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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Relembre as cantigas infantis de roda e de ninar

As cantigas de roda e ninar fazem parte do conjunto de histórias, lendas e superstições de nosso povo. (arte feita com papel de jornal pela artesã Márcia Rodrigues de Felício dos Santos MG) As mães cantavam e incentivam os filhos a cantar e brincar com outras crianças da rua. Ouvir as cantigas cantadas por pais, pelas tias, professoras ou mesmo amigos, acalentava o coração e propiciavam sensações de alegrias. Favorecia os laços de família e fortalecia os laços de amizade, pela grande vantagem de estar num ambiente coletivo ou no aconchego do berço ou no colo da mãe. Quem teve o privilégio de viver nos tempos da cantigas de ninar e brincadeiras de roda, vai relembrar com nostalgias os versos abaixo. São versos populares, cantados nas brincadeiras de ruas, no recreio da escola e em casa, brincando com os irmãos e amigos. 
Pintura do artista plástico Gildásio Jardim de Padre Paraíso MG
Domingo
Hoje é domingo
Pede cachimbo
O cachimbo é de barro
Que bate no jarro
O jarro é de ouro
Que bate no touro
O touro é valente
Bate na gente
A gente é fraco
E cai no buraco
O buraco é fundo
Acabou-se o mundo!
Escravos de Jó
Os escravos de Jó
Jogavam caxangá
Tira, põe,
Deixa o zabelê ficar
Guerreiros com guerreiros
Fazem ziguezigue zá
Guerreiros com guerreiros
Fazem ziguezigue zá.
Eu entrei na roda
Ai, eu entrei na roda
Ai, eu não sei como se dança
Ai, eu entrei na “rodadança”
Ai, eu não sei dançar
Sete e sete são quatorze, com mais sete, vinte e um
Tenho sete namorados só posso casar com um
Namorei um garotinho do colégio militar
O diabo do garoto, só queria me beijar
Todo mundo se admira da macaca fazer renda
Eu já vi uma perua ser caixeira de uma venda.
Fui ao Tororó
Fui no Tororó beber água não achei
Achei linda Morena
Que no Tororó deixei
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada
Oh! Dona Maria,
Oh! Mariazinha, entra nesta roda
Ou ficarás sozinha!

Marcha soldado
Marcha Soldado
Cabeça de Papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel
O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional .
Marinheiro só
Oi, marinheiro, marinheiro,
Marinheiro só
Quem te ensinou a navegar?
Marinheiro só
Foi o balanço do navio,
Marinheiro só
Foi o balanço do mar
Marinheiro só.
Meu limão, meu limoeiro
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Uma vez, tindolelê,
Outra vez, tindolalá.
Peixe vivo
Como pode o peixe vivo
Viver fora d'água fria?
Como pode o peixe vivo
Viver fora d'água fria?
Como poderei viver,
Como poderei viver,
Sem a tua, sem a tua,
Sem a tua companhia?
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria
Por me ver assim chorando
Sem a tua, sem a tua companhia.
A canoa virou
A canoa virou
Por deixá-la virar,
Foi por causa da Maria
Que não soube remar
Siriri pra cá,
Siriri pra lá,
Maria é velha
E quer casar
Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar,
Eu tirava a Maria
Lá do fundo do mar.
Atirei o pau no gato
Atirei o pau no gato tô tô
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá
Admirou-se se
Do berro, do berro que o gato deu
Miau!!!!!!
Se esta rua fosse minha
Se esta rua,
Se esta rua fosse minha,
Eu mandava,
Eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas,
Com pedrinhas de diamantes,
Só pra ver, só pra ver
Meu bem passar
Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
Tu roubaste, tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
É porque, é porque te quero bem
Boi da cara preta
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega esta criança que tem medo de careta
Não , não , não
Não pega ele não
Ele é bonitinho, ele chora coitadinho.
Cai cai balão
Cai cai balão, cai cai balão
Na rua do sabão
Não Cai não, não cai não, não cai não
Cai aqui na minha mão!
Cai cai balão, cai cai balão
Aqui na minha mão
Não vou lá, não vou lá, não vou lá
Tenho medo de apanhar!
Capelinha de melão
Capelinha de Melão é de São João
É de Cravo é de Rosa é de Manjericão
São João está dormindo
Não acorda não!
Acordai, acordai, acordai, João!
Ciranda, cirandinha
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou,
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
O cravo brigou com a rosa
O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa, despedaçada
O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio,
A rosa pôs-se a chorar.
Peixinho do mar
Quem me ensinou a nadar
Quem me ensinou a nadar
Foi, foi, marinheiro
Foi os peixinhos do mar.
Pezinho
Ai bota aqui
Ai bota aqui o seu pezinho
Seu pezinho bem juntinho com o meu
E depois não vá dizer
Que você se arrependeu!
Pirulito que bate bate
Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
Quem gosta de mim é ela
Quem gosta dela sou eu
Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
A menina que eu gostava
Não gostava como eu.
Roda pião
O Pião entrou na roda, ó pião!
Roda pião, bambeia pião!
Sapateia no terreiro, ó pião!
Mostra a tua figura, ó pião!
Faça uma cortesia, ó pião!
Atira a tua fieira, ó pião!
Entrega o chapéu ao outro, ó pião!
Samba Lelê
Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
De umas dezoito lambadas
Samba, samba, Samba ô Lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá
Ó Morena bonita,
Como é que se namora ?
Põe o lencinho no bolso
Deixa a pontinha de fora.

