quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Radinho de pilha


Minha casa não tinha televisão até 1975. Depois meu pai comprou um aparelho de TV da marca mais popular, Colorado RQ, brasileiríssima. RQ significa Requinte e Qualidade. Era o máximo aquela caixa de madeira que mostrava imagens. Adorava assistir aos desenhos animados, o Mundo Animal, Batman, Ultraman, Tarzan, a Feiticeira, Rim-tim-tim, o Sítio do Pica-pau Amarelo, dentre outros.

Quando a imagem ficava ruim, diziam que para melhorar tinha que colocar Bombril na antena interna. E a nossa, claro, tinha também. E quando o Bombril não resolvia, o jeito era ir lá fora e ficar mexendo na antena externa, até melhorar. Quase não trocávamos de canal, dava um trabalho levantar e ficar rodando o botão.

Eu gostava era de ficar olhando a TV por dentro. Era cheia de válvulas. Se uma queimava, tinha que trocar porque a TV não funcionava mesmo.

Um dia passou um vendedor na rua oferecendo uma tela colorida. Parecia um arco-íris a imagem, mas todos tinham em casa e era moda, daí meu pai comprou.

Mas o bom mesmo, e o que quero falar não é sobre TV, mas sim o rádio. Meu pai comprou um rádio, grande. Parecia uma caixa de vespa quando ligado. Madeira bem trabalhada. Era uma relíquia nas casas. Ficava sempre no melhor lugar da sala. Em dia de jogo do Atlético, lá estava meu pai com o ouvido grudado no rádio. Cada gol um grito. E assim fui crescendo e virando atleticano, só de ouvir meu pai gritar gol do galo. Aprendi a ser atleticano em 1971, quando o Galo foi Campeão Brasileiro. Nos dias de jogos, ficava lá, ouvindo a narração do jogo e tentando imaginar as jogadas.

Meu pai levantava cedo e antes dele ir para o trabalho, ligava o rádio e deixava ligado, sempre em programas sertanejos. Zé Bétio era um deles. O povo vinha da roça para a cidade, mas nunca perdia suas raízes. Cresci ouvindo música sertaneja, praticamente o dia inteiro. Tonico e Tinoco, Praião e Prainha, Zilo e Zalo, Irmãs Freitas, Irmãs Galvão, Inezita Barroso, Trio Parada Dura, Vieira e Vieirinha, Lourenço e Lourival, Tião Carreiro e Pardinho, Teixeirinha e Mary Terezinha, Rolando Boldrim, Pedro Bento e Zé da Estrada, Palmeira e Biá, As Mineirinhas, Duo Ciriema, Cascatinha e Inhana, Irmãs Barbosa e tantos outros artistas sertanejos. Gostava e gosto até hoje dessa música sertaneja, acrescentando Sérgio Reis, Almir Sater, Paula Fernandes, Tarcísio Manuvéi, Pena Branca e Xavantinho.

O marcante mesmo é lembrar de meu pai, com o ouvido encostado no rádio, ouvindo essas músicas, cantando, sonhando e relembrando seus tempos de quando vivia na roça.


Por Arnaldo Silva
Extraído do livro Doces Momentos, lançado ano passado. Quem se interessar pelo livro, entre em contato com o escritor pelo e-mail: arnaldosilva@bdonline.com.br
A imagem acima é ilustrativa e não faz parte do livro. Pintura do artista plástico Carlos Madeira

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