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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Detalhes tão pequenos de uma vida

(Por Maria Mineira) Conservo na pele, algumas cicatrizes dos tombos e arranhões que machucaram a menina de roça que fui e acho que ainda sou, na alma, pelo menos...
          Era tarefa minha, recolher gravetos para acender o fogão e esquentar no grande caldeirão, a água para o banho de bacia dos irmãos menores. Eu não gostava de catar lenha; costumava espinhar o pé, me arranhava toda, andando no mato.
          Várias vezes subi nas árvores para ficar mais perto de Deus e pedir uma vida melhor. Hoje, vejo que as marcas na pele são insignificantes quando me lembro daquele tempo...
          O fogão à lenha da cozinha de meus avós era de cimentado de cor vermelha. O que ficava na varandinha era barreado com tabatinga, tinha em cima um bule esmaltado com desenho de um ramo de flores. O fogo sempre aceso, aliás o ato de se acender fogo era uma arte.
          A vassourinha não deixava o fogão sujo de cinzas. Minha avó aproveitava a cinza para fazer barrela, que facilitava a limpeza das panelas e a diquada — um caldo marrom extraído das cinzas — era usada para fazer sabão preto de bola, que ficava guardado debaixo do fogão para não melar.
          As escritas das latas de mantimento despertavam minha curiosidade. Pedia a mamãe que lesse o que estava escrito e ela dizia que as bolachas tinham meu nome, “Bolachas Maria.”
As prateleiras eram forradas com toalhinhas bordadas à mão, ainda do enxoval. Os panôs na parede com dizeres escritos com linhas e agulha, o banco com as latas de querosene, guardavam a carne de porco, o bucho recheado, latas de biscoito de polvilho, de farinha de milho, de mandioca, de moinho... Tudo muito limpo e asseado!
          A banquinha com os dois potes de barro conservavam a água sempre fresquinha. Os potes eram cobertos com toalhinhas redondas de renda turca ou crochê. Sem esquecer a caneca boca-dentada, destinada a tirar a água estrategicamente feita para as crianças não colocá-la na boca e assim “babujar” a água.
          As toalhas de banho, os panos de prato, feitos com sacos de sal ou açúcar alvejados e arrematados com franjas torcidas. Os embornais, com retalhos das calças de brim ou tergal. Hoje seriam chamados hoje, de sacolas ecológicas em patchwork.
          A mesa da cozinha com garrafas de pimenta, farinheiro e moinho para moer o café torrado a cada vez que era coado, sempre adoçado com as rapaduras guardadas numa tábua acima do fogão.
          As gamelas, os balainhos, jacás, canudos para transportar galinha, o tacho de cobre comprado da tropa de ciganos, a cestinha de ovos, feita de litro, parecida com lanterna japonesa. As lamparinas que iluminavam as noites e nos faziam amanhecer com o nariz cheio de fuligem. As colheres de ferro encomendadas ao senhor Rodantino, um artesão, salvador da pátria, o faz tudo, conserta tudo. Obrigada, Seu Rodantino, onde estiver...
          E o alpendre? Se tinha uma caixa de marimbondo ninguém mexia, pois trazia prosperidade, era bom. Inesquecíveis os mistérios do “isso faz mal”. Era costume colar na porta de entrada, uma oração forte como, por exemplo, a da Estrela do Céu. Pregava-se também o calendário, a Folhinha Eclesiástica, que trazia a previsão do tempo, para o ano inteiro, os nomes dos santos dos 365 dias do ano. Foi a Folhinha Mariana que serviu de inspiração para meus pais me batizarem de Maria do Carmo, pois dia 16 de julho: Nossa Senhora do Carmo — a folhinha era brinde da loja do senhor Edgar Matos.
          Os almanaques de farmácia, meu avô colecionava o “Almanaque Fontoura”, brinde muito aguardado, pois trazia informações, curiosidades e passatempos. Infelizmente não foram preservados e hoje não tenho o prazer da leitura, de observar as ilustrações.
          Os compridos jiraus branquinhos de blocos de polvilho para isbrugá. Ou melhor dizer, esfarelar e secar ao sol. O feijão para bater, pegar a roupa do coradouro, levar o doce de manga para a cristaleira. Lavar a casinha de queijo, dar milho às galinhas, coisa que eu mais gostava, sempre havia um bando de galinhas, patos, angolas, perus me acompanhando quando me viam no terreiro, pois eu carregava uma espiga de milho. Outas tarefas eram: procurar o olho das formigas cortadeiras dos pés de rosa, regar o pé de jasmim, sem esquecer de jogar água nos penicos onde se plantava flor-de-maio e malva cheirosa. Após construírem a “casinha”, os penicos esmaltados serviram para plantar flores.
          Minha avó Geralda era adepta dos chás. Sabia fazer chá para curar de um a tudo. Havia uma horta de couve que era cortada por um rego d’água, para facilitar na hora de aguar as hortaliças, que cresciam viçosas. Eu e os irmãos ajudávamos no plantio do alho, plantado religiosamente na Sexta-Feira da Paixão, da alface e do quiabo. Quiabo só podia ser semeado por crianças, para o pé não ficar muito e produzir rápido.
          Aprendi a rezar o terço ainda menina e acompanhava vovô Joãozinho nas rezas em torno do oratório de madeira, decorado com os santos de devoção da família. Nas novenas, unidos, os vizinhos rezavam apertando as contas do rosário com fé, pedindo e agradecendo as bênçãos do céu.
          Era costume guardar as folhagens benzidas no Domingo de Ramos e quando se via o clarão seguido daquele ronco de trovão, ecoando no cinza escuro do céu, recorríamos aos ramos bentos, enquanto com as mãos postas pedíamos socorro aos santos das tempestades:
          – Santa Bárbara, São Jerônimo, valei-nos!
          À noite, nos reuníamos na cozinha para contar muitos causos, acompanhados de café com quitandas e muitas risadas. Naquele tempo não se usava a palavra serão ou hora extra, apenas se combinava para descascar mandioca à noite, depois da lida diária.    A vizinhança se ajuntava para ajudar e todo o trabalho era para se produzir a farinha ou polvilho no outro dia cedinho.
          Sei que hoje em dia é preciso de muito mais que brasas para aquecer o caldeirão onde moram os sonhos, é necessário mais que rapaduras para adoçar uma vida. Mas quem viveu algo parecido sabe que essas lembranças são preciosas. Nem o tempo vai conseguir esfriar o calor da chama do fogão à lenha da nossa memória.
*As fotos ilustram um pouco da minha história... Maria Mineira, professora e escritora em São Roque de Minas

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