Teresinha de Jesus
Teresinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Teresa deu a mão
Teresinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração
Dá laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da morena mais bonita
Quero um beijo e um abraço.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O que é quitanda para o mineiro?

(Por Arnaldo Silva) Quitanda é uma palavra muito pronunciada no Brasil, principalmente em Minas Gerais, embora o significado de quitanda para os mineiros seja diferente do restante do Brasil. origem dessa palavra é africana e se escrevia “kitanda” com k, posteriormente modificada devido à atualização da língua portuguesa no século XX. (na foto abaixo do Brunno Estevão, quitanas preparadas pela dona Ercilene Zan Fava de Pedra Dourada MG)

          Literalmente kitanda, no dialeto quimbundo, é um tabuleiro onde se coloca alimentos para a venda, geralmente por vendedores ambulantes ou em feiras livres. Em algumas partes do interior do Brasil, quitanda ou quitandeira, era uma pequena mercearia onde se vendia além de gêneros alimentícios, produtos de limpeza, fumo, higiene, carvão, etc. Para nós mineiros, esse tipo de mercearia chama-se venda e existe até hoje em algumas regiões mineiras como esta ai abaixo, na zona rural de Bom Despacho MG.
          Quitanda também tem significado diferente para o mineiro. Para nós mineiros, quitanda é simplesmente tudo que é feito em casa e servido com café, como queijos, broas, sequilhos, biscoitos, bolos, além dos produtos que saiam dos quintais para as panelas dos fogões à lenha como doce de leite, goiabada, doce de mamão, compotas, etc. Essas quitandas eram colocadas em tabuleiros ou mesas da cozinha para a merenda das famílias e também quando chegavam visitas.
          Fazer quitandas é uma das mais antigas tradições mineiras. Saiu das senzalas, graças ao gênio culinário das escravas. 
Quitandeiras em Vila Rica, hoje Ouro Preto MG, imortalizada na tela do artista plástico Jean Baptiste Debret (1768-1848)
          A tradição das quitandeiras mineiras começou a partir de 1716, em Vila Rica, hoje Ouro Preto. As escravas e escravos, além de prepararem as quitandas para seus senhores, faziam também para vender pelas ruas de Vila Rica. Colocavam as quitandas no tabuleiro e saiam pelas ruas com os tabuleiros na cabeça, vendendo as quitandas. Alguns senhores de escravos mantinham pequenas vendas na Vila onde as quitandas ficavam à venda o dia todo. O dinheiro das vendas não ficava com os escravos, a não ser com os que eram forros. Havia também casos de escravos e escravas forras que sustentavam suas famílias com a criação de pequenas vendas pelas vilas.
          Passam-se séculos, mas a tradição continua a mesma. Pelo interior de Minas Gerais, quitandeiras fazem biscoitos, bolos, broas, roscas, doces, queijos, etc. e vendem pelas ruas, em feiras livres ou montam pequenos negócios em suas casas para venderem seus produtos. (a foto abaixo mostra quitandas sobre o fogão a lenha do Armazém Bertolotti em Extrema MG)
          E ainda, a tradição de preparar quitandas para família continua. Colocar sobre as mesas os melhores doces, queijos, biscoitos, bolos, roscas e broas eram uma forma de unir as famílias na hora do café da manhã e merenda da tarde, além de agradar as visitas, já que visitar amigos, parentes, comadres e compadres, era uma prática corriqueira entre mineiros, naquels tempos. Dependendo das famílias, era visita todo dia.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O que é Uai e sua origem em duas versões

