quarta-feira, 30 de maio de 2018

Em berços de cuité...

Compartilhe:

Por Múcio Furtado*
Pois é...Minas tem dessas coisas, esses trens que marcam a vida da gente... lá nas Minas Gerais tem muita pinga, é verdade... mas tem “pingo” também... sim senhor, “pingo” ! 

Desses que gotejam, por desconcertantes, minuciosas eternidades... pois que esses recônditos mineiros guardam suas magias, quebrantos e encantos... embutidos em alquimias quase medievais e insondáveis segredos coloniais... pois é, foi alí mesmo que nasceu, sabe-se lá como, o impenetrável “pingo”, aconchegado em seu berço de cuité... embalado por sinfonias de ocultas cascatas na portentosa serra da Canastra... enfeitado com sempre-vivas nas altitudes do Serro, alí pelos costados de Diamantina, onde mais de um bandeirante, entre delírios de turmalinas, se perdeu... velado na serra do Salitre por queijeiros de fala mansa e olhar enviesado.... 

Gota a gota, nas frescas, silenciosas madrugadas do verão ou no frio do úmido inverno mineiro, lá vem deslizando o “pingo”... pachorrento, suave... escapando lentamente de cada queijo em abundancia de fermentação por sabe Deus que micróbios estranhos... 

Tímidos uns , ousados outros... mas astutos, matutos todos, em sua microscópica mineirice...! 

Nas profundezas do cristalino fluido, embriagados em seus desarvorados festins de carboidratos, azedos e rabugentos lactobacilos se dividem em eterno desdém...enquanto que roliços lactococos espreitam, ciosos e ansiosos, distraídos dissacarídeos em fugaz transição molecular...e é assim, gente minha, que o “pingo” antes verdoso, cheiroso e doce, agora multiplicado, cindido e povoado, se apresenta em roupagens de alta acidez e deprimentes pH`s... 

Levado pelas sagradas mãos de ressabiados queijeiros, com suas manhas e caprichos de perdidas gerações, lá vai o garboso “pingo” inundar de colonias globais o fresco leite das manhãs mineiras... 

Na vetusta bancada , talhada no melhor jacarandá das matas de outrora, repousam singelas formas, benzidas em misteriosas rezas por sisudos reverendos com suas emboloradas batinas de antanho...

Nelas, o sal cristalino e grosso abençoa o novo queijo , alvo em seus frescores de inocência... e dele segue gotejante, jacarandá afora, o “pingo”, em sua perene ciranda de nascer, fermentar e renascer, rumo ao cuité de seus segredos...

*Múcio Furtado é mineiro natural de Carrancas MG e mora atualmente em Valinhos SP. Mestre Queijeiro, viaja o mundo dando palestras e ensinando a fazer queijo. Autor de 11 livros sobre Queijos, é PhD formado pela Michigan State University dos Estados Unidos.
A foto acima é também de autoria de Múcio Furtado,feita em Ibiá MG, Alto Paranaíba

Nenhum comentário:
Faça também comentários