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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Conheça o artista plástico Atacir Costa

Nascido em 1973 na cidade de Belo Horizonte, Atacir Costa, hoje aos 44 anos, casado com Rejane, pai do João, faz parte do cenário de grandes artistas mineiros.
Desde criança sua maior paixão foi a arte. Iniciou-se na pintura ainda jovem, desenvolvendo um estilo próprio com pinceladas ousadas. Impressionista, Atacir Costa, se especializou em retratar figuras humanas. Durante anos retratou paisagens mineiras, sendo o autor da pintura da capa do livro “Doces Momentos” de Arnaldo Silva. (na foto abaixo, Arnaldo Silva, Leonardo Ruggio, dono do Museu Jeca Tatu em Itabirito MG e Atacir Costa, no lançamento do Livro no Museu Jeca Tatu)
Hoje em especial retrata jogadores de futebol. A sua primeira obra retratando cenas de futebol iniciou-se em 2013 com a defesa do goleiro Victor do Clube Atlético Mineiro na conquista da Libertadores do mesmo ano. 
A partir daí o seu relacionamento se intensificou com os atletas de vários clubes. Além do Atlético, ele retratou jogadores do Cruzeiro, América MG, Palmeiras, Corinthians, Santos, Ponte Preta, Flamengo, Botafogo, Internacional, Audax, Bordeaux. E entre estes, alguns jogadores das seleções, das confederações de Portugal, Argentina, França, Venezuela e Brasil.
Atacir Costa já participou de varias exposições em Minas e São Paulo. Tendo uma exposição permanente no Museu Jeca Tatu em Itabirito MG. Além dos jogadores, ele retratou os cantores, Rogério Flausino, Marcio Buzelin do Jota Quest, Vander Lee, Sérgio Pererê, Eduardo Costa, Leandro (irmão do Leonardo), Doug Clifford da banda americana “Creedence” e Jonas Vilar. 
Os seus trabalhos e clientes podem ser vistos através do site www.atacircosta.com, ou através das redes sociais.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O rosto do sertão

(Por Leandro Jabour Pazeli*) Viajar tem muito a ver com histórias. Tanto contar suas próprias quanto ouvir a dos outros. Muitas vezes um destino acaba valendo ainda mais por uma experiência humana do que estética. É o caso da Cachoeira do Tempo Perdido, no pequeno distrito de Capivari, município de Serro, a aproximadamente trinta quilômetros de Diamantina, Minas Gerais.
Esta foto de autoria de André Dib, foi capa da Revista National Geographic de janeiro/18. É o rosto de Dona Anita. O rosto do Sertão
          A cachoeira tem mais de cinco metros de queda e um poço agradável para banho, cercada por vegetação nativa. Até Capivari são doze quilômetros de uma estrada de terra com pouca manutenção. O acesso, portanto, é difícil, o que pode ser considerado uma vantagem para alguns e uma desvantagem para outros. Do vilarejo, parte uma trilha fácil de aproximadamente quarenta minutos até a cachoeira (há uma taxa por pessoa para o acesso).
          A paisagem natural, no entanto, por mais espetacular que fosse, ficou em segundo plano no passeio. A personagem que decidimos homenagear neste dia da mulher já ganhou fama tendo sua foto publicada na capa da revista National Geographic, importante publicação científica que circula em trinta e três países. Uma personagem mais fotografada que a própria cachoeira. Ela, porém, não parece se importar.
          Dona Anita mora no último limite de Capivari com o Parque Estadual Pico do Itambé. Seus olhos são azuis e misteriosos e têm sua origem em algum ponto na história do país desconhecido por ela. Ela sabe que seus pais moravam nesta serra, na beirada do sertão e nos confins do mundo. Então eles morreram e, de algum modo, ela veio parar numa casinha de taipa, com um fogão a lenha e dois outros pequenos cômodos. Ela convida para um café. E eu recusaria um café normalmente. Mas não no interior de Minas, não da Dona Anita.
          A cachoeira, considerada uma das mais bonitas de Minas, fica no final da trilha que parte da casa dessa senhora. Eu pergunto se ela a visita com frequência. Uma pergunta inocente, de gente da cidade. Ela me diz que visitava quando menina, agora ela não anda mais tanto.
          Há um inchaço na perna dela, roxo como a noite do sertão. Picada de cobra, ela me diz e, antes de entrarmos na casa, ela me mostra o ponto no mato onde ela jura que a cobra está a espreitá-la vilmente para sempre. E eu automaticamente descarto a história de Dona Anita, porque cobras não têm rancores nem obsessões. Mas então eu olho nesses olhos azuis que põem verdade na rivalidade entre uma mulher e uma cobra. E então me lembro de que, na cidade, há cobras que mordem e vão embora, e nós cismamos que elas nos estão observando quando provavelmente não estão. E acredito na Dona Anita. E então eu retorno da imaginação à ciência e pergunto a ela o que ela fez quando foi mordida. A resposta é um gesto de quem arranca uma cobra da perna e joga longe, e depois um simples “benzi”.
          Eu admiro a coragem e a fé. Que se curem as mordidas. Nós vamos para dentro e ela põe sobre mim todo o azul dos seus olhos. Ela me diz que sou bonito, e eu nunca recebi elogio tão sincero. Eu digo que ela é bonita e nunca elogiei tão sinceramente. Ela faz café e me conta casos de pessoas que matam as outras no sertão pelos motivos mais vulgares. Eu penso que o sertão é um lugar violento, e Guimarães Rosa sussurra na minha cabeça: “o sertão é o mundo”. Dona Anita me aconselha a arranjar uma namorada bem nova, e a nunca matar ela se tivermos alguma desavença. Separar é uma solução melhor, ela sugere. “O mundo tá estranho. A gente mata porco e galinha, não gente. Agora, o homem virou galinha.” E a metáfora me pega desprevenido. Como ela fala bem, como ela tem sabedoria. Eu penso nos “homens sábios” da cidade, nas pretensões da cidade…
          Eu ouso perguntar se Dona Anita sabe que ela já foi capa de uma das revistas mais importantes do mundo. Mas, para ela, a National Geographic não é tão importante, nem a sua própria imagem. Talvez por vê-lo todo dia, ela não reconheça que seu rosto é o sertão. E o sertão é o mundo. E o café é doce. Na cidade, açúcar faz mal. No sertão, a cidade faz mal. E então há paredes de taipa, um fogão a lenha e o calor do sertão. Pode não ser a experiência estética comum ao turismo de massa, mas é definitivamente uma experiência enriquecedora. Se viajar é sobre histórias, conhecer personagens como Dona Anita é importantíssimo. Por isso estimulamos a viagem não só a lugares, mas às culturas e às pessoas. Dona Anita estará lá, indicando o início da trilha para a cachoeira e oferecendo seu café. E ela merece ser conhecida.
Artigo e fotos (exceto a primeira de André Dib) são de autoria de Leandro Jabour Pazeli (leandro175@hotmail.com)

