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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Vida e obra da escritora Carolina de Jesus

(Por Arnaldo Silva) Nascida em 14 de março de 1914, em Sacramento MG, no Triângulo Mineiro, Carolina Maria de Jesus, faleceu em São Paulo, em 13 de fevereiro de 1977. Em Sacramento, Carolina estudou até a segunda série do Ensino Primário.
          O pouco tempo de estudo foi o suficiente para que se encantasse pela escrita e leitura. Sua família era bem humilde e não tinham condições de comprar livros para que pudesse ler. Para poder ler, pedia emprestado livros aos vizinhos. Um dos livros que conseguiu ler em sua infância, foi Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães.
          A vida difícil no interior, e o falecimento de sua mãe, fez com que Carolina de Jesus, optasse em se mudar para São Paulo, em 1937. Na capital paulista, foi morar num pequeno barraco, na Comunidade do Canindé, na Zona Norte. Ela mesma construiu sua moradia, usando madeira, lata, papelão e tudo que encontrava, que pudesse ser útil na construção de sua casa. (na fotografia acima, Carolina de Jesus, autografando seu livro, Quarto de Despejo, em 1960. Foto: Arquivo Nacional - Correio da Manhã/Dominio Público)
          Na capital, trabalhou como doméstica na casa do cardiologista e cirurgião, Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, um dos mais conceituados e respeitados médicos brasileiros. Na casa do Dr. Zerbini, tinha uma enorme biblioteca e deu permissão para que Carolina de Jesus, lesse os livros que se interessasse, em suas horas de folga. Em 1947, aos 33 anos, engravidou de seu primeiro filho, João José, que nasceu em 1948. Grávida, teve que deixar o trabalho. Teve ainda mais dois filhos, José Carlos, nascido em 1949 e Vera Eunice, nascida em 1953.
          Nunca se casou e cuidava dos três filhos sozinha, fazendo faxinas, lavando roupas para fora e catando papéis pelas ruas de São Paulo. Seus filhos pegaram o gosto pela leitura, incentivados pela mãe e estudaram em escolas públicas. Carolina, dava ainda aulas de alfabetização para os membros de sua comunidade, que queriam aprender a ler e escrever.
          Catando papéis pelas ruas de São Paulo, tinha o cuidado de separar as folhas que estivem em melhores condições para escrever seus diários, sobre o cotidiano da vida nas comunidades pobres de São Paulo. Se encontrasse algum livro no lixo, lia e guardava em casa, em um pequeno armário que tinha em sua casa.
          A falta de escolaridade, a discriminação, fome e a pobreza, não foram obstáculos para impedir que fizesse o que mais gostava, escrever. Carolina de Jesus era escritora auto ditada. Mulher de personalidade forte, coração sensível, mãe dedicada, lutadora, não se entregava às dificuldades que a vida lhe impunha e nem guardava respostas para depois.
          Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, do Jornal Folha de São Paulo e Revista O Cruzeiro, esteve na Comunidade para fazer uma reportagem e ficou sabendo, pelos moradores, que no lugar, tinha uma mulher que escrevia, em folhas de papel que catava nas ruas de São Paulo. Audálio se interessou em conhecer os escritos da moradora.
          Apresentado à Carolina de Jesus, leu e se impressionou com a qualidade literária de seus textos. Selecionou alguns e os publicou em uma das edições do Jornal Folha de São Paulo e na Revista O Cruzeiro. Publicou na íntegra alguns escritos, mesmo com os erros gramaticais. A publicação foi um sucesso e chamou a atenção dos leitores do jornal e revista para uma realidade que poucos conheciam e não eram muitos divulgados pela mídia, na época.
          Dois anos depois, em 1960, os diários escritos por Carolina de Jesus, são transformados em livro. Quarto de Despejo - Diário de uma favelada. Foram mais de 10 mil livros vendidos em apenas uma semana, tendo sido traduzido para 14 idiomas e vendido para mais de 40 países, totalizando mais de 1 milhão de exemplares vendidos, desde sua publicação. Quarto de Despejo foi um dos livros brasileiros mais conhecido no exterior.
          Numa parte do livro, Quarto de Despejo, percebe-se a visão da escritora sobre os contrastes e realidade social das grandes cidades brasileiras. "Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trechos”. Para Carolina de Jesus, o Centro das cidades eram as “salas de visitas”.
          Nas primeiras décadas do século XX, os governantes retiravam as pessoas que viviam nas ruas e os levavam para lugares mais distantes, da parte urbana, impulsionando assim ampliação e criação de favelas. Por isso que Carolina considerava as favelas, o quarto de despejo das cidades, e a parte central, a sala de visitas.
          Com o sucesso da venda de seu livro, Carolina mudou-se da comunidade para o bairro de Santana, também na Zona Norte e por fim, para Parelheiros, na Zona Sul. A região que ela escolheu viver, embora na Zona Sul paulistana, era mais afastada e um local mais simples, que lembrava um pouco as pequenas cidades do interior, com casas simples e gente humilde, formada por pessoas que deixaram suas terras de origem, passando a viver na cidade grande, em busca de vida melhor. A vantagem que Carolina de Jesus via em sua nova região era que tinha ônibus e escolas públicas por perto, o que facilitava o acesso da comunidade ao estudo e locomoção para o trabalho.
          Considerada uma das maiores escritoras do século XX, em seus inúmeros diários, Carolina de Jesus deixou um legado para gerações de todo o mundo, descrevendo numa linguagem simples, direta, clara, mas ao mesmo temo, poética e humana, como é sobreviver e lutar contra a fome e pobreza extrema.
          Em sua cidade natal, Sacramento, a escritora teve o merecido reconhecimento, dando nome a uma escola estadual, bem, como 37 escritos de Carolina de Jesus, fazem parte acervo, do Arquivo Público de Sacramento MG.
          Recentemente, em 25 de fevereiro de 2021, Carolina Maria de Jesus, recebeu o título póstumo de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aprovado pelo Conselho Universitário (Consuni/UFRJ). Trata-se de uma honraria concedida a pessoas de destaque por suas virtudes, atitudes e méritos, independente de seu grau de instrução. 
          Sua principal obra, Quarto de despejo: Diário de uma favelada, é leitura obrigatória para quem quer conhecer a realidade das comunidades pobres das grandes cidades e também está presente em vestibulares de grandes universidades do Brasil.
          Contemporânea da época, onde se destacavam grandes nomes femininos da literatura brasileira, como Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Cora Coralina, Cecília Meireles, dentre outras, Carolina de Jesus está inserida entre os maiores nomes da literatura brasileira.
          Sua vida e obra merecem ser conhecidas pelo povo brasileiro, pelo exemplo que foi como mulher, pela atualidade de seus escritos e qualidade de suas obras. Os livros da escritora mineira formam um dos mais importantes clássicos da nossa literatura moderna, tanto que recebeu elogios de Clarice Lispector, tida por Carolina de Jesus como "uma escritora de verdade", sendo respondida por Clarice Lispector: "Escritora de verdade é Carolina, que conta a realidade”.
          Carolina de Jesus sofria de asma desde o nascimento e morreu aos 62 anos, em 13 de fevereiro de 1977, em consequência do agravamento desta doença, que lhe causou insuficiência respiratória. Após sua morte, em 1977, foram publicados novos livros, escritos e contos inéditos da escritora como: Diário de Bitita (1977), Um Brasil para Brasileiros (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014) e Meu Sonho é Escrever, além de escritos e contos (2018).

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