Curta um fim de semana na região serrana mineira do Vale do Charme em Brumadinho MG



Apesar da proximidade com a metrópole de Belo Horizonte, a cidade de Brumadinho tem total jeito de interior, como comprovam as casas, igrejas e a gente hospitaleira do lugar. Ou seja, Brumadinho não tem nada a ver com a imagem urbana e movimentada que um morador da região metropolitana de São Paulo ou Rio, por exemplo, está acostumado a “apreciar”. É ali, entre montanhas, que se estende o Vale do Charme, destino sob medida para um fim de semana longe da agitação das grandes cidades.

O verde dá o tom em Brumadinho, principal cidade da região que, oficialmente, é chamada de Vale do Paraopeba. A área compreende ainda as cidades de Belo Vale, Bonfim e Moeda. E defini-la como Vale do Charme não é nenhum golpe de marketing, pois ela consegue aliar com maestria natureza, na forma de montanhas que servem de palco para vôos de balão e de parapente; história, ao reunir fazendas, igrejas e um museu dos tempos do ciclo do ouro; e arte, segmento muito bem representado pelo arrebatador Instituto Inhotim, que reúne o mais completo acervo de arte contemporânea do Brasil.

Gastronomia local


E dá para desfrutar todas essas atrações tendo como base de apoio uma romântica pousada encravada na montanha, além dos saborosos restaurantes mineiros. O jeito é deixar a dieta de lado e mergulhar de cabeça nesse universo que fica ainda mais especial por conta do povo simpático da região, que adora oferecer um pão de queijo, um “torresmim”, um “dô” de leite...

Em Brumadinho um dos restaurantes mais tradicionais é o Rancho do Peixe, aberto há 20 anos e que lota todos os fins de semana. São os dias em que a dona e chef Vera Lúcia de Oliveira se desdobra para atender todas as mesas, ocupadas desde a hora do almoço até o final da tarde, quando muitos arrematam a refeição com uma deliciosa broa de milho com cafezinho de rapadura.

Os pratos mais tradicionais do restaurante são: uma saborosa truta defumada, acompanhada de arroz com alho e um cremoso purê de mandioquinha. Também não faltaram alguns pratos mineiros, como uma caprichada porção de feijão-tropeiro e torresmos sequinhos.

Safári rural


Nas fazendas os passeios mais divertidos da região é o safári rural. Vale a pena sair de manhãzinha para conhecer o máximo possível de atrações, que se dividem entre cidadezinhas com construções históricas, fazenda do início do século 18, museu e alambique artesanal de cachaça.

O tour é em um veículo 4x4 da empresa Siga La Vaca. Meio de transporte perfeito para enfrentar algumas estradas de terra e até um riacho, levando a lugares como a Fazenda Boa Esperança, que pertenceu ao homem mais poderoso que existiu na região: o barão de Paraopeba.

A fazenda passa há anos por um processo de restauração, que já fez com que a casa principal, onde viveu o barão e a família, recuperasse a graça e a imponência.

A experiência de volta à era colonial fica completa com uma visita ao Museu do Escravo, na cidade de Belo Vale. Trata-se do único museu no Brasil dedicado exclusivamente à história dos escravos, onde o público encontra diversos objetos e documentos.

A ala que exibe instrumentos que eram usados para castigo dos escravos é uma das mais interessantes – e também das mais assustadoras, já que é quase impossível não se incomodar com isso.

A sensação negativa é compensada pela emoção de ler no jornal original, A Imprensa Fluminense, de 13 de maio de 1888, o anúncio oficial da Lei Áurea, a medida assinada pela princesa Isabel que libertava os escravos no Brasil.

Degustação de cachaça

O momento de relaxar é no Alambique Serra Morena, um passeio fundamental para qualquer apreciador de uma boa aguardente artesanal mineira.