domingo, 28 de janeiro de 2018

A Maldição do Tesouro

Muito antes de cair gravemente enferma de um mal que acabaria por levá-la à morte, Dona Ermelinda tinha já aquela preocupação: o que seria de seu filho Jerônimo, assim que ela morresse? De seu casamento com o Coronel Amâncio Alvarenga, ela tivera quatro filhos, dos quais, ele era o caçula e único homem. Vivia amargurada, pois desde menino só lhe causava desgostos. Saíra ao pai, homem rude e cruel que vivia de fazer ruindades com os criados da casa e os negros da senzala.

Ela, Dona Ermelinda, tida por santa pelo seu coração de ouro, não se conformava em ver o rapaz praticando as mesmas barbaridades do pai. Via-o surrar os negrinhos e muitas vezes, ela mesma ia tirá-los do porão da casa onde Jerônimo os prendia sem água e sem comida! Ela não se acostumava com aquela rotina. Era o dia amanhecer e já via o filho de chibata em punho, indo se divertir no curral. Lá, torturava os animais sem dó nem piedade! Chicoteava-os até deixá-los em carne viva e queimava-lhes o lombo com o ferro em brasa, práticas que só interrompia quando ela, com sua autoridade de mãe, intervinha em favor dos pobres bichos.

Foi assim que, em seu leito de morte, suas últimas palavras foram para aquele filho cruel:
— Jerônimo, quero morrer em paz. Prometa que deixará essas malvadezas que sempre praticou. O que será agora dos negrinhos e dos pobres animais?

Porém o rapaz olhou-a com frieza. Nada comovia aquele coração de pedra. Era em vão o pedido suplicante da mãe, pois ele não tinha qualquer intenção de mudar o seu jeito, gostava de ser como era. E sem poder ouvir a promessa desejada, a infeliz mulher cerrou os olhos lacrimejados de tristeza e entregou sua alma a Deus.

Sem a presença da mãe, Jerônimo agora se esbaldava em suas atrocidades. O pai, já velho e meio demente, não conseguia mais tocar a lida da fazenda, tarefa que acabou passando para o filho, agora já homem feito. E era ali, lanhando corpos no tronco; usando à revelia o terror de sua chibata; se esmerando no requinte de seus castigos e crueldades que ele espalhava por toda parte sua fama de carrasco.

Quase dez anos havia se passado desde a morte de Dona Ermelinda quando, um dia pela manhã, os gritos da criada de quarto do Coronel Amâncio ecoaram pela casa com aquela notícia: o homem estava morto! Encontrara-o todo roxo, o corpo já enrijecido pendendo da cama. Já completamente leso das ideias, morrera de velhice.

Na volta do funeral, as irmãs se reuniram com Jerônimo. Tinham que decidir sobre os destinos da fazenda. As três moravam com os maridos em terras distantes, mas não queriam os seus bens ao deus-dará. Como é que ia ser dali pra frente? O irmão, de pouca conversa que era, não quis saber de muita arrumação. Ia ficar ali, administrando a fazenda como bem quisesse. Elas que se conformassem com o jeito dele de zelar pelo patrimônio dos Alvarenga.

Assim que a caravana das irmãs dobrou a curva do caminho, Jerônimo selou o cavalo, pegou seu chicote de ponteira de aço e partiu a galope rumo aos canaviais. Ia levando a novidade. Ele agora era o senhor absoluto, o único herdeiro de toda a fortuna da fazenda Campina Verde! Nem as irmãs se atreveriam a meter o bedelho nos negócios. Era chumbo grosso no lombo de quem se aventurasse a pôr os pés por ali. O sangue ia jorrar como nunca por aquelas bandas!

Além da tirania, Jerônimo era também dominado por mórbida ambição e abominável avareza. Tinha medo de que as irmãs viessem disputar suas partes na herança e se consumia no pavor de ficar pobre. Queria tudo para si, sem a desgraça de ter que dividir um naco só que fosse de toda aquela riqueza que tinha nas mãos. Foi assim que teve uma ideia mirabolante: cavou um enorme buraco no chão de terra batida da cozinha e para lá começou a levar tudo o que ia conseguindo com a venda do gado e os lucros do engenho de cana.

Ao fim de alguns anos, Jerônimo tinha conseguido juntar um invejável tesouro em moedas de ouro que, sem ninguém suspeitar, ficou bem escondido debaixo de uma pesada caixa de tábuas de aroeira, em um canto da cozinha. E quando Veridiana, a pedido das outras irmãs, viera saber das contas da fazenda, fora duramente escorraçada por Jerônimo.

Aquela tinha sido a gota d’água! Tomada de um ódio mortal, ela lançou sobre o irmão uma terrível maldição: enquanto ele tivesse posse das riquezas que não lhe pertenciam, jamais haveria de ter um só minuto de sossego.

