sexta-feira, 29 de junho de 2018

Santo Antônio: milagre ou lição de vida?

Está é uma narrativa verdadeira ocorrida no ano de 1959. Quando o advento da juventude sinalizava minha plena adolescência.

Caberá ao leitor definir de acordo com sua concepção, se o fato ocorrido foi um milagre, ou um fantástico capricho do acaso.

Desde criança tive meu dever para com o trabalho. Uma das minhas obrigações era vistoriar diariamente os atoleiros existentes às margens do Rio Picão. Uma vigilância mantida com a finalidade de evitar a possível perda do gado atolado nos bebedouros.

Certo dia ao cumprir aquele roteiro, deparei-me com um grupo de guris, pescando no Rio, dentre eles os filhos da Nina Purí, viúva, costureira que lutava com muita dignidade na criação dos filhos.

Um deles, o mais velho, de nome Longuinho usava óculos, por sinal, adquirido com grande sacrifício pela mãe. Eis que de repente seus óculos caíram dentro do Rio. O garoto ficou desesperado com a situação. Embora o Rio seja pequeno seu volume de água é bem significativo. Na época a diversão mais acessível para meus colegas e eu, era a natação, fator que nos tornou muito íntimos com o fundo do Rio. Proporcionando-nos, bastante prática. Acostumado a vasculhar seu fundo, e diante do desespero do garoto, mergulhei várias vezes, mas o Máximo que consegui foi alguns pedaços de madeira e uma cumbuca usada como minhoqueiro, cheia de areia.

Em pranto ele afirmou: - vou colocar uma moeda que ganhei de meu padrinho nos pés de Santo Antonio, e ele vai me devolver meus óculos.

Zombando eu disse-lhe:- eu sempre soube Santo Antônio, ser um bom casamenteiro, oculista eu não sabia!

– Se Deus quiser eu tenho muita fé, e ele sabe como foi difícil a minha mãe conseguir dinheiro para adquirir meus óculos. Ele vai me devolvê-lo!

–Garoto pode tirar seu cavalinho da chuva, então você acha que, com tantos problemas para resolver um Santo vai se preocupar logo com um simples óculos!

- Vou ver, eu tenho fé!

Os guris se foram, e eu continuei minha rotina. Todas as tardes eu passava pelo local sempre lembrando, do garoto e o seu desespero. Havia decorrido certo tempo, passando pelo local encontrei um militar pescando de tarrafa, no exato lugar do ocorrido, solicitei a ele, jogá-la um pouco mais a sua direita, E qual não foi à surpresa, ao retirá-la lá estavam os óculos presos a ela. Contei-lhe a história do garoto e as dificuldades pelas quais passava a mãe, mas ele foi taxativo. Só entregaria o objeto mediante recompensa. Argumentei de todas as formas, mas ele irredutível disse que sem recompensa nada feita.

Diante da situação fui obrigado armar uma estratégia, dizendo-lhe: - não há problema nenhum, meu pai, é amigo do comandante do 7º batalhão; ontem mesmo ele esteve La em casa buscando algumas laranjas, vou levar ao seu conhecimento através de meu pai, e assim solucionamos o problema! Assustado ele retrucou:

- que isso menino! Estou apenas brincando, pode levá-lo tenho muito prazer em ajudar a pobre viúva!

Chegando a casa, mais uma coincidência, lá estavam, o Longuinho e seu dois irmãos, na varanda do engenho, onde fabricávamos rapaduras. Quando entreguei o objeto, foram emocionantes, seus olhos tinha um brilho de felicidade que jamais vi em toda a minha vida. Pulou, deu viva a Santo Antonio, ajoelhou, louvou a Deus... E exclamou: - você está vendo... Duvidou de minha fé, e Deus te mostrou, fez questão que fosse você a me devolver meu s óculos. Agora vou tirar a moeda dos pés do santo e levá-la para o cofre da igreja!

Este fato daria um conto dos mais pitorescos, caso eu quisesse distorcê-lo, fugindo da realidade, como alguns incrédulos que já me questionaram se não teria o encontrado sendo usado por um peixe.

O fato é que, para mim, foi uma boa lição! 

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Por Geraldinho do Engenho - Natural do Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho MG, comerciante e escritor.
Pintura do artista plástico Atacir Costa

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