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sexta-feira, 27 de maio de 2016

A mística cidade sagrada de pedras

(Por Arnaldo Silva) São Thomé das Letras é a mística cidade de pedras. (foto acima de Vânia Pereira). A cidade está na região Sul de Minas distante 350 km de Belo Horizonte. Com 1227 metros de altitude, é a quarta cidade mais alta no Brasil. A arquitetura letrense chama a atenção pela simplicidade e fino acabamento. É pedra sobre pedra. Mas não são apenas as pedras que chamam a atenção em São Tomé das Letras. É o misticismo.
Místicos, cientistas, ufólogos, sociedades espiritualistas e estudiosos do esoterismo, acreditam que São Tomé das Letras seja um dos sete pontos energéticos da Terra. Essa crença faz com que a cidade receba constantemente pessoas em busca da energia, que acreditam, que São Tomé das Letras tenha.
Chegando na cidade o visitante se depara com um clima totalmente diferente. Tanto pelas ruas e casarios de pedras, quanto pelas roupas alegres que boa parte das pessoas que lá vivem, vestem. Lembra muito o estilo hippie de vestirem. (na foto de Jerez Costa, contemplação da natureza). Além da beleza da arquitetura local, as belezas naturais chamam a atenção. Melhor adquirir um mapa, nos estabelecimentos locais ou nas pousadas para se orientar.  (na foto abaixo, de Jerez Costa, o Poço Secreto)
Na cidade um dos pontos mais visitados é sem dúvida a "Pirâmide". Toda em pedras, a "pirâmide" está no topo de uma montanha o que possibilita uma espetacular vista do nascer e do pôr do sol e também das estrelas. A noite estrelada  de São Tomé das Letras, fascina. Alguns acreditam também que a "pirâmide" é ponto de contato dos terráqueos com os Extraterrestres e Ovinis. Registros e relatos de aparições de discos voadores e Ovnis são comuns na cidade. 
Uma boa dica também de passeio pelos belezas do município é o Poço Verde onde tem uma bela vista, podendo se ver algumas cidades em torno de São Tomé das Letras. A cidade faz divisa com São Bento do Abade, Baependi, Luminárias, Cruzília, Conceição do Rio Verde e Três Corações. (foto acima de Jerez Costa)
Todo místico que vai à São Tomé das Letras e os amantes da natureza fazem questão de ir ao Vale das Borboletas e curtir as águas da Cachoeira das Borboletas (na foto cima de Vânia Pereira). Sua pequena queda forma um poço de água verde esmeralda, propícia para um bom banho e relaxamento. 
A Cachoeira da Lua (na foto acima de Lucas Vieira) é uma pequena queda com um poço muito apreciado pelos banhistas e amantes da natureza. Uma outra cachoeira muito procurada é a Véu da Noiva. Além dessa tem a Cachoeira do Paraíso e a dos Antares, que é a mais alta de São Tomé. Todas as três são ótimas. Você não pode deixar de ir também na Gruta do Sobradinho. No interior dessa gruta corre um pequeno riacho cujas águas caem mais à frente formando uma cachoeira e depois da queda, segue seu percurso normal. (foto abaixo de Jerez Costa)
Um outro lugar legal para conhecer é a Ladeira do Amendoim, onde os carros, desligado e em ponto morto, sobem sozinhos.  Os místicos afirmam que o fenômeno é causado pelo magnetismo da região. Os mais céticos afirmam que é apenas uma ilusão de ótica. 
Depois de curtir bastante as belezas naturais da cidade, aproveite a vida noturna. Você terá muitas opções de bares, restaurantes. O Bat Caverna é muito popular. (na foto acima de Pepe Chaves) Mas também pode fazer compra no comércio, que é muito variado e em geral, com temas voltados para o misticismo. Você vai encontrar lojas que vendem artigos artesanais, roupas e produtos hippies e ciganos indianos e claro, todo tipo de artigos esotéricos. Você pode experimentar também o Locomelo. Uma bebida alcoólica feita com cogumelos que tem um sabor doce e bem forte. O município é propício para a produção de cogumelos, dai a bebida. 
Em São Tomé das Letras (foto acima de Jerez Costa) você perceberá que boa parte dos seus moradores tem uma concepção de mundo diferente e tem uma vivência maior com a natureza. Acreditam na energia do lugar. Se conversar com os moradores irá perceber que muitos falam com convicção  que existe vida em outros planetas, que eles vem até nós para nos contactar. Acreditam no misticismo, na energia das pedras, montanhas, água, da terra. 
Na cidade existe a Caverna do Carimbado. Místicos afirmam que essa caverna liga São Tomé das Letras a Machu Pichu, no Peru. Por essa passagem, segundo os místicos, possibilitou a misteriosa fuga dos Incas. Segundo a crença mística São Tomé faz parte das "Sete Cidades Sagradas". Atualmente o acesso a essa caverna está fechado.
Todas essas sete cidades estão em Minas Gerais que são Pouso Alto, Itanhandu, Carmo de Minas, Maria da Fé, São Tomé das Letras, Conceição do Rio Verde e Aiuruoca. Essas sete cidades sagradas estão em torno da capital espiritual do Novo Milênio, que para os místicos é São Lourenço MG, também no Sul de Minas. (foto acima de Vânia Pereira) Independentemente da crença que a pessoa tenha, São Tomé das Letras é um lugar onde o divino se faz presente. Um lugar propício para meditação, oração e contato mais íntimo com Deus, com a natureza e para aprimoramento espiritual. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Colonização Alemã em Bom Despacho MG

