sexta-feira, 1 de junho de 2018

Murmúrios do vento

Percebi o novo dia através de frestas na janela, me preenchendo a alma com sensação nostálgica, abandonada em algum canto há décadas, como um segredo guardado a muitas chaves. Um saudosismo inquietante fez-me desejar muito rever um santuário do qual eu já havia esquecido, mas não perdido na memória. Esse sentimento me encaminhou para lá, sem que meus pés soubessem para onde me levariam.

Cercada pela vegetação, avistei a cruz fincada no chão como uma antiga árvore. Mesmo passando muito perto, não se poderia avistá-la, mas eu sabia da sua existência à sombra do muro de pedras... O sol forte quase atenuou sua aparência de profunda solidão e tristeza. A casa nem existe mais, o mato invadiu, por falta de dono. O que resta da sede daquela fazenda são lembranças desbotadas, musgo ressequido. Ali não ouvi passarinhos e nem vi flores, apenas ruínas...

Os anos se passaram e o lugar continua testemunhando o murmúrio do vento na beira da serra. Restaram apenas os escombros da fazenda. Há quem acredite que aquele lugar sempre foi mal-assombrado. Jurava-se que no local apareciam luzes misteriosas, mulheres vestidas de branco em noites de lua cheia, cantigas noturnas de carros de bois do além.

Na infância, tive oportunidade de conhecer todos os cômodos daquele casarão, sede da fazenda de minha madrinha de batismo. Lugar onde minha avó me levava para visitas mensais. O que me intrigava naquela residência era o quarto no final do corredor. Ali, o sol fora proibido de entrar, pois a janela nunca mais se abriu para ele. A cama coberta por uma colcha branca feita no tear mineiro e sobre ela, complementando a decoração havia dois grandes travesseiros com fronhas brancas bordadas com as letras (A e E ), entre flores de ponto cruz. Na parede, além da estampa de vários santos havia um retrato envolto em tecido muito azul que parecia abrir caminho para eternidade. No canto ficava um baú de madeira tão grande quanto o pesar pelo enxoval nunca usado. Ninguém ousava abri-lo, por sabê-lo guardião da inquietude de uma alma perdida nos murmúrios do tempo.

Do aposento, eu soube apenas que pertencera a um jovem casal. Ambos haviam falecido poucos meses após o casamento. Ele, de nome Artedes, morreu de certa doença que, naquele tempo não se ousava pronunciar o nome. Ernestina, a jovem esposa, foi encontrada sem vida no pomar, dias após o sepultamento do marido.

Naquela fazenda não havia crianças, pois, madrinha nunca teve netos. Minhas visitas àquele lugar eram sempre solitárias e isso não me incomodava nem um pouco, gostava muito dali. Sentia-me no paraíso ao brincar solta no riacho que cortava o pomar. A água cristalina se dividia entre uma enorme bica de madeira e um monjolo. Eu me esquecia do mundo subindo nas árvores, comendo frutas, colhendo flores, enquanto vovó ajudava a madrinha preparar um delicioso almoço. Esse banquete, ela fazia questão de me oferecer, além de muitos doces e moedas, toda vez que eu a visitava.

A única recomendação dos adultos era nunca entrar na casinha localizada no fundo do quintal. O lugar onde ficava o monjolo, uma peça rústica de madeira, destinada ao beneficiamento e moagem de grãos. Vó Geralda achava perigoso para crianças, porém, eu tinha enorme curiosidade de conhecer aquele espaço. Do lado de fora só se podia ouvir o barulho e teimosa como sou até hoje, um dia acabei entrando.

Vi o monjolo incansável a trabalhar dia e noite. Havia mais alguém naquele lugar.... Lembro-me como se fosse hoje daquela linda moça de longos cabelos pretos contrastando com a pele muito clara.
Sentada a fiar, pedalava uma roca de madeira, tendo perto um balaio com várias meadas de lã extremamente brancas.

A fiandeira interrompeu o trabalho e se ofereceu para descascar as laranjas que eu trazia nas mãos. Aceitei, e enquanto conversávamos, levou-me a um estranho jardim. Apesar daquele pomar ser meu antigo conhecido, eu não sabia da existência de flores perto dele. Pulamos um muro de pedras e logo atrás, ficava um imenso canteiro repleto de roseiras. Nunca na vida eu vi rosas tão bonitas e perfumadas quanto aquelas.

Passamos juntas, uma agradável manhã…. Senti-me muito bem ao lado daquela criatura delicada e carinhosa. Ela me fez penteados, enfeitou-me os cabelos com pequenas rosinhas brancas, mas quando finalizava as duas tranças, ouvi o chamado de vovó, avisando que o almoço estava pronto. Faminta, saí correndo rumo à cozinha, imaginando que minha amiga iria também, mas ela não foi! Estranhamente aquele dia apagou-se da minha memória por muito tempo...

Sete anos depois, madrinha morreu. Eu já tinha uns dezesseis anos e fui ao seu velório realizado na fazenda, costume antigo na região. No outro dia, durante o sepultamento, estremeci ao parar em frente ao jazigo da Família Borges. No centro jazia o retrato do patriarca da família, o finado senhor Hermógenes. À esquerda, abaixo da inscrição “Descansem em paz saudosos filhos, Artedes e Ernestina Borges...” Emoldurada em material dourado estava a foto de um jovem casal trajando as vestes do casamento. O rapaz, muito sério, usava espesso bigode e ao seu lado, a bela moça de pele clara, cabelos pretos e olhar terno parecia me sorrir...

Ano passado, cismei de retornar à velha fazenda. Ao observar tudo aquilo, um pressentimento me envolveu. Estranha sensação tomou conta de mim.... Ouvi barulho de uma janela empurrada pelo vento, percebi um intenso perfume de rosas, mas ali não ventava, muito menos havia janelas ou roseiras. O ar parado sufocava. Em silêncio, fiz uma breve oração e fui embora sem olhar para trás...

Por Maria Mineira - São Roque de Minas

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