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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Conheça Muriaé - polo regional da Zona da Mata

(Por Arnaldo Silva) Uma das maiores e mais desenvolvidas cidades do interior mineiro, Muriaé está localizada na Zona da Mata Mineira, a 370 km de distância de Belo Horizonte. Com cerca de 108 mil habitantes, o município conta com uma área de 840 km², sendo 18 km² de área urbana. Além da sede Muriaé é composta pelos distritos: Belisário, Boa Família, Bom Jesus da Cachoeira, Itamuri, Macuco, Pirapanema e Vermelho, e também diversas comunidades rurais.
Fotografia: Silvério Júnior
        Por sua enorme extensão territorial, faz divisa com várias cidades: Barão do Monte Alto, Ervália, Eugenópolis, Laranjal, Miradouro, Miraí, Palma, Patrocínio do Muriaé, Rosário da Limeira, Santana de Cataguases, São Sebastião da Vargem Alegre e Vieira.
Origem
Fotografia: Brunno Estevão
        Muriaé é o nome que deriva do rio Muriaé, que na linguagem indígena significa “rio dos mosquitos” ou “mosquito diferente”, surgiu de um povoado com o nome de São Paulo do Manuel Burgo, fundado em 1817 pelo comerciante paulista Constantino José Pinto que se estabeleceu na região. O povoado cresceu impulsionado pelo comércio e café, sendo elevado à vila em 1855 e à cidade emancipada em 25/11/1865. 
        Em 1923, a cidade já se destacava na região como centro de comércio e polo têxtil, com seu desenvolvimento impulsionando pela Ferrovia Leopoldina e pela BR-116 (Rio-Bahia). Foi nesse ano que o nome Muriaé, passou a ser oficialmente nome do município também, em homenagem ao rio que corta a cidade.
Estrutura urbana e rural
Fotografia: Silvério Júnior
        Cidade dotada de boa estrutura urbana, comércio varejista e indústrias de diversos segmentos, como exemplos metalúrgica e a indústria têxtil, que faz com que a cidade faça parte de clusters regionais importantes, como o de Vestuário, que envolve diversos municípios vizinhos e fortalece a economia em cadeia.
O setor de serviços e o comércio, principalmente o de vestuário e o setor têxtil local, o 4° maior polo têxtil de Minas, atraem cerca de 80 mil visitantes por mês à cidade. A cidade tem estrutura para atender a demanda regional.
        O Agronegócio é outro segmento de grande importância para a economia da cidade destaque para a produção de café, leite e pecuária de corte.
        Os setores de comércio, agro é formado por centenas de empresas de pequeno, médio e grande porte, que geram dezenas de milhares de empregos e renda para o município.
        Com sua robusta rede bancária, com comércio e indústria locais, fortes, Muriaé é um polo regional da Zona da Mata, com destaque ainda nas áreas de educação, saúde e infraestrutura urbana. Muriaé dispõe de diversas instituições de ensino superior, amplo serviço de saúde, ônibus urbanos e interurbanos, além de um aeroporto que atende a aeronaves de pequeno porte.
Localização privilegiada
Fotografia: Silvério Júnior
        Sua localização privilegiada, estrutura e pelo fato da cidade situar-se no entroncamento entre a rodovia BR-116, que faz conexão entre os estados do Rio e Janeiro e da Bahia, e a BR-356, que conecta o Estado do Rio de Janeiro aos municípios mineiros, duas das rodovias mais movimentadas do país, favorecem o seu desenvolvimento econômico, além do turismo de negócios.
Atrativos urbanos
        Muriaé é uma cidade moderna e desenvolvida e ao mesmo tempo preserva a famosa hospitalidade mineira. Seu povo é muito acolhedor.
        A cidade em si é também acolhedora, que valoriza suas tradições culturais, arquitetônicas, gastronômicas, folclóricas, religiosas seculares como a Matriz São Paulo (na foto acima do Brunno Estevão), o Memorial da Fundação Cristiano Varella, o Memorial Municipal, Museu e Arquivo Histórico - Antigo Paço Municipal, instalado no antigo passo municipal com o objetivo de preservar a história e origens da cidade.
Fotografia: Silvério Júnior
        A imponente estátua do Cristo Redentor, no alto de um mirante abraçando a cidade, é outro atrativo de Muriaé, bem como a Praça João Pinheiro e seu famoso relógio, o teatro Gregório de Mattos Guerra, o Horto Florestal, a Lagoa da Gávea, o Estádio de Futebol Soares de Azevedo e a Biblioteca Municipal.