Navio com imigrantes alemães chegando ao Porto de Santos             
Saindo de um país arrasado pela Primeira Guerra Mundial, temerosos de uma Segunda Guerra e acalentando o sonho de um pedaço de terra, difícil na Europa, muitos alemães chegaram ao Brasil no início dos anos 20, após uma difícil e perigosa travessia de três meses pelo Atlântico minado. 
Vindos de diferentes pontos da Alemanha, alguns da Suíça e da Hungria, aqui em Bom Despacho se encontraram após uma quarentena na Ilha das Flores no Rio de Janeiro. Aqui se agruparam em duas colônias: Davi Campista e Álvares da Silveira, num total de mais ou menos 80 famílias: Kohnert, Hammerich, Fischer, Peifer, Korel, Primus, Bobbia, Knischewsky, Gendorf, Enhemann, Shmeidereit, Feistel, Brack, Seidler, Grimpel, Frey, Wesser, Wsterman, Klimanschefsqui, etc. Cada família recebia um lote de cerca de oito alqueires que deveria pagar entregando na sede da colônia 20% do que produzia. Poucos conseguiram acabar de pagá-los. Dificuldades uma atrás da outra. Clima inóspito para o Europeu. A língua que ninguém entendia. A alimentação diferente. A formação técnico-industrial e não agrícola da maioria. O nível do maquinário agrícola inferior do de seus países de origem. A ausência quase total de conforto nas colônias, a dificuldade para fazer compras. E depois a própria falta de dinheiro. Em Álvares da Silveira, uma região infestada de doenças tropicais como a malária e o tifo, e todo tipo de praga como piolhos de galinha, carrapatos, bichos de pé, borrachudos e outros mosquitos. Bagagens roubadas, perdidas. Muitos alemães se assustaram e não chegaram nem a tirar as ferramentas das malas.
Mas, trabalhadores e alegres, com um nível técnico profissional muito acima da média brasileira, logo se organizaram e tiveram um período florescente, principalmente na Colônia Davi Campista, até a entrada do Brasil na Segunda Guerra, em 1942, contra a Alemanha, quando muitos colonos foram presos, espancados e perseguidos. A colônia se desintegrou. A escola mantida pelo consulado foi fechada. E muita gente abandonou seus lotes e foi embora.
 Casarão sede da Colônia Davi Campista. Fotografia de Arnaldo Silva
Hoje só restam aqui 4 dos alemães vindos na emigração da década de 20, com seus lotes: Dona Rosa Korell, com 89 anos, Frederico Schneidereit, com 84 anos, Bruno Kolnert com 85 anos e Dona Dora Seidler, 78 anos. Velhos, mas fortes, corajosos e firmes. Gente acostumada a lutar e a vencer. Eles venceram. Venceram um desafio, venceram a vida nos trópicos, a malária, os mosquitos, a língua. Esta gente ajudou a construir Bom Despacho.
Ruinas da Estação de Trem de Álvares da Silveira, próximo ao Rio Lambari. Fotografia de Arnaldo Silva                 Dona Rosa Korell, natural de Berna, na Suíça, veio com o Mario Ângelo Bobbia, construtor atraídos pela propaganda brasileira. Vieram com 32 famílias para Álvares da Silveira e até que as casas ficassem prontas se abrigaram no sobrado da sede, em cujo porão se abrigavam porcos e galinhas. Na chegada já enfrentaram piolho de galinha, bicho de pé, pulgas e carrapatos. Em seguida a malária, a tifo e outras febres que infestavam as margens do Lambari. Muitos alemães partiram. Outros ficaram. E Dona Rosa entre eles. E lá ela está até hoje. Lá viu o primeiro marido ser assassinado, Ângelo Bobbia. Continuou a luta sozinha. E depois novamente casada, com Frederico Korell prosseguiu enfrentando as dificuldades. Trabalhou por 40 anos como parteira. E lá em Álvares da Silveira, no seu lote vive até hoje, lúcida, enérgica, alegre e respeitada, recebendo ½ salário do Funrural. Sua pensão da Alemanha foi inexplicavelmente cortada.
Bruno Kohnert veio de Essen, na Alemanha, onde trabalhava com o pai e o irmão na Krupp que funcionava com 45.000 empregados e na guerra chegou a ter 100.000, dia e noite, sem interrupção. O pai, Gustavo Kohnert era instrutor-técnico de alto nível, inclusive veio 6 meses depois da família, porque estava concluindo a montagem de uma máquina, invenção sua, para a exposição de Leipzig. Ficou pouco tempo em Álvares da Silveira, foi trabalhar com um dos filhos em Belo Horizonte, na Força e Luz até a Segunda Guerra, quando foi dispensado. Bruno e o irmão Fritz montaram uma oficina na Rua da Liberdade (Beco dos Aflitos), hoje Coronel Tininho. Hoje Bruno fala com emoção do passado: “Ninguém pode imaginar o que seja uma guerra. Estive dois anos na frente oriental, na Primeira Guerra. Lutei na Rússia a 35 graus abaixo de zero. Entre meus amigos de Essen, fomos 250 para a guerra. Só voltaram 6. E eu era um deles”. Em 1932 ele se casa com Dora Seidler e tiveram 4 filhos: Siegfried, Bruno, Errol e Maria Antônia.
Dona Dora Seidler veio de Pismeberg, perto de Hamburgo com a família. O pai, Frederico Seidler, ferreiro, com sua própria oficina, tinha lutado na Guerra dos Boxers, na China, em 1900, onde fora ferido, e depois na Primeira Guerra. E quando foi aberta a imigração, ele disse: “Vamos para o Brasil. Virá outra guerra mundial e será muito pior do que esta. Deixou lá a casa mobiliada por 50 anos. Mas, nunca falou em voltar. Morreu aqui, com 90 anos. Dona Dora vive até hoje aqui e ainda possui o lote que seu pai recebeu.Aos 78 anos, muito alegre e forte, falando com saudade das festas, dos tempos áureos da colônia e guardando um precioso acervo em retratos e documentos sobre a colonização alemã.          FredericoSchneidereit veio também em 1921, aos 11 anos, com o pai, Fritz que trabalhava na fábrica Bayerd, perto do Reno, a madrasta e os irmãos. No início tiveram alguma dificuldade na adaptação. Estranharam a alimentação, mas, criativos substituíram o centeio pelo fubá, o trigo pelo arroz, o vinho de cereja pelo de jabuticabas, faziam cerveja de milho e de arroz. Aprenderam a beber cachaça. Mas, a terra era pouca e não era boa. Logo a família se dispersou. Um irmão eletricista foi para os Estados Unidos, o próprio Frederico andou 7 anos pela América do Sul, chegando até a Terra do Fogo, trabalhando de pedreiro, carpinteiro, ferreiro. Voltou e se casou com uma brasileira criada na colônia. E vive até hoje no lote na colônia Davi Campista, muito lúcido e forte. Ainda lê muito em português e alemão. É o único dos 4 alemães que recebe cerca de 100 mil cruzeiros por mês de pensão da Alemanha. Recebe também o Funrural.
Aqui vive também alguns descendentes de alemães, como Elza Kohnert, filha de Alma Maria Hammerich ou Alma Kohnert. Dona Alma veio com 17 anos de Bostd, perto de Hamburgo com os pais e 6 irmãos. O pai, Hanrich Hammerich, ceramista do tijolo à louça fina. Do Rio a família foi para Caeté, a convite de Israel Pinheiro. Lá num museu existem até hoje trabalhos de Hanrich feitos para provar a Israel que o barro de lá servia para louça fina. Depois de 2 anos vieram para Álvares da Silveira. O sonho da terra. Um ano e meio depois voltaram para Caeté, assustados com as doenças. E de Caeté, um ano mais tarde, voltaram para a Alemanha. Dona Alma casada com Fritz Herbert Kohnert, irmão do Bruno, vem para a cidade trabalhar como parteira e o marido na oficina. Dos 4 filhos, Ilda, Margarida, Adolfo e Elza, só Elza vive ainda aqui e fala com carinho da mãe que é também um pouco mãe de todo bom-despachense.
Já Marlene Knisheswsky sabe pouco sobre seu pai, Walter Knishewsky, vindo com 2 anos da Alemanha comos pais e uma irmã. Os pais morreram, a irmã foi para Rondônia e Walter se casou com Zeli Vargas, vindo a falecer os dois no mesmo dia, de câncer, deixando 7 filhos. A mais velha, Marlene, com 17 anos, casa-se com o professor Lourival e juntos com dedicação criam os 6 irmãos menores: Walter, Antônio Carlos, Maria Aparecida, Ana Helena, Ilma e Rosilene. Hoje alguns já estão casados e a mais nova termina este ano o segundo grau.
Em Álvares da Silveira ainda vive Zico Primus, descendente de Berta Primus, que lutou até de enxada para conservar seu lote. E conservou.
Além das dificuldades comuns enfrentadas pelos europeus nas regiões tropicais, pode-se acrescentar outras razões para o fracasso da tentativa da colonização alemã em Bom Despacho. Entre elas, o fato dos alemães representarem uma mão de obra especializada para a indústria e não para a agricultura como foram encaminhados segundo os planos do Governo Brasileiro que visavam o desenvolvimento da pequena propriedade no modelo Europeu, projeto já implantado com sucesso no sul do país desde o século XIX.
Reportagem de Francisca Fonseca, Advogada e Pesquisadora em Bom Despacho. Artigo escrito em 1984