Foi num fim de tarde, quando Jerônimo voltava de suas andanças pelas lavouras que tudo aconteceu. Ao esbarrar num galho de árvore foi atacado por um furioso enxame de abelhas. O cavalo, também atingido pelas picadas venenosas, disparou mato afora completamente cego. E naquela carreira enlouquecida, atirou longe o cavaleiro que bateu violentamente a cabeça num tronco, morrendo ali mesmo no meio do pasto.

Depois da morte de Jerônimo houve um acordo entre as irmãs: a fazenda agora voltava às suas mãos. Tinham que se mudar para lá, a fim de cuidarem dos negócios. E naquela mesma semana elas tomaram posse do enorme casarão de vinte e três cômodos e amplos janelões pintados de azul.

Nas primeiras noites que ali passaram, os novos moradores estranharam um pouco os ares tétricos e as correntes geladas de vento que assoviavam nos imensos e escuros corredores desertos, mas tirando aquilo, tudo transcorria sem maiores novidades.

Uns dois meses após a mudança foi que o primeiro fato sinistro se deu. Por volta de meia-noite, todos dormiam. A casa estava mergulhada em silêncio e escuridão, quando Ana, a mais velha das irmãs, acordou sobressaltada. Tinha ouvido um barulho que a deixara gelada. Escutara nitidamente, vindos do porão sob a casa, os ruídos de uma pesada corrente sendo arrastada pelo chão. O som retinia de forma horripilante indo e voltando. Ora alto, ora mais baixo, conforme se aproximava ou se afastava. Ao fundo, ouviam-se ainda, gemidos fracos e chorosos como se arrancados de alguém com muita dor. Porém, quando junto do marido, a mulher pegou o lampião e desceu ao porão, encontrou tudo na mais completa ordem. Será que imaginara coisas? Achou melhor não comentar o fato, pois lhe pareceu que ninguém na casa tinha ouvido nada.

Na segunda vez, foi Braz, marido de Rita, quem ouviu o barulhão vindo da cozinha. O estardalhaço provocado dava a impressão de que não sobrara um objeto sequer sobre as prateleiras. Sentou-se confuso na cama. O que seria aquilo? Decidido, atravessou o longo corredor e entrou no cômodo. À luz da vela, espiou com certo receio. Esperava encontrar tudo pelo chão, mas para sua surpresa, tudo estava nos devidos lugares.

Como aqueles estranhos fenômenos se repetissem com frequência, a família Alvarenga, por fim, teve que admitir. O casarão da fazenda estava realmente habitado por espíritos conturbados que, não tendo rumo certo, pairavam por ali aterrorizando os vivos. Assim, de comum acordo, os herdeiros resolveram voltar para suas antigas moradias. Por muito tempo o casarão ficou abandonado. Com fama de mal-assombrado não houve quem se aventurasse a habitá-lo.

Depois de anos passados, chegou àquelas terras um valente domador de cavalos, de nome Leonel. Era conhecido pela sua coragem em enfrentar almas do outro mundo e exorcizar espíritos malignos. Sabendo do ocorrido na Campina Verde, se dispôs a hospedar-se por algumas noites na fazenda. Tinha para si o desafio de desmascarar qualquer assombração que por ali vagasse.

Na noite do oitavo dia ali no sobrado, Leonel acordou com uma forte tempestade rugindo nas árvores lá fora. Em curtos espaços de tempo, trovões ensurdecedores ribombavam no céu e a escuridão do quarto era riscada pelo clarão dos relâmpagos no vão das telhas. O peão levantou-se ouvindo algumas janelas que batiam furiosamente com o vento. Foi nesse instante que escutou, em meio ao temporal, o retinir arrastado das correntes e as tristes lamúrias que a ventania soprava para dentro do quarto. A seguir, ouviu o estrondo de coisas desabando na cozinha. Valendo-se de toda a sua coragem foi em direção à barulhada, mas no limiar da porta estacou estupefato. Tudo permanecia intacto, na mais perfeita ordem.
— Quem é você? perguntou com voz firme, no meio do escuro.

Não obtendo resposta, fez a pergunta pela segunda vez. Havia apenas um silêncio que chegava a doer. De repente, o vendaval zumbiu com violência e escancarou de uma só vez as duas partes da janela de madeira, inundando o ambiente com um frio de cortar os ossos. Leonel sentiu os pelos se crisparem e teve certeza: havia alguém ali. Decidido, tentou mais uma vez:
— Quem é você? Sei que está aqui...

Então ele ouviu uma voz rouca e tremida que parecia sair das profundezas:
— Sou eu, Jerônimo... Filho do Coronel Amâncio Alvarenga.
— E o que faz aqui? gritou Leonel com autoridade.
— Vigio o meu tesouro! retumbou a voz tenebrosa. Está ali enterrado no chão onde o escondi...
— Pois acho bom que siga seu rumo completou o domador. Esse mundo não lhe pertence mais...

Naquele momento, uma lufada de vento gelado varreu a cozinha e bateu a janela. Leonel sentiu que os fluidos maléficos do local tinham sumido. Enxugou a testa e manteve a calma. Voltou para a cama e dormiu tranquilamente. Nada mais havia a ser feito.

No dia seguinte, o peão mandou chamar alguns homens e deu-lhes ordem para cavarem o chão da cozinha. Queria ter certeza de que o que ouvira na noite anterior era mesmo verdade. Depois de muita terra retirada, Leonel podia jurar: ali não havia nada! Fora enganado feito um bobo! Porém, um dos homens lembrou:
— Dizem que ouro enterrado anda debaixo da terra. Será que esse andou?

Leonel não sabia daquela novidade, mas pelo sim pelo não, mandou que cavassem mais adiante. E qual não foi a surpresa de todos quando, a alguns metros, a picareta chocou-se com uma bela e reluzente moeda de ouro! Era o tesouro de Jerônimo, cuja maldição não o deixava sossegado.

