistas atraídos por suas tradições e beleza singular, arquitetura e história. (foto acima de César Reis) Está sempre em movimento, sempre tem alguma atividade que agita esquinas, ruas e praças, movimentando a economia local, principalmente os ótimos hotéis, pousadas e restaurantes da cidade. O Carnaval é uma das principais festas populares com desfile de blocos caricatos pelas ruas históricas e muita alegria. 
A Semana Santa é uma das mais bonitas tradições religiosas de São João Del Rei, com todas as igrejas abertas para a visitação dos fiéis nessa época. (foto acima de Kiko Neto) Tem ainda apresentação da encenação da Morte e Ressurreição de Cristo e confecção de tapetes feitos com areia e flores, que decoram as ruas para a procissão da Semana Santa, bem como apresentações musicais, de canto e dança realizados no Largo São Francisco. No dia de Corpus Christi os tapetes coloridos cobrem as ruas num espetáculo de fé e arte. 
As belíssimas igrejas dos séculos 18 e 19 com impressionantes trabalhos artísticos da época, com altares trabalhados em ouro, forros com pinturas representando cenas bíblicas impressionantes, são um dos maiores atrativos para os visitantes. As igrejas mais procuradas a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1720), Catedral-Basílica do Pilar (1721) (na foto de Marcelo Santos o seu interior), Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1733), Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Bonfim (1769), Igreja de Francisco de Assis (1774) e também as Igreja do Senhor dos Montes, de Santo Antônio e Nossa Senhora da Piedade do Bom Despacho. 
Para coroar a beleza e emoção de conhecer São João Del Rei, o passeio de Maria Fumaça é a “cereja do bolo”. (foto acima de César Reis, a Estação de Trem de São João Del Rei) Ativa desde 1881 quando foi inaugurada por Dom Pedro II, faz o percurso atualmente até Tiradentes. São 12 km apenas, numa emocionante viagem de 45 minutos. Os passageiros embarcam na charmosa estação em São João Del Rei, sendo recebidos por figurinos trajando roupas de época e seguem até Tiradentes, uma das mais belas cidades mineiras. 
Em 2017, São João Del Rei (na foto acima de César Reis)  foi eleita a cidade mais hospitaleira do Brasil pela plataforma Airbnb. Das 10 cidades mais hospitaleiras do Brasil, na votação entre os seguidores da plataforma, São João Del Rei MG ficou em primeiro lugar.
Por Arnaldo Silva, com fotografias de Kiko Neto, César Reis e Marcelo Santos

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Em Minas a sala é a cozinha

A sala da casa do mineiro é a cozinha. A visita vai logo pra cozinha, sendo recebido com café, queijo, doces, licores, biscoitos, bolos e uma boa prosa. Se for a cinco casas de mineiro por dia, terá que tomar cinco cafezinhos e comer todas as quitandas que tiver, em cada uma delas. E não pode recusar porque para um mineiro, recusar um cafezinho ou suas quitandas, é uma ofensa. Tem que comer tudo.
A cozinha geralmente fica lá no fundo da casa, simplesmente porque lá no fundo, fica o pomar, a horta, a mina d água e o galinheiro. Pela cozinha podemos ver as jabuticabeiras, abacateiros, cajueiros, limoeiros, goiabeiras, mangueiras, pequizeiros, laranjeiras e hortaliças. Era fácil sair da cozinha para colher chuchu, quiabo, couve, alface, tomate, abobrinha, salsa, cebolinha. Horta não pode faltar num quintal mineiro, principalmente de fazendas. Nas noites frias, folha de laranjeira, de hortelã ou de erva cidreira, erva doce ou funcho é colhido para fazer chás... Mineiro adora chás e tem prazer em cultivar plantas medicinais nos quintais.
Na cozinha está o melhor da casa, o fogão a lenha. Era possível sentir lá da sala o aroma de casca de laranja e linguiças sobre o fogão. Ouvir o barulho da lenha queimando, sentir o cheirinho de café coado num coador de pano e um gostoso bolo de fubá assando na brasa do fogão.
Na dispensa, ao lado da cozinha, tem rosca caseira, queijo fresquinho, doce de leite e goiabada, feitos no tacho para ofertar às visitas. Tinha também frutas, muitas frutas no pomar, era só colher.
Os Doces Momentos da infância vêm da saudade do convívio com  avós, tios, pais e colegas. A comida estava ligada a tudo porque mineiro gosta de comer e de cozinhar. Minas é um prato cheio de delícias!
Texto de autoria de Arnaldo Silva
A primeira foto é em Vargem Bonita MG por Luis Leite. Segunda, também em Vargem Bonita, por Nilza Leonel. A terceira de Fernando Campanella em Pouso Alegre e a quarta, minha mesmo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Matriz de ouro de Tiradentes