domingo, 22 de maio de 2016

Cidade do Serro recebe turistas atraídos pelo queijo

(Por Arnaldo Silva) Serro é uma das mais charmosas e encantadoras cidades históricas de Minas Gerais, fica a 320 km de Belo Horizonte, no Alto Jequitinhonha.(fotografia acima de Tiago Geisler mostrando o Centro Histórico da cidade)
     Dotada de belezas naturais fascinantes, cada dia mais, turistas vem à cidade conhecer seus encantos, sua arquitetura preservada, sua cultura, sua história, sua gente e seu famoso queijo.       A receita e o modo artesanal de fazer o queijo do Serro foram reconhecidos como Patrimônio Imaterial de Minas Gerais, em 2002 pelo Iepha, e do Brasil, em 2008, pelo Iphan. (na foto ao lado, o Queijo do Serro nas escadarias da Igreja de Santa Rita. Autoria de Paulo Sérgio Procópio) 
     Fundado em 28 de janeiro de 1714, o Serro guarda tradições, cultura, belezas naturais e uma fantástica história manifestada nas tradições preservadas há gerações, como a Festa de Nossa Senhora do Rosário e o modo artesanal de fazer queijo.
     O queijo do Serro é um dos melhores do mundo, recebendo constantes premiações e medalhas, como nos últimos três concursos do mais importante concurso internacional de queijos, o Mondial du Fromage, realizado na França a cada dois anos. O queijo do produtor Túlio Madureira foi premiado nas três últimas edições com medalhas de bronze. Num concurso mundial, onde só participam a elite produtora de queijos no mundo, ter um queijo premiado é para poucos, ainda mais três vezes seguidas.
     O clima, o manejo do gado, as pastagens e claro, a vocação queijeira do povo serrano, que vem de gerações e seu modo de fazer são do mesmo jeito que há dois séculos.
     O processo de fabricação do queijo do Serro é demorado, podendo durar mais de uma semana, fora o tempo de maturação, que pode ser de dias, meses, ano ou mais tempo. (foto abaixo de Tiago Geisler)
     O modo de fazer esse queijo consiste em adicionar um tipo de fermento e um coagulante ao leite fresco. Passada cerca de uma hora, é só fazer o corte da massa e triturar. Em seguida, retirar o soro e a massa juntos e, quando estiver consistente, colocar na fôrma. Espremer, lavar e depois colocar sal grosso em um dos lados são os passos seguintes. Depois é preciso esperar cerca de seis horas, virar e salgar o outro lado. Para ficar no ponto, são mais dois dias até retirar da fôrma e deixar na maturação.
      O modo artesanal de fazer o queijo do Serro foi registrado no filme “O mineiro e o queijo” do cineasta Helvécio Ratton. O filme é uma rica história sobre a tradição queijeira do povo mineiro com depoimentos dos produtores de queijos das regiões mineiras, entre elas, do Serro. 
     E o sucesso do queijo do Serro rompeu as fronteiras regionais e atrai gente de toda Minas Gerais, do Brasil e até do exterior para experimentar e conhecer o modo artesanal de fazer queijo do Serro, bem como conhecer a história, bem como os belos casarões e igrejas dos séculos XVIII e XIX, museus, os distritos serranos como Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras, dentre outros. Vale a pena conhecer também impressionantes paisagens serranas de Cerrado e Mata Atlântica e as belas cachoeiras, como a do Tempo Perdido e do Amaral (na foto acima de Marcelo Santos), no distrito de Capivari e do Carijó e Moinho em Milho Verde. Na cidade são encontrados guias de turismo, prontos para orientar os visitantes para que conheçam bem cidade, suas belezas, arquitetura e história.
     Um evento que está se tornando tradição na cidade são as boleratas (na foto acima de Sônia Fraga) que acontece durante o ano na Praça Israel Pinheiro. Das sacadas dos casarões serranos, bandas locais tocam boleros e outros ritmos para os moradores e visitantes curtirem um pouco a boa música mineira e brasileira. 
     Uma ótima dica é conhecer a grife do queijo Trem-ruá, termo criado pelo produtor Túlio Madureira (na foto acima/Divulgação) inspirado na palavra francesa “Terroir” (pronuncia-se terruá que seria a definição de origem das características de determinados produtos, de acordo com as características geográficas de cada região). É uma escola com cursos ministrados pelo Mestre Queijeiro Túlio Madureira que produz queijo do Serro com leite de gado Gir, sendo um dos queijos mais premiados no Brasil e exterior. 
     Mesmo que não vá ao Trem-ruá para aprender a fazer queijo, pode comprar os famosos queijos do Serro no local que fica na Rua São José, 422. (foto queijos do Túlio Madureira/Divulgação) O telefone da grife do queijo é (38) 99823-4207. O lugar é pitoresco com seu teto de dormentes e ambiente organizado com grandes variedades de queijos e o atendimento é ótimo! 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Igreja do Carmo: a igreja da torre nos fundos