Depois de repassar aos Alvarenga toda a fortuna que lhes era de direito, Leonel partiu, não sem antes garantir: dali por diante o velho casarão estaria livre de seus fantasmas, pois a praga maldita fora desfeita. O tesouro, enfim, voltava às mãos de seus verdadeiros donos...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura do artista plásticoAlfredo Vieira) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

sábado, 27 de janeiro de 2018

O Viaduto das Almas

(Por Arnaldo Silva) O Viaduto das Almas, que na verdade se chamava Viaduto Vila Rica, fica no km 592 da BR 040, tinha 262 metros de extensão por 8,5 de largura, a 30 metros do solo, perto de Belo Horizonte, sobre o Riacho das Almas. É um vale lindo, de Mata Atlântica. Nesse vale fizeram uma gigantesca ponte, bem estreita onde era possível apenas dois veículos em seu comprimento, com tráfego nos dois sentidos. A questão era que planejaram uma uma curva bastante fechada para possibilitar uma melhor visão do vale. Uma obra, para época ousada e moderna.
          O viaduto foi inaugurado em 2/02/1957, numa época onde predominava mais os trens de passageiros. Existia então pouco trafego de ônibus, caminhões e carros. O problema do viaduto sempre foi essa curva, desde então. Com a extinção gradativa da malha ferroviária e o aumento do numero de ônibus, caminhões e carros de passeios, os problemas logo começaram a surgir. Aliás, acidentes. 
          Desde a sua inauguração já começaram a acontecer desastres. Pelo nome do riacho, a população local não via com bons olhos aquela ponte que para eles era um mal-agouro. Viaduto das Almas, ganhou o apelido de viaduto das mortes. 
Beleza perigosa 
A arquitetura era tão moderna, para a época, que o Presidente da República Juscelino Kubitschek fez questão de estar presente na inauguração em 2/02/1957
          Por ironia, o Viaduto Vila Rica foi construído com o status de a obra de arte mais bonita entre os elevados da América do Sul, como destacaram várias publicações especializadas da época. Tanto que o então presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902-1976), escolheu o elevado para inaugurar a BR-3, hoje 040. Juscelino (D) estava acompanhado do governador de Minas, Bias Fortes (1891-1971). Às 14h30, debaixo de um sol forte, a comitiva atravessou o elevado num carro luxuoso. Uma multidão acompanhou a cerimônia, que foi encerrada numa lanchonete construída próxima à cabeceira da estrutura. O empreendimento, batizado de Belvedere, é mais conhecido como Pão com Linguiça. 
O fechamento do Viaduto das Almas obrigou o dono a construir um imóvel em outro lugar às margens da rodovia, pois o trânsito no trecho antigo foi desativado em razão do novo elevado.
Principais tragédias
13/09/1967
          Nesse acidente com um ônibus da Cometa não conseguiu fazer a curva e caiu do elevado. Morreram 14 pessoas. Uma das vítimas foi a apresentadora  do programa infantil Roda Gigante, na extinta TV Itacolomi, Zélia |Marinho. Um ônibus da Cometa não consegue fazer a curva e cai do elevado:
26/11/1994
          Nesse acidente, com um ônibus da Aditur, 13 pessoas morreram. Eram operários de uma mineradora que estava indo para Ouro Branco. No caminho, o ônibus foi atingido por um caminhão que ia em sentido contrário.
          O viaduto das Almas foi desativado em 26/10/2010 e construído outro viaduto, próximo, porém seguro. Desde sua inauguração até sua desativação, foram mais de 200 pessoas anônimas e famosas mortas, sem contar as pessoas que sobreviveram a acidentes e ficaram com sequelas.
O viaduto hoje
Bombeiros de Mariana fazem teste de salvamento (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
          O viaduto hoje é usado em treinamentos de socorristas de todo o país para casos de acidentes em altura. Os treinamentos acontecem nos fins de semana e sempre conta com a presença de moradores próximos que lá vão em busca de algum atendimento em casos de mal súbitos, por não dar tempo de chegarem ao hospital.
DUAS HISTÓRIAS DE ARREPIAR
          Lenda ou não, vou contar aqui duas histórias que eu ouvia desde menino e que todo morador das redondezas conhece. E tem gente que garante que não é lenda, é verdade mesmo. Vamos lá.
          Era madrugada dos anos 60. Um motorista passando pela curva do viaduto, avista uma mulher em desespero, fazendo sinal para ele parar. O motorista parou o carro, a mulher pálida, trêmula, em pânico, fala:
          _ Moço, um carro despencou lá de cima e uma criança está lá dentro, chorando. Ajuda pelo amor de Deus, salve o menino por favor!!!

          O motorista saiu do carro, desceu a encosta e tinha um carro sim, no barranco, mas não tinha criança e sim uma mulher. Se aproximou e ao ver, era a mesma mulher que o tinha parado no viaduto pedindo socorro. Levou o maior susto e ao olhar para trás, a mulher estava lá a olhar para ele. Olhava para o carro a mulher morta, para o lado, a mesma mulher parada, olhando para ele.....
          A outra história bem conhecida aconteceu em 2 de agosto de 1969. Neste dia, um ônibus com 40 passageiros passava pelo viaduto, sentido Belo Horizonte e despencou quando passava pela curva, ficando prensado entre as pilastras e o barranco do riacho. O motivo do acidente foi uma ultrapassagem irregular de um carro. Ultrapassou onde era impossível ultrapassar e causou esse desastre até hoje na memória do povo da região. 
          A maioria dos passageiros do ônibus morreram no local. Esse fato seria mais um dos inúmeros acidentes ocorridos no viaduto e esquecidos, se não fosse alguns fatos ocorridos após o acidente.
Dois anos depois desse acidente, no fim de tarde, um homem estava voltando de uma pescaria, resolveu atravessar o viaduto a pé para encurtar caminho. Resolveu dar uma olhada para baixo, onde tem o riacho e uma mata linda e teve uma surpresa desagradável. Viu apenas o riacho e mata, porém ouviu gritos de pedidos de ajuda, choros de crianças ouvidos das profundezas da mata e mais a fundo, ouviu o som de um velho motor Mercedes-Benz, o mesmo do ônibus que se acidentara dois anos antes.
          A partir dessa história, as pessoas passaram a evitar passar no local a pé e não se tem notícia de algum corajoso que se atreveu a descer as encostas e ir até o local de acidente. O mal-agouro que o local trás, afasta a presença das pessoas, justamente pelos acidentes ocorridos e o medo de ver e ouvir gritos, gemidos e almas de pessoas que lá perderam suas vidas. 

