sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A gema rara de Pedra Azul

Na virada de 2007 para 2008, tive a oportunidade de conhecer o Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, quase na divisa com a Bahia. A mítica região é aclamada por seus artistas, pela beleza da paisagem e pela dura vida de seus habitantes, que sofrem por causa da pobreza e da falta de perspectivas.
O roteiro começou em Minas Novas (508 km da capital mineira) e seguiu por Chapada do Norte, Berilo, Araçuaí, Itinga e Almenara, terra da cantora e compositora Déa Trancoso, do cantor Carlos Farias e do Coral de Lavadeiras. Nesta última cidade, passamos (Wagner Cosse, meu companheiro de viagem e eu) o Reveillon, a convite da cantora, na casa de seus pais. Almenara fica às margens do rio Jequitinhonha.
Quando já voltávamos para Belo Horizonte, Déa sugeriu que conhecêssemos a estrada que liga Almenara a Pedra Azul, segundo ela a mais bela do Vale. E assim fizemos.
E não nos arrependemos. Embora seja de terra, a estrada – de aproximadamente 85 km - é belíssima, com paisagens deslumbrantes, formada por grandes formações rochosas que saem do chão em tons azulados, contrastando com o verde das matas. Ao contrário da habitual sequidão desta região do país, nesta época do ano as paisagens são verdejantes. O caminho estava sem poeira, porque havia chovido recentemente, deixando tudo ainda mais bonito.
Pedra Azul é reconhecida com a mais bela cidade do Vale. A grande rocha azul é dá o nome ao local se impõe logo à entrada do núcleo urbano. Seu nome oficial é Pedra da Conceição, em homenagem à padroeira do município, Nossa Senhora da Conceição. E é possível chegar ao seu topo, por meio de 523 degraus (há um caminho alternativo de automóvel). De lá se tem uma vista de toda a região, que me lembrou uma espécie de Baía da Guanabara sem o mar. No dia em que subimos, ficamos até a hora do pôr-do-sol. Como é de se esperar, o local transpira tranquilidade e paz.
Hospedamo-nos da Pousada Bom Jardim, na área central da cidade (Av. Joaquim Antunes, 18, telefone: 33 3751-1960). É um lugar bem simples, mas muito bem localizado. Seu proprietário (que não me lembro o nome, considerando que já se passaram mais de 10 anos), foi extremamente gentil conosco. Ele tinha um ótimo conhecimento da história da cidade e nos indicou vários passeios.
Já na primeira noite, fomos surpreendidos pela decoração de Natal, toda ela feita em material reciclado. Até então, eu nunca tinha visto este tipo de enfeite com bom gosto. Como se aproximava o Dia de Reis, grupos folclóricos locais se exibiram nas ruas, com suas fantasias. Conhecidos como bois, eles são trajados com tecidos coloridos e fitas.
A avenida do hotel é a principal de Pedra Azul. Ela impressiona pela quantidade de casarões luxuosos, que foram construídos na primeira metade do século 20, quando foram descobertas valiosas águas marinhas na região, que eram exportadas até para a Europa e a América do Norte. Quando estivemos lá, ouvimos muitas histórias, inclusive que a cidade dispunha de voos diários em seu aeroporto para atender a demanda dos milionários locais.
Segundo o Wikipédia,  as pedras foram descobertas em 1927, na fazenda Laranjeira, que pertencia ao empresário e político mineiro João de Almeida e por Lourenço da Santa Rosa, seu empregado, que foi contratado para abrir trincheiras. 
Almeida tornou-se um dos homens mais ricos do Brasil e teve mais de 300 homens trabalhando em suas minas, de onde foram extraídas cinco toneladas da pedra preciosa. Em valores atualizados, essas pedras valeriam cerca de R$ 80 milhões. O dinheiro serviu para proporcionar melhorias também à cidade, que ganhou hospital, igreja matriz, escolas e estrutura urbana.
Como curiosidade, a pedra Dom Pedro, (na foto extraída da Internet) encontrada em Pedra Azul, é a maior água-marinha já descoberta no mundo, com 45 quilos. Isto aconteceu na década de 1980. A pedra foi vendida para a Alemanha, em 1992, onde foi transformada, pelo artista Bernd Münsteiner, em um obelisco de 35 cm de altura e cerca de dois quilos. Ela está em exibição permanente no museu de História Natural Smithsonian, em Washington (EUA).
A extração de águas marinhas também beneficiou o empresário e político pedrazulense Clemente Faria, por meio da compra e venda das pedras preciosas dos funcionários do garimpo. Faria, que era filho de um próspero pecuarista, fundou, em 1925, abriu o Banco da Lavoura de Minas Gerais, que foi dividido, em 1971, em dois bancos: o Banco Real e o Banco Bandeirantes, ambos já extintos.
O luxo que desfrutava a elite local é observado nos casarões da Avenida Joaquim Antunes. Eles trazem decorações suntuosas, dificilmente encontrados em uma cidade deste porte (Pedra Azul possuiu, atualmente, cerca de 25 mil habitantes), trazidas principalmente de Portugal e Espanha. Caminhar pela avenida, que possuiu um arborizado canteiro central, é um programa obrigatório.
Nesse canteiro, ou bulevar, também está a delicada Igreja de Nossa Senhora da Conceição, um templo singelo, também conhecido com santuário. Há outra igreja mais moderna na cidade, a Matriz de Nossa Senhora Aparecida, que não tivemos a oportunidade de visitar.
Outro local bastante curioso é o cemitério local, que ainda guarda a suntuosidade dos tempos de poder financeiro dos moradores.
O tempo das águas marinhas acabou. Em termos econômicos, atualmente Pedra Azul possui a maior usina de exploração da grafite tipo flake da América. O mineral é usado, principalmente, em tijolos e peças refratárias, baterias, lubrificantes, motores elétricos, lápis e lapiseiras. A jazida foi descoberta em 1972 e hoje representa uma importante fonte de renda para o município, ao lado da agropecuária.
Pedra Azul é também terra de reconhecidos artistas mineiros, dentre eles o cantor e compositor Paulinho Pedra Azul, o cantor e humorista Saulo Laranjeira (que atua no programa A Praça é Nossa, do SBT) e o letrista e poeta Murilo Antunes (que faz parte do seleto Clube da Esquina). A nova geração também está presente na cantora Dani Moraes, que se destacou em suas passagens pelos programas Ídolos (2009) e The Voice Brasil (2012).
Segundo Paulinho, o município tem uma extensa agenda cultural, com manifestações como o Micarazul e Precazul, que são carnavais temporãos. No meio do ano tem exposições agropecuárias, festas juninas, serestas, eventos religiosos, festivais de música, poesia e teatro, dentre outras atividades. No mercado central e cercanias, podem-se encontrar artesanatos, cachaças, biscoitos, doces e o queijo cabacinha.
O site oficial da Prefeitura é um canal para mais informações: www.pedraazul.mg.gov.br.
Pedra Azul está a 760 km da capital mineira, por meio da BR-116 (Rio-Bahia).
A dica de viagem desta semana fica por aqui. Em breve, farei novas postagens relembrando as cidades do Vale do Jequitinhonha, que nos proporcionou grandes e emocionantes encontros.
Até lá!
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Escrito por Thelmo Lins com fotos de Vagner Cosse e Thelmo Lins

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