(Por Arnaldo Silva) A Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Diamantina, no Alto Jequitinhonha, é um dos mais belos templos do período Colonial brasileiro. (fotografia acima de Giselle Oliveira)  Datada do século XVIII, teve como benfeitor João Fernandes de Oliveira, o Contratador de Diamantes do Arraial do Tejuco, hoje Diamantina, marido de Chica da Silva. A Igreja foi construída em frente à sua residência.  É rica em detalhes, com os altares laterais e o altar-mor da nave banhados em ouro, além de pinturas e obras sacras magníficas feitas por grandes artistas da época como José Soares de Araújo, Manoel Pinto e por fim, a Igreja ganhou obras de Antônio Francisco Lisboa, o Mestre Aleijadinho. O contratador mandou instalar na Igreja, um órgão movido a fole, com mais de 750 cânulas e até hoje em funcionando perfeitamente.
          Mas um detalhe nesta igreja a diferencia das outras igrejas da cidade e de Minas Gerais. (foto acima de WDiniz) Não tem torre na frente. A torre principal da Igreja do Carmo fica nos fundos. Mas por quê?
          Mesmo o todo poderoso Contratador de Diamantes, João Fernandes, não podia burlar as regras impostas pela igreja. Uma dessas regras era clara quanto a entrada de escravos forros ou não dentro dos templos. Pelas normas da Igreja, os negros não podiam ultrapassar o espaço das torres. Ou seja, não podiam passar da porta de entrada das igrejas. 
          Nessa regra incluía sua mulher, Chica da Silva, negra alforriada. Não podia passar da porta das igrejas. 
          Essa norma causou desentendimentos entre o Contratador e os membros da Ordem Terceira do Carmo, responsável pelo templo. Esse desentendimento fez com que João Fernandes arcasse sozinho com os custos de construção da Igreja. 
          Como era ele quem estava pagando todo o custo da obra, ordenou aos construtores que a torre principal fosse mudada no projeto original, saindo da frente da igreja, como era normal e sendo construída nos fundos. Esta foi a solução que João Fernandes encontrou para não causar mais atritos com o Clero. (foto abaixo de WDiniz)
          Assim, sua mulher, que para a sociedade da época era amante, pôde frequentar a igreja, com sua côrte, sem ferir as leis da Igreja na época. Como a torre fica no fundo e a norma era de que negros não podiam ultrapassar o espaço das torres, ela pôde entrar normalmente dentro da igreja  e participar das celebrações religiosas.
          Essa atitude do Contratador foi uma das várias provas de amor à sua amada mulher, Chica da Silva, demonstrada publicamente.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A sobremesa mineira que conquistou o mundo.

(Por Arnaldo Silva) Certas combinações de alimentos parecem que nasceram um para o outro. É o caso da nossa popular e mineiríssima sobremesa Queijo com Goiabada, que além de agradar o paladar dos mineiros há mais 200 anos, é hoje uma sobremesa famosa no Brasil e em todo o mundo. (fotografia abaixo de Marino Júnior)
     Em Minas Gerais, sempre foi queijo com goiabada. Com sua popularização ganhou o sugestivo e romântico nome de Romeu e Julieta, alusiva ao clássico romance de William Shakespeare, escrito entre 1591 e 1595. 
     Romeu e Julieta formavam um par perfeito. Dai a inspiração para o nome e assim o nosso queijo com goiabada saiu das fronteiras mineiras para todo o mundo como Romeu e Julieta.
     De origem mineira, mais precisamente do Sul de Minas Gerais, esta mistura famosa surgiu ainda no período colonial, quando os portugueses iniciaram a produção de queijo em suas colônias. Não há registros precisos de quando começaram a consumir 
goiabada com queijo e nem o povoado exato, mas a origem é do Sul de Minas.Nessa região se popularizou e se expandiu para outras regiões do Estado, através dos Tropeiros. Acredita-se que essa combinação existia desde meados do século XVIII. 
     O doce preferido dos portugueses era a marmelada e na época não existia o marmelo no Brasil e identificaram na nossa goiaba um fruto capaz de dar um doce igual à marmelada consumida em Portugal. 
     Não ficou igual, ficou bem melhor, para muitos. Gostaram tanto que não chamaram de doce de goiaba e sim goiabada, lembrando a famosa marmelada de Portugal. 
     Os tropeiros e viajantes que precisavam de produtos que durassem muito tempo em suas longas viagens, levavam quilos de goiabada, e também rapadura. Esses dois doces eram consumidos normalmente após as refeições ou como adoçantes. O açúcar já era fabricado no Brasil nessa época mas perecia rápido demais devido a chuvas e calor forte. A rapadura e goiabada resistiam mais, duravam bem mais. Eram então imprescindíveis nas longas viagens.
     Desde a época dos tropeiros, o doce de goiaba com queijo faz parte da cozinha mineira. Doce de leite, figo, de goiaba combinado com queijo Minas não faltam nunca. O preferido sempre foi o queijo com goiabada. E claro, com o Queijo Minas, que tem um sabor diferenciado dos demais queijos. A combinação é perfeitíssima! (foto acima de Aldeia Fazenda Velha, restaurante em Andradas MG)
     Seja Queijo com Goiabada ou Romeu e Julieta, a nossa combinação se expandiu para todo o Estado e ganhou os mais nobres paladares de todo o Brasil e mundo.Em Minas é sempre  presente em nossas casas e oferecidas às visitas. 

sábado, 7 de maio de 2016

Cachoeira da Maria Rosa em Mato Verde

A Cachoeira de Maria Rosa é um dos mais belos cenários do semi-árido mineiro.
Está localizada em Mato Verde, no Norte de Minas Gerais, a 550 metros de altitude e distante 659 km de Belo Horizonte e 46 km de Porteirinha MG.A cidade de Mato Verde é repleto de lugares para se visitar, sendo paisagens urbanas ou naturais, sempre é bom de se ver.
          A Cachoeira de Maria Rosa é a maior queda d'água do Rio Viamão, e uma das maiores do norte de minas. É uma maravilha natural que é visitado por dezenas de pessoas da região.
Esta é a mais famosa cachoeira da região!
          São 2 cachoeiras com uma distância de 50 metros entre elas! Todas as duas são muito bonitas e muito altas. O local é bem preservado e possui mesas com banquinhos e áreas para fazer churrasco no local! Bem próximo das cachoeiras também possui barzinho!
          Uma curiosidade sobre as essas cachoeiras é que existe uma diferença considerável na temperatura da água entre as duas!

