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quarta-feira, 4 de maio de 2016

A história de Dona Beja

(Por Arnaldo Silva) Nascida em Grotas de Pains, povoado rural de Formiga, Oeste de Minas, em dois de janeiro de 1800, viveu boa parte de sua vida em São Domingos do Araxá, hoje Araxá, no Alto Paranaíba, mudando-se para Bagagem, atual Estrela do Sul no Triângulo Mineiro por volta de 1853, onde faleceu em 20 de dezembro de 1873. Sua mãe se chamava Maria Bernardo dos Santos e de pai desconhecido. Sua família era composta apenas da mãe, seu irmão, Francisco Antônio Rodrigues e seu avô.
Estamos falando de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, uma das mulheres mais influentes e importantes de Minas Gerais no século XIX. (a tela acima é de autoria de Calmon Barreto, exposta no Museu Calmon Barreto em Araxá, mostrando Dona Beja moça e formosa) O carinhoso apelido foi dado por Manoel Fernando Sampaio, por quem era apaixonada e noiva. Manoel Sampaio comparava o beijo de Ana como doçura e beleza de uma flor chamada “beijo”. Tanto na forma de falar e escrever, do noivo e dos que eram próximos a Ana, a pronuncia era ‘beja” e não “beija” com i, por isso se escreve e pronuncia Dona Beja. Seu noivado seria como o de todas as outras moças de sua época, casar, ter filhos, cuidar da casa, ter uma vida de acordo com os padrões sociais da época. Mas quis o destino que sua história fosse diferente.
          Ainda criança, a família de Ana Jacinta se mudou para Araxá, em 1805, quando a menina tinha apenas cinco anos. A menina foi crescendo e sua formosura foi logo sendo percebida. Era tão linda que causava forte inveja entre as outras meninas e mulheres da cidade, que mesmo adolescente, tinha uma beleza fora do comum, que deixava os homens da época extasiados com sua formosura. Sua beleza era impactante ao ponto de despertar o interesse de Joaquim Inácio Silveira da Motta, então ouvidor Geral da Comarca, que de passagem por Araxá, ficou fascinado ao vê-la. Logo começou a desejá-la, a ponto de mandar raptá-la, em 1814, quando Beja nem completara 15 anos. A menina foi levada à força para a Vila do Paracatu do Príncipe, hoje Paracatu, sendo forçada a viver como sua amante. (a foto, sem autoria identificada, mostra Dona Beja na meia idade)
          Sua mãe tentou de tudo para ajudar sua filha, mas naquela época era difícil uma ação das autoridades, já que essa prática era comum e pouco podia fazer. Aconselharam-na a comunicar o fato aos adversários do Ouvidor, que não eram poucos. Foi o que Maria Bernardo fez. Ação que surtiu efeito, não de imediato, mas adversários influentes do Ouvidor começaram a agir e a usar o fato contra sua pessoa. Sentindo-se acuado, tentou de todas as formas livrar-se da acusação do rapto da adolescente e ainda ter sua vida devassada por seus inimigos, temendo ser julgado. Foi ai que decidiu deixar o cargo e a cidade, se mudando para Portugal. Assim, Beja se viu livre e retornou para Araxá.
          Chegando à cidade, Beja recebe com frustração a notícia que seu ex-noivo tinha se casado com outra. Mesmo assim, segundo a tradição oral, Beja ainda nutria amor por seu ex-noivo. Num encontro acaso, num lugar conhecido como “Fonte Jumenta”, enamoraram-se, tendo Beja ficado grávida de sua primeira filha, Thereza Thomázia de Jesus, nascida em 15/02/1819. 
          Além da frustração com o ex-noivo, Beja não foi bem recebida pela conservadora sociedade araxaense. Tratada com muita hostilidade, principalmente pelas mulheres de famílias abastadas, que viam em Beja um risco para os valores éticos, morais e religiosos das famílias, não se importando pelo fato da mesma ter sido rapta e forçada a viver como amante de outro homem. A sua beleza e atração natural incomodava demais e deixaram bem claro que ela era indesejada na cidade, sendo marginalizada pela sociedade da época. 
          Revoltada com a situação e com desejo de vingança contra seu noivo e sua família que sempre foram contra o relacionamento dos dois, Manoel foi morto a mando de Beja. Ela acabou sendo indiciada na época, mas por sua influência e amizades importantes, foi libertada, ficando livre da acusação. 
          Vingando-se também do moralismo e julgamentos sociais da época, decidiu ainda ser de fato o que a sociedade dizia o que era ela, cortesã. Vingava-se das mulheres que a condenavam, fazendo questão de ser amante de todos os maridos dessas mesmas mulheres que a julgavam. 
          Beja teve sua segunda filha, com João Carneiro de Mendonça. A caçula nasceu em 1838 com o nome de Joana de Deus de São José. 
