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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Pé-de-moleque: história e origem do nome

(Por Arnaldo Silva) Doce típico da culinária brasileira, feito a partir da mistura do amendoim torrado com a rapadura. O segredo doce é a “quebra” da garapa, que ao cristalizar, endurece o doce. O doceiro tem que saber o ponto exato, para que não fique duro demais. Quando surgiu no Brasil, seu nome era “quebra-queixo” ou “quebra dentes”, e não eram figurativos esses nomes, pode entender ao pé da letra mesmo. A receita foi se aprimorando ao longo dos tempos, com as doceiras buscando o equilíbrio do ponto certo do doce, visando quebrar a cristalização. Já no ponto da cristalização, o doce tem que ser logo retirado do fogo e despejado num tabuleiro, rapidamente. Assim o doce não ficava mole demais e nem duro demais, a ponto de quebrar os dentes. Esse ponto certo quem sabe dizer qual e o momento exato é a doceira. (foto abaixo de Arnaldo Silva)
          Em Minas Gerais, os doces se destacam nos tabuleiros das cozinhas mineiras, principalmente em Piranguinho MG, cidade do Sul de Minas, a Capital do Pé-de-moleque no Brasil. O Pé-de-moleque movimenta a economia da cidade e é tão importante que todos os anos, acontece em Piranguinho a Festa do Pé-de-moleque. O destaque da festa, que acontece em junho, junto com os festejos juninos, é a apresentação para degustação pública do maior Pé-de-moleque do mundo, com recordes em tamanho e peso, reconhecidos pelo Guines-book. 
          No ano anterior, o Pé-de-moleque de Piranguinho tinha 24 metros de comprimento. É um dos principais eventos gastronômicos de Minas Gerais e do Brasil. Quem for à cidade, em qualquer época do ano, encontrará várias barracas coloridas, com os mais variados tipos de pés-de-moleque. Experimentando o doce, de qualquer uma das 15 barracas espalhadas pela cidade, entenderá porque Piranguinho é Capital do Pé-de-moleque no Brasil. O sabor é único, sem igual, inconfundível. (na foto abaixo do Leonardo Souza/@jleonardo_souza_srs), monumento mostrando o caminho para a Barraca Amarela em Piranguinho MG. Cada barraca tem uma cor diferente)
          A origem do nome não é exata, mas é interessante. Moleque é uma palavra presente no Antigo Testamento bíblico. Era um deus cultuado pelos amonitas, um povo que vivia em Canaã, no Oriente Médio. Um deus, segundo relatos, muito travesso, mal educado, impaciente e esperto. Os filhos dos escravos desde a antiguidade, quando se comportavam mal, eram chamados de moleques pelos seus senhores, acabando virando costume chamar os filhos de escravos de moleques. Calçar ruas com pedras rústicas, desalinhadas, grandes e pesadas, era comum desde os tempos da Roma antiga, passando pela Idade Média e chegando ao Brasil nos tempos da Colônia, quando ruas passaram a serem calçadas com pedras. Era a forma que tinham de evitar andar em ruas de terra, pegando a poeira na estiagem e o barro no período chuvoso. 
          Os escravos faziam o calçamento e para acertar os espaçamentos entre as pedras irregulares, espalhavam areia misturada com terra. Em seguida, os meninos, filhos dos escravos, pisavam entre esses espaçamentos, amassando bem, para que ficasse firme. Como eram constantemente chamados de moleques pelos senhores de escravos e por usar os pés dos moleques para acertar os espaços entre as pedras, esse tipo de calçamento passou a se chamar “Pé-de-moleque”.
           Nos tempos do Brasil Colônia, calçar ruas com pedras passou a ser comum e o mesmo método era usado nas grandes cidades da época. Calçamento esse presente na maioria das cidades históricas. (como em Tiradentes MG, na foto acima de autoria de César Reis) Apenas no final do século XIX e no século XX, as ruas começaram a serem calçadas com pedras em forma retangular, mais trabalhada e lisa, os chamados paralelepípedos, sem a necessidade de usar os pés dos meninos para acertar os espaços. 
          O doce Pé-de-moleque num tabuleiro lembra muito as ruas calçadas em pedra e por isso passou a ter esse nome. Vale lembrar que o doce surgiu no Brasil no século XVI e o calçamento com pedras tem sua origem milenar. 
          Mesmo assim outra versão afirma que o nome tem origem quando meninos na rua, também chamados de moleques, aproveitavam a distração das quitandeiras, que ficavam com seus tabuleiros vendendo os doces, pegavam e saiam correndo. Elas não gostando da atitude dos meninos, gritavam mais ou menos assim: “pede moleque, não precisar fazer isso não, é só pedir”. E de tanto falarem “pede moleque”, o nome do doce ficou esse. Embora a grafia e o significado da palavra não seja o nome exato do doce hoje, por que pede é uma coisa, pé é outra, para muita gente, passaram a chamar o doce de Pé-de-moleque por isso. A versão mais concreta, em minha opinião, é a primeira. (foto abaixo de Arnaldo Silva)
          O Pé-de-Moleque, ao contrário do que muitos pensam, não é um doce brasileiro. É Árabe, tendo sido introduzido na Europa na Idade Média, pelos árabes em suas incursões pela península Itálica e Ibérica. No continente Europeu ganhou variações na receita e nomes. Em Portugal era “nogat”, na França, “nougat”, na Espanha “turrón” e “castuera”, na Itália, “torrene, “Benevento” e “ciubatta, no México é “palanqueta”. Até na Índia existia esse doce, com o nome de “chikki”. Na receita original árabe usava-se o mel de abelhas. No Brasil, a receita chegou pelas mãos dos portugueses no século XVI, quando foi introduzida na Capitania de São Vicente por Martin Afonso de Sousa, o cultivo da cana-de-açúcar, planta de origem indiana. 
          Da cana saiu o açúcar que passou a ser usado na receita original do pé-de-moleque, no lugar do mel. Com a invenção da rapadura, pelos brasileiros, no lugar do açúcar passaram a usar a rapadura. Não deu outra, o doce ficou divino e a partir dai caiu no gosto do nosso povo de todas as regiões do Brasil. Mas seu nome original era “quebra-queixo” e chamado ainda de “Quebra-Dentes”. Mais tarde com inovações regionais ao longo dos tempos, passou a se chamar Pé-de-moleque, como foi descrito acima. Hoje o doce está presente em todas as regiões do Brasil. Em alguns estados, com receitas um pouco diferentes, com características da culinária regional, mas em sua essência, é o nosso Pé-de-moleque, uma das identidades gastronômicas brasileiras, sendo um dos doces mais populares da cozinha mineira e nordestina, com forte ligação com a cultura caipira, principalmente nos pequenos arraiais mineiros, durantes as festas juninas.

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