(Fotos de autoria de Marcelo Santos)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cachoeira dos Cristais e da Sentinela em Diamantina

Cachoeira de pouca altura, mas com um poço ótimo para banho. As águas são tranquilas e limpas. É possível nadar até a queda e ficar atrás da cortina de água. A Cachoeira dos Cristais fica a menos de 15 quilômetros de Diamantina. (foto acima de Elvira Nascimento)
Cachoeira de pouca altura, mas com um poço ótimo para banho. As águas são tranquilas e limpas. É possível nadar até a queda e ficar atrás da cortina de água. A Cachoeira dos Cristais fica a menos de 15 quilômetros de Diamantina. (foto acima de Edison Zanatto)
Altura da Cachoeira dos Cristais: 6 metros. 
Como chegar na Cachoeira dos Cristais: (foto acima de Manoel Freitas) Partindo de Diamantina, você deve seguir em direção ao Parque Estadual do Biribiri, no km 587 da MG – 367. A Cachoeira dos Cristais fica a 6 km da entrada do Parque. e distante de Belo Horizonte, 315 km.
A Cachoeira da Sentinela
A cachoeira da Sentinela esta situada próximo ao povoado de Biribiri, na região de Diamantina na Região do Alto Jequitinhonha, em Minas Gerais. Fica a 42 km do Centro de Diamantina, via BR 367. O acesso é fácil e fica numa bonita área, com formações rochosas entremeadas de vegetação de campos rupestres. (fotografia acima de Giselle Oliveira) Poços de águas cristalinas são formados a partir de uma sequencia de quedas, proporcionando deliciosos e relaxantes banhos.

Conheça a Cachoeira da Cascadanta

A Casca D’ Anta está entre as 5 maiores cachoeiras de queda livre do Brasil. 
          As águas do Rio São Francisco, que nasce um pouco acima da boca da cachoeira despencam a uma altura de 186 metros, sendo um dos maiores atrativos da Serra da Canastra. É imperdível! A cachoeira é um espetáculo!
          As águas da Casca D’ Anta são do Rio São Francisco, que nasce na própria Serra da Canastra e atravessa mais de 5 estados. 
          Devido a força da água e pelas formações rochosas do entorno, o poço principal não é recomendado para banho, mas mesmo assim é um privilégio estar aos pés das águas do mais importante rio brasileiro, o nosso Rio São Francisco.
 Como chegar na Cachoeira Casca D’Anta: 
O acesso é feito pela portaria 4 do Parque Nacional (única da parte baixa do parque), localizada em São José do Barreiro (MG). É preciso deixar o carro no estacionamento e caminhar por cerca de 1.700 metros até a cachoeira. Você também pode chegar pela parte alta da cachoeira, que fica a 38 km de São Roque de Minas com acesso pela Portaria 1. É necessário descer até a parte baixa por uma trilha íngreme com 300 metros de altura e mais de 3km de extensão e depois subir de volta por esta mesma trilha. Fica a 350 km de Belo Horizonte. (fotografias de Wilson Fortunato)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Minas sangra e chora

(Por Arnaldo Silva) É isso que as mineradoras fazem em Minas Gerais. Retiram nosso minério, nossas riquezas, retiram a nossa natureza e agora estão retirando nossas preciosas vidas. Barragem do Fundão em Mariana. Barragem do Feijão em Brumadinho.... terão mais??? Barão de Cocais? Congonhas? Vila de Macacos? Ouro Preto?
Imagem ilustrativa, sem autoria identificada até o momento/Divulgação
          Deixam buracos e um vazio na terra e na vida de famílias que adoecem e morrem nas mãos das mineradoras. 
          Até quando ficaremos calados, assistindo a agonia de nosso Estado, em nome da ganância, do desenvolvimento e da dor? 
 Na foto acima de Cássia Almeida, atividade mineradora em Nova Lima MG
          A imagem que ilustra a matéria era uma montanha e deixaram em pé o apenas o pico. É o Pico do Itabirito que está situado no município de Itabirito a 60 km de Belo Horizonte.
          Sua altitude é de 1.586 metros. 
          Originado de um monolito sem igual no mundo, que é formado por um único bloco de hematita compacta, com alto teor de ferro, constituindo-se numa reserva de aproximadamente 94 milhões de toneladas do minério de ferro. 
          É um patrimônio histórico natural tombado pela Constituição do Estado de Minas Gerais, promulgada em 21 de setembro de 1989. 
          Por isso está intacto, mesmo com as atividades mineradoras em seu redor e permanecerá intacto.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A história de Chica da Silva