          Sua primeira filha, Thereza, casou-se com Joaquim Ribeiro da Silva e teve seis filhos: Theodora Fortunata da Silva, Joaquim Ribeiro da Silva Botelho, Franscico Ribeiro da Silva, Saturnino Ribeiro, José Ribeiro da Silva e Antônio Ribeiro da Silva. Já Joana, casou-se com Clementino Martins Borges e teve sete filhos: Haideé, Mercedes Ester, João, Clemente, Amaziles e “Nhonhô”. 
          Quando retornou a Araxá, Beja construiu duas casas. Uma na cidade e outra na zona rural. Sua casa na cidade era igual às outras e nada de mais acontecia na casa. Ia nesta casa apenas para reuniões e recepcionar visitas, já que era mulher muito influente e conhecida na região. Beja ficava mais tempo em sua chácara na zona rural, afastada da cidade e dos olhares da sociedade. Era um casarão em estilo colonial com espaçoso salão e local para recepção. Era nessa chácara, conhecida como Chácara do Jatobá, que Beja recebia seus admiradores, que viam da região, de São Paulo, Goiás, do Rio de Janeiro e outras localidades.
          A fama e beleza da cortesã estendiam-se por todo o Triângulo Mineiro, na Corte Imperial e regiões mineiras. Eram visitas constantes, de gente influente e rica. Nas festas que promovia, recebia presentes dos homens que a visitavam. Mas não era qualquer um que tinha o privilégio de estar com Dona Beja. Recebia presentes como dinheiro, joias e pedras preciosas, mas tinha suas regras e era firme no que decidia. Mulher de personalidade forte, de liderança, não se subjugava a homem algum. Era ela quem escolhia suas companhias, como, quando e do jeito dela queria. Beja era dominadora e se impunha em situação superior em qualquer relação.
          Por volta de 1853, já na meia idade, Dona Beja decidiu mudar de vida e deixar Araxá com sua filha Joana e seu genro, Clementino. Colocou todos os seus pertences em várias carroças e carros de bois e seguiu em cortejo rumo a Bagagem, hoje Estrela do Sul, num trajeto de 200 km. Naquela época, minas de diamantes tinha sido descobertas nesta cidade, levando uma corrida em busca de diamantes. Com a saída de Dona Beja de Araxá, o conservadorismo da sociedade local na época agiu de forma a apagar os vestígios da presença da Cortesã na cidade.
          Em sua nova cidade, Beja se dedicou a trabalhar como mineradora, explorando diamantes nos garimpos, deixando a vida de cortesã para trás, se dedicando ao cuidado de sua filha e netos, fazendo caridade e também, se dedicando à fé religiosa.
          Faleceu em 20 de dezembro de 1873, supostamente de tuberculose, agravado pela intoxicação por metais pesados, usados no garimpo. Pouco antes de sua morte, permitiu que fosse fotografada de pé, apoiada numa caseira. Foto hoje presente no Museu Dona Beja em Araxá.
Antes de morrer, Dona Beja pediu para que seu caixão fosse adornado com enfeites de zinco e que fosse sepultada no cemitério da Igreja Matriz de Estrela do Sul (na foto abaixo de Thelmo Lins). Naquela época os sepultamentos eram feitos dentro, nas portas e em cemitérios ao lado das igrejas.
Mas a história de Dona Beja não terminou com seu sepultamento. Ao longo dos anos, a cortesã rejeitada e discriminada pela sociedade da época, se tornou uma das mulheres mais conhecidas do Brasil. O espirito de liderança de Beja é reconhecido até hoje. Era mulher de fibra, de coragem e acima de tudo, amava Minas Gerais e defendia o Estado e suas dimensões territoriais com toda a sua força e coragem, principalmente sua região, o Triângulo Mineiro.
          As mulheres do seu tempo que a julgavam, hoje, talvez ninguém saiba quem foram ou sequer sabem seus nomes, mas de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, todos sabem o nome, quem foi e o que fez. Um nome com fortes ligações com a cidade de Araxá, onde o nome Dona Beja está presente em nome de rua, nome cerveja, fonte de água, hotéis, pratos culinários, nome de bairro, etc. 
          E não é por menos, Beja foi uma das personagens mais influentes, marcantes e intrigantes do século XIX, além de reconhecidamente ter sido uma das mulheres mais lindas de sua época. Hoje é uma das figuras mineiras de maior destaque, tendo sua história retratada em novela da extinta Rede Manchete em 1986, tendo Beja sido interpretada pela atriz Maitê Proença. Sua história também foi contada em livros e romances e sua vida e obra registrada no Museu Municipal Dona Beja, inaugurado em 1965, instalado num casarão com mais de 200 anos de existência (na foto acima de Arnaldo Silva), no centro da cidade. A partir de 1998, passou a chamar-se Museu Histórico de Araxá – Dona Beja.

