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quarta-feira, 4 de maio de 2016

A história de Chica da Silva

(Por Arnaldo Silva) Mulher de fibra, de personalidade forte, corajosa e mitológica. Deixou sua história e legado em Minas Gerais. Estamos falando de Francisca da Silva de Oliveira, ou como é mais conhecida, Chica da Silva. Nasceu escrava, em 1732, numa fazenda em Milho Verde, distrito do Serro MG, tendo sido batizada na mesma localidade na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. Conseguiu sua alforria, foi mulher do contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, com quem viveu 15 anos e teve 13 filhos. Faleceu em 15 de fevereiro de 1796 aos 64 anos. (na foto acima de Fernando Campanella, tela de Marcial Ávila, retratando Chica da Silva exposto na sala da casa onde a ex-escrava viveu em Diamantina MG, hoje museu)
          João Fernandes de Oliveira nasceu em Mariana em 1720. Filho de portugueses, seu pai, era contratador de diamantes desde 1740, e deu seu nome completo ao filho. João Fernandes foi para Portugal ainda jovem estudar. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e nomeado desembargador do Paço em 1752. 
          A partir de 1740, somente podiam explorar pedras preciosas na Colônia quem tivesse contrato com a Coroa Portuguesa, sendo restrito a atividade somente a quem tivesse esse contrato. Quem tinha o privilégio de ter o contrato com a Coroa Portuguesa, era chamado de contratador. Explorar diamantes ou ouro sem contrato com a Coroa, era considerado crime e geralmente as penas eram severas. (na foto de Fernando Campanella, sacada da casa em que viveu Chica da Silva em Diamantina MG, antigo Arraial do Tejuco)
          João Fernandes era culto, formado nas melhores faculdades de Portugal, muito inteligente e de inteira confiança do Rei. Coube a João Fernandes de Oliveira a missão de voltar ao Brasil entre 1753 e 1754, para gerir uma das maiores riquezas da Coroa, as minas de diamantes do Arraial do Tejuco, hoje Diamantina MG.
          Em 1770, com o encerramento de seu contrato com a Coroa e pressão da sociedade na época, João Fernandes voltou para Portugal, além de ter que resolver questões referentes a herança deixada por seu pai nesse país. Ficou em Portugal até os últimos dias de sua vida, vindo a falecer em Lisboa, no ano de 1779, aos 59 anos. (na foto acima de Raul Moura, a Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres erguida no século 18 em Milho Verde, distrito do Serro MG, onde Chica da Silva foi batizada)
          Chica e o contratador foram dois personagens marcantes na história de Minas e principalmente de Diamantina. Uma história de riqueza, amor, poder, preconceito e superação. (na foto abaixo de Giselle Oliveira, o antigo Arraial do Tejuco, hoje Diamantina)
          Chica da Silva era filha de Maria da Costa, nascida na África, na região da Costa da Mina, região hoje formada pela Nigéria e Benim. Foi trazida para o Brasil ainda criança, por volta de 1720. Por isso foi acrescentado o sobrenome “da costa” ao da mãe de Chica. Ao chegar ao Brasil, foi vendida e trazida para Milho Verde, sendo escrava de Domingos da Costa, homem negro e forro. Sobre o pai de Chica, pouco se sabe. Era homem branco de origem portuguesa, nascido e batizado no Rio de Janeiro, vindo para Minas, gozava de influência nas vilas de Bocaina, Três Cruzes e Itatiaia, na época, pertencentes a Vila Rica, hoje Ouro Preto.
          Chica herdou a condição de escrava de sua mãe, numa época em que os escravos que nasciam na Colônia não tinham sobrenomes. Os que foram trazidos da África, recebia nomes portugueses, normalmente Francisco, José, Maria e Francisca, com os sobrenomes nos países ou regiões de origem. Os que nasciam na Colônia recebiam nomes de acordo com seu grupo étnico de origem ou cor da pele, no caso de Chica, foi registrada como “Francisca mulata” ou “Francisca parda”. Em 1754, quando Chica tinha 22 anos, conquistou sua alforria. Seu nome como forra, passou a ser, “Francisca da Silva, parda forra”. Silva era um sobrenome comum entre os forros, embora seja um sobrenome português, de linhagem nobre, na Colônia era um sobrenome de pessoas sem procedência ou origem definida.
          Antes de ser alforriada, Chica era escrava do minerador e médico português Manuel Pires Sardinha, que vivia no Arraial do Tejuco. Foi com Manuel Pires que Chica engravidou pela primeira vez, em 1751. Embora não tenha reconhecido em cartório a paternidade, Manuel Pires batizou a criança com o nome de Simão Pires Sardinha, em homenagem ao Capitão dos Dragões do Distrito Diamantino, Simão da Cunha Pereira, que foi padrinho de batismo de seu filho, bem como deu-lhe alforria, colocando-o ainda como um de seus herdeiros em seu testamento e investindo em sua educação, mandando-o para Portugal, onde estudou e ocupou cargos importantes na Corte Portuguesa.