(Por Arnaldo Silva) Mulher de fibra, de personalidade forte, corajosa e mitológica. Deixou sua história e legado em Minas Gerais. Estamos falando de Francisca da Silva de Oliveira, ou como é mais conhecida, Chica da Silva. Nasceu escrava, em 1732, numa fazenda em Milho Verde, distrito do Serro MG, tendo sido batizada na mesma localidade na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. Conseguiu sua alforria, foi mulher do contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, com quem viveu 15 anos e teve 13 filhos. Faleceu em 15 de fevereiro de 1796 aos 64 anos. (na foto acima de Fernando Campanella, tela de Marcial Ávila, retratando Chica da Silva exposto na sala da casa onde a ex-escrava viveu em Diamantina MG, hoje museu)
          João Fernandes de Oliveira nasceu em Mariana em 1720. Filho de portugueses, seu pai, era contratador de diamantes desde 1740, e deu seu nome completo ao filho. João Fernandes foi para Portugal ainda jovem estudar. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e nomeado desembargador do Paço em 1752. 
          A partir de 1740, somente podiam explorar pedras preciosas na Colônia quem tivesse contrato com a Coroa Portuguesa, sendo restrito a atividade somente a quem tivesse esse contrato. Quem tinha o privilégio de ter o contrato com a Coroa Portuguesa, era chamado de contratador. Explorar diamantes ou ouro sem contrato com a Coroa, era considerado crime e geralmente as penas eram severas. (na foto de Fernando Campanella, sacada da casa em que viveu Chica da Silva em Diamantina MG, antigo Arraial do Tejuco)
          João Fernandes era culto, formado nas melhores faculdades de Portugal, muito inteligente e de inteira confiança do Rei. Coube a João Fernandes de Oliveira a missão de voltar ao Brasil entre 1753 e 1754, para gerir uma das maiores riquezas da Coroa, as minas de diamantes do Arraial do Tejuco, hoje Diamantina MG.
          Em 1770, com o encerramento de seu contrato com a Coroa e pressão da sociedade na época, João Fernandes voltou para Portugal, além de ter que resolver questões referentes a herança deixada por seu pai nesse país. Ficou em Portugal até os últimos dias de sua vida, vindo a falecer em Lisboa, no ano de 1779, aos 59 anos. (na foto acima de Raul Moura, a Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres erguida no século 18 em Milho Verde, distrito do Serro MG, onde Chica da Silva foi batizada)
          Chica e o contratador foram dois personagens marcantes na história de Minas e principalmente de Diamantina. Uma história de riqueza, amor, poder, preconceito e superação. (na foto abaixo de Giselle Oliveira, o antigo Arraial do Tejuco, hoje Diamantina)
          Chica da Silva era filha de Maria da Costa, nascida na África, na região da Costa da Mina, região hoje formada pela Nigéria e Benim. Foi trazida para o Brasil ainda criança, por volta de 1720. Por isso foi acrescentado o sobrenome “da costa” ao da mãe de Chica. Ao chegar ao Brasil, foi vendida e trazida para Milho Verde, sendo escrava de Domingos da Costa, homem negro e forro. Sobre o pai de Chica, pouco se sabe. Era homem branco de origem portuguesa, nascido e batizado no Rio de Janeiro, vindo para Minas, gozava de influência nas vilas de Bocaina, Três Cruzes e Itatiaia, na época, pertencentes a Vila Rica, hoje Ouro Preto.
          Chica herdou a condição de escrava de sua mãe, numa época em que os escravos que nasciam na Colônia não tinham sobrenomes. Os que foram trazidos da África, recebia nomes portugueses, normalmente Francisco, José, Maria e Francisca, com os sobrenomes nos países ou regiões de origem. Os que nasciam na Colônia recebiam nomes de acordo com seu grupo étnico de origem ou cor da pele, no caso de Chica, foi registrada como “Francisca mulata” ou “Francisca parda”. Em 1754, quando Chica tinha 22 anos, conquistou sua alforria. Seu nome como forra, passou a ser, “Francisca da Silva, parda forra”. Silva era um sobrenome comum entre os forros, embora seja um sobrenome português, de linhagem nobre, na Colônia era um sobrenome de pessoas sem procedência ou origem definida.
          Antes de ser alforriada, Chica era escrava do minerador e médico português Manuel Pires Sardinha, que vivia no Arraial do Tejuco. Foi com Manuel Pires que Chica engravidou pela primeira vez, em 1751. Embora não tenha reconhecido em cartório a paternidade, Manuel Pires batizou a criança com o nome de Simão Pires Sardinha, em homenagem ao Capitão dos Dragões do Distrito Diamantino, Simão da Cunha Pereira, que foi padrinho de batismo de seu filho, bem como deu-lhe alforria, colocando-o ainda como um de seus herdeiros em seu testamento e investindo em sua educação, mandando-o para Portugal, onde estudou e ocupou cargos importantes na Corte Portuguesa.
          Quem alforriou Chica da Silva foi João Fernandes de Oliveira. Assim que chegou ao Arraial do Tejuco, como o novo contratador de diamantes, conheceu Chica, em uma de suas visitas aos nobres do Arraial. João Fernandes, viu Chica e se encantou. Foi amor à primeira vista, literalmente, entre os dois.
          Fez oferta de compra de Chica, o que não foi recusado por seu senhor, que não teve como recusar um pedido de um dos homens mais influentes na Corte Portuguesa.
          Chica foi logo alforriada e passou a viver com João Fernandes como sua mulher. Com o nascimento de sua primeira filha, passou a adotar o nome de Francisca da Silva de Oliveira, mesmo não sendo casada formalmente com João Fernandes e nem podia porque as leis da época proibiam uniões entre brancos e negros.
          Nos 15 anos de união conjugal estável, o casal teve 13 filhos: Francisca de Paula (1755); João Fernandes (1756); Rita (1757); Joaquim (1759); Antônio Caetano (1761); Ana (1762); Helena (1763); Luiza (1764); Antônia (1765); Maria (1766); Quitéria Rita (1767); Mariana (1769); José Agostinho Fernandes (1770). Com o filho que teve com o médico Manuel Pires Sardinha, Chica teve ao todo 14 filhos.
          Nessa época, os filhos de homens brancos com escravas ou forras não eram registrados ou se tinham registros, era sem o nome do pai. João Fernandes fez questão de colocar o seu nome na certidão de registros de seus filhos com Chica da Silva e foi além disso. Nunca escondeu seu amor por Chica da Silva e fazia questão de tornar sua relação pública perante todos, sem se incomodar com os julgamentos e preconceitos existentes na sociedade na época. Defendia sua mulher contra as investidas e preconceitos da sociedade.
          O casal se separou em 1770, quando João Fernandes teve que voltar a Portugal. Com João Fernandes, partiu com ele seus 4 filhos homens, que estudaram nas melhores universidades do país, formando famílias e ocupando postos importantes na Coroa Portuguesa, recebendo ainda títulos de nobreza.
          João Fernandes de Oliveira deixou muitas propriedades para sua mulher, que garantiu a ela e as 9 filhas que ficaram, uma vida tranquila e confortável, estudando no melhor educandário da nobreza da época, o Mosteiro de Macaúbas em Santa Luzia MG, a 40 km de Belo Horizonte. Do mosteiro algumas de suas filhas saíram para se casar e algumas seguiram a vida religiosa. Nessa época, as filhas da fidalguia tinham como opção casarem ou se tornarem religiosas. Chica se esforçou para conseguir bons casamentos para suas filhas, com homens portugueses. As que optaram por seguir a vida religiosa, teve o respeito e apoio de Chica, já que na época, eram as únicas alternativas para as moças honradas de família.
          Buscava ao máximo proteger seus filhos e filhas do preconceito social. Na época, famílias formadas por brancos e negros não eram bem vistas pela sociedade branca e escravocrata do Brasil Colônia.
          Mesmo não sendo casada formalmente com João Fernandes, Chica gozava na época de prestigio e respeito por ser a mulher do contratador, vivendo uma vida restrita às fidalgas brancas. Possuía escravos que cuidavam de sua casa e propriedades, frequentava eventos sociais e irmandades.
          Irmandades ou confrarias eram união de pessoas com objetivos comuns. As irmandades mais importantes da época eram as religiosas, que construíam e mantinha igrejas. Por sua condição social e poderio financeiro, Chica era aceita e tinha fácil trânsito entre as irmandades tanto de brancos, quanto de negros. Colaborava com doações vultosas e pertencia às Irmandades de São Francisco e do Carmo, formada por brancos e das irmandades das Mercês composta por mulatos e a do Rosário, somente por negros.
          Mesmo após a partida de João Fernandes, Chica da Silva mantinha influência na sociedade, graças a sua personalidade, popularidade e seu poderio econômico. Esse fato pode ser percebido por sua presença nas irmandades do Arraial, bem como quando do seu sepultamento, em 1796.
          Como era de costume na época, os membros das irmandades tinham o direito de serem sepultados nas igrejas mantidas pela irmandade. Chica, como participava de 4 irmandades, manifestou o desejo de que quando morresse, fosse sepultada dentro da Igreja de São Francisco de Assis, maior irmandade do Arraial do Tejuco e da comunidade branca. E assim foi sepultada na igreja da irmandade de São Francisco de Assis, composta pela elite branca local, de acordo com sua vontade manifestada em vida.

