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sábado, 4 de junho de 2022

O resgate arqueológico do Solar Baeta Neves

(Por Arnaldo Silva) Patrimônio de Ouro Preto, na Região Central, o Solar Baeta Neves, foi a primeira construção em estilo neocolonial da cidade Patrimônio Cultural da Humanidade.
          Erguido no início do período republicano, o marco da arquitetura neocolonial de Ouro Preto foi soterrado e destruído por um deslizamento de terra do Morro da Forca, em 13 de janeiro de 2022.
          Patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), foi completamente restaurado pelo órgão federal em 2010, mas interditado em 2012 devido ao risco de deslizamento de terra nas imediações.
Da interdição à destruição
          A interdição era para preservar o casarão de um possível deslizamento de terra e preparar ações para evitar que tal fato ocorresse. 10 anos depois, o que era previsto e previsível ocorreu devido às fortes chuvas que desabaram em Minas Gerais no início de 2022. (na foto acima do Peterson Bruschi, o exato momento do deslizamento de terra do Morro da Forca)
         Sem encostas, proteção ou contensão de terra, o casarão não resistiu ao enorme volume de terra que desceu morro abaixo. Foi completamente soterrado e destruído. No Solar Baeta Neves não havia mobiliário, mas o imóvel estava completamente restaurado em toda sua estrutura, ornamentação e pintura, da forma que era antes.
          O casarão que resistiu 120 anos ao tempo, foi destruído em questão de segundos pela terra que desceu do Morro da Forca, em imagens que correram o mundo, deixando mineiros e brasileiros perplexos.
Baeta Neves
          A história começa em 1890, com aquisição de um terreno próximo à Estação Ferroviária, às margens do Córrego do Funil em Ouro Preto MG pela família Baeta Neves, uma das mais distintas, respeitadas e tradicionais famílias mineiras. (na fotografia acima de Jair Barreiro, o Solar Baeta Neves, dois andares, à direita, em branco com portas e janelas em azul)
          A construção começou em 1892 e foi concluída no início do século XIX. Foi residência de Alfredo Teixeira Baeta Neves (Ouro Preto 4/07/1872 – Ouro Preto 28/7/1942).
          Formado em engenharia, com graduação em minas, metalurgia e engenharia civil, Baeta Neves foi também catedrático de botânica e zoologia, vereador, presidente Câmara de Ouro Preto, Deputado Estadual, Senador e importante educador ouro-pretano. Foi o fundador da Escola Normal e do Ginásio Municipal de Ouro Preto em 1898, posteriormente denominado Colégio Baeta.
A construção da Estação Ferroviária
          A Estação Ferroviária e estação começaram a serem construídos por volta de 1870, com abertura de ruas, preparo do terreno para receber trilhos, ampliação de pontes etc. Foi inaugurada em 1989 por Dom Pedro II, antes da Proclamação da República. O ramal da linha férrea, bem como a estação ferroviária, trouxe mais desenvolvimento comercial e crescimento dessa parte da cidade, inabitada à época. (na foto acima de Arnaldo Silva, a Praça da Estação Ferroviária de Ouro Preto)
          Antes da ferrovia, da estação e do casario, esse lugar era uma lagoa, que lembrava um funil, por isso era chamara de Lagoa do Funil, bem como o córrego que desaguava na lagoa.
          Para construir a estrada de ferro e estação, a lagoa foi aterrada com terra retirada do Morro da Forca, que por coincidência, foi a terra desse mesmo morro que destruiu o casarão.
          Esse morro tem esse nome, Morro da Forca, porque era para esse local, pouco atrás do Museu da Inconfidência, que os sentenciados à morte pela Coroa Portuguesa eram executados. A pena de morte à época era o enforcamento público.
          Com a estação pronta, o lugar se valorizou e várias construções foram surgindo nas proximidades a partir final do século XIX.
          Como a origem da família Baeta Neves era de comerciantes e a estação trazia movimento à região, além de movimentar o comércio, ter um imóvel nesta localidade era mais que opção de moradia, era um investimento.
A importância do casarão para Ouro Preto
          Pela história, importância social da família que o construiu e sua arquitetura neocolonial, o Solar Baeta Neves se destaca entre as novas construções do século XIX no entorno da Praça da Estação, denominado hoje de Praça Cesário Alvim, formada por um coreto, a estação e o casario erguido no final do século XIX e início do século XX. 
          O sobrado tinha dois pavimentos com fachada em o estilo colonial e alguns detalhes interiores diferentes do tradicional nos casarões coloniais ouro-pretano. O estilo neocolonial do sobrado contrastava com a tendência para o estilo eclético das construções do final do século XIX e início do século XX, muito marcante nessa região de Ouro Preto.
