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sábado, 18 de maio de 2019

Barão de Cocais, Congo Soco, os ingleses e o Uai

(Por Arnaldo Silva) Uma charmosa, atraente, aconchegante e bela cidade histórica mineira, com cerca de 33 mil habitantes, Barão de Cocais, (na foto acima de Gislene Ras) está apenas 93 km de distância de Belo Horizonte. Faz divisa com os municípios de Bom Jesus do Amparo, Caeté, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.
          Sua origem data do início do século XVIII com a chegada de bandeirantes vindos do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, em busca do ouro na região. Desceram o Rio São João, onde encontraram novas minas de ouro, se estabeleceram, formaram um povoado, ergueram uma pequena capela. Deram o nome do arraial de São João do Presídio do Morro Grande, pelo arraial ter sido formado ao sopé de um morro extenso, chamado de Morro Grande. 
          Com a descoberta de novas minas na região, o arraial prosperava e novos moradores chegavam, atraídos pelo metal dourado, e outros metais, como a hematita (na foto acima, de Glauco Umbelino, igreja feita com hematita, próximo a Mina de Congo Soco). Mas o que interessava mesmo era o ouro. Começaram a construir casas às margens do Rio São João, formando outro povoado, de nome Macacos, maior núcleo de Morro Grande na época. 
          A partir de 1764, a pequena e rústica capela começou a dar a lugar a outra maior, com talhas e arquitetura com as características da riqueza das igrejas construídas no auge do Ciclo do Ouro. A nova igreja, dedicada a São João Batista, conta com obras atribuídas ao Mestre Aleijadinho, responsável pela imagem de São João Batista, na portada de entrada do templo, esculpida em pedra sabão (na foto do Elpídio Justino de Andrade). A tarja do arco-cruzeiro, no interior da igreja também é atribuída ao Mestre do Barroco Mineiro. A ornamentação interna conta com talhas douradas em ouro, no estilo Rococó e pinturas do forro e altar atribuídas ao Mestre Ataíde. Foi concluída em 1785, 21 anos depois de iniciada. (na foto abaixo do Barbosa, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos)
          Em 1891 a vila de São João Batista do Morro Grande era elevada a distrito. Já em 1938, o nome passou a ser apenas Morro Grande, tendo sido emancipado em 1943, adotando o nome de Barão de Cocais, em homenagem ao ilustre morador da Vila Colonial de Cocais, hoje, distrito da cidade, o barão, João Batista Ferreira de Souza Coutinho, conhecido na região como o Barão de Cocais, em alusão à localidade em que vivia, embora seu título de barão seja por Catas Altas. 
          João Batista foi um excêntrico milionário de sua época, tendo recebido de Dom Pedro I, o título de barão. Este título era concedido pelo Imperador aos cidadãos comuns, mas ricos e poderosos, que não tinham nascido nobres, tornando-os nobres a partir de então, embora, a nobreza puro-sangue, os consideravam nobreza baixa, já que na hierarquia nobre, o barão era inferior ao título de visconde, que era inferior ao título de conde. Ou seja, barão era a hierarquia mais baixa da nobreza. Conde, visconde e barão, exerciam a função equiparada hoje às funções de prefeito, vice-prefeito e presidente da Câmara, respectivamente.
          Homem muito rico, vaidoso, não via constrangimento algum em ostentar poder e dinheiro e fazia isso com excentricidade fora do comum, principalmente após ter herdado as minas de Congo Soco de seu sogro e já com o título de barão. Entre suas extravagâncias, por exemplo, era construir suntuosos casarões com detalhes arquitetônicos bem trabalhados, como mandou fazer em Brumado, Santa Luzia e Sabará, além de Caeté, onde mandou construir um dos maiores e imponentes casarões do século XIX, um verdadeiro palacete, hoje um museu na cidade.
          Não gostava de ser comparado aos simples ricaços da época, fazendo questão de se diferenciar de todos e mostrar sua riqueza, principalmente no mobiliário de suas mansões que era os mais caros e luxuosos da época, no requinte de suas carruagens, pratarias da casa, etc. Gostava de promover festas constantes com temáticas personalizadas, como exemplo, tinha suas próprias baixelas, feita todas em ouro. A comida era servida em pratos maciços, que os convidados podiam levar para casa, como presente. Na hora da sobremesa ou quando servia caldos, canjicas ou outra coisa, mandava colocar grãos de ouro dentro, e claro, os convidados podiam ficar com os grãos. E não ficava somente nisso. Nas vezes que saia a cavalo pelas ruas de Catas Altas, Cocais e região, fazia questão de colocar uma ferradura de ouro em uma das patas do animal, presa de forma que no caminho, a ferradura se soltasse. Quem pegasse a ferradura, podia ficar com ela. 
          Como nessa vida o que vem fácil, vai embora fácil, o ouro começou a acabar e o barão começou a sentir o ouro exaurindo em suas minas, começando a entrar em decadência e sua riqueza, foi diminuindo. Começou a se endividar e os amigos que antes o bajulavam e recebiam seus presentes, sumiram. Após enfermidade, o barão morreu em 1839, deixando dívidas e sua família empobrecida. 
          Tudo isso faz parte da história de Barão de Cocais e região, bem como a própria cidade, uma parte da história viva de Minas e do Brasil. Além de ser uma cidade histórica, com belas igrejas e casario colonial, Barão de Cocais, conta com várias belezas naturais, como rios, cachoeiras, serras com pinturas rupestres e belas paisagens nativas, além de encontrar-se nas proximidades do Santuário do Caraça, um dos principais pontos naturais, turísticos de Minas Gerais. (na foto do Barbosa, a Igreja de Santa´Anna)
          Além de suas belezas naturais e arquitetônicas (foto acima de Elpídio Justino de Andrade), em Barão de Cocais, o Carnaval de rua, festa brega e festa de São João (padroeiro da cidade) são destaques. Em dias de calor, a famosa Cachoeira de Cocais, é a mais procurada. Fica na Serra da Conceição, apenas 4,5 km da Vila de Colonial Cocais. Esta cachoeira é especial, por ser um complexo com várias quedas, em destaque para suas águas que despencam de uma montanha de pedras, a 30 metros de altura, muito procurada por praticantes de esportes radicais como rapel, montain bike, canyoning, trekking. (na foto abaixo da Elvira Nascimento)
          Outra cachoeira é a da Cambota, formado pelas águas do córrego São Miguel, na Serra da Cambota, área situada numa região de transição de Mata Atlântica e Cerrado, fazendo parte do complexo da Serra do Espinhaço. É na Serra da Cambota que está a matriz de água da cidade, sendo essa região, riquíssima em componentes minerais.
          Além disso, é um dos pontos de turismo da cidade, com suas águas limpas, cristalinas, com vários saltos ao longo do trecho do córrego, que formam atraentes poços com suas águas na temperatura de 20ºC em média, perfeita para banhos. Além de poder se deliciar com suas águas, na serra, podem ser vistos orquídeas nativas e outras plantas da região como samambaias, sempre-vivas e canelas-de-ema, por exemplo.  
          Outro atrativo natural interessante em Barão de Cocais é o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, localizado na Serra da Conceição, a 1250 metros de altitude. (foto acima e abaixo de Elvira Nascimento) São pinturas rupestres em três painéis, retratando caçadores perseguindo suas presas e rituais sagrados acontecidos no local, com muita semelhança com desenhos encontrados nas grutas de Altamira, na Espanha, e Lescaux, na França. O local chamou a atenção do cientista dinamarquês, Peter Lund, que esteve na região em 1843. 


