quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A noiva e os cajuzinhos do campo

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Vestida de noiva, como era costume, Izoldina jazia inerte no caixão. Morrera de repente, num mês de outubro, há muitos anos... Morava com a família na região denominada Guiné, perto da Serra da Canastra, nas Minas Gerais.

Nos curtos intervalos entre uma reza e outra, ouviam-se frases soltas, ditas por umas e outras pessoas: “Si foi qui nem um passarim... Tá tão bunita... É como se tivesse ino pa igreja casá... Tão moça... Tão pura... Tão boa...”.

O esquife que levaria a donzela foi feito ali mesmo, na fazenda, pelos carapinas especialmente treinados nesse ofício. Muito choro na despedida e lá se foi uma pequena multidão encarregada de deixar a moça na sua última morada, longe dali umas três léguas.

Devido ao sol quente e à distância, as pessoas foram se dispersando pelo caminho, cada um com sua própria desculpa:
— Oia, minha gente – disse o Chico Felício – oceis num arrepara não, mais ieu vô pruveitá qui ta pirtim de casa e vô mimbora, tenho de apartá as vaca dus bizerro, lá nu pasto...
— Ieu tamém vô ino – falou dona Leontina – mi alembrei que inda hoje tenho qui relá dois jacá de mandioca pa mode fazê farinha de biju...
— Nóis vai tamém, mode qui deixemo os minino suzim e ês inda num dá conta de fazê os quêjo. Si passá da hora de pô o cuaio, ceis sabe, o leite azeda e disanda. Emendaram o Gaspar e a Cidinha, enquanto também se desobrigavam da caminhada com a defunta.

De maneira que, do cortejo todo, sobraram apenas os quatro moços – Belchior, Geraldo, Bertulino e Dionísio – que carregavam o caixão.
— Tadinha da moça, falou o Bertolino. Num miricia morrê sortêra. Diz qui ela era doidinha pa mode casá!
— Ela num miricia é o pocauso dessa gente, oia proceis vê! Só fiquemo nóis quato pa carregá a difuntinha...
— Ô gente! Eu tô matutano uma coisa aqui, falou o Geraldo. Meu vô dizia qui difunto pesado é condo morre chei de pecado. A Zordina era magrinha im vida, agora tá pesano pa lá de cinco arroba! Num era pr’ela pesá tanto, sô! A Zordina era moça virge, uai! Num divia de tê é pecado ninhum!
— Sei lá se donzelice é mema coisa qui santice! ­— Disse o Dionísio, limpando o suor da testa.
— Uai, e num é não?! —Indagou Bertolino.
— Né nada! A gente peca cós pensamento. É uns pecado mais abrandado, mais é pecado do memo jeito.
— Ieu num concordo coceis não, interveio o Belchior. Pensamento e sonho da gente num pode sê pecado, pruquê nóis num sigura êz não. É qui nem boi brabo, sai rebentano cerca!
— Virge santa! Entonce a minha sonhação é pió qui uma boiada disimbestada! Caçoou o Bertolino.

E, nessa filosofia de caipiras, os quatro amigos iam conduzindo o ataúde da Izoldina pela estradinha, debaixo de um sol de lascar. O alívio era sentido quando a sombra de uma capoeirinha refrescava um pedaço do caminho.

Não demorou muito e o estômago reclamou, quando o cheiro de cajuzinho-do-cerrado avisou que era hora de comer. Porém, eles sabiam que ainda faltava muito chão para chegar à cidade. Belchior, com as pernas bambas, deu de reclamar:
— Num sei ocêis, mais ieu num tô mais dano conta de carregá esse peso na cacunda, dibaxo desse solão quente! Ieu tô morreno de fome, nóis nem lembrô de trazê uma matula!
— Num dianta recramá Brechó. Nóis tem qui levá a moça pa sipurtá, uai. Num pode é dexá ela no mei do caminho!

Depois de andarem mais um bom tempo, o céu escureceu, anunciando uma tempestade com raios e trovões. Desnorteados, os rapazes ficaram sem saber o que fazer com aquele peso nos ombros.
— Vô largá ocêis e vombora! Avisou o Bertulino que se pelava de medo de chuva.
— Num faiz isso!
— Carma gente! —Atalhou o Geraldo.
—Ocêis viu aquele valo qui separa os pasto, ali atrais? O jeito é nóis sipurtá a Zordina lá memo! É só nóis cavacá cos facão e dispois cubri cum cascaio do barranco.

