sexta-feira, 18 de maio de 2018

Conheci Cosme e Damião

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Catas Altas é uma cidadezinha linda , situada a mais ou menos 40 km de BH. Charmosa , pacata e hospitaleira. Cercada por montanhas, cachoeiras e próxima ao Mosteiro do Caraça. O primeiro Neogótico do Brasil.

Cheguei na cidade, o sol estava no meio do céu, radiante, deixando ela, ainda mais bonita e detalhada, olhando as horas como antigamente poderia chutar, pela posição do sol, que beirava ás 13:00 e eu estava faminta , pra variar. A cidade é movimentada economicamente pela Vale do Rio Doce, parte de minério, logo é comum ver nas montanhas movimentações de pesados caminhos de extração, que ingenuamente pensei ser transportes que levavam as cachoeiras. (pobre coitada). Mas tudo bem, a trilha vale a caminhada .Com alguns dorflex na manga, tudo se resolve.

Após uma roncada instrumental na barriga, atinei em procurar um restaurante. O primeiro avistado nós encostamos. O espaço era da D° Reijane , acolhedor e simples . Das panelas saiam fumaça que cherirava a cidade toda , me fez lembrar do cheirinho da comida da vó . Minha boca salivava que quase escorria. Além da comida que cheirava o paraíso, o restaurante era detalhado em Ardósia, outra rocha de extração , fonte econômica e principal da minha cidade natal, Papagaios/MG . Isso me dava uma ponte para iniciar uma conversa com a D° Reijane.(um copo de água e um dedo de proza ,não se nega a ninguém) Sentei-me de frente a ela no balcão, me olhava sorridente e silenciosa, percebi que poderia ter observado meu monte Evereste no prato ou o quanto as garfadas espelhavam minha fome. Quase que os 12,00 de self service não cobria.
 Conversamos em torno de uma hora, contou-me sobre seu passado e seus planos pro futuro, tinha filhos que moravam longe e amava cozinhar. Relatei minhas viagens, mostrei algumas fotos e no final ela me deu um doce de leite , desses caseiros ,parecidos com o céu, no qual ainda hoje, recordo o gosto. 

Bucho cheio e já pensando no café da tarde , procuramos lugar onde hospedar ou acampar ;Felipe ,eu e Jaqueline , a minha Titan, 150, preta , Flex (saudades Jaque). Em Catas não há Camping , procuramos uma pousada , (que são caras por sinal) encontramos uma que pareceria ser de preço acéssivel , a julgar pela simplicidade da casa(são as melhores), porém ninguém nos atendeu. Ficamos parados na porta por volta de 30 minutos e ainda nada, a pousada estava aberta , entrei e bati palmas: "Ó de casa" sem resposta.

Foi então que eles apareceram.

Em frente a pousada que me fez esperar , menos que uma fila do SUS , mas, relativamente muito, tinha uma casa : sem muro ,com duas janelas de madeira que apontavam pra rua, de cor tom verde água , bem simples.

Já com aquela lombeira após almoço, eu pensei em tirar uma soneca por ali mesmo, na entrada da pousada fantasma. Foi então que o senhor da casa da frente ,na qual descrevi ,abriu a janela e gritou que ali não iria chegar alguém até a noite , a dona havia ido a outra cidade. Logo estranhei o fato da casa aberta, mas , percebi que nós é quem vivemos presos , maltratados pela criminalidade. Fiquei contente ao pensar na condição de viver com a casa, vida e mente abertas.

O senhor veio de encontro a nós:
-"prazer Cosme" - disse-me amistoso.
antes de me apresentar , respondi: - "cadê o Damião?"

rimos ..
- "está ali dentro"- falou pausando a risada, e acrescentou:
-"é meu irmão mais velho"

Curiosa pra ver de perto os irmão médicos , entramos e tomamos um cafézinho . Damião tinha alguns problemas de saúde e Cosme o zelava. Eram apenas os dois vivos da família , se viravam como podiam , mas não escondiam sorrisos, pois "um contava com a presença do outro. E isso bastava, sô", disse Damião, na primeira vez que falou.

Cosme, achou melhor e deixou que acampassemos no quintal coberto, onde havia um imenso pé de manga comum. Nos ajudou a montar a barraca , contava causos da vida dos dois, e curiosamente me perguntou se eu gostava daquela manga, ali daquele pé , perto da barraca. Eu concordei e disse, que apesar de quase todas estarem maduras eu gostava mesmo é daquelas verdes e, acrescentei que com sal ainda são mais gostosas. Só não tomava com leite porque não queria morrer cedo.

Rimos de novo ...

Encontrei em Cosme uma pessoa que gostava (mais do que eu) de um dedo de proza.

A noite chegava trazendo ventos frios na cidade quando resolvi dormir, não era tarde, mas, estava cansada de bater perna e precisava de uma boa noite de sono para seguir viagem no dia seguinte.

Dormi tão bem que parecia a minha própria casa.

Já de manhã, Cosme, foi até perto da barraca e nos chamou ;disse que sairia com Damião para a consulta rotineira ,que a casa estava trancada , mas a varanda dava acesso ao banheiro e tinha um café na mesa.

Nesse momento abri a barraca, agradeci com olhos honestos de gratidão por ter nos cedido o espaço e feliz por dentro, por ter os conhecido. Me retribuiu com sorriso e disse-me:
-"vorte quando quiser, a casa vai ta sempre aberta"

Olhando os dois caminharem rumo a porta de saída , imaginei o quanto importante foi aquele aprendizado , não só de humildade , como também de união e leveza de vida. Estava realizada.Nada pagaria aquela sensação.

Seguindo as instruções de Cosme, fui escovar os dentes e beber um cafezinho, aproximando da mesa meus olhos não acreditaram no que encontraram no centro dela:

Duas mangas verdes e ao lado delas um pequeno saleiro , que por si só dizia : 'coma com manga'.

Cosme lembrava da minha fala sobre a manga verde. Confesso que um cisco caiu no meu olho, diante desse gesto.

Fomos embora após o café , coloquei as mangas na mochila e um sorriso no rosto, nos olhos levei a beleza da cidade , mas no coração, levei o prazer e a sorte de ter conhecido esses dois irmãos: o Cosme e o Damião.

(OBS: não consegui tirar uma foto deles ou com eles, pois, eram tímidos demais pra permitirem)

Texto de Suelen Rezende - https://www.facebook.com/susu.rezende.9

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