Com meia tonelada de puro ouro em obras de arte, a Matriz de Santo Antônio em Tiradentes é uma das mais belas, imponentes e importantes igrejas do Estado de Minas e uma das mais belas do Brasil não apenas pela arte em ouro, mas por sua história, riqueza arquitetônica e valor cultural para Minas e Brasil. 
Sua construção começou em 1710, tendo sido inteiramente concluída por volta de 1752. O seu interior impressiona pela beleza e riqueza dos detalhes das obras sacras esculpidas em ouro e pelas pinturas religiosas nos painéis laterais e forros da igreja. (na foto acima de César Reis) São seis altares em seu interior, destacando a impressionante capela-mor, esculpida no estilo do barroco Joanino.  
Construída sobre uma colina, onde pode ser vista a distância, a Igreja de São José (fotografia acima de Elvira Nascimento) é uma das mais bela e importante igreja para Tiradentes e Minas Gerais. Sua fachada, com ornamentação em estilo rococó, executada em taipa, tijolos e argamassa, é atribuída ao Mestre Aleijadinho.       
Dezoito quadros emoldurados por folhagens em ouro, representando encenações bíblicas, ornamentam a nave e as laterais do interior da Matriz. (foto acima de César Reis) Não existe até o momento definição exata da autoria dos quadros. Pisando no assoalho feito em óleo de bálsamo, percebe-se vários números, número 1 ao 116. Prática comum naquele tempo era sepultar pessoas dentro das igrejas, no caso, na Matriz de Santo Antônio, 116 pessoas estão enterradas. Cada sepultura com uma numeração. São pessoas de todas as camadas sociais da época, desde fidalgos, membros da irmandade local, religiosos a escravos. 
No coro da igreja havia um pequeno órgão, que posteriormente foi substituído por outro órgão maior. (na foto acima de César Reis) Foi feita a encomenda da parte mecânica de um órgão médio, em Portugal. A peça chegou a Tiradentes em 1788, dois anos depois. A parte de entalhe da caixa do órgão foi feita pelo entalhador Salvador de Oliveira e a pintura, por Manoel Victor de Jesus. A montagem do órgão, entalhe da caixa e pintura foram concluídos em 1798.
Já no adro da Matriz, encontra-se um relógio que foi esculpido em pedra sabão em 1785, por Leandro Gonçalves Chaves. (na foto acima de César Reis) É uma das atrações do complexo religioso. Como não naquela época não existia relógios como hoje este relógio de sol da Matriz era a referência de tempo dos moradores de Tiradentes. 
Se perceberem bem, em uma das torres da Matriz tem outro relógio, vindo de Portugal em 1788. (na foto acima e abaixo de César Reis)
Visitando Tiradentes, não deixe de conhecer a Matriz de Santo Antônio. As visitas são diárias, nos horários de 9h às 17 horas. (Por Arnaldo Silva)

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O Caraça e a montanha do gigante deitado