(Por Arnaldo Silva) É a pergunta que todos fazem. A resposta vem logo: uai é uai, uai!
          Quando um mineiro diz Uai, significa que ele está demonstrando dúvida, surpresa, espanto, susto, impaciência, terror ou admiração. Mas como, quando e porque o mineiro passou a falar Uai, é uma incógnita.
          Explicações existem como a versão atribuída a Sílvio Carneiro e Dorália Galesso, num estudo encomendado pelo ex presidente Juscelino Kubistchek, relata que UAI são as iniciais de União, Amor e Independência. UAI seria uma senha (juntamente com as três batidas clássicas da Maçonaria) utilizada pelos integrantes da Inconfidência Mineira (quase exclusivamente composto por maçons) para que a porta do local de encontros secretos fosse aberta. Era uma maneira de se protegerem da polícia portuguesa.
          Há outra versão mais popular e convincente defendida desde os anos 70 e apresentado por um professor mineiro no 5ª Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes, realizado na Universidade Federal de Ouro Preto em 2001.
          Segundo a tese, a expressão começou a surgir popularmente com a instalação da multinacional inglesa “Imperial Brazilian Mining Association” primeira empresa de capital estrangeiro a se instalar em Minas Gerais e investir no Brasil, adquirindo a mina de ouro de Congo Soco, pertencente a João Baptista Ferreira de Souza Coutinho, o Barão de Catas Altas. Essa mina foi explorada entre os anos de 1824 até 1856. Durante esses anos, Congo Soco se transformou numa autêntica vila inglesa. Não se sabe ao certo a origem do nome Congo Soco. O local ainda existe e suas ruínas foram tombadas pelo Iepha/MG desde 1995. Fica no município de Barão de Cocais, a 76 quilômetros de Belo Horizonte.
          Voltando a tese do professor, ele afirma em seus estudos, com sua própria palavra que a expressão Uai “Pode ser atribuída ao convívio com esses e outros ingleses que residiram na província a utilização por parte dos mineiros da interjeição “Uai!” (que exprime surpresa e/ou espanto), a qual possui semelhanças fonéticas e semânticas com o vocábulo “Why” utilizado na língua inglesa com o mesmo sentido do nosso “por quê?”, ou como interjeição, assumindo, neste caso, o mesmo sentido do Uai mineiro. Notemos que o Uai mineiro e o “Why” britânico possuem a mesma representação fonética; e notemos ainda que o Uai é a expressão da língua portuguesa falada no Brasil que mais se relaciona com a identidade mineira”. Como os ingleses não entendiam o que os mineiros falavam e muitos menos os mineiros entendiam o que os ingleses falavam, algumas expressões passaram a serem ditas com freqüência pelos mineiros, na tentativa de se comunicar com os ingleses, por serem mais fáceis de falar como Where (uér), Why (uai) e So (sô). Era o que entendiam e conseguiam falar, daí se popularizou o nosso Sô. Why So (Por que Assim?).
          Os ingleses se foram e deixaram por aqui parte de seu vocabulário que passou a se difundir e ser muito falado, principalmente o Why So que virou o nosso tradicional Uai Sô.
          O certo é que não há uma constatação oficial da origem do nosso Uai. O que se tem são estudos e teses, feitas por professores e pesquisadores do assunto. O correto em afirmar é que o Uai é fato concreto, é parte de nossa cultura, de nosso vocabulário e é de Minas, é do mineiro.
          Convergências e divergências sobre o tema existirão sempre, já que é um assunto polêmico, mas todos concordam que a expressão Uai é patrimônio eterno de Minas, ah isso é! 

