domingo, 11 de novembro de 2018

A onça que lambia pé!

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Cibalena é um analgésico conhecido há décadas. Houve um tempo em que esse comprimido era inflamável. Veio daí o apelido... O Homem sempre foi um sujeito trabalhador, mas quando bebia, saía da vendinha sem saber o rumo de casa.
Uma noite, após a saideira, Cibalena despediu-se dos amigos e foi embora levando debaixo do braço uma garrafa de aguardente. Para encurtar caminho, resolveu ir pelo atalho que passava no meio da mata.
As árvores deixavam a trilha escura, enquanto ele tropeçando, andava a passos lentos. Em uma clareira avistou uma grande arapuca, armada com uma galinha presa lá dentro. Alegre, imaginou que já estava garantido o almoço do dia seguinte. Mesmo porque, achado não é roubado.
— Quê qui ocê tá fazeno aí suzinha, minha fia?—Tá cum medo, não? Povo fala qui esse mato é cheiim de onça e arma penada.
A galinha cochilava e nem deu trela à falação do Cibalena.
— Cê qué vimbora cumigo? Si quisé é só falá, qu’eu vô aí e disato ocê e levo pá minha casa.
— Qui ruindade fizero cocê! Mardade ti dexá aí pá sirvi de isca prus bicho... Ê povo marvado! As galinha tamém é fidideus, uai! Mais podexá, ieu ti sarvo e tiro ocê dessa friage, inté dô um golim dessa pinga procê isquentá o bico...
Decidido a levar a galinha, se abaixou e foi engatinhando para resgatar a ave, porém, houve um imprevisto... A arapuca desarmou, aprisionando-o.
Cibalena gritou, esperneou e não conseguiu sair. Apenas seus pés ficaram fora das grades. Tonto, de bruços, o rapaz ouvia miados de gatos do mato, piados de coruja, canto de curiangos e uivos de lobo-guará.
Depois que se acalmou um pouco reatou a prosa com a companheira de penas.
—Tá veno, Chiquinha, qui ocê fêiz? Num vô ti perduá nunca! Curpa sua, ieu tô preso nessa gaiola, viu?
— Num dianta nada mi oiá cum esses zoim de pêxe morto e nem pidi discurpa, agora tamu nóis dois aqui pá sirvi de cumê pás onça.
— Nun fica caladinha assim, Sá! Bebe mais um golim...Tá sintino um chêro de café torrado? Ahh, ocê num tem nariz, né? Ieu tô! Crendeuspai, onça é qui chêra assim... Chiquinha si ieu num tivesse fechado aqui, ieu ia rapá no pé, minha nossinhora dos afritos mi acode!
Um arrepio lhe percorreu a espinha, fazendo-o entrar em pânico. Imobilizado, não podia se virar e ver o animal, mas sentiu um focinho frio fungando nos seus pés.
— Chiquinha... Num óia agora, mais ieu tô achano que tem um trem quereno mi cumê... Tá lembeno o meu pé isquerdo. Ihh, agora lembeu o outro e deu uma murdidinha no dedão... Aiii, tá fazeno cosquinha... manda essa onça fedazunha pará, Chiquinhaaaa!!
Cibalena gritava sem conseguir se mexer. Sentia-se prestes a perder os dois pés, que estavam sendo lambidos e na falta de coisa melhor iam virar comida de onça.
— Se ieu num tivesse ingastaiado aqui, cê ia vê... ieu ia deitá o braço nessa onça, rolá no chão e tirá o côro dela, cê ia vê só! Uai, num tô sintino mais os meus pé! Acho qui ela já cumeu os dois duma bocada só...
— Chiquinha... Cumé qu’eu vô carçá as butina amanhã cedo?
Ao amanhecer, os biólogos que estudavam os hábitos do lobo-guará da Serra da Canastra, encontraram Cibalena preso na armadilha. Este estava em estado de choque, com os olhos arregalados.
Quando foi retirado lá de dentro não disse uma palavra, saiu correndo e sumiu no mato.
 
*Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira.Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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