        Destaque ainda para o prédio do antigo Grande Hotel Muriahe (na foto acima do Silvério Júnior), o Teatro Belmira, a Feira de Artesanato, o Borboletário Santa Marcelina, o antigo prédio do Fórum, a Vila Eudósia Canedo, além de praças, parques e igrejas diversas, além de diversos lugares de lazer e diversão para crianças, jovens e adultos.
Atrativos naturais
        Por possuir uma área territorial abrangente, Muriaé conta várias belezas naturais que favorecem o turismo rural como fazendas centenárias, áreas de preservação, parques naturais, com trilhas como a Trilha das Bromélias, matas nativas, rios e cachoeiras com destaque para cachoeira do Naor, do Bosque, da Fumaça e do Pontão da Água Limpa, a Serra do Brigadeiro, o Mirante da Rampa de Voo Livre, a Pedra do Macuco, o Pico do Itajuru e a Pedra da Santa Maria (na foto acima do Brunno Estevão).
A maior viola do mundo
Fotografia: Silvério Júnior
        É no distrito de Boa Família, com cerca de 2500 habitantes, que está a maior viola do mundo. Construída em aço-carbono, a escultura mede 6 metros de altura e 2,10 m de largura, 0,60 cm de espessura e pesa 500 kg. É um dos pontos turísticos muito visitado na região.
Ótima rede gastronômica e hoteleira
Fotografias: Brunno Estevão
        Muriaé é uma das poucas cidades mineiras que alia modernidade e tradição, além da tranquilidade característica do interior mineiro. Além disso, a cidade oferece aos moradores e visitantes, uma rede gastronômica diversificada e excelentes opções de hospedagens e estadias. (Em breves dicas de hospedagens e restaurantes)
        Vale a pena conhecer Muriaé!

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Não chorem por mim, montanhas do Líbano

(Por Francisca Fonseca*) O Líbano é um pequeno país de apenas 10.400km² na costa mediterrânea da Ásia. No litoral, numerosos portos se abrindo para o mundo numa intensa atividade comercial herdada pelos fenícios, antigos habitantes da região. No interior, nas montanhas, as oliveiras, as vinhas, as estradas ladeadas de macieiras, o pastoreio das cabras e as águas cristalinas. 

Á esquerda o Gharife, nome da cidade de origem dos libaneses e à direita, a Casa Síria. Restauração: Rogério Salgado
        Da região litorânea próxima de Beirute vieram para Bom Despacho, os Seman, que eram maronitas (católicos): Antônio Turco, Chico Turco, Pedro Turco e Joana Turca, com o marido Filipe. E muitos anos depois veio Maria, filha de Joana, que fora deixada ainda bebê com parentes no Líbano.
        De Gharife, no Estado de Chuf, nas montanhas, vieram os Hamdan: Hassen (Alcino), Salim, Seleimen, Nacib, Fued, Farhan, Nawaf e Nabiha. Eram drusos (um ramo da religião muçulmana). À época, segundo cálculo do sr. Salim, a família Hamdan tinha cerca de 150 membros no Brasil, contando os descendentes. Pedro Hamdan, o libanês que viveu anos no Leandro Ferreira, não era da família, adotou o nome em homenagem aos amigos Hamdan.
Bom Despacho MG no primeiro quarto do século XX. Restauração e colorização: Rogério Salgado
        O primeiro libanês a chegar aqui foi Antônio Turco, no último quarto do século passado. Trabalhou inicialmente como mascate e depois se estabeleceu como comerciante em um casarão onde hoje é o Branco do Brasil. Muito alegre e comunicativo, passava o dia sentado com as pernas cruzadas sobre o balcão, conversando. Sua casa, no Jardim Sem Flor, onde morava o Raimundo Cardoso, era um verdadeiro consulado do Líbano, recebendo e ajudando a todo patrício que por aqui aparecia. Pode-se dizer que a presença de Antônio Turco acabou atraindo muitos libaneses para cá. Ele vivia com uma tal de Adelaide e criou vários sobrinhos dela, entre eles, D. Cornélia Borba.
