segunda-feira, 21 de maio de 2018

Quincas e o Fantasma do Padrim João

Quincas foi criado na fazenda do padrinho João Leite. Era medroso que só vendo. Ficava apavorado quando o assunto era assombração, bichos papões e almas doutro mundo. Vivia ressabiado, nunca saía de casa sozinho após o anoitecer.

O padrinho, muito mapeiro, vivia aprontando com a peonada ali da fazenda. Querendo dar um jeito no medo do afilhado, certa vez, deixou de propósito lá fora da cozinha, a bacia de cobre que usavam para lavar os pés antes de dormir.
— Quinca, meu fio, vai lá no terrêro e pega a bacia pá modi nóis lavá os pé. Seu padrin isquiceu ela lá na hora qui nóis tava insacano o fêjão.
— Óia, padim, si o sinhô num simportá, ieu num incomodo de drumi cos pé xujo, não sinhô.
— Ô Quinca, ocê pur acaso acha qui sua madrinha vai dexá nóis drumi de pé xujo, im riba dos lençor branquinho das cama?
— Ô padim... inveiz d’eu saí lá no escuro, será qu’eu posso pegá imprestada lá na dispensa, a bacia das muié?
— Uai Quinca! Cum pôco ocê tá pensano qui ieu sô homi de lavá meus pé na bacia de muié tomá banho de assento. Sô macho. Uai!
— Mais é qui... Mais ieu ...
— Ahh caboclin medroso! Seje homi uma veiz na vida. Marra essas carça e vai lá fora no escuro pegá a bacia, ieu tô mandano sô!

Muito obediente, mesmo apavorado, Quincas se benzeu fazendo o Sinal da Cruz e saiu para cumprir a ordem do padrinho.

Quincas já com a bacia na mão, caminhava apressado rumo à casa quando viu uma criatura vestindo lençol branco e abrindo os braços dizendo:
— Joaquimmmm...Ô Joaquimmm... Ieu vim busca ocê....Bamu cumigo pru outro mundo, Joaquimmmm...

O rapaz em estado de choque, molhando as botinas, teve uma ação inesperada... Com a pesada bacia de cobre nas mãos, reuniu todas as forças e deu uma baciada na cabeça do fantasma dizendo:
— Ieu mato ocê di novo trem ruim! Mais fique sabeno qui num vô pru otro mundo cocê, coisa nenhuma!

Com o susto do inesperado ataque, o fantasma correu e sumiu na escuridão. O Quincas ainda tremendo, catou a bacia no chão indo em direção à porta da cozinha. Ao entrar, colocou a bacia nas mãos do padrinho e perguntou na maior inocência.
— Padim du céu! Minha Nossinhora! Tá iscorreno um tantão de sangue na cara du sinhô, o quê qui foi isso? Credo in cruiz!
— Num foi nada Quinca! Num foi nada! Ieu é qui tava mei cuchilano e rumei ca minha testa na porta.


Texto de Maria Mineira - Fotografia de Arnaldo Silva

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