A cachaça Serra Morena é nova no mercado – passou a ser comercializada em 2003. Durante a safra de cana, de junho a novembro, o alambique chega a produzir 500 litros da bebida por dia. Esse é o melhor período para visitá-lo, já que é possível acompanhar todo o processo de produção da cachaça, da moagem da cana até o engarrafamento. No local, o visitante aproveita para degustar a “marvada” e levar algumas garrafas de lembrança.

Depois de abrir o apetite com uma degustação etílica, a boa pedida é partir para um delicioso almoço mineiro na Casa da Moeda Velha, restaurante familiar bem ao lado das ruínas de uma antiga fábrica clandestina de moedas e barras de ouro. Hoje, há poucos resquícios do complexo que existiu ali, mas o local é legal de conhecer enquanto se espera o almoço.

Na hora de escolher entre os dois pratos do dia servidos no restaurante, dúvida cruel. As opções eram mineiríssimas: costelinha de porco ou frango com quiabo, acompanhados de arroz, feijão, angu e couve fresquinha.

História e aventura


A continuação do passeio fica a critério do cliente: dá para escolher entre mais história ou uma dose de aventura. Se a opção for por história, o tour segue para a cidade de Moeda e por Piedade do Paraopeba, mais antiga que a famosa Ouro Preto, cuja grande atração é a Igreja Nossa Senhora da Piedade, datada de 1713. Bem cuidada, ela foi restaurada e, além da bela fachada azul e branca, de frente para uma praça, conta com uma imagem de madeira de Nossa Senhora da Piedade, trazida de Portugal em 1731.

Caso a escolha tenha sido por um momento com adrenalina, a tarde é passada no Topo do Mundo, no alto da Serra da Moeda, que conta com o restaurante com a melhor vista do vale e uma rampa de vôo livre, de onde partem dezenas de parapentes e asas delta.

Apenas assistir às inúmeras asas coloridas que se lançam ao céu já é um programa legal (e um tanto frio, pois venta bastante na área, a 1.400 metros de altitude). Mas melhor ainda é experimentar o vôo de parapente, praticado por ali há 30 anos. Iniciantes sempre partem acompanhados do instrutor, que faz todo o trabalho – ele prepara a decolagem, controla a direção do vôo e o pouso. Ao passageiro resta apenas desfrutar a vista panorâmica sentadinho na confortável cadeirinha mochila.

Para a atividade ser realizada, é preciso uma ajudinha do tempo. Além do vento adequado, há uma série de condições atmosféricas que precisam ser respeitadas. Até o nível de friozinho na barriga fica a critério do tempo, já que é ele que determina para qual lado da Serra da Moeda poderá ser realizado o vôo: do lado mais “baixo”, partindo da altura de 170 metros, ou do lado oposto da montanha, que dista 480 metros do solo. O vôo pode ter até uma hora de duração.

Uma forma de ter uma experiência nas alturas ainda mais tranquila é o passeio de balão, oferecido somente aos domingos e apenas em dias de bons ventos e pouca neblina. É realizado de manhãzinha, quando o sol está nascendo. O vôo dura uma hora e é seguido por um café da manhã. Para fazer o passeio de balão é preciso reservar.

Instituto Inhotim


No entorno de Brumadinho uma atração especialíssima é o Instituto Inhotim, espaço inédito no Brasil, com 97 hectares de área, jardim botânico e um acervo de 500 obras de arte contemporânea, muitas permeadas por projetos paisagísticos, boa parte inspirada por Burle Marx (1909-1994), maior paisagista brasileiro e amigo pessoal de Bernardo Paz, fundador do instituto.

O museu a céu aberto é tão variado que o visitante pode escolher entre fazer um tour com foco na arte ou voltado para a botânica. Os passeios, gratuitos, ocorrem duas vezes por dia e em horários marcados. Quem quer mais liberdade, mas não abre mão de um guia, pode comprar a monitoria particular, válida para grupos de até 25 pessoas. O preço não inclui o valor da entrada.