          Resumindo: a origem do Uai tanto faz, isso porque para nós mineiro uai é uai, sô e pronto! Definido e explicado.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A história da Fazenda Santa Clara

 (Por Arnaldo Silva) A Fazenda Santa Clara fica em Santa Rita de Jacutinga, charmosa cidade da Zona da Mata, com cerca de 5 mil habitantes que faz divisa com os municípios de Rio Preto, Bom Jardim de Minas, Passa Vinte. É a maior atração turística do município que fica apenas 140 km de Juiz de Fora,190 km do Rio de Janeiro e 380 km de Belo Horizonte.
          A história da fazenda começou no final do final do século XVIII, quando o fazendeiro e minerador, Luiz Fortes de Bustamante e Sá, natural de São João Del Rei, foi agraciado com o cargo de guarda-mor do registro de Rio Preto. Um guarda-mor era um oficial nomeado pela Coroa Portuguesa, tendo como função proteger o Rei, comandar sua guarda pessoal e cuidar de seus bens em sua ausência. Mas Luiz desistiu do cargo, sendo substituído pelo seu irmão, Francisco Dionísio Fortes de Bustamante, que mudou com a esposa e filhos para a região, por volta de 1800.
          Em 1824, Francisco Tereziano Fortes de Bustamante, filho de Dionísio Francisco, recebeu do governo imperial uma sesmaria de terras e nestas terras, ergueu a Fazenda Santa Clara. A construção teve início em 1805, levou 15 anos para ser construída e totalmente concluída, com decoração, entalhes e detalhes em 1856. Após sua morte, sua esposa, a viscondessa de Monte Verde, dona Maria Tereza de Souza Fortes, assumiu a fazenda, que depois de falecida, deixou a fazenda para seu irmão, Carlos Teodoro de Souza Fortes, já que a viscondessa não teve filhos. Com o fim da escravidão, pela enorme estrutura da fazenda, bem como a manutenção do casarão, as dificuldades para pagar mão de obra e manter toda a estrutura da propriedade eram grandes. As dívidas aumentavam, até a fazenda ser hipotecada, estando em posse de um banco por 20 anos até ir a leilão, tendo sido arrematada pelo Comendador Modesto Leal e vendida em 1924 para o Coronel João Honório, sendo a Santa Clara, hoje, propriedade de seus descendentes.  
          Ao todo, a Fazenda Santa Clara tem 6 mil m² de área construída, com 365 janelas, uma para cada dia do ano, 54 quartos, 12 salões, 3 cozinhas, 2 terreiros de café, uma capela, um mirante, senzala, masmorra, etc. É considerada uma das maiores construções rurais da América Latina. Trabalho de construção feito por escravos, erguida em vigas de madeira e pau-a-pique, com decoração e ornamentação interna, totalmente com mobiliário, requintado, luxuoso, trabalhado em madeira bruta, feitos pelos melhores marceneiros e artistas da época.No entorno da fazenda um enorme terreiro de café, chama a atenção por sua dimensão, além da masmorra, construída de forma que impedisse qualquer tipo de fuga de escravos. 
          Mesmo assim, foi construído um mirante, que permitia ver toda a movimentação no entorno da fazenda, num ângulo de 360º graus, permitindo uma vigilância melhor da fazenda. Um detalhe interessante que neste mirante, construído no topo do casarão, foi instalado um relógio alemão, datado de 1840, em perfeito funcionamento até hoje. 
          É tradição no Brasil criar-se lendas e superstições, em torno de casarões antigos, com estórias que envolvem fantasmas arrastando correntes, tesouros escondidos, assombração, etc. Evidentemente, que a Fazenda Santa Clara não escapa dessas lendas, ainda mais por sua história, que envolve luxo, riqueza,  escravidão e sofrimento. Na tradição popular, tem muita estória. 
          Não se sabe ao certo quantos escravos trabalhavam na fazenda Santa Clara. Acredita-s que desde sua fundação, até o fim da escravidão, tenha sido usado na fazenda, a mão de obra de cerca de  3 mil seres humanos escravizados. Esse grande número de escravos se explica pela enorme produção cafeeira da fazenda, exigindo muita mão de obra e com cercas de 14 horas de trabalho por dia. 
          Além de usar os escravos no trabalho diário da fazenda, um outro negócio paralelo ao café, aumentava em muito a riqueza dos proprietários. Era a comercialização de escravos para outros fazendeiros da região. Escravos eram comprados e revendidos ou mesmo, os filhos e filhas dos escravizados, eram vendidos, movimentando um comércio lucrativo na fazenda. Nas fotos acima, a senzala, onde os escravos dormiam e alguns dos instrumentos usados para castigar os escravos.
