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quarta-feira, 29 de abril de 2020

A menina da roça e a panelinha preta

(Por Maria Mineira) Demorou, mas finalmente a família se mudou para a cidade e o sonho de ir para a escola, se realizaria! Caderno e lápis no embornalzinho feito no tear da avó. Rosto emoldurado por duas tranças, chinelos havaianas, um pé de cada cor...Assim, aquela menina tímida adentrou o portão do Grupo Escolar pela primeira vez.
          Receosa, sob os olhares de dezenas de crianças, muitas iguais a ela, mas outras calçadas com sapatos de verniz preto e meias brancas. Ao perceber que era alvo de cochichos e risos, encolheu-se feito bichinho do mato. O sinal tocou avisando que a aula começaria...
          De volta à casa, pergunta à mãe:
— Mãe, gente que vem da roça é tudo bobo?
—"Não, minha fia, nóis é tudo igual, tanto faiz nascê na roça ou na cidade, é todo mundo fi de Deus..."
— É qui os minino da escola dissero que eu sou boba e feia e qui num tenho sapato. Ês falaro qui num qué rocêra lá, não.
          A mãe passou a mão nos olhos tentando socorrer a tempo, uma lágrima teimosa que começava rolar...
          Maria, desde que se mudara para a cidade levava almoço até onde o pai trabalhava. O cardápio era sempre o mesmo: arroz com feijão, carregados numa panelinha de ferro, pois na casa faltava uma marmita de alumínio.
          De pés no chão e vestido de chita, ia satisfeita pelas ruas poeirentas, que na época não eram calçadas. Seu sossego teve fim quando em uma rua deserta, quatro meninas maiores e muito bem vestidas se aproximaram:
— Olha só, se não é a bobinha da roça que entrou na escola!
— Ieu tô levano armoço pro meu pai... Ocêis qué, o quê?
— Queremos ver o que tem nessa panelinha preta de carvão!
— Uai, é cumê , igual todo mundo come.
— Aposto que só tem arroz com feijão, porque você é pobre e gente pobre de roça, come só isso.
— Num vô contá e nem mostrá procêis o qui tem aqui, não!
— Então, vamos tomar sua panelinha à força!
          Maria era ágil, acostumada a correr pelos campos, foi fácil se adiantar, escapulindo das meninas. A partir desse dia, sua vida virou um tormento. Inúmeras vezes chegou ao trabalho do pai, suada de tanto correr e ele reclamava do almoço frio e revirado na panela. Houve dias em que Maria tropeçou, deixando a panela cair entornando todo o conteúdo, o que lhe rendeu umas boas chineladas. Mas nunca teve coragem de contar a ninguém, pois ameaçavam bater também em seus irmãos menores, caso ela contasse.
          Acreditava em anjos da Guarda, desde que seu avô lhe dissera que toda criança tem um anjo que a protege dos perigos. Toda noite pedia ao seu anjo Benedito, (ela o batizara assim).
— Dito, ajuda eu a corrê munto! Ajuda eu a num trupicá! Ajuda eu a num dirrubá o armoço do pai! Dito, protege eu sempre. Amém!
          Um dia, a mãe de Maria foi ajudar numa festa em homenagem aos santos Cosme e Damião, onde seria oferecida uma mesa farta à crianças menores de sete anos. Evento muito comum naquele tempo, denominado “Mesa dos Inocentes”. Era um verdadeiro banquete que acabava virando festa para várias famílias.
          A menina brincava com as outras crianças, quando a mãe lhe entregou a velha panelinha preta para levar o almoço do pai. Esse dia, ela estava cansada, pois havia acordado cedinho para tomar conta dos irmãos menores.
          Na rua, antes que pudesse correr, foi cercada pelas famigeradas meninas. Nesse dia, não teve como fugir. Por mais que pedisse, não tiveram piedade e aos arrancos lhe tomaram a panela das mãos.
— Hoje vamos ver o arroz com feijão que a Jequinha leva pro pai dela!
— Anda logo! Vamos derramar tudo no chão de uma vez!
Impotente, Maria chorou... Prevendo a vergonha que ia passar dali em diante, depois que o assunto se espalhasse na escola. Todos saberiam que em casa comiam praticamente só arroz com feijão.
          Enquanto duas meninas seguravam-na pelos braços, outra abriu a panela e olhou... Rosto corado e sem graça, a menina da cidade saiu devagar sem dizer palavra. As outras após virem o conteúdo da panelinha, se foram mudas e sem olharem para trás...
          Maria levantou-se do chão, sem entender o que havia acontecido. Retirou a tampa e qual não foi sua surpresa quando viu lá dentro: arroz, feijão tropeiro, macarronada, batatas, salada e um grande pedaço de lombo assado.
          Limpou as lágrimas com as mãozinhas sujas de poeira da rua, na inocência seus nove anos de idade, olhou para o céu e disse:
— Dito, brigada, purque hoje ocê, colocou cumê bão na panela do pai.
          O tempo passou... aquela menina cresceu e nunca perguntou à mãe se foi ela quem abasteceu a panelinha com as comidas da festa de Cosme e Damião. Desconfio que acredita em anjos, até hoje...
(História real vivida por Maria Mineira, professora e escritora em São Roque de Minas)

Um comentário:

  1. Nossa! Lindo Maria, como minrira que sou, lógico que entendi nao só as pslavras, o significado mas vomo sua essência. Lindo. Parabéns

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