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terça-feira, 11 de setembro de 2018

O tempo passou e me formei em solidão

(Por José Antônio Oliveira de Resende) Sou do tempo em que ainda se faziam visitas.  Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
          Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! 
Cumprimenta a comadre.
          E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente.
Que surpresa agradável!
          A conversa rolava solta na sala.
          Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre.
          Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
          Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
          Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
          Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
          Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
          O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
          Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
          Casas trancadas... Pra que abrir?
          O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…
          Que saudade do compadre e da comadre! 

Crônica de autoria de José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João Del-Rei/MG. (imagem ilustrativa. Pintura do artista plástico Márcio Luiz)
Quem quiser conhecer a biografia e os trabalhos desse grande escritor mineiro, nesse link tem sua biografia e trabalhos: http://fundacaoschmidt.org.br/jose-antonio-oliveira-de-resende/

16 comentários:

  1. Voltei à minha infância. Não foi em Minas. Mas lembro de tudo isso, e morro de saudafes e de pena dos compadres e
    comadres de hoje que se encontram na pizzaria.

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  2. Eta! Que texto mais lindo. Relembrei a minha infância. Tb adorava qdo chegava visita.

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  3. Que lindo professor!
    Marcas de uma longínqua e saudosa infância.😉

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  4. Que delícia de texto!
    Sonhos, sonhos lindos!
    Saudades é tudo o que se pode dizer!
    E que mais evocadora pintura de uma cena que dá vontade de chorar, de bela!

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    Respostas
    1. ETA saudade do tempo que éramos felizes....tou chorando...

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  5. Belo texto!
    Saudades do que se foi��

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  6. Que texto lindo! Me trouxe lembranças tão boas!
    Tive esse privilégio de fazer e receber visitas.

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  7. belo texto... nos faz ver a coisa mais simples do mundo... a vida é simples... nós que complicamos querendo ser de cidade grande... é uma pena.

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  8. Nunca morei no interior, mas tive parentes que moravam. Saudades de um tempo que passou e nunca mais vai voltar...

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  9. Eu ia de trem com a minha vó visitar os irmãos dela em Bauru e no Paraná...e lembro que todo domingo juntava a netaiada na casa desta nona querida que tinha uma disposição!!! Fazia macarrão, nhoque, minestra, sopa de feijao, tudo muito delicioso...

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  10. Agora moro em Carrancas, Minas Gerais, pertinho de São João del Rei e quando vamos na casa de alguem tem esse café completo que o escritor nos descreve!

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  11. Todos acima de 50 vão se identificar com esta narrativa... Pura verdade! As novas tecnologias facilitaram a vida mas distanciaram as pessoas.

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