A Serra do Caraça é uma das mais belas serras mineiras, localizada entre Santa Bárbara e Catas Altas, pertence ao município de Catas Altas, cidade histórica mineira a 120 km de Belo Horizonte. É um dos trechos da cadeia de montanhas da Serra do Espinhaço, que começa na região de Catas Altas e se estende até a divisa de Minas com o Sul da Bahia.
    O nome "Caraça" surgiu desde a chegada dos primeiros moradores na região, no século XVIII. Segundo dicionários antigos de Portugal, Caraça era uma sacada de onde as pessoas eram queimadas na fogueira, durante a Inquisição. Segundo o povo antigo da região, Caraça é uma cara grande, enorme. Isso porque um enorme maciço rochoso encontrado no local, conhecido como "montanha do gigante deitado", tem aparência de uma cara enorme, vista tanto de perto, quanto de longe. (Foto acima de Josiano Melo)
Como podem ver na foto acima do Toninho Morais, tendo o Judson Nani numa posição idêntica a imagem característica do Caraça. Percebe-se perfeitamente a aparência de uma pessoa. Por isso o nome popular, Caraça. Mas na verdade, o nome oficial do lugar é Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, mas todos chamam o Santuário pelo apelido, Caraça.
     Além da beleza arquitetônica do Santuário, toda sua natureza em volta é um verdadeiro espetáculo. Rios, lagos, cachoeiras, cascatas, trilhas, grutas, paisagens fascinantes que podem ser contempladas e vistas de mirantes, bem como, curtir o frescor das águas limpas das cachoeiras e quedas d´água de todo o complexo como a Cascatinha, Cascatona e Bocaina (na foto acima de Tom Alves/tomalves.com.br).
     Toda a Serra do Caraça (na foto acima de Isaac Rangel) é um santuário de grande importância ambiental, ecológica, cultural, arquitetônica e religiosa para Minas Gerais. Hoje é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural através do Decreto 98.914, de 31 de janeiro de 1990, formalmente chamada de Parque Natural do Caraça ou Complexo do Santuário do Caraça. A Reserva possui 11.233 hectares em área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, com altitude variando entre 720 a 2070 metros acima do nível do mar. O ponto mais alto da Serra do Espinhaço, o Pico do Sol, fica no Caraça e é um dos lugares mais visitados.
     A surpreendente riqueza da fauna e principalmente flora da Reserva, atrai pesquisadores de todo país à região. (foto acima de Josiano Melo) Na área foram catalogadas até o momento cerca de 500 espécies de besouros, sendo 200 dessas espécies nativas ou encontradas no Caraça pela primeira vez. Foram catalogadas ainda pelos pesquisadores mais de 200 espécies de orquídeas e várias outras espécies de nossa flora. Cerca de 274 espécies de aves e 65 de mamíferos como suçuaranas, tamanduá-mirim, quatis, saguis, sauás, raposas, antas, pacas, e o lobo-guará, entre outros, foram catalogados no Caraça, além de 50 espécies de aranhas, identificadas pelo Instituto Butantã de São Paulo.
     Uma dessas espécies mais atraentes do Caraça é o Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que todas as noites, sobe até o adro do Santuário para comer carne das mãos dos padres. (foto acima de Josiano Melo) A chegada dos lobos é um momento emocionante para os turistas que ficam a espera do animal para fotografá-lo e vê-lo bem de perto.
A história do Caraça
     A história religiosa e arquitetônica da região começou na segunda metade do século XVIII com a chegada de um misterioso religioso chamado de Irmão Lourenço de Nossa Senhora, que chegou à região com o objetivo de fundar um eremitério e fortalecer a vida religiosa no interior da capitania de Minas. (fotografia acima de Edison Zanatto) Em pouco tempo, o Irmão Lourenço reuniu entre mais 12 eremitas e conseguiu edificar o monastério e uma igreja em estilo barroco, concluída em 1779, tornando o Caraça um centro de peregrinação religiosa na época. (foto abaixo de Josiano Melo, parte do Santuário que foi destruída pelo incêndio de 1968)
     Após a morte do Irmão Lourenço em 1819, a fundação foi entregue ao Rei Dom João VI, que posteriormente a entregou ao eremitério da Congregação da Missão (Padres Lazaristas). Este ato de Dom João VI foi crucial e importante para a educação mineira, já que os novos padres transformaram o eremitério em um colégio caracterizado por sua seriedade e disciplina rígida, tornando o Colégio do Caraça uma referência em ensino em todo o Brasil.
     Com o crescimento do Colégio, já no final do século XIX, os padres optaram por construir uma nova igreja, já que a antiga não comportava mais o grande número de alunos. A nova igreja, dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens (na foto acima de Josiano Melo, o interior da Igreja), foi construída em estilo neogótico, sendo hoje uma das grandes atrações do Caraça, por sua riqueza arquitetônica, pelos vitrais franceses, o órgão de tubos, a enorme tela da "Última Ceia", do Mestre Manuel da Costa Ataíde e pela importância história do Santuário.
     Em suas salas de aulas estudaram filhos de famílias abastadas da sociedade mineira e brasileira, muitos se destacando na vida profissional e política como os ex-alunos Afonso Pena e Artur Bernardes que foram presidentes da República, bem como senadores, deputados e altas autoridades eclesiásticas se formaram no Colégio do Caraça.
     O Colégio do Caraça era tão importante para época que recebeu visita dos dois imperadores do Brasil, Dom Pedro I e posteriormente, seu filho, Dom Pedro II, em 1881. Os ilustres imperadores deixaram suas presenças que podem ser vistas no Museu do Caraça, na Igreja doando os vitrais, na Biblioteca e até andando pelos caminhos de pedra sabão, deixaram suas presenças. É que o Imperador escorreu na pedra e caiu sentado no chão. Onde Dom Pedro II caiu, ficou gravada a data e ano de sua queda, ainda desenharam uma coroa imperial para que todos saibam que foi nessa pedra que o Imperador escorregou, não só ele, mas outros tantos já levaram tombo similar, mas o personagem mais ilustre que levou um tombo no Caraça foi Dom Pedro II. Virou atração para os visitantes, como podem ver na foto do Wellington Diniz.
     Dom Pedro II e sua esposa Dona Tereza Cristina, se encantaram tanto com o Caraça que deixaram gravada essa frase:

     No começo do século XX, o Colégio passou a ser um seminário religioso da Congregação da Missão. O complexo arquitetônico do Santuário foi tombado pelo IPHAN em 1955, passando desde então a ser Patrimônio Nacional, mas infelizmente, em 1968, um incêndio destruiu parte das instalações onde viviam os alunos e parte de sua rica Biblioteca.
     Em 2002, uma parte do prédio queimado foi restaurada e sendo instalada a nova Biblioteca do Caraça (na foto acima peças do museu, fotografado pelo Fabinho Augusto), que conta no seu acervo com obras valiosas dos séculos, 16, 17, 18 e 19. No local também foi instalado um museu, que retrata como era a vida colegial nos tempos que o Colégio do Caraça funcionava. (Por Arnaldo Silva)
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COMO CHEGAR
•Catas Altas fica a 120 quilômetros de BH. Saindo da capital, siga pela BR-381 até a MG-436. Prossiga pela MG-436 e, depois, MG-129 até o destino. O visitante tem a opção de hospedar na hospedaria do Caraça que é excelente, além de ter ainda restaurante. Tudo num lugar só. O telefone da hospedaria do Caraça (31) 3837-7327 e (31) 3837-1939. Quem quiser também pode entrar em contato através do site do Caraça:http://www.santuariodocaraca.com.br