domingo, 22 de abril de 2018

Nó em goteira


Quando eu era criança, vovô Joãozinho me dizia sempre que eu sabia dar nó em goteira e esconder as pontas. Eu perguntava o que significava e ele ria...

Certa vez, vovô contou-me que ao vir da roça, onde passou o dia capinando, viu uma tamanduá-bandeira com seu filhote nas costas. Certamente seu ninho ficava no bambuzal perto do rio.

Bastou isso! Logo comecei a imaginar um tamanduazinho de estimação, bem ali, brincando com os meus cães e gatos. Dormindo todos juntos debaixo do fogão a lenha, no meio das palhas. Seria incrível, então aticei a turma!
— O qui ocêis acha de nóis pegá um fiotim de tamanduá prá nóis? — falei entusiasmada para as outras crianças.
— Bão dimais! Ninguém aqui na roça tem tamanduá em casa.
— Vai vim gente da cidade só pá vê!
— A vó Geralda vai gosta dimais! Ele pode cumê as furmiga qui corta as rosêra!

Aprontamos tudo às escondidas e saímos cedinho, andando pasto afora em direção à moita de bambu. Dois irmãos menores, uma prima, o filho de um vizinho e eu. Todos com menos de dez anos.

O sol já estava quente, quando paramos para merendar sentados à sombra de um jatobá. Mais uma hora de caminhada e avistamos o provável local do ninho.

Era um lugar muito bonito. O barulho da água corria tranquila sobre as pedrinhas claras. O sol dourava as folhas do bambuzal que se esparramavam no chão. Como era gostoso pisar e andar ali!

Procuramos em todas as moitas de bambu, nos cupins e nas árvores ocas. De repente um dos meninos gritou:
— Achei! Vem todo mundo vê! É uma fofura de fiote!

Sendo a mais velha, o filhote era meu por direto. Peguei o animalzinho no colo como se fosse de pelúcia. Todos queríamos brincar com o bichinho, por isso, nem notamos quando uma enorme tamanduá, certamente a mãe dele, descia o morro enfurecida. Vinha em nossa direção.

Sem saber o que fazer, ficamos todos parados ali no mato, feito cupins. Num piscar de olhos, meu avô que nos procurava desde cedo, chegou e rapidamente levantou os dois netos menores nos braços. Ele colocou o filhote no chão e nos mandou correr, pois sabia que a mãe do nosso “brinquedo”, se aproximando com as garras afiadas para nos atacar!

Acho que nunca vi o vovô tão assustado e nunca ouvi dele um sermão tão comprido que nem o daquele dia. No final ele me olhou e disse:
— Dona Maria do Carmo, ainda vem me perguntar o que é dar nó em goteira?

Texto da Escritora Maria Mineira de São Roque de Minas
Fotografia de Arnaldo Silva, de Bom Despacho MG

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