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quarta-feira, 16 de junho de 2021

O Caminho de Nhá Chica

(Por Arnaldo Silva) Amada, venerada, querida e respeitada, por todos, desde os mais simples, aos ricos e mais importantes figuras do período imperial no Brasil, época em que ela viveu. Nhá Chica foi uma das grandes personalidades mineiras do século XIX. Leiga e católica fervorosa, em vida, já era considerada santa, pela imensa bondade e exemplo de temor à Deus, de fé, de amor e respeito ao próximo que demonstrava, além de milagres, a ela, atribuídos. É carinhosamente chamada de “Santinha de Baependi” e também de “mãe dos pobres”.
          Sua história de vida mistura amor ao próximo, simplicidade, fé, caridade, serenidade, paciência e sabedoria nos atos e palavras. Não discriminava ninguém, atendia a todos por igual. Tinha sempre nos lábios palavras de conforto e orientava com sabedora, todos que a procuravam. (na foto acima, do Caminho de Nhá Chica/Divulgação, a Cachoeira da Usina, em Natércia, na divisa com Conceição das Pedras, um dos trechos do roteiro)
          Ninguém saia de sua casa sem ser ouvido e atendido. Eram pessoas que chegavam com diversos tipos de problemas, vindas da região e de lugares mais distantes. Recebiam de Nhá Chica o conforto que necessitavam, em orações e conselhos. Se chegavam com os corações vazios e sem esperanças, saiam cheios de alegria, com fé renovada e felizes. Muita gente, seja rico ou pobre, não tomava decisões em sua vida, sem antes pedir seus conselhos. Chamada e tratada como Santa, humildemente, com voz serena e tranquila, dizia: “É porque rezo com fé”.
          O único dia que Nhá Chica não atendia as pessoas, era na sexta-feira. Nesse dia, a Beata cuidava de sua casa e lavava suas roupas. Na parte da tarde, se dedicava a penitências, a ouvir versículos da Bíblia, lidos por pessoas próximas, já que, Nhá Chica, não sabia ler e nem escrever.
          Fazia ainda orações e dedicava um bom tempo desse dia, para veneração à Nossa Senhora da Conceição. Em sua casa, construiu uma pequena ermida e nela, colocou a imagem da Santa, que pertenceu à sua mãe. Essa mesma imagem está acima do túmulo onde estão os restos mortais de Nhá Chica, no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Baependi MG. (na foto acima do Rogério Salgado) Nhá Chica considerava a sexta-feira um dia especial, de recordação do sofrimento e morte de Jesus na cruz, para nos dar a salvação.
          “Nhá” é corruptela de “sinhá”, que é corruptela de “senhora”. Mineiro tem o hábito de reduzir as palavras. De senhora, reduziu para sinhá e por fim, nhá, uma forma carinhosa de tratar os mais velhos, além de demonstrar, respeito. Carinhosamente, Francisca passou a ser chamada de Nhá Chica, diminutivo carinhoso e respeitoso de Sinhá e Francisca.
          Nhá Chica nasceu no início do século XIX, em 1810, no período da Escravidão do Brasil, em Santo Antônio do Rio das Mortes, distrito de São João Del Rei, no Campo das Vertentes. Nesse distrito, foi batizada, em 26 de abril de 1810, com o nome de Francisca de Paula de Jesus. Era filha e neta de escravos. O lugar onde Nhá Chica foi batizada, é hoje um dos mais importantes pontos de visitação de São João Del Rei.
          Das ruínas da antiga capela, restou a Pia Batismal, levada para a Igreja de Santo Antônio. No lugar, uma réplica foi colocada no exato lugar, onde ficava a pia batismal, original e ao lado, uma capela foi construída, igual a que existia no tempo da Beata. (na foto acima do Nilton Carvalhos Rios - Pyoi, a pia batismal, original, onde Nhá Chica foi batizada, colocada no interior da Igreja de Santo Antônio em Rio das Mortes, distrito de São João Del Rei MG)
          Nhá Chica, seu pai, sua mãe Isabel e seu irmão, Teotônio, mudaram-se para Baependi, cidade do Sul de Minas Gerais, quando ainda era menina. Levaram na viagem o pouco que tinham. O mais valioso, era a imagem de nossa Senhora da Conceição, que pertencia à sua mãe. Santa de devoção de Nhá chica, desde menina, era chamada por ela, de “minha sinhá” e “minha amiga”.
          Seu pai faleceu, quando tinha apenas 10 anos e seu irmão, 12. Órfã, para suportar a dor da perda do pai, bem como a vida difícil que vivia, se apegava a fé em Nossa Senhora da Conceição, se dedicando desde menina, à caridade e orações, sendo sempre incentivada em sua fé, por sua mãe.
          Fez de sua fé e caridade, seu modo de vida. Nunca se casou, sua vida era a devoção à Nossa Senhora da Conceição e à Deus, com quem buscou servir, de corpo e alma. Tinha uma vida simples em sua humilde residência. Hoje, restaurada, sua casa é um dos pontos mais visitados da cidade (na foto acima do Rogério Salgado)
          Faleceu em 14 de junho de 1895, aos 85 anos, na cidade de Baependi. Seu velório durou 4 dias, permitindo assim a presença de seus devotos, que vieram de várias cidades da região, para se despedirem da mulher que consideravam santa. Todos que estiveram no velório, foram unânimes em dizer que sentiram uma paz enorme no lugar e o cheiro de um misterioso e diferente perfume de rosas, exalando do corpo de Nhá Chica.
          Foi sepultada no interior da capela de Nossa Senhora da Conceição, que construiu graças a doações que conseguiu juntar, durante 30 anos. A pequena ermida, construída por Nhá Chica, foi ampliada, com o crescimento de peregrinação ao local. Os restos mortais da Beata, foram colocados em uma urna, debaixo de um simulacro do corpo de Nhá Chica. Pouco acima do monumento, a imagem original de Nossa Senhora da Conceição, que Nhá Chica herdou de sua mãe, Isabel. 
          Hoje, a antiga ermida, deu lugar ao Santuário da Imaculada da Conceição de Nhá Chica (na foto acima de Carol Biancardi). Recebe visitas diariamente de fiéis vindos de todo o Brasil, e até de outros países. Vêm ao Santuário, para pedirem intercessão por graças, ou mesmo, agradecerem, as já recebidas. Quando retornam para agradecer as graças recebidas, deixam seus agradecimentos e testemunhos dos milagres, na Sala dos Milagres. São milhares de relatos de graças alcançadas, por intercessão de Nhá Chica, expostos nesta sala.

