terça-feira, 24 de julho de 2018

O Defunto Nicolau

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As velhas cochichavam entre si:
— Credincruiz! Difunto se rindo é coisa do Demo!

Pois naquele velório ninguém atinava o motivo do risinho indecoroso, assim meio de ladinho, desenhado sob o bigode do Nicolau. Houvesse ali um astuto, logo adivinharia seu semblante de puro contentamento e deleite.

Abatida se via Manuela, ao lado do marido Ludgero. Haviam passado a noite em claro, velando o corpo do boiadeiro, o Nicolau Simão. Noutro canto da sala, chapéu no peito, todo contido em si, estava Joãozinho, sem coragem de olhar nos olhos dela. Aquele conluio era segredo que levariam para o túmulo. Na cozinha, as comadres comentavam:
— Tadinha da Maneca! Num é pa menos, ficá abobada assim. O danado do home vei morrê na sala da casa dela! Dissero qui tava isperano o Lugero chegá do sirviço pa modi niguciá umas cabeça de gado, quando istribuchô e caiu mortim. Num fosse o Joãozin tá pru perto...

Ensimesmada, Manuela lembrava como viera parar ali. Casou-se ainda novinha com Ludgero – fazendeiro viúvo, sem filhos e já bem erado – para cumprir gosto do pai. Não gostou nem desgostou. Não havia sido criada para escolher marido. No começo foi tudo novidade! A fazenda tinha terra que não acabava mais, muito gado e plantação! Com o passar dos anos, porém, ela passou a se ver como um enfeite da casa, como uma propriedade do marido ciumento. Bastava só entrar na cozinha, onde reinava a velha Sinhana Preta, para ouvi-la:
— Sinhô Lugero falô qui num qué muié dele isquentano barriga no fugão e isfriano na bica, não...

Às vezes pensava em cuidar do jardim, mas aquele rapazinho acanhado logo lhe tirava as ferramentas das mãos avisando:
— Patrão num qué a sinhora quemano nesse solão... Sô Lugero falô pa modi ieu num dexá não. Issu é sirviço meu!

Dezembros e janeiros e a chuva a malhar no telhado por dias e noites a fio. O tempo se arrastava naquele fim de mundo. Debruçada na janela, ela avistava o cafezal onde as pessoas pareciam formigas trabalhando. Via Joãozinho, o rapaz acanhado, a cuidar dos arredores da casa. Devia ser peão de confiança do seu marido, parece que estava ali o dia todo vigiando, contando seus passos... Ou será que era cisma sua?!

Certo dia, bem cedinho, depois que Ludgero saiu a campear um boi sumido, Manuela botou vestido bonito, aquele mesmo, que tinha dois botõezinhos teimosos em morar fora da casa, revelando um tiquinho dos seus guardados. Abeirou-se do curral. Toda prosa, trepou na cerca. Caneco na mão, pediu que Joãzinho lhe desse leite da formosa, a melhor vaca do curral. O peão, encabulado, rosto amoitado no chapéu de palha, custou a lhe cumprir a ordem, mas cumpriu, embora um tanto sem jeito...

E foi nesse dia que Joãozinho sentiu, num leve roçar de dedos, o calor da mão dela. Escabreado, afastou depressa a sua. Aquilo foi brasa a lhe queimar mão, braço e todo corpo. Daí por diante, passou a madrugar para que a patroa não o achasse mais no curral! Cedinho, deixava o balde de leite na cozinha com a Sinhana Preta e sumia no mundo, a caçar serviço bem longe das vistas da patroa.

O fim do sossego de Joãozinho se deu quando o boiadeiro Nicolau Simão danou a rodear a casa depois que o patrão saía. E piorou, quando o viu entrando para um café, a convite de dona Manuela, já então animada por demais com aquelas visitas. João perdia noites de sono, cismando sozinho: “O qui fazê?! Falá das visitas pro Sô Lugero? Não, isso nunca! Que ele era capaz de dá cabo da vida dela, tadinha. E se ela num devesse?! Ele ia era morrê de remorso”. Sentindo-se de mãos atadas, João viu o outro se adonar aos poucos das horas ociosas da mulher do patrão. E percebia que esses momentos se estendiam tarde adentro, sempre que Sô Lugero se ausentava de casa.

Certo dia, o retireiro criou coragem e foi indagar de Sinhana Preta, na esperança de ouvir alguma coisa que o tirasse daquele desatino. Em vão! A cozinheira deu de ombros, dizendo que estava com pressa, tinha que cozinhar uma canjica para o Sô Nicolar, a mando da patroa.

Aconteceu no meio da tarde, quando nem os passarinhos cantavam. Joãozinho ouviu um berreiro vindo da casa. Largou a enxada no chão e correu para acudir. Entrou às pressas, sem bater. Foi logo na direção donde vinha o choro da patroa. O que viu naquele quarto iria atormentá-lo pela vida afora. Esparramado na cama, o corpo gordo e nu do boiadeiro. Na mesinha de cabeceira, um pato com vestígios de canjica. Olhou ao redor: lá estava ela, do jeitinho que veio ao mundo. Por respeito, pelejou pra não olhar, mas suas vistas não obedeceram. No desespero do acontecido, Manuela não tivera pudor de se cobrir. Os olhos se cruzaram e falaram por si.

Sentindo ciúme, vergonha e medo, João começou a ajuntar rapidamente as tralhas do boiadeiro morto. O tempo urgia, tinha muita coisa a fazer...
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Texto e fotografia de autoria de Maria Mineira - São Roque de Minas MG

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