5 comentários:

  1. Pelo visto não era só Antônio que não a via como vítima de rapto e abuso. Quando o escritor decide contar que ela foi raptada e se tornou amante de seu raptor, acaba diminuindo o peso de ser sequestrada e abusada. Não podemos mais romantizar Raíssa atos, devemos contar com o peso do real ocorrido. Até mesmo para honrar os traumas e decorrentes fatos que marcaram a trajetória da vida de D. Beja.

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    Respostas
    1. A hipocrisia da época chegou até nosso tempo.
      Sempre a mulher levando a culpa.
      Até no meio de familiares que sanem a verdade e no meio religioso a culpa é sempre da mulher.
      Isso concorre para o feminicidio com a velha desculpa " matei por amor ".
      Mulheres tomem posição e exijam leis mais severas e radicais.

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  2. ASSISTI ESSA NOVELA, FOI MUITO BONITA E ME FEZ GOSTAR MUITO DE DONA BEJA, LEMBRO-ME DE UM EPISODIO QUE UMA DAS MULHERES DO LUGAR LHE MANDOU UM PRESENTE CUJO CONTEUDO ERA ESTERCO DE VACA, ELA ENTÃO DEVOLVEU OUTRO PRESENTE P/ ESSA PESSOA, POREM ERA UM BUQUE DE FLORES E COM UM BILHETE COM OS DIZERES, "CADA UM MANDA O QUE TEM".

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  3. ASSISTI ESSA NOVELA, FOI MUITO BONITA E ME FEZ GOSTAR MUITO DE DONA BEJA, LEMBRO-ME DE UM EPISODIO QUE UMA DAS MULHERES DO LUGAR LHE MANDOU UM PRESENTE CUJO CONTEUDO ERA ESTERCO DE VACA, ELA ENTÃO DEVOLVEU OUTRO PRESENTE P/ ESSA PESSOA, POREM ERA UM BUQUE DE FLORES E COM UM BILHETE COM OS DIZERES, "CADA UM MANDA O QUE TEM".

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