A Fazenda ontem e hoje
          A fazenda Santa Clara, guarda mais de 200 anos de história e tradição, tendo sua fachada tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórica e Artístico Nacional (IPHAN), bem com está em análise pelo órgão, o tombamento de sua parte interna. Para manter a conservação e preservar a história da fazenda, o local é aberto a visitação, com visitas acompanhadas por guias, com cobrança de uma taxa por pessoa. Esse valor é usado para a manutenção e preservação de um dos patrimônios de Minas Gerais e do Brasil.   
          Além de toda sua história, um detalhe curioso, são as telhas que cobrem o teto. Percebe-se que os tamanhos e formatos não são padronizados, se diferem uns dos outros. Isso porque, foram usados como moldes, as coxas dos escravos. Alguns tinham as coxas mais grossas, outros mais finas e por isso aconteciam essas variações nos formatos. Não eram telhas padronizadas, como vemos hoje. Assim surgiu a famosa expressão popular " feito pelas coxas". 
          Todos os meses turistas de várias partes do Brasil e até do exterior, vem à Fazenda Santa Clara para conhecer o casarão e toda sua história, percorrendo todos os cômodos possíveis, os salões, a senzala, a masmorra, os mobiliários da época, ouvindo com atenção as histórias contadas pelos guias.
          No casarão, o visitante tem a oportunidade entrar dentro da senzala e masmorra e conhecer em detalhes como era a vida dos centenas de escravos da fazenda, bem como os instrumentos usados para castigos e o mirante, construído para vigiar os escravos e a fazenda. 
         No interior do casarão, o mobiliário chama a atenção pelo luxo e arte muito bem feitas. Um tapete persa de mais de 20 metros quadrados é um dos atrativos, numa sala luxuosíssima, rodeada por mobiliário requintado de época. Outro atrativo é um espelho todo coberto em ouro e vários móveis como cristaleiras, cadeiras, lustres e outros objetos de grande valor histórico e cultural, pela beleza e requinte como foram trabalhados. 
          Por essa rica história e construção exuberante, a fazenda Santa Clara foi cenário da novela "Terra  Nostra"em 1999 e também da minissérie "Abolição", ambas da Rede Globo. 
     Na Região da Zona da Mata, existiam dezenas de fazendas de café com um rico patrimônio arquitetônico e cultural. Muitas delas ainda preservadas, mas de boa parte dessas fazendas, sobraram poucas peças para contar sua história. Ao contrário da Fazenda Santa Clara, foram conservadas boa parte da história da fazenda, bem como sua arquitetura e mobiliário. Por isso sua importância para Minas Gerais, um patrimônio que deve ser preservado. 
          A conservação da Fazenda Santa Clara até os dias de hoje é de grande importância para entendermos a história e o estilo de vida das oligarquias da época, bem como sua visão cultural, politica, religiosa e social, além, claro, de como viviam os escravos, o comércio de seres humanos e a forma como eram tratados. Estar na fazenda, entrar nos suntuosos aposentos da imponente construção, descer à senzala e masmorra, é uma aula de história viva. Isso porque a fazenda foi umas das mais ativas na produção cafeeira na época, no auge do Ciclo do Café. São histórias de riqueza, luxo, poder, também por simbolizar os horrores praticados durante os tempos da escravidão. Impressiona por sua beleza, ao mesmo tempo, causa calafrios pela dor e sofrimento causados aos escravos, somente em ver os instrumentos usados para castigos e pela forma com que viviam na senzala, já arrepia e comove. 
          A Fazenda Santa Clara é a face da história da riqueza e escravidão no Brasil e conhecê-la é aprofundar-se de corpo e alma na nossa história, em especial, do século  XIX, durante o período da riqueza e poder, gerados pelo café, cuja a fazenda é o reflexo de tudo isso.
COMO VISITAR A FAZENDA SANTA CLARA
Endereço: Estrada Santa Rita - Rio Preto Povoado João Honório, Santa Rita de Jacutinga MG
Horário visitas: Todos os dias de 8 às 17 horas com guia. Cobra-se para entrar. Verifique os valores
Telefones: (32) 3291-1400 - (24) 2442-5703

(Todas as fotos desta edição são de autoria de Rildo Silveira)

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