terça-feira, 12 de junho de 2018

NA-MORADA de Mim

Eu amo a minha boca, que pode não ser a mais bonita, e que mesmo sabendo do peso de tanto ódio que grassa por aí, numa morbidez muito além dos sons, procura sempre ser parceira da palavra gentil, doce e amável.

Amo meus olhos que não são tão lindos assim, e embora jamais se fechem às dores do mundo, sempre se abrem ao lado poético e leve das coisas... Estão sempre a acompanhar voos de beija-flor e revoadas de andorinhas, prefiro-os assim.

Eu amo meu nariz, que nem é tão elegante, e mesmo não ignorando o cheiro fétido da sordidez que permeia nossos dias, aspira os perfumes suaves das flores, respira jardins e chuvas molhando a terra.

Eu amo meus ouvidos, que embora já tenham ouvido coisas do arco da velha, ainda resistem firmes e perseverantes, no exercício do crivo de escutar apenas o que vale a pena e deletar o que vem para ferir ou espalhar a discórdia.

Eu amo minha pele, que já não tem a seda de outrora e cada vez mais exibe os rascunhos de cada dia vivido, e em cada ranhura das agruras da vida, coleciona relíquias para as experiências: o amadurecimento é sem dúvida meu grande legado.

Eu amo meus braços, um tanto tímidos para os abraços, mas que se especializaram em acolher as crianças e ser delas ninho de aconchego, meio que zona de conforto no dizer das entrelinhas: estou aqui, não tenha medo.

Eu amo minhas mãos, já gastas das lidas, do pó de giz e outras mazelas, ressequidas de tempo e labores, mas plenas de graças para flores que ainda planto em letras ou em terra fofa, cultivando meus jardins aqui e ali.

Eu amo meus dedos, não tão ágeis como em outros tempos, já acometidos de algumas dores articulares, sofredores em dias mais frios, mas que ainda tramam gratificantes alianças no sagrado ofício de tecer o belo: depende deles a minha poesia cotidiana.

Eu amo minhas pernas, que sem nunca terem sido atraentes, me levam ao trabalho, e me trazem de volta pra casa ao fim dos dias cansados, num ir e vir de troca de passos que me sintoniza com os lugares em que piso.

Eu amo meus pés, que já se ressentem de tanto caminho andado, mas se orgulham dos lugares que pisaram, e ainda pisam. Mesmo sabendo das zonas de perigo, as trilhas escolhidas fizeram deles meus guerreiros maiores, canal de energia pura que me revitaliza: eu sou conexão, pura conexão com a terra.

Eu amo meus pensamentos, que apesar de me contarem de universos estranhos e escuros, sempre me revertem rumo à luz, meus sóis diversos, claridade vital para o que a vida pede de mim. E que retorno me dão quando preciso! Força e fé!

Eu amo minha alma, que se apercebe dos pesos mundanos, mas me resguarda leve. E ser leve é tudo que preciso. A leveza faz os medos cada vez menores, e a gente se importa cada vez menos com os pesos vindos de fora.

Eu amo meu coração, que a cada dia perde um pouquinho mais do seu ritmo natural, mas jamais se esquece da sua verdadeira missão: amar a si, amar o mundo. E sendo o coração o símbolo maior do amor, ao meu coração amador (no melhor sentido de amar) rendo as minhas mais profundas homenagens: amo e amo viver NA- MORADA de mim...

Escrito por Marina Alves - Lagoa da Prata MG

Pintura ilustrativa. Artista plástico Rui de Paula

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