 (fotos arquivos do Governo de Minas e Jornal O Estado de Minas) a fonte das informações sobre a história da inauguração do viaduto e das principais tragédias é do Jornal O Estado de Minas 120/08/2015)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Conheça Catas Altas da Noruega

(Por Arnaldo Silva) Catas Altas da Noruega (foto acima do  Barbosa) é uma pequena cidade com apenas 3641 habitantes, segundo o IBGE/2019. Seu povo é simples, de uma hospitalidade incrível. Quem nasce em Catas Altas da Noruega é Catas-altenses. Faz divisa com os municípios de Itaverava, Piranga, Lamim, Ouro Preto.
A pequena cidade possui belos casarões (foto acima do Barbosa), igrejas centenárias e paisagens lindas como os altos da Lagarta, do Barreiro, do Cruzeiro, cachoeiras da Água Limpa, do Jequitibá e do Morro Redondo, o Rio Piranga  Pirapetinga, dentre outros. Para conhecer a história do município, tem o Museu e Aquivo Histórico, o Memorial Padre Luiz Gonzaga Pinheiro localizado em um casarão centenário em estrutura de madeira com vedação em pau-a-pique. 
Apesar da proximidade geográfica com Catas Altas, famosa cidade histórica onde está a Serra do Caraça, não tem nada a ver com Catas Altas da Noruega. São duas cidades diferentes, apenas com nomes parecidos. (foto acima de Sueli Santos) A origem do município é Lusitana e nada a ver com o país Noruega. Mas porque Catas Altas da Noruega? Para entendermos o porque, vamos contar um pouco da historia da formação do município.A história da cidade começa a partir de 1690, com a chegada de bandeirantes paulistas e portugueses em busca de ouro. A origem então do município é a mesma de todo o restante do estado durante o período do ouro: lusitana.
Quando da exploração do ouro na região, existia, no que é o hoje o município de Catas Altas da Noruega, duas Minas importantes: a de Catas Altas e da Noruega. A mina de Catas (catas=lavras) Altas tem esse nome devido a necessidade de fazer escavações mais profundas para catar o ouro nas profundezas da mina, por isso o nome. (foto acima de Pedro Henrique)
A palavra "Noruega" significa "terra úmida e sombria na encosta sul de montanha que recebe pouco sol". O nome foi dado pelos bandeirantes justamente por terem encontrado uma mina de ouro, próxima a mina de Catas Altas, num morro frio, úmido, onde os raios solares não penetravam. Por isso deram o nome da mina de Noruega. (foto acima do Barbosa)
Com a decadência do ouro fim do século XVIII e início do século XIX, as minas foram abandonadas, como consequência, desemprego e miséria nos povoados mineiros, o que com que o Governador da Capitania de Minas Gerais na época, Conde de Bobadella, decidisse incentivar novas descobertas de garimpos, bem como reativar minas abandonadas. No caso, os garimpos de Catas Altas e o da Noruega foram reativados com nome único, originando o atual nome do município: Catas Altas da Noruega.
Portanto, o nome da cidade não tem nada a ver com o país Noruega ou algum imigrante norueguês que tenha vivido no local. 
Catas Altas da Noruega (na foto acima de Sérgio Mourão) é uma cidade charmosa, pacata, que guarda relíquias de nossa história colonial como casarões e igrejas seculares. 
Fonte de pesquisas:Wikipédia, Site Estrada Real, IBGE e Antigos Documentos em arquivo do IBGE - SERDIB (Serviço de Divulgação e Biblioteca).

domingo, 14 de janeiro de 2018

Declaração mineira de amor aos amigos

Uma singela poesia, no mais simples mineirês. Aquele jeito bem singelo do povo do interior, do nosso sertão falar. É a linguagem do coração, da emoção e da saudade de ouvir nossos pais e avós contarem seus causos nesse linguajar tão suave e gostoso de ouvir. Essa declaração, mesmo curtinha, mostra o jeito simples, carinhoso e amável do mineiro falar.
Ocê é o colírio du meu ôiu.
... É o chicrete garrado na minha carça dins.
É a mairionese du meu pão.

É o cisco nu meu ôiu (o ôtro oiu - eu tenho dois).
O rechei du meu biscoito.
A masstumate du meu macarrão.
Nossinhora!
Gosto dimais da conta docê, uai.
Ocê é tamém:
O videperfume da minha pintiadêra.
O dentifriço da minha iscovdidente.
Óiprocevê,
Quem tem amigossim, tem um tisôru!
Ieu guárdêsse tisouro, com todu carinho ,
Du lado isquerdupeito !!!
Dentro do meu Coração!!!
AMO Ocê, uai!!! 