A história de Dona Beja

(Por Arnaldo Silva) Nascida em Grotas de Pains, povoado rural de Formiga, Oeste de Minas, em dois de janeiro de 1800, viveu boa parte de sua vida em São Domingos do Araxá, hoje Araxá, no Alto Paranaíba, mudando-se para Bagagem, atual Estrela do Sul no Triângulo Mineiro por volta de 1853, onde faleceu em 20 de dezembro de 1873. Sua mãe se chamava Maria Bernardo dos Santos e de pai desconhecido. Sua família era composta apenas da mãe, seu irmão, Francisco Antônio Rodrigues e seu avô.
Estamos falando de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, uma das mulheres mais influentes e importantes de Minas Gerais no século XIX. (a tela acima é de autoria de Calmon Barreto, exposta no Museu Calmon Barreto em Araxá, mostrando Dona Beja moça e formosa) O carinhoso apelido foi dado por Manoel Fernando Sampaio, por quem era apaixonada e noiva. Manoel Sampaio comparava o beijo de Ana como doçura e beleza de uma flor chamada “beijo”. Tanto na forma de falar e escrever, do noivo e dos que eram próximos a Ana, a pronuncia era ‘beja” e não “beija” com i, por isso se escreve e pronuncia Dona Beja. Seu noivado seria como o de todas as outras moças de sua época, casar, ter filhos, cuidar da casa, ter uma vida de acordo com os padrões sociais da época. Mas quis o destino que sua história fosse diferente.
          Ainda criança, a família de Ana Jacinta se mudou para Araxá, em 1805, quando a menina tinha apenas cinco anos. A menina foi crescendo e sua formosura foi logo sendo percebida. Era tão linda que causava forte inveja entre as outras meninas e mulheres da cidade, que mesmo adolescente, tinha uma beleza fora do comum, que deixava os homens da época extasiados com sua formosura. Sua beleza era impactante ao ponto de despertar o interesse de Joaquim Inácio Silveira da Motta, então ouvidor Geral da Comarca, que de passagem por Araxá, ficou fascinado ao vê-la. Logo começou a desejá-la, a ponto de mandar raptá-la, em 1814, quando Beja nem completara 15 anos. A menina foi levada à força para a Vila do Paracatu do Príncipe, hoje Paracatu, sendo forçada a viver como sua amante. (a foto, sem autoria identificada, mostra Dona Beja na meia idade)
          Sua mãe tentou de tudo para ajudar sua filha, mas naquela época era difícil uma ação das autoridades, já que essa prática era comum e pouco podia fazer. Aconselharam-na a comunicar o fato aos adversários do Ouvidor, que não eram poucos. Foi o que Maria Bernardo fez. Ação que surtiu efeito, não de imediato, mas adversários influentes do Ouvidor começaram a agir e a usar o fato contra sua pessoa. Sentindo-se acuado, tentou de todas as formas livrar-se da acusação do rapto da adolescente e ainda ter sua vida devassada por seus inimigos, temendo ser julgado. Foi ai que decidiu deixar o cargo e a cidade, se mudando para Portugal. Assim, Beja se viu livre e retornou para Araxá.
          Chegando à cidade, Beja recebe com frustração a notícia que seu ex-noivo tinha se casado com outra. Mesmo assim, segundo a tradição oral, Beja ainda nutria amor por seu ex-noivo. Num encontro acaso, num lugar conhecido como “Fonte Jumenta”, enamoraram-se, tendo Beja ficado grávida de sua primeira filha, Thereza Thomázia de Jesus, nascida em 15/02/1819. 
          Além da frustração com o ex-noivo, Beja não foi bem recebida pela conservadora sociedade araxaense. Tratada com muita hostilidade, principalmente pelas mulheres de famílias abastadas, que viam em Beja um risco para os valores éticos, morais e religiosos das famílias, não se importando pelo fato da mesma ter sido rapta e forçada a viver como amante de outro homem. A sua beleza e atração natural incomodava demais e deixaram bem claro que ela era indesejada na cidade, sendo marginalizada pela sociedade da época. 
          Revoltada com a situação e com desejo de vingança contra seu noivo e sua família que sempre foram contra o relacionamento dos dois, Manoel foi morto a mando de Beja. Ela acabou sendo indiciada na época, mas por sua influência e amizades importantes, foi libertada, ficando livre da acusação. 
          Vingando-se também do moralismo e julgamentos sociais da época, decidiu ainda ser de fato o que a sociedade dizia o que era ela, cortesã. Vingava-se das mulheres que a condenavam, fazendo questão de ser amante de todos os maridos dessas mesmas mulheres que a julgavam. 
          Beja teve sua segunda filha, com João Carneiro de Mendonça. A caçula nasceu em 1838 com o nome de Joana de Deus de São José. 
          Sua primeira filha, Thereza, casou-se com Joaquim Ribeiro da Silva e teve seis filhos: Theodora Fortunata da Silva, Joaquim Ribeiro da Silva Botelho, Franscico Ribeiro da Silva, Saturnino Ribeiro, José Ribeiro da Silva e Antônio Ribeiro da Silva. Já Joana, casou-se com Clementino Martins Borges e teve sete filhos: Haideé, Mercedes Ester, João, Clemente, Amaziles e “Nhonhô”. 
          Quando retornou a Araxá, Beja construiu duas casas. Uma na cidade e outra na zona rural. Sua casa na cidade era igual às outras e nada de mais acontecia na casa. Ia nesta casa apenas para reuniões e recepcionar visitas, já que era mulher muito influente e conhecida na região. Beja ficava mais tempo em sua chácara na zona rural, afastada da cidade e dos olhares da sociedade. Era um casarão em estilo colonial com espaçoso salão e local para recepção. Era nessa chácara, conhecida como Chácara do Jatobá, que Beja recebia seus admiradores, que viam da região, de São Paulo, Goiás, do Rio de Janeiro e outras localidades.