A caminhada com foco em projetos paisagísticos explora as belezas do jardim botânico, que conta com cinco lagos ornamentais e 4,5 mil espécies de plantas, algumas nativas e outras trazidas de fora do Brasil. Só de palmeiras, há mais de 1,3 mil espécies diferentes, uma das maiores coleções do mundo. Entre jardins e obras, há agradáveis espaços para descanso e conversa, equipados com 98 bancos de tronco do designer gaúcho Hugo França.

Já o tour pelas obras de arte inclui grandes nomes nacionais, como Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Adriana Varejão (artista plástica e ex-mulher de Bernardo Paz).

Os três grandes trabalhos ficam a curta distância uns dos outros, mas há locais no museu que exigem uma boa caminhada. É por causa disso que Inhotim oferece carrinhos de golfe com percurso pré determinado, que dão carona a visitantes identificados por uma pulseirinha que pode ser comprada em qualquer posto de alimentação do complexo.

Um dos carrinhos leva diretamente ao Sonic Pavilion, do norte-americano Doug Aitken. É difícil não ficar impressionado com o trabalho que, por meio de seis microfones geológicos – sim, é isso mesmo –, instalados ao final de um cano a 202 metros de profundidade, reproduz os sons emitidos no fundo da terra. Como ali é uma região de mineração, os barulhos são constantes, às vezes discretos e às vezes ensurdecedores.

Entre uma obra e outra, será preciso fazer uma pausa para comer. Espalhados pelo museu há nove postos de alimentação, dos quais três restaurantes: os vizinhos Tamboril e Bar do Ganso e o elegante Oiticica.

Romance na serra 




Para arrematar a viagem à bucólica serra mineira, nada melhor do que descansar com conforto. Há uma porção de pousadinhas no Vale do Charme, principalmente em Brumadinho, mas nenhuma delas é tão romântica quanto a Pousada Estalagem do Mirante. Verdadeiro refúgio, a estrutura da pousada foge de tudo o que remete à vida na cidade: lá não há academia, piscina tradicional (substituída por cachoeira artificial) ou asfalto na estradinha de pedra entre os 16 chalés, que tampouco têm telefone.

As únicas modernidades são TV a cabo, chuveiro quente e frigobar. Mas a TV nem é tão usada, já que todos os chalés contam com algo mais interessante: a vista do vale, quase infinita do alto da pousada.

O cuidado com a natureza está presente desde a mata preservada – os chalés são, por exemplo, suspensos por vigas, para não destruir a vegetação – até o uso de móveis e de objetos decorativos de fibra de bambu, mesclados ao artesanato local, entre outros detalhes.

Tanto cuidado pode ser notado em qualquer uma das três categorias de chalés, os maiores oferecem hidromassagem. Todas as acomodações têm grandes janelas panorâmicas e lareira. Mas não deixe de consultar a cartilha de instruções antes de usá-la.

As agradáveis áreas comuns resumem-se a um deque – que propicia uma excelente vista tanto do nascer como do pôr do sol e ponto onde fica a cachoeira – e a um restaurante, onde é servido o café da manhã, incluso na diária. Também aí ocorre o jantar, servido no sistema à la carte e com um cardápio incluindo delícias como a fondue de carne no vinho, com sete molhos diferentes. Nos fins de semana, música ao vivo contribui para deixar o jantar ainda mais especial.

As atrações do Vale do Charme têm a medida certa, juntando o que Minas Gerais tem de melhor: um “mar” de montanhas, legado histórico, comida deliciosa e gente simpática e hospitaleira.

Quando ir 


O inverno é uma das épocas mais gostosas para conhecer a região do Vale do Charme, que fica ainda mais romântico quando a temperatura baixa e convida a momentos regados a vinho, fondue e lareira. A estação tem outra vantagem: oferece mais dias propícios para a prática de parapente, já que a incidência de chuvas é bem menor. 


Fotografia do Barbosa, exceto Inhotim. Texto de Viaje.com.br

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