(A.D.) Autoria Desconhecida
Artes da Conheça Minas.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Diamantina: a cidade musical de Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Diamantina, está a 292 km de Belo Horizonte, no Vale do Jequitinhonha, rodeada por belas formações rochosas e poucas áreas planas, o que favoreceu o surgimento de belas cachoeiras. Sua altitude é de 1290 metros. Diamantina se destaca na produção de queijos e sua elevada altitude, favorece a produção de café de alta qualidade. No inverno, as temperaturas costumam ser bem baixas.
Conhecida como a capital do Jequitinhonha, da seresta, terra de Chica da Silva e Jk, é também conhecida como a cidade da música. Além das serestas, bartucada e da vesperata famosas no Brasil inteiro, a vocação do diamantinense para música está presente no dia a dia da cidade histórica, em todos os ritmos. É raro nas famílias diamantinenses, não ter pelo menos um músico. (foto acima de Wilson Fortunato)
A cadeia do Espinhaço, a arquitetura colonial preservada, as belas cachoeiras e a riquíssima história do antigo Arraial do Tejuco, hoje Diamantina, inspiram notas musicas e ritmos diversos que ecoam pela cidade. (foto ao lado de Ernani Calazans)
Vozes e os sons dos instrumentos podem ser ouvidos pelos becos, ladeiras e cantos da cidade Patrimônio Cultural da Humanidade.
Parar e ouvir os grupos cantando é quase que obrigatório. Muitos não se contentam em apenas ouvir, mas dançar e esbanjar sua alegria. A música é de qualidade e o talento dos artistas é indiscutível. Eles cantam não apenas por profissão, mas sim com alegria e orgulho por saberem que a música que tocam, traz alegria ao coração dos cerca de 200 mil turistas que visitam Diamantina todos os anos. O turista vem à cidade e guarda na lembrança o som dos instrumentos e a alegria dos artistas cantando nas ruas. 
Nos dias de Vesperata (na foto acima de Edson Zanatto), onde das sacadas dos casarões, bandas locais entoam músicas em ritmos diversos, impressiona e emociona os milhares de presentes. Além da Vesperata, tem o Carnaval de rua, com a famosa Bartucada, que atrai outros milhares de visitantes para a festa, percorrendo as ruas da cidade ao som do famoso grupo de percussão.
Visitando a cidade, o turista além da música, pode conhecer pelas ruas da cidade o artesanato local, feito com flores de Sempre-vivas. Na Feira dos Produtores Rurais e Artesanato o visitante encontra cachaça, queijos, doces, mel, comida mineira, o famoso artesanato em cerâmica do Vale do Jequitinhonha, etc. (foto acima de Elvira Nascimento)
Além do artesanato e da excelente culinária da cidade, alguns pontos turísticos não podem deixar de ser visitado como o Mercado Municipal (na foto acima de Elvira Nascimento), a casa em que viveu Juscelino Kubistchek, hoje museu, o casarão de Chica da Silva e João Fernandes de Oliveira, o Passadiço do Glória, a Catedral de Santo Antônio, a Casa do Padre José da Silva Rolim (Museu do Diamante), Capela da Santa Casa de Caridade, Praça da Unesco, Cruzeiro do Cula, Vila de Biribiri, Museu do Tropeiro, Distrito de Extração, cachoeira como a dos Cristais, da Sentinela, dentre outras belezas naturais e arquitetônicas. (foto abaixo de Wilson Fortunato)
Diamantina oferece uma boa estrutura hoteleira, com ótimos hotéis e pousadas. Uma excelente rede gastronômica, com comidas típicas bem como uma boa infraestrutura para receber o turista. 