          A fama e beleza da cortesã estendiam-se por todo o Triângulo Mineiro, na Corte Imperial e regiões mineiras. Eram visitas constantes, de gente influente e rica. Nas festas que promovia, recebia presentes dos homens que a visitavam. Mas não era qualquer um que tinha o privilégio de estar com Dona Beja. Recebia presentes como dinheiro, joias e pedras preciosas, mas tinha suas regras e era firme no que decidia. Mulher de personalidade forte, de liderança, não se subjugava a homem algum. Era ela quem escolhia suas companhias, como, quando e do jeito dela queria. Beja era dominadora e se impunha em situação superior em qualquer relação.
          Por volta de 1853, já na meia idade, Dona Beja decidiu mudar de vida e deixar Araxá com sua filha Joana e seu genro, Clementino. Colocou todos os seus pertences em várias carroças e carros de bois e seguiu em cortejo rumo a Bagagem, hoje Estrela do Sul, num trajeto de 200 km. Naquela época, minas de diamantes tinha sido descobertas nesta cidade, levando uma corrida em busca de diamantes. Com a saída de Dona Beja de Araxá, o conservadorismo da sociedade local na época agiu de forma a apagar os vestígios da presença da Cortesã na cidade.
          Em sua nova cidade, Beja se dedicou a trabalhar como mineradora, explorando diamantes nos garimpos, deixando a vida de cortesã para trás, se dedicando ao cuidado de sua filha e netos, fazendo caridade e também, se dedicando à fé religiosa.
          Faleceu em 20 de dezembro de 1873, supostamente de tuberculose, agravado pela intoxicação por metais pesados, usados no garimpo. Pouco antes de sua morte, permitiu que fosse fotografada de pé, apoiada numa caseira. Foto hoje presente no Museu Dona Beja em Araxá.
Antes de morrer, Dona Beja pediu para que seu caixão fosse adornado com enfeites de zinco e que fosse sepultada no cemitério da Igreja Matriz de Estrela do Sul (na foto abaixo de Thelmo Lins). Naquela época os sepultamentos eram feitos dentro, nas portas e em cemitérios ao lado das igrejas.
Mas a história de Dona Beja não terminou com seu sepultamento. Ao longo dos anos, a cortesã rejeitada e discriminada pela sociedade da época, se tornou uma das mulheres mais conhecidas do Brasil. O espirito de liderança de Beja é reconhecido até hoje. Era mulher de fibra, de coragem e acima de tudo, amava Minas Gerais e defendia o Estado e suas dimensões territoriais com toda a sua força e coragem, principalmente sua região, o Triângulo Mineiro.
          As mulheres do seu tempo que a julgavam, hoje, talvez ninguém saiba quem foram ou sequer sabem seus nomes, mas de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, todos sabem o nome, quem foi e o que fez. Um nome com fortes ligações com a cidade de Araxá, onde o nome Dona Beja está presente em nome de rua, nome cerveja, fonte de água, hotéis, pratos culinários, nome de bairro, etc. 
          E não é por menos, Beja foi uma das personagens mais influentes, marcantes e intrigantes do século XIX, além de reconhecidamente ter sido uma das mulheres mais lindas de sua época. Hoje é uma das figuras mineiras de maior destaque, tendo sua história retratada em novela da extinta Rede Manchete em 1986, tendo Beja sido interpretada pela atriz Maitê Proença. Sua história também foi contada em livros e romances e sua vida e obra registrada no Museu Municipal Dona Beja, inaugurado em 1965, instalado num casarão com mais de 200 anos de existência (na foto acima de Arnaldo Silva), no centro da cidade. A partir de 1998, passou a chamar-se Museu Histórico de Araxá – Dona Beja.

domingo, 1 de maio de 2016

Cachoeira do Tabuleiro: a maior de Minas

(Por Arnaldo Silva) Com 273 metros de queda, a  Cachoeira do Tabuleiro é a maior de Minas Gerais e a terceira maior cachoeira do Brasil. Está localizada em Conceição do Mato Dentro - MG, município distante 167 km de Belo Horizonte via MG 010, na divisa com os municípios de Serro, Dom Joaquim, Congonhas do Norte e Gouveia.
          Cercada por um imponente maciço rochoso com tons avermelhados, a Cachoeira do Tabuleiro impressiona por sua beleza única e singular. (foto acima e abaixo Tom Alves/tomalves.com.br) No entorno da Cachoeira, campos rupestres, matas de Cerrado e pequenas manchas de matas de galeria, completa um dos mais belos cenários naturais do Brasil.
          As águas que caem a 273 metros formam um poço com 18 metros de profundidade e  700 m² de diâmetro.O fundo do poço é formado por grandes blocos de pedras submersos, por isso, saltos e mergulhos radicais não são aconselháveis e sim, entrar na água naturalmente, desfrutando de sua energia e beleza. Devido a pouca incidência de raios solares e constante correntes de vendo, a temperatura da água do poço formado pela cachoeira sempre fica abaixo dos 20ºC, um convite a um refrescante banho em dias de calor, numa água de tom escuro, natural da região, limpa e cristalina.(foto acima e abaixo de Vinícius Barnabé/@viniciusbarnabe e abaixo de Elvira Nascimento)
           Suas águas formam seguem o curso do rio Ribeirão, adentrando em grandes vales, formando pelo caminho pequenos poços entre pedras. 

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