O Caminho Religioso de Nhá Chica
          Em vida, Nhá Chica, recebia diariamente, exceto às sextas-feiras, a visita de peregrinos, que buscavam na leiga, conselhos e orações. Mesmo após sua morte, Baependi, continuou a receber a presença de fiéis, que vinham à cidade, conhecer a casa em que a Beata vivei e a capela que construiu, bem como pedir sua intercessão à Deus.
          Em 2018, o casal José Valmei e Daniela de Roma, responsáveis pela Capela de Nhá Chica, na comunidade rural de Romas, em Inconfidentes, no Sul de Minas, foi procurado pelo senhor José Sarapu. Frequentador assíduo da capelinha e devoto de Nhá Chica, o fiel sugeriu ao casal, a criação de um roteiro de peregrinação, saindo da capelinha, em Romas, até o Santuário de Nhá Chica, em Baependi. (na foto acima de Caminho de Nhá Chica/Divulgação, a Capela de Nhá Chica em Romas)
          O casal decidiu viabilizar a ideia, transformando-a em um projeto. Foi criado uma comissão, formada por um pequeno grupo de devotos, para pesquisar, traçar o roteiro e colocar o projeto em prática. Saiu do papel rápido. Já no ano seguinte, aconteceu a primeira peregrinação.
          O roteiro percorre 273 km, passando por 15 municípios mineiros da Serra da Mantiqueira, com duração de 9 dias, com peregrinação auto guiada. Isso porque o caminho é todo mapeado, além de ser bem sinalizado com placas na cor salmão, a cor do manto de Nhá Chica.
          Os primeiros peregrinos, formados por um pequeno grupo de São Paulo e Inconfidentes e região, receberam as bênçãos do Pároco da Paróquia de Inconfidentes MG, Antônio Brentegani, no dia de Nhá Chica, 14 de junho, em missa celebrada na Capela de Nhá Chica. No dia seguinte, 15 de junho de 2019, o pequeno grupo, formado por 15 peregrinos, iniciou a peregrinação de 273 km, a pé, até a cidade de Baependi MG.
          Além de ser um percurso de fé e penitência, o Caminho de Nhá Chica, passa por diversas cidades, capelas e igrejas, além de fazendas, com seus belíssimos casarões, pontes, rios, cachoeiras, matas nativas de araucárias e paisagens de tirar o fôlego.
          O caminho religioso, ajuda no desenvolvimento do turismo nas cidades que compõem o Caminho de Nhá Chica. Além disso, ajuda a despertar atenção dos turistas para a gastronomia, história, arquitetura e tradições das localidades presentes nos 273 km do caminho religioso.
          Foram 9 dias de caminhada, com o grupo chegando ao Santuário da Imaculada Conceição de Nhá Chica, em Baependi, as 16 horas, do dia 19 de junho. (na foto acima de Caminho de Nhá Chica, peregrinos a caminho de Baependi)
O trajeto do Caminho de Nhá Chica
          Tem início da Comunidade rural de Romas, em Inconfidentes, saindo da Capela de Nhá Chica, passando por 15 cidades e suas zonas rurais, até o Santuário da Imaculada Conceição de Nhá Chica. São ao todo, 273 km de caminhada.
• Inconfidentes a Borda da Mata: 20 km
• Borda da Mata a Congonhal: 25 km
• Congonhal a Espírito Santo do Dourado: 21km
• Espírito Santo do Dourado a Silvianópolis: 20km (na foto acima de Caminho das Capelas/Divulgação)
• Silvianópolis a Careaçu: 20km
• Careaçu a Heliodora: 24km 
• Heliodora a Natércia: 10km (Heliodora na foto acima do Rinaldo Almeida
• Natércia a Conceição das Pedras :16km (na foto acima de Caminho de Nhá Chica, peregrinos chegando até a Cachoeira da Usina, em Natércia)
• Conceição das Pedras a Bairro Vargem Alegre: 18,4km
• Bairro Vargem Alegre a Cristina: 17,5km (na foto acima da Sandra Walsh, a cidade de Cristina, vista da estrada)
• Cristina a Bairro Serrinha (Dom Viçoso): 18km
• Bairro Serrinha (Dom Viçoso) a Carmo de Minas: 16km
• Carmo de Minas a Soledade de Minas: 16km
• Soledade de Minas a Caxambu: 19km