sábado, 6 de janeiro de 2018

A casa de meus avós

(Por Arnaldo Silva) Quando eu ia pra roça, de longe já avistava a casa dos avós, no povoado do Salitre.
Era uma casa em estilo barroco, na cor branca por dentro e por fora, com janelas e portas em madeira, pintadas de rosa. Não tinha chaves, nem cadeados. Eram trancadas com tramelas.
          Ao redor da casa tinha um quintal enorme. Ao lado um curral bem cuidado, cheio de vacas leiteiras. Tinha também um paiol ao lado que vivia sempre abarrotado de milho. 
          No quintal tinha um enorme cajueiro. Vários pés de laranjas e mexericas. Jabuticabas e goiabas tinham demais. Jambo, manga, romã. Entre um pé de manga e o cajueiro, tinha algumas varas de bambus que servia de poleiro para as galinhas, que eram criadas soltas.
          Elas faziam os ninhos no mato e saíamos sempre pelo mato a fora para encontrar os ninhos. Rapidinho já estava de volta com cestos cheios de ovos.
          Ao lado da cozinha tinha um giral, onde minha avó colocava as panelas lavadas e bem areadas. Minha avozinha querida sabia fazer sabão caseiro e muito bem.
          O fogão a lenha era um brinco, muito bem cuidado e barreado todos os dias. Tinha uma travessa de madeira sobre ele, onde sempre tinha lingüiça e carne pendurados para defumar naturalmente.
          Pra lavar roupas tinha uma mina, a uns 100 metros da casa. A água era pura e cristalina e as roupas ficavam limpinhas. Minha avó fazia as roupas. Tinha uma roda de fiar e máquina de costura. Costurava como ninguém e ensinou isso para todas as filhas.
          Água pra beber e fazer comida vinha da mina. Minha avó buscava na mina em potes de barro e sempre ficava fresquinha. Um sabor totalmente diferente.
          A cama era feita com madeira de cerejeira, encontradas na mata mesmo. O colchão era pano cheio de palha e o travesseiro era pano cheio de flor de paina.
          Não podia deixar de ter na casa, claro, uma dispensa. Nessa dispensa eram guardados o arroz, o feijão e mantimentos. Nela também se fazia os queijos. Lembro bem, no teto, tinham tábuas amarradas em cordas, cheio de queijos. Tinha uma porta e uma pequena janela, sem iluminação. Parecia uma caverna. Por isso que os queijos da minha avó eram bons demais. 
          A maioria dos queijos era para vender ou trocar e claro, fazer as quitandas que minha avó sabia fazer como ninguém. Tinha um mandiocal na fazenda e meus tios colhiam as mandiocas e minhas tias faziam farinha e polvilho. Nunca comi quitandas tão gostosas como minha avó fazia.
          Na casa, sempre tinha biscoitos de queijo e de polvilho para os filhos, netos e claro, para as visitas.
          A casa era grande. A família era numerosa. Com a minha mãe eram 11 filhos. Naquela época ninguém tinha menos de sete filhos. Não existia a época as opções de diversão de hoje, nem energia elétrica.
          O jeito era deitar cedo e namorar. Como não existia anticoncepcionais naqueles tempos, quase todo ano era um filho. E ter muitos filhos era motivo de orgulho dos pais e quanto mais filho melhor. Desde pequenos, os filhos já iam para o trabalho na roça. Tinha criança de sete anos pra cima já tirando leite, buscando gado no pasto ou fazendo algum tipo de trabalho na roça. Debulhar milho, cortar mandioca, bater feijão ou arroz eram os trabalhos mais comuns que todos faziam. 
          O curioso era a casa por dentro. Tinha sala, cozinha, copa e quartos normais. O quarto dos homens era normal, com porta. Das mulheres não. A entrada ou saída é por um único lugar, pelo quarto dos pais e sem porta. Se elas fossem entrar ou sair, tinham que passar pelo quarto dos pais. 
          Isso era para proteger as moças ou no caso, as famílias da desonra, caso algum interesseiro aparecesse ou as moças pensassem em dar uma escapulida à noite ou mesmo fugir. Ao entrarem para o quarto para dormir, lá ficavam. Não saiam para nada. Se tivessem vontade de fazer algo, tinha penico embaixo da cama, mas sair à noite, de jeito nenhum.
              Assim também era a casa. O quarto das moças, que na verdade eram dois quartos, tinha entrada por dentro do quarto do casal. A cama ficava rente a porta de entrada do quarto das meninas e ao lado, uma vara de marmelo. Caso elas aprontassem, a vara comia no couro delas.
          Não tinha banheiro dentro de casa. Pra eles isso era falta de higiene. Tinha o que antigamente se chamava de “casinha”. Era uma pequena casinha, sobre uma fossa, com um buraco no meio. Sempre tinha sabugo de milho dentro da casinha. Não tinha papel higiênico e o sabugo era para limpar mesmo. Ardia que era uma beleza! Tinha uns que usavam folhas de bananeiras, mas era muito lisa e escorregava e acabava sujando mais que limpando.
A maioria preferia ir para o mato mesmo.
          Mas ninguém nunca morreu por causa disso. O avô paterno de minha mãe morreu com mais de 100 anos, dizem que ele morreu com 127 anos. Meu avô materno viveu até os 87 anos e os outros irmãos dele, passaram dos 90. Minha tia, irmã de minha avó morreu com 91 anos. 
          Eles trabalhavam muito. Levantavam cedo, antes de o galo cantar para buscar o gado no pasto, tirar leite ou ir para a roça plantar ou colher. Arroz, café, feijão, mandioca, milho.          Começavam de madrugada e só voltavam ao pôr do sol. Cada um levava uma cabaça cheia de água, enxada, foice e na capanga, tinha um caldeirão pequeno com a comida, uma vasilha com biscoitos e outra cabacinha com café. E assim passavam o dia.
          Nos meses de maio, agosto e dezembro, todos os membros da família se reuniam para um almoço especial. Além do tradicional almoço de domingo. Dias das Mães, Dia dos Pais e Natal era imprescindível a presença de todos na casa. E era um encontro maravilhoso. Os parentes vinham de longe só para visitar os pais nessas datas. Ausência era por um motivo muito justo e quase que injustificável. A família era valorizada e não tinha trabalho ou compromisso que impedisse a viagem. Só algo grave mesmo.
          Quando eles se foram desse mundo, não teve mais esses encontros de família. O encontro era em torno deles e todos os filhos os respeitavam. Tradição tão linda que se foi.
          Era obrigatório tomar bênção dos avós, tios, pais e padrinhos. Sempre fomos ensinados a isso. Ao levantar e ao deitar sempre se ouvia “bença mãe, bença pai”, “bença tio, bença tia”, “bença vó, bença vô”.
          São atos tão fáceis, tradicionais e de enorme valor sentimental. Pena que a geração de hoje não conhece isso. O prazer da reunião familiar em torno dos pais, da obediência aos mais velhos e de pedir a bênção para um pai, mãe, tios e avós. Receber um “Deus te abençoe meu filho” faz bem para o coração e alma.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Lenda na Serra da Canastra

Diz a lenda que em noites de lua cheia, São Francisco de Assis desce pessoalmente do céu e passeia pela imensa paisagem da Serra da Canastra.

Na sua longa caminhada, ele conta um a um os seus animais de estimação:o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, a onça, a ema, o veado campeiro, o pato mergulhão, o gavião, os passarinhos... Recolhe os que se perderam. Cura os feridos com os ramos de arnica e carqueja, que são remédios naturais ali do Chapadão.

Quando a manhã não tarda e a aurora anuncia os primeiros raios do sol, o protetor peregrino, exausto, bebe água da nascente e lava ali o seu rosto. Colhe um ramo de lírios orvalhados para Maria, mãe de Deus.

Ascende aos céus abençoando o Rio e seu povo. Pedindo que não destruam a Natureza.

Texto e fotografia de Maria Mineira - São Roque de Minas

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Radinho de pilha

Minha casa não tinha televisão até 1975. Depois meu pai comprou um aparelho de TV da marca mais popular, Colorado RQ, brasileiríssima. RQ significa Requinte e Qualidade. Era o máximo aquela caixa de madeira que mostrava imagens. Adorava assistir aos desenhos animados, o Mundo Animal, Batman, Ultraman, Tarzan, a Feiticeira, Rim-tim-tim, o Sítio do Pica-pau Amarelo, dentre outros.

          Quando a imagem ficava ruim, diziam que para melhorar tinha que colocar Bombril na antena interna. E a nossa, claro, tinha também. E quando o Bombril não resolvia, o jeito era ir lá fora e ficar mexendo na antena externa, até melhorar. Quase não trocávamos de canal, dava um trabalho levantar e ficar rodando o botão.
          Eu gostava era de ficar olhando a TV por dentro. Era cheia de válvulas. Se uma queimava, tinha que trocar porque a TV não funcionava mesmo.
          Um dia passou um vendedor na rua oferecendo uma tela colorida. Parecia um arco-íris a imagem, mas todos tinham em casa e era moda, daí meu pai comprou.
          Mas o bom mesmo, e o que quero falar não é sobre TV, mas sim o rádio. Meu pai comprou um rádio, grande. Parecia uma caixa de vespa quando ligado. Madeira bem trabalhada. Era uma relíquia nas casas. Ficava sempre no melhor lugar da sala. 