Os outros três relutaram cismados, porém a chuva pendurada não deu alternativa e, de comum acordo, os quatro fizeram um pacto de silêncio. Sepultaram a moça ali mesmo. E o assunto, esse enterraram na mesma cova.

Izoldina, então, jazia perto da porteira do brejinho quando a chuva caiu molhando o chão encascalhado do Guiné. Nem colocaram cruz, pois, segundo o Geraldo era para não deixar rastros.

Daí em diante, a vida voltou à mesmice de sempre para os moradores do lugarejo, inclusive para os quatro rapazes.

Dizem os antigos que quando chove depois de um enterro é sinal que o defunto ganhou salvação eterna. Porém, a partir daquele dia, muita gente jurava de pé junto, ter visto uma noiva a caminhar pelo cerrado ao entardecer, colhendo cajuzinhos, todo mês de outubro.

Certa feita, Geraldo – o único dos quatro que ainda vivia – foi parar outra vez naquele lugar, perto da porteira do brejinho. Já de barba branca, caminhando com alguma dificuldade, ele viu a lua cheia surgir por detrás das árvores. Olhou ao redor e se lembrou do segredo ali enterrado, há mais de cinquenta anos. Tentou afastar as lembranças da ideia, mas não teve jeito!

Um cheiro de caju-do-campo entrou-lhe pelas narinas, deixando-o meio cabreiro, pois ali não se via um só pé da tal planta. É que há tempos o capim braquiária substituíra o nativo do cerrado, extinguindo para sempre algumas frutas delicadas e saborosas como o cajuzinho, o pequi, o araçá, a gabiroba, o murici e tantas outras...

Naquele instante, Geraldo apressou o passo, se maldizendo por ter vindo parar ali naquela hora. Viu que não havia outro jeito senão procurar firmar os pés na estrada. E assim fez. No entanto, ao parar para abrir a porteira, sentiu um leve roçar na coxa direita... Arrepiou-se até a raiz da barba! Balbuciando uma oração desconexa, tentou se afastar rápido, mas continuou sentindo aquele toque.

Podia jurar que era uma mão de mulher que saía da sua cintura e escorregava sobre sua perna, quase até o joelho, pressionando a coxa, provocando calafrios, deixando-o apavorado! Reuniu um restinho de coragem e tentou argumentar:
— Zordina... Se fô ocê qui tivé aí mi fazeno cosquinha... Mi perdoa pelamor de tudo quanté santo... Ieu num tive curpa... Ieu bem qui quiria ti levá pru cimitéro... Inté quiria ponhá uma cruiz aqui, foi a chuva qui num dexô... Quero qui ocê discansa im paiz, viu?!

Não ouvia passos, mas podia jurar que era seguido! Sentia na nuca um hálito frio com cheiro de caju... E a mão... Ah! Aquela mão fria deslizava insistente e audaciosa à medida que ele andava. Só a lua testemunhava seu desespero! Geraldo, então, começou a correr como um louco, tentando se livrar das mãos que lhe davam palmadas no traseiro, nas coxas... Enlaçado por braços, sentia o toque de dezenas de mãos geladas, e o odor insuportável de caju. Continuou correndo sem rumo, dentro da noite escura...

Amanhecia, quando foi encontrado na estrada pelos netos, em estado de choque. Tentou narrar-lhes o acontecido, as horas de tormento que passara. Falou das mãos que o atacaram.
— Ô, vô Gerardo, ispia bem, falou um dos espertos netos. Será que essas mão qui roçô nas perna do sinhor num é a bainha do facão qui tá na cintura du sinhor? Ieu acho qui é! Quando o sinhor apressava o passo, é capaiz qui ela batia cum mais força nas sua perna e isbarrava pa tudo quanté lado, vô!

Ainda com as pernas bambas, tentando se recuperar do susto, Geraldo montou no cavalo trazido pelos meninos. Fez o sinal da cruz e, naquele mesmo dia, tratou de fincar uma cruz bem lá, no barranco onde haviam sepultado a Izoldina.

Daí por diante, nunca mais se teve notícia da noiva que colhia cajuzinhos todo mês de outubro à hora do ângelus. Porém, ainda hoje, há quem passe pela porteira do brejinho e sinta o misterioso aroma dos cajuzinhos que por ali havia...
Texto de Maria Mineira, professora e escritora mineira, de São Roque de Minas, com foto ilustrativa de Sila Moura

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