quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Jequitinhonha e as bonecas do Vale

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Há tempo atrás, quando se falava em Vale do Jequitinhonha, se falava somente em pobreza e seca. A região continua ainda com índices altos de pobreza, falta de saneamento básico e principalmente, falta de empregos, mas a realidade vem mudando ao longo do início desse século. Quem conhece o Vale sabe disso, quem não conhece, fica na antiga visão do século passado. É essa nova realidade do Vale que vamos mostrar nessa matéria. (na foto acima, da Márcia Porto, bonecas do Vale em loja da rodoviária de Araçuaí MG)
     O Vale é o Brasil dentro do Brasil, com seus contrastes e realidades diferentes. Mas o que fez o Vale do Jequitinhonha mudar? Foi o artesanato em barro, principalmente as bonecas, hoje considerado um dos maiores expoentes do artesanato brasileiro. Boa parte desse artesanato é feitos em Turmalina, Minas Novas, Araçuaí, Itinga, Itaobim, Caraí e Ponto dos Volantes, os municípios de maior concentração de artesãs e artesãos.       
     Desde dezembro de 2018, o artesanato do Vale do Jequitinhonha é oficialmente Patrimônio Imaterial de Minas Gerais, reconhecido pelo Iepha.   
     Nas dificuldades da vida, a gente se transforma e se recria. Até meados do século passado, a dura vida no sertão do Jequitinhonha e a falta de empregos obrigavam os pais de famílias a deixarem suas casas em busca de trabalhos temporários, como na colheita de café no Sul de Minas ou no corte de cana no interior de São Paulo. Alguns voltavam para buscar suas famílias, mas a maioria voltava quando acabava a colheita.  
     Quando os homens iam para outra região trabalhar, as mulheres ficavam em casa, cuidando dos filhos e sentiam a necessidade de fazerem algo para ajudarem os maridos e darem uma vida melhor a seus filhos. A solução encontrada já existia, o artesanato feito com a terra seca do Vale.
     A arte em barro do Jequitinhonha é bem antiga, existe desde o início do povoamento da região. O conhecimento da arte em transformar barro em peças artísticas foi passado de geração em geração.(na foto ao lado, do Thelmo Lins, a tradicional arte de boneca de barro da Dona Isabel, de Santana do Araçuai) Faziam peças utilitárias como potes, vasilhas, panelas e trocavam por alimentos nas feiras da região. A partir da década de 1970, passaram a fazer outras obras com o barro, como, animais, pessoas e principalmente, bonecas. Com o passar do tempo perceberam que esse trabalho era bastante reconhecido pela beleza e qualidade. 
   Com isso buscaram aprimorar a técnica, para que sua arte se expandisse para outras regiões. Sonharam alto, queriam que a arte do Vale do Jequitinhonha fosse reconhecida não somente em Minas, mas no Brasil e também em todo mundo. E conseguiram.(na foto abaixo, do Thelmo Lins, a tradicional arte de boneca de barro da Dona Isabel, de Santana do Araçuai)  
     Transformar barro em arte vem do talento e criatividade das artesãs e artesãos que buscam através de pesquisas, criar suas próprias técnicas de fazer o artesanato em barro e cerâmica, com base nos seus conhecimentos e sem deixar de seguir a tradição. Isso porque na região são encontrados diversos tipos de tonalidades de barro e com o conhecimento das artesãs e artesãos, cada um vai buscando aprimoramentos em suas obras, usando pigmentos e tonalidades de barros diferentes, bem como as tintas usadas nas pinturas das peças, após o processo de queima. Assim sai uma arte inigualável e única.     
     A arte do Jequitinhonha retrata de forma simples da vida do povo do Vale.  O barro reflete a vida e o sentimento do povo do Jequitinhonha. Os artesãos e artesãs do Vale colocam suas vidas na sua arte. Por isso o artesanato impressiona. 
     As mulheres do Jequitinhonha, antes conhecidas como “Viúvas de Marido-Vivo” ou “Viúvas da Seca”, são agora reconhecidas como “Artesãs do Vale”. Como a situação melhorou um pouco, boa parte dos maridos não saem mais da região para trabalhar, ficam em suas cidades, ajudando as esposas na produção das bonecas. (na foto abaixo, do Thelmo Lins, a tradicional arte de boneca de barro da Dona Isabel, de Santana do Araçuai)
      A arte de barro do Jequitinhonha vem mudando completamente a vida das famílias e atraindo turistas para a região, que não se contentam em comprar as bonecas nas feiras e lojas do Brasil. Querem conhecer a região, as cidades com suas histórias e toda a beleza natural do Vale.
    No Vale tem cidades maravilhosas e históricas como Minas Novas, Pedra Azul, Chapada do Norte e cidades de belezas sem igual como Almenara, Araçuaí, Santa Maria do Salto, Turmalina, dentre outras tantas.  
     Da terra seca do Vale, não brota flores. Brota a arte que encanta o Brasil e o mundo. Essa arte está mudando a forma com que o Jequitinhonha é visto hoje. Antes o Jequitinhonha era somente a região mais pobre do Brasil. Tem muito ainda que melhorar, mas melhorou um pouco e hoje falar do Jequitinhonha é falar da região do mais rico, único e genuíno artesanato do mundo. 
     As bonecas do Vale do Jequitinhonha são únicas no mundo. Não tem igual. É um dos tesouros de Minas. O Vale do Jequi é a nossa riqueza cultural. (Por Arnaldo Silva)

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