O estilo neocolonial
          O neocolonial foi um estilo que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX com a tendência ganhado força no início do século XX, contrastando com o estilo eclético, que predominava na Europa.
          O ecletismo europeu foi inspiração para a nova arquitetura de várias cidades do mundo e do Brasil, como Belo Horizonte. Os engenheiros e arquitetos que projetaram Belo Horizonte no final do século XIX, se inspiraram no estilo eclético da arquitetura francesa.
          O neocolonial americano, tinha como objetivo resgatar a arquitetura e o estilo decorativo das construções do início do período colonial americano, principalmente nas fachadas das construções. Apenas era acrescentado alguns detalhes novos, graças ao desenvolvimento da indústria moveleira, de fundição e metalúrgica na época, que permitia o surgimento de novas técnicas para fazer pisos, sacadas, escadas, portas, janelas, ornamentos, etc.
O estilo do Solar Baeta Neves
          É o caso do Solar Baeta Neves que possui ornamentos, decoração e alvenaria de época, de grande relevância para a arquitetura e história de Ouro Preto MG.
          O teto era em madeira e todo feito à mão, ornamentado com um belíssimo forro quadrante em madeira de lei almofadado. (na foto acima e abaixo de Rodrigo Câmara, o teto e pisos do Solar Baeta Neves)
          No casarão podia se ver em detalhes esquadrias, forjas de ferragem nas portas e janelas. No casarão foi usado argamassa feita com gesso, água e cal, chamada de estuque, um tipo de revestimento decorativo de uso milenar. Sua função era de retardar a secagem, facilitando assim a modelagem.
          Nos cômodos existiam pisos revestidos com ladrilhos hidráulicos, em Pinho de Riga, considerada a mais nobre das madeiras do mundo e em setas, feitos com madeira de jacarandá, ornamentados em marchetaria, que é a arte de ornamentar superfícies planas, principalmente pisos em pedra e tetos em madeira, dentre outras superfícies planas. (fotografia acima de Rodrigo Câmara)
          No período colonial e pós republicano, as datas do início ou término de uma construção eram grafadas na porta principal dos casarões em pedras de cantaria. É um tipo pedra usada nas estruturas das construções e para fazer esculturas e placas numéricas. No Solar Baeta Neves, a cantaria da porta principal tem o ano de 1902, mas se sabe que sua conclusão foi entre 1904 e 1906.
          No interior do casarão, portas do andar térreo tinha detalhes em cantaria e sacada feita em ferro, ornamentada com cordões esculpidos em pedra, além de forjas de ferragem nas portas e janelas, balaústres em madeira, símbolos republicanos e outros elementos decorativos. (fotografia acima de Rodrigo Câmara)
A recuperação dos elementos do Solar Baeta Neves
          Isso tudo foi abaixo, mas não foi o fim total do Solar Baeta Neves. Está sendo feito um trabalho minucioso para encontrar todos os elementos artísticos, arquitetônicos e decorativos do casarão que estão sobre os escombros.(fotografia acima e abaixo de Peterson Bruschi)
          Como o imóvel faz parte do inventário de Ouro Preto, fotos de todos os detalhes do Solar do estão servindo para identificar cada elemento do casarão recolhidos dos escombros.
          É um trabalho lento, cuidadoso e feito por especialistas da área como historiadores, engenheiros, arquitetos, arqueólogos e restauradores. (fotografia acima e abaixo de Peterson Bruschi)
          É praticamente um garimpo nos escombros, mas os especialistas envolvidos creem que possam recuperar 90% dos elementos históricos do Solar Baeta Neves.
          É um quebra cabeça longo e demorado, para recuperar o máximo possível dos detalhes do Solar dos Baeta com o objetivo de preservar uma parte e um marco importante da história e arquitetura de Ouro Preto. (foto acima e abaixo de Peterson Bruschi)
          Todo material garimpado dos escombros está sendo recolhido, avaliado, higienizado, mapeado e identificado numericamente e guardados em local seguro.
          A conclusão de todos os trabalhos está inicialmente prevista para 3 meses. 
          Após tudo concluído, com identificação e restauração dos elementos do Solar Baeta Neves, será definido o que fazer com todo o material recuperado e com o terreno onde estava o casarão.
          O certo é que todo o material recolhido e recuperado, será exposto em público, mas ainda não há definição de quando, como será e nem onde será a exposição.

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