terça-feira, 19 de junho de 2018

O espelho das águas numa noite de São João

O dia amanheceu coberto por uma densa cortina branca, o sol parecia ainda em profundo sono repousado no horizonte. 

Rosinha pulou sobre Margarida que ressonava sonhando com os anjinhos. A noite era tão grande e o frio rigoroso dava vontade nem levantar, mas Rosinha ansiosa não deu trela para a preguiça e de mansinho abriu a porta e pé ante pé correu para a bica que despencava sobre o lajeado de pedras e escorria formando o poço de água cristalina com seu tom azulado de tão pura. 

Bocejando o poço inundava de fumaça branca o seu entorno. No seu interior os lambaris dançavam em constante malabarismo. 

Rosinha sabia como seria importante ver sua imagem no espelho das águas antes do nascer do sol, mas o hálito morno que subia em forma de neblina a impedia. Sentada no barranco com seus pezinhos submersos ela brincava com os peixinhos que vinham beijá-los. Entretida sem noção do tempo e do perigo permaneceu ali com sua encantadora inocência. A hipotermia gradativamente tomava seu corpo.

Quando o sol pintou afastando a densa neblina, um tremendo susto. Esbaforida Margarida correu até ao pai que ordenhava as vacas no curral a mãe voltava com os gravetos que fora buscar para o preparo do café.

- Papai... Mamãe! Gritou a menina! Rosinha não está na cama desapareceu!


Procurou por todos os lados e nada! A mãe correu para a bica e nada nem sinal o poço já não bocejava mais neblina alguma. Vasculharam as redondezas, foi ás casas de vizinhos, mas ninguém viu a adorável Rosinha. O desespero e a comoção tomaram a todos que se juntaram aos pais e procuravam por ela. Quando as esperanças se esgotaram a mãe voltou à bica viu uma trilha de pétalas de flores que adentravam pelo bosque eram flores de cipó de são João, seguiu a trilha e deparou-se com uma cabana até então nunca vista. Ela gritou:

- oh de casa tem alguém ai? Nenhuma resposta decidiu entrar, no chão sobre um estrado uma pele de cordeiro estendida e outra de lado, sentada sobre uma pedra Rosinha brincava amarrando flores no pescoço de um cordeirinho recém nascido. A mãe chamou centenas de vezes, mas ela parecia estar em outra dimensão e não atendia. Desesperada ela atirou sobre ela para abraçá-la, neste momento, ela, a mãe, acordou. Estava apenas sonhando numa noite de São João!

----------------------------------------------
Por Geraldinho do Engenho - Escritor, residente no Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho MG (fotografia de Arnaldo Silva)

Nenhum comentário:
Faça também comentários