          Quem alforriou Chica da Silva foi João Fernandes de Oliveira. Assim que chegou ao Arraial do Tejuco, como o novo contratador de diamantes, conheceu Chica, em uma de suas visitas aos nobres do Arraial. João Fernandes, viu Chica e se encantou. Foi amor à primeira vista, literalmente, entre os dois.
          Fez oferta de compra de Chica, o que não foi recusado por seu senhor, que não teve como recusar um pedido de um dos homens mais influentes na Corte Portuguesa.
          Chica foi logo alforriada e passou a viver com João Fernandes como sua mulher. Com o nascimento de sua primeira filha, passou a adotar o nome de Francisca da Silva de Oliveira, mesmo não sendo casada formalmente com João Fernandes e nem podia porque as leis da época proibiam uniões entre brancos e negros.
          Nos 15 anos de união conjugal estável, o casal teve 13 filhos: Francisca de Paula (1755); João Fernandes (1756); Rita (1757); Joaquim (1759); Antônio Caetano (1761); Ana (1762); Helena (1763); Luiza (1764); Antônia (1765); Maria (1766); Quitéria Rita (1767); Mariana (1769); José Agostinho Fernandes (1770). Com o filho que teve com o médico Manuel Pires Sardinha, Chica teve ao todo 14 filhos.
          Nessa época, os filhos de homens brancos com escravas ou forras não eram registrados ou se tinham registros, era sem o nome do pai. João Fernandes fez questão de colocar o seu nome na certidão de registros de seus filhos com Chica da Silva e foi além disso. Nunca escondeu seu amor por Chica da Silva e fazia questão de tornar sua relação pública perante todos, sem se incomodar com os julgamentos e preconceitos existentes na sociedade na época. Defendia sua mulher contra as investidas e preconceitos da sociedade.
          O casal se separou em 1770, quando João Fernandes teve que voltar a Portugal. Com João Fernandes, partiu com ele seus 4 filhos homens, que estudaram nas melhores universidades do país, formando famílias e ocupando postos importantes na Coroa Portuguesa, recebendo ainda títulos de nobreza.
          João Fernandes de Oliveira deixou muitas propriedades para sua mulher, que garantiu a ela e as 9 filhas que ficaram, uma vida tranquila e confortável, estudando no melhor educandário da nobreza da época, o Mosteiro de Macaúbas em Santa Luzia MG, a 40 km de Belo Horizonte. Do mosteiro algumas de suas filhas saíram para se casar e algumas seguiram a vida religiosa. Nessa época, as filhas da fidalguia tinham como opção casarem ou se tornarem religiosas. Chica se esforçou para conseguir bons casamentos para suas filhas, com homens portugueses. As que optaram por seguir a vida religiosa, teve o respeito e apoio de Chica, já que na época, eram as únicas alternativas para as moças honradas de família.
          Buscava ao máximo proteger seus filhos e filhas do preconceito social. Na época, famílias formadas por brancos e negros não eram bem vistas pela sociedade branca e escravocrata do Brasil Colônia.
          Mesmo não sendo casada formalmente com João Fernandes, Chica gozava na época de prestigio e respeito por ser a mulher do contratador, vivendo uma vida restrita às fidalgas brancas. Possuía escravos que cuidavam de sua casa e propriedades, frequentava eventos sociais e irmandades.
          Irmandades ou confrarias eram união de pessoas com objetivos comuns. As irmandades mais importantes da época eram as religiosas, que construíam e mantinha igrejas. Por sua condição social e poderio financeiro, Chica era aceita e tinha fácil trânsito entre as irmandades tanto de brancos, quanto de negros. Colaborava com doações vultosas e pertencia às Irmandades de São Francisco e do Carmo, formada por brancos e das irmandades das Mercês composta por mulatos e a do Rosário, somente por negros.
          Mesmo após a partida de João Fernandes, Chica da Silva mantinha influência na sociedade, graças a sua personalidade, popularidade e seu poderio econômico. Esse fato pode ser percebido por sua presença nas irmandades do Arraial, bem como quando do seu sepultamento, em 1796.
          Como era de costume na época, os membros das irmandades tinham o direito de serem sepultados nas igrejas mantidas pela irmandade. Chica, como participava de 4 irmandades, manifestou o desejo de que quando morresse, fosse sepultada dentro da Igreja de São Francisco de Assis, maior irmandade do Arraial do Tejuco e da comunidade branca. E assim foi sepultada na igreja da irmandade de São Francisco de Assis, composta pela elite branca local, de acordo com sua vontade manifestada em vida.

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