quinta-feira, 5 de julho de 2018

O poder da fé e o Santo do Pau Ôco

Genaro morava com a mulher e um casal de filhos numa choupana na sua pequena gleba de terra, na vertente um pouco acima da nascente do rio. Como as terras de cabeceiras são incultas e pouco produtivas seus rendimentos eram insatisfatórios, ele complementava seu orçamento doméstico com sua arte, fabricando pequenos objetos de adorno e utensílios domésticos em madeira trabalhada. Vendidos na cidade mais próxima a sua propriedade. Cidade pequena, não conseguia faturar muito, mas dava para levar a vida sem grandes apertos. Seu filho Zequinha conduzia na garupa do pangaré sua irmã Sofia, um pouco mais nova que ele, até uma escola rural, na fazendo de seu Libório distante a dez quilômetros, onde ambos estudavam. 

Os pais até que gostariam que os filhos seguissem os estudos cursando uma escola superior, sonho que estava fora de cogitação devido os parcos recursos financeiros. Zequinha saiu bem ao pai e demonstrava um grande talento. Seu pai trabalhava na margem do rio a um quilometro distante do sitio onde havia abundância de madeira de lei apropriada para sua arte e cedida gentilmente pelo Médico dono da propriedade que adorava Genaro e seus filhos. Admirador que era também de sua arte.

Na sombra de um centenário ingazeiro debruçado no barranco do rio acompanhado pelo filho, Genaro realizava com arte seus trabalhos. Em pouco tempo com sua habilidade Zequinha já superava os trabalhos do pai em perfeição. Certo dia ele apanhou a sobra de um tronco que seu pai descartou devido ser de madeira oca. E começou a entalhar uma peça. O pai logo indagou sua intenção com aquele tronco imprestável e oco: - vou fazer um santo deste pau! Respondeu o garoto. 
–Deixe de enrolar menino vamos cuidar de nossas gamelas temos bastantes encomendas e não devemos perder tempo, este tronco nada vale. 

Zequinha não deu ouvido ao pai e continuou, observando que filho levava jeito ele o deixou com seu trabalho sem maiores aperreios. Dentro de um curtíssimo tempo uma bela peça estava esculpida. Orgulhoso o pai pergunta:
- e então Zequinha que santo é este? 
-Há digamos que seja o tal Santo do pau oco! 
-Rindo o pai o abraçou encantado com esperteza do filho. 

Nesse ínterim o doutor dono das terras que passava por lá cavalgando ficou admirado com arte do garoto dizendo: 
- olha seu Genaro o talento de seu filho não deve ser desperdiçado aqui neste sertão, o senhor vai me confiar seu filho para levá-lo para a capital e colocar numa escola de arte. Prometo que farei dele um grande escultor, pagarei todas as despesas, será meu presente para sua família! 
–Bão dotô de minha parte acho inté a coisa mais mió do mundo, mais a palavra finar é da Mariinha minha muié caso ela num ponha bistácuro o sinhô leva Zequinha. A mãe ficou mexida com a proposta imaginou mil coisas, mas acabou concordando.

Zéquinha foi pra capital sempre que o doutor voltava à fazenda o levava com ele. O tempo foi passando e o menino cada vez mais habilidoso e perfeito na sua arte. Os anos passaram e suas obras as vendidas e procuradas nas feiras de arte. 

Quando completou seus vinte anos já havia construído uma bela casa para os pais, e tinha seu carro para visitá-los quando quisessem. 

Numa de suas estadias na casa dos pais se lembrou de resgatar o santo que havia esculpido do pau oco, afinal foi graças a ele que sua vida melhorou, despertando no doutor o desejo de fazer dele o grande artista, a esta altura já perseguido pela a fama. 

Foi até o local, e voltou frustrado. Uma grande enchente havia levado rio abaixo sua escultura. Voltou pra cidade grande e continuou seu trabalho, viajando mundo afora expondo suas obras.

De repente o destino lhe pregou uma peça, o pai amanheceu completamente cego. Levaram-no aos melhores especialistas, até para o exterior e nada conseguiram de positivo. Pobre Genaro, ainda bem que a situação econômica estava melhor graças ao Zequinha. 

Passaram-se os anos, Zequinha e Sofia casados morando na capital, Genaro e Mariinha se mudaram para cidade, embora deficiente visual estivesse feliz, moravam numa casa confortável. Tinha o carinho de sua amada, a velha Mariinha, e aos fins de semana vinham os filhos da capital curtir o conforto no sitio, com sua piscina e tudo que a vida lhes dera de presente.

Certa ocasião, Zequinha foi convidado a expor suas obras numa cidade a trezentos quilômetros abaixo daquele paraíso onde nascia o rio de sua infância. Tal cidade atraía milhares de pessoas à busca de cura. A rede hoteleira já havia sido ampliada para atender a demanda, causada pelo fenômeno que ocorria.

Em sua visita Zequinha tomou conhecimento da dimensão, em que tornara aquela estância interiorana. Segundo afirmavam a água de uma pequena fonte que despencavam de uma imagem engastalhada entre as pedras no desvio de uma pequena cocheira no rio tinha um inexplicável poder de cura. A cidade ribeirinha ganhou fama e sua população testemunhava os mais fantásticos milagres. No encerramento da exposição, os compromissos não permitiram Zequinha visitar o local do santo milagroso. Voltou a sua rotina normal em seu cotidiano com suas viagens. Por ocasião de seu descanso no sitio ficou surpreso quando o pai lhe revelou que tivera um sonho com uma cidade ribeirinha daquele pequeno curso que ali iniciava, e que iria se curar quando lavasse seus olhos na água que despencava do corpo de uma imagem.

Zequinha mexido com a história do sonho, nada disse ao pai.
- Seria uma grande coincidência ou um milagre estava prestes acontecer? 
- Imaginou ele lá com os seus botões. 
O melhor mesmo seria tentar afinal não havia mais a perder o pai já sem a menor chance de se recuperar clinicamente, só mesmo um milagre o poderia curar. Na manhã seguinte quando sol raiou muitos quilômetros pai filho já haviam rodado, em busca da água milagrosa. Antes do meio dia Genaro já era guiado por Zequinha na fila que subia a passarela que conduzia os fieis aos pés da imagem. 

Segurando o pai pelas costas orientou a ele que com as mãos encurvadas no formato de conchas apanhasse a água lavando-a aos olhos. O velho respondeu 
- não se preocupe, fiz isso no meu sonho e apanhando água lavou os olhos. E entre gritos e vivas dava louvores a Deus dizendo 
– estou curado estou curado! 
 Encurvando-se para tocar na imagem disse num tom de voz suave para que ninguém ouvisse 
– Zequinha o milagre é real e fantástico, mas o santo é aquele do pau oco que ocê fez debaixo do ingazeiro e a enchente carregou pra cá; e agora... A gente conta ou não conta?
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Escrito por Geraldinho do Engenho, comerciante e escritor no Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho MG
Imagem acima ilustrativa. Peças do Mestre Aleijadinho em madeira de Cedro, exposta no Museu da Inconfidência em Ouro Preto MG

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