          Em dia de jogo do Atlético, lá estava meu pai com o ouvido grudado no rádio. Cada gol um grito. E assim fui crescendo e virando atleticano, só de ouvir meu pai gritar gol do galo. Aprendi a ser atleticano em 1971, quando o Galo foi Campeão Brasileiro. Nos dias de jogos, ficava lá, ouvindo a narração do jogo e tentando imaginar as jogadas.
          Meu pai levantava cedo e antes dele ir para o trabalho, ligava o rádio e deixava ligado, sempre em programas sertanejos. Zé Bétio era um deles. O povo vinha da roça para a cidade, mas nunca perdia suas raízes. Cresci ouvindo música sertaneja, praticamente o dia inteiro. Tonico e Tinoco, Praião e Prainha, Zilo e Zalo, Irmãs Freitas, Irmãs Galvão, Inezita Barroso, Trio Parada Dura, Vieira e Vieirinha, Lourenço e Lourival, Tião Carreiro e Pardinho, Teixeirinha e Mary Terezinha, Rolando Boldrim, Pedro Bento e Zé da Estrada, Palmeira e Biá, As Mineirinhas, Duo Ciriema, Cascatinha e Inhana, Irmãs Barbosa e tantos outros artistas sertanejos. Gostava e gosto até hoje dessa música sertaneja, acrescentando Sérgio Reis, Almir Sater, Paula Fernandes, Tarcísio Manuvéi, Pena Branca e Xavantinho.
          O marcante mesmo é lembrar de meu pai, com o ouvido encostado no rádio, ouvindo essas músicas, cantando, sonhando e relembrando seus tempos de quando vivia na roça.

Por Arnaldo Silva com imagem ilustrativa do artista plástico Carlos Madeira

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O dia da fazeção de pamonhas lá na roça

(Por Arnaldo Silva) Nunca me esquecerei do dia da “fazeção” de pamonhas. Meu avô plantava a roça de milho, a uns duzentos metros da casa e, a boa colheita dependia da chuva na hora certa. Íamos, vovô e eu, apanharmos o milho. Ali, cultivava-se também mandioca, inhame, cará, plantados na parte menos fértil do terreno. Segundo ele, o milho era cultura mais exigente e precisava de terra vermelha sem cascalho.
          Era bom chegar cedinho à roça, a tempo de ver o orvalho ainda escorrendo nas folhas de taioba. Amoitadas entre os pés de milho, eu encontrava as melancias - daquelas compridas da casca rajadinha- que eram as mais doces. Mais adiante estavam as abobreiras. Lindas com suas flores amarelas, escondendo enciumadas, as abobrinhas de um verde que nunca mais encontrei noutro lugar.
           Alastrando-se à cerca, havia o cará do ar e as buchas. O maracujá mais teimoso, também dela saía e se enroscava na porteira, enfeitando-a com suas flores, roxas e brancas. Eu me embaraçava num cipó de nome bonito, que era praga por ali, a “corda de viola”, meu avô ia cortando, porque estragava todo o milharal.
          O milho estava no ponto de pamonha quando as bonecas secavam o cabelo. Vovô dizia que o milho era uma planta abençoada, pois mesmo depois das ramas secas, ainda servia de suporte para o feijão ou a palhada alimentava o gado.
          Ao chegarmos à casa com o milho, um adulto era responsável por cortar a cabeça da espiga com o facão. Um bando de crianças tirava o cabelo delas. Então a mulherada separava as palhas e fazia os amarrilhos. Todos se acomodavam como podiam, no chão ou nos bancos em volta da montanha verde, no chão da varanda.
          Tudo arrumado, começava a ralação! Ralos grandes, gamelas, bacias. Minha mãe ficava com a tarefa mais difícil, escorava o ralo na barriga, segurava com uma mão e com a outra ia ralando uma a uma as espigas. Espirrava caldo de milho para todo lado. Certa vez, enquanto mamãe parou para beber água, fui escondida tentar ajudar, porém na primeira tentativa ralei as pontas dos dedos e tingi de vermelho parte da massa. Nunca mais me atrevi.
          Quando já havia massa suficiente para começar, era costume fazer assim: minha avó coava a massa amarelinha na peneira de taquara, alguém trazia uma vasilha com banha quente de porco - que chiava ao cair na massa- então, misturava-se bem e uma parte era adoçada com açúcar ou rapadura e a outra era temperada com sal, linguiça e pimenta. As mulheres mais treinadas faziam um copo com a palha do milho, colocavam um bom pedaço de queijo, mais uma palha e amarrava bem apertado, fazendo uma cinturinha na pamonha. Era preciso esperar o tacho de água ferver, antes de enchê-lo de pamonhas. Depois se cobria com as palhas verdes, tendo o cuidado de cozinhar as salgadas separadas das doces.
          Quando a palha amarelava, era sinal que estava pronto. No mesmo dia, eram feitos bolos de milho. Era só untar os tabuleiros, colocar mais queijo ralado na massa já pronta e levar ao forno para assar.
          Outra iguaria feita com o milho verde era o mingau, conhecido também por curau, para ele eram usadas as espigas mais duras. Bastava adicionar leite fresco à massa e coar num pano limpo, acrescentando açúcar e levando ao fogo até o ponto desejado.
          Na casa de meus avós, o dia de mexer com o milho verde nem se fazia outro tipo de comida. Era milho cozido, milho assado na brasa, pamonha e bolo de milho o dia inteiro.
          Engraçado, que hoje em dia, encontram-se pamonhas o ano inteiro, no entanto elas não têm o mesmo gosto daquelas da roça, que só eram feitas certo período do ano. Acho que aquele sabor se chama saudade e me acompanhará sempre.

A primeira foto é de Nilza Leonel e as demais, de Maria Mineira

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