• Caxambu a Baependi: 8km – Chegada
          Informações sobre hospedagem, alimentação, translado, vestimentas adequadas, etc., devem ser obtidas com José Valmei, através do e-mail: caminhodenhachica@gmail.com ou pelo telefone (35) 99996-6370.
A trajetória de beatificação de Nhá Chica
          Aclamada e reivindicada pelo povo mineiro como santa, a campanha para santificação de Nhá Chica teve início em 1952, mas somente em 1989, é que foi formada uma comissão para análise do estudo sobre a santificação de Nhá Chica. A comissão foi instalada em janeiro de 1992. Em 16 de julho de 1993, foi feito o Informativo Diocesano, parte inicial dos trâmites burocráticos, para tornar Nhá Chica Santa e encaminhado à Roma, em 1995.
          Em 18 de junho de 1998, foi feito o reconhecimento dos restos mortais de Nhá Chica, presenciado por autoridades eclesiásticas e membros do Tribunal e pela Comissão de História e também por médicos legistas.
          Na época da exumação dos restos mortais de Nhá Chica, percebeu-se um suave cheiro de rosas, da mesma forma como narrados pelos fiéis, durante o velório de Nhá Chica, em 1885.
          Continuando o processo, foi presentando vasta documentação ao Vaticano, comprovando a vida santa de Nhá Chica, bem como provas de um milagre ocorrido em 1995.
          Nesse ano, a devota de Nhá Chica, Ana Lúcia Meirelles Leite, professora e residente em Caxambu, foi acometida por um grave problema congênito no coração. Através de sua fé e orações, pedindo a intercessão de Nhá Chica, a devota foi curada, sem a necessidade de cirurgia. Uma cura sem explicação, pela ciência. Considerado um milagre, pelos médicos, a cura da devota, foi aceita pelo Vaticano.
          Em 2001, toda a documentação colhida foi encaminhada ao Vaticano, para apreciação da Congregação para as Causas dos Santos.
          Em abril de 2004, durante a 42ª Assembleia Geral da CNBB, os bispos brasileiros, assinaram um documento com 204 assinaturas de Bispos de 25 estados brasileiros e encaminharam esse documento ao Papa João Paulo II.
          Em junho de 2010 a Congregação para as Causas dos Santos deu parecer favorável às virtudes de Nhá Chica, reconhecendo-a como Serva de Deus, com o parecer sendo aprovado pelo Papa João Paulo II, em 2011. Nesse ano, foi concedida à Nhá Chica, o título de Venerável,
          Para ser declarada, beata, faltava o reconhecimento do milagre pela Comissão Médica da Congregação para as Causas dos Santos. A graça concedida pela professora Ana Lúcia, de Caxambu MG, foi reconhecida pela Comissão, em 13 de outubro de 2011, como fato inexplicável pela ciência, portanto, um milagre. A decisão da Comissão foi referendada pelo Papa Bento XVI, em 28 de junho de 2012.
          Por fim, em 4 de maio de 2013, Nhá Chica foi beatificada em Baependi, na presença de mais de 15 mil fiéis. A cerimônia foi presidida pelo cardeal Ângelo Amato, então presidente da Congregação para a Causa dos Santos da Santa Sé.
          O representante do Vaticano, na ocasião, anunciou ainda a data de 14 de junho, dia de aniversário de morte de Nhá Chica, como data da festa litúrgica, em memória de Nhá Chica. Esse dia passou a ser então, o Dia de Nhá Chica.
          Surgia assim, oficialmente, a Beata Nhá Chica, mineira, leiga e primeira mulher negra brasileira, a ser beatificada pela Igreja Católica. O passo seguinte e final, mas bem longo, é sua santificação.

2 comentários:

  1. Excelente trabalho de divulgação. .

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  2. Belo relato, eu fiz o caminho e é belíssimo!!! Só uma correção: o nome correto é Eraldo Sarapu e não Sapuru como está no texto.

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