           Os desenhos foram feitos usando pigmentos de minerais presentes na rochas da região, feitas há cerca de 6 mil anos, segundo conclusão de historiadores da Universidade Federal de Minas Gerais, analisando a cronologia dos minerais presentes no paredão, além de concluírem que o local foi moradia de povos antigos, pelo fato das pinturas no paredão mostrarem rituais e ações de caça, envolvendo pessoas, retratando sua forma de sobrevivência e crenças. Esses tipos de pinturas estão presentes em várias cavernas de Minas Gerais e no Brasil, sendo ao todo cerca de 780 sítios arqueológicos pelo país. Essas pinturas foram a forma dos povos primitivos tinham para expressarem suas crenças e retratarem seus modos de sobrevivências, deixando gravadas nos paredões das cavernas e serras, suas vidas, religiosidade, costumes e meios de sobrevivência, usando a mais antiga forma de expressão humana, a arte, através da pintura.
Congo Soco, os ingleses e o Uai dos mineiros
           As ruínas da antiga mina de ouro de Gongo Soco (na foto acima de Glauco Umbelino) são mais que ruínas do século XVIII. É o testemunho presente da economia nacional durante o Ciclo do Ouro. A mina começou a ser explorada em 1745, vendida posteriormente a João Batista de Souza Coutinho, o Barão de Catas Altas e comprada desde por 79 mil libras esterlinas em 1826 pela empresa Brasil Imperial (Brasilian Gold Mining), com origem no condado da Cornualha, no Sudoeste da Inglaterra. A companhia, foi a primeira empresa inglesa a ser instalada no Brasil. Os britânicos exploraram Congo Soco até 1856. 
          Na região, os ingleses deixaram um pouco de sua cultura e arquitetura, formando uma vila própria, com casario, hospital, igreja Anglicana, hoje em ruínas, e um cemitério, onde estão sepultados os ingleses que faleceram durante a presença da colônia na região. 
          O cemitério foi construído no alto de uma colina, cercado por um muro de pedras, com 10 lápides revestidas em pedra sabão e granito. Os sepultamentos seguiu a tradição dos ingleses, originários da Cornualha, que tinha a tradição de sepultar seus mortos de cócoras.(foto acima de uma lápide e abaixo, escultura no cemitério dos ingleses, fotografado pelo Glauco Umbelino)
          Os ingleses foram embora e a mina ficou paralisada, tendo sido retomada somente em 1986, quando foi adquirida pela Mineração Socoimex, que mantem protegido e guardado a herança deixada pelos ingleses. Herança essa que não ficou apenas na arquitetura ou história, mas na influência do linguajar dos mineiros. Uma das mais convincentes teses sobre a origem das palavras Uai e Sô dos mineiros, teve origem em Congo Soco. De tanto ouvirem os ingleses falarem Why (porque), Where (onde) e Why So (o que é então), os mineiros que trabalhavam para os ingleses passaram a repetir essas palavras, "aportuguesa". Assim surgiu o uai, o ué, uai sô e sô, segundo acreditam alguns estudiosos sobre o tema.     

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