quarta-feira, 18 de abril de 2018

Andanças por Minas


Não, não dá pra viver em Minas sem viver suas belezas. Fui passear por aí, desfrutar mais um pouco da deliciosa mineiridade de ser Minas e de Minas. O simples passar pelas estradas já é uma fascinante viagem. Pelos vidros do carro ir acompanhando o desfile de árvores, morros, vales, manchas minúsculas de animais a se espalharem pelas pastagens... Vislumbrar ao longe as entradas e porteiras, apreciar as casinhas brancas e deixar a imaginação entrar porta adentro, tentando adivinhar como vivem os que ali habitam. Pensar seus costumes, visualizá-los em seus afazeres domésticos, sentir o cheiro de suas cozinhas na fumaça exalada de suas panelas, no trepidar da lenha nos fogões. 

O olho é lente o tempo inteiro. Corre de um lado pro outro absorvendo avidamente todos os detalhes. E são tantos! