segunda-feira, 1 de abril de 2019

Flores de Minas podem se tornar Patrimônio Mundial

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Muito usada no artesanato em Minas Gerais e em outras partes do país, as flores sempre-vivas possuem uma importância histórica, econômica e sociocultural para diversos apanhadores que trabalham nesse sistema de agricultura tradicional. (foto acima de autoria de Eduardo Gomes em Buritizeiro MG, Norte de Minas) Um dos locais mais representativos da atividade é a região da Serra do Espinhaço, na região norte do estado. Agora, a prática famosa em Minas pode se tornar a primeira do Brasil a ser reconhecida como Patrimônio Agrícola Mundial, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a sistemas no mundo que atravessaram adversidades ao longo da história e, mesmo assim, foram capazes de manter as tradições culturais, a diversidade agrícola e cumprir uma função ecológica. Até o momento, existem 57 patrimônios do tipo no mundo.
O processo começou em 2016, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Embrapa pré-selecionaram cinco locais no país, entre eles a região de Diamantina (MG). No ano seguinte, foi realizada uma ação junto aos apanhadores de flores sempre-vivas e à Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas da Serra do Espinhaço de Minas Gerais (Codecex). Foram identificados, nessa primeira etapa, 30 municípios da Serra do Espinhaço em que a atividade é praticada, incluindo as comunidades rurais de Buenópolis, Diamantina e Presidente Kubitscheck. (A foto mostra um coletor de Sempre-vivas em Diamantina MG. Fotografia de André Dib)
"Para solicitar a candidatura, o sistema agrícola deve ser único e atender a algumas características, como possuir uma paisagem notável e diferenciada, rica biodiversidade, segurança 
alimentar, modelos de gestão diferenciados com sistemas de conhecimento local e tradicional, tecnologias de produção engenhosas, identidade cultural e valores socioculturais utilizados para sua manutenção", comenta Márcia Bonetti, coordenadora técnica estadual da Emater, em entrevista para a Agência Minas. (na foto de autoria de André Dib, Dona Anita, famosa coletora flores de sempre-vivas em Capivari, distrito do Serro MG)
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foram os responsáveis pela produção do dossiê técnico-científico que conta a história do sistema agrícola tradicional dos apanhadores dessas flores usadas em artesanato. O documento foi encaminhado à FAO pelo Ministério das Relações Exteriores, em novembro do ano passado, juntamente com o plano de conservação dinâmica elaborado pela Codecex em parceria com o governo de Minas Gerais, prefeituras e demais parceiros.
Segundo Márcia Bonetti, os apanhadores desenvolveram sistemas agrícolas diversificados em variadas altitudes, que vão de 600 a 1,3 mil m, aprenderam a lidar com a paisagem e com toda as adversidades encontradas ao longo dos séculos. No topo da serra, eles soltam o gado em uma parte do ano, coletam e fazem o manejo das flores sempre-viva. Nas partes mais baixas, realizam o plantio das roças de toco e fazem uso de sementes crioulas, cultivadas ao longo de gerações. (A foto acima e abaixo, de André Dib, mostra coletores de Sempre-vivas em Diamantina MG)
O conhecimento é secular e, por meio dele, o homem vem realizando intervenções sustentáveis em regiões pouco atrativas devido às características do solo e relevo. O resultado é um sistema agrícola com uma paisagem notável que tem resistido às mudanças climáticas e sociais, e refletido em importante material genético para o futuro da humanidade.
Para a secretária, o reconhecimento dos apanhadores de flores de sempre-viva aumenta a expectativa de investimentos, políticas públicas adequadas, geração de empregos e, consequentemente, a renda destas populações. "Esta conquista trará muito orgulho para Minas Gerais e também para o Brasil", diz Márcia Bonetti à agência estatal. 

(com Agência Minas) (as fotos de André Dib e de Eduardo Gomes são inserções nossa)

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