        Depois de Antônio Turco, seus irmãos foram vindos um a um. Chico Turco, que adotou o sobrenome Simão, veio trabalhando como marujo num navio em troca da passagem. Seis meses de viagem. Aqui trabalhou como mascate e comerciante fixo. Se casa com a brasileira Maria Jesuína e teve muitos filhos, entre eles o Juca Turno. O Zico Turco não era libanês, mas brasileiro, casado com dona Mariazinha, filho do Chico Turco e trabalhava no comércio com Juca Turco.
À esquerda o casarão da Familia Hamdan. Restauração e colorização: Rogério Salgado
        Já o primeiro membro da família Hamdan a chegar aqui foi Hassen Abe Hamdan que adotou o nome de Alcino, em 1904, com 20 anos. Se estabeleceu como mascate. Em 1914 se casa com Dona Inhazinha, neta de Dona Chiquinha Soares. Depois abre a casa Síria na esquina da Rua Dr. Miguel Gontijo com rua 1° de Junho, de sociedade com o irmão Salim, onde vendiam de tudo: tecidos, sapatos, aviamentos, instrumentos musicais, ferragens, carne, cereais, toucinho dos porcos que engordava no fundo do quintal. Tinham ainda na loja uma bomba de gasolina e fabricavam colchões.
        Alcino viveu aqui até sua morte, aos 76 anos, deixando 10 filhos: Taufik (morreu em 1983), Alcino, Leda, Léia, Raimundo (Buru), Fauze, Déia, Faissal (Patinho) e Leila.
        Salim Abe Hamdan veio em 1913. Veio buscar o irmão Alcino. Ficou também. Se associa ao irmão na Casa Síria e aqui viveu até 1929 quando se transferiu para Belo Horizonte, à procura de um campo maior para expandir seu comércio. Logo que chegou, construiu um sobrado onde é hoje o prédio ao lado do Banco do Brasil, onde era a Ricardo Eletro e o emprestou para funcionar como Escola Normal onde se matriculou como aluno. Rapidamente aprendeu português.
        Quatro anos após sua chegada, tirou o 2° lugar num concurso de teatro. Fundou com os irmãos o Bom Despacho Futebol Clube, onde por muito tempo jogou no primeiro time. Foi um dos sócios fundadores do Clube Bom Despacho. Em 1931 ,já em Belo Horizonte, se casa com Maria Seman, filha de Joana Turca.
A Casa Síria em 1939. Restauração e colorização: Rogério Salgado
        Quando tinha 87 anos, ainda vivendo com a esposa em Belo Horizonte, Salim afirmava que os anos aqui passados foram os melhores de sua vida. Eram festas, bailes, futebol, teatro, namoradas, aulas de bandolim, o curso na Escola Normal e sobretudo muitos amigos, entre eles o Nicolau Leite.
        Em 1925 chegou Seleimen Abe Hamdan, vindo se ajuntar aos irmãos Salim e Alcino, deixando no Líbano a esposa Nabiha de 17 anos com 2 filhos, Nawaf de 1 ano e 3 meses e Neif de 40 dias. Aqui Seleimen trabalhou como mascate e mais tarde abre o Bar Cruzeiro, na Faustino Teixeira, onde é hoje a Livraria Central. E aqui viveu até 1958, quando morreu.
        Alguns anos depois da chegada de Seleimen, vão chegando seus sobrinhos: Nacib, Fued e Farhan. Ficam pouco tempo por aqui. Farhan se casa com Gessi, irmã do José Pessoa Marra e vai para Nanuque. Fued foi para Nanuque e depois voltou para o Líbano e Nacib logo foi para Belo Horizonte.
        Em 1953 chegaram Nawaf Seleimen Bou Hamdan e a mãe Nabiha Youssef Bou Hamdan, natural da Síria.
        Nawaf nasceu em 1923 em Gharife, no estado de Chuf nas montanhas, a 60 km de Beirute. Com 1 ano e 3 meses foi deixado pelo pai Seleimen, com o irmão Neif, de 40 dias com a mãe Nabiha. Nabiha trabalhava seis meses por ano nas colheitas de azeitonas, nas imensas plantações de oliveira que cobriam as montanhas de Chuf para tirar o sustento de um ano.
        Nawaf foi criado na pobreza, numa casa de um único cômodo, praticamente sem móveis. No chão tapetes com almofadas. À noite os colchões cheio de lã de carneiro estendidos um ao lado do outro.
 Aos 12 anos, a fome rondando sua porta, teve de abandonar a escola e começar a dura tarefa de procurar um emprego para ajudar a mãe no sustento da família. Nos documentos a palavra druso que o discriminava num país onde a legislação deixada pela ocupação francesa privilegiava os maronitas. Não consegue emprego. O recurso foi ir com um primo para a Síria, onde trabalhou como tratorista até os 30 anos, quando vem para o Brasil. Passa seis meses na Síria e seis com a mãe em Gharife. No Líbano não se trabalha no campo por causa da chuva e do inverno.
Cidade no Libano entre montanhas e sob um inverno rigoroso. Foto: André Saliya
        O menino Nawaf quando ouvia a palavra pai estremecia. Apesar da dura vida que levava, ele sonhava. Sonhava um dia dizer pai e ter resposta. Do alto das montanhas de Gharife ele avistava o mar Mediterrâneo em Beirute e sonhava atravessar aquele mar e depois atravessar o Oceano Atlântico para se encontrar com o pai no Brasil.
        O menino Nawaf cresceu e o sonho cresceu junto. Em 1953, já com 30 anos e noivo, não aguenta mais a saudade do pai. Escreve-lhe uma carta abrindo seu coração. Recebeu resposta inusitada do pai. E
 logo a seguir três passagens para o Brasil. O irmão Neif já casado não quis vir. Nawaf veio com a mãe. No aeroporto do Rio de Janeiro a emoção do reencontro com o pai que também emocionado se atrapalha e lhe dirige a palavra em português.
        Aqui em Bom Despacho Nawaf trabalhou 5 anos com o pai no Bar Cruzeiro. Os primeiros meses foram muito difíceis, apesar da alegria de estar junto com o pai. Não estranhou o clima e nem teve problemas com a alimentação, mas teve uma dificuldade imensa com a língua. Se angustiava por não entender nada que as pessoas diziam e nem por não saber falar com estas pessoas. E sofria muito com a saudade do único irmão deixado no Líbano. Três meses após sua chegada, resolve voltar para o Líbano.
        Quando os papéis ficam prontos sete meses depois, não consegue mais voltar. Arranjara uma namorada, a professora Dona Zeni que pacientemente lhe ensinava a falar e a escrever o português. Fica. Ele e Zeni se casam. No filho mais velho a tradição libanesa do nome do pai: Seleimen Nawaf Hamdan. Nos outros filhos os nomes libaneses: Samir Hamdan, Semi Hamdan, Samira Hamdan.
À esquerda, no sobrado branco funcionava a antiga Escola Normal. Restauração: Rogério Salgado
        Com a morte do pai em 1958, fechou o bar e continuou só com a loja que abrira onde fora a Farmácia do Favuca, mais tarde transferida para o sobrado da Escola Normal que alugou do tio Salim. A Escola Normal ficava ao lado do prédio onde existia a Ricardo Eletro.
        A mãe viveu em sua companhia até a morte em 1975, aos 67 anos, sem nunca ter aprendido a falar o português. Mas adorava o Brasil. Nunca quis voltar para o Líbano. Morreu sem ver o filho Neif.
        Viver no Líbano para Nawaf significava passar fome. Ele nunca se esqueceu da dura vida que levou lá. E aqui na sua mesa tinha sempre os pratos libaneses, como o iogurte, a lentilha, o feijão-branco com rabada, o grão-de-bico, o óleo de gergelim, galinha cheia de arroz, charuto de repolho e outros.
        Já idoso, Nawaf continuava com seu coração dividido entre o Brasil e o Líbano onde vivia o irmão Neif que há mais de
 30 anos não via. Acompanhava apreensivo a guerra civil que destruiu o Líbano, uma guerra que se propôs pôr fim aos privilégios políticos dos maronitas que sempre escolheram o presidente da República, segundo a legislação do país.
        Mesmo décadas após deixar o Líbano, Nawaf ainda sonha. Sonha voltar ao Líbano para rever o irmão. Voltar a passeio, por que o Brasil passou a ser sua pátria onde estava sua esposa, seus quatro filhos e as duas netas. Ao mesmo tempo ele sonhava e chorava pelas montanhas do Líbano. Ele dizia que maior do que a saudade é o medo. O medo de subir no alto das montanhas de Chuf e ver a desolação. Medo de não mais reencontrar o irmão. A última notícia que tinha recebido do irmão foi em janeiro de 1983, através de um parente que morava nos Estados Unidos e fora ao Líbano. E nada mais. Escrevia, escrevia e não obteve resposta.
*Francisca Fonseca é advogada, professora de história e moradora de Bom Despacho MG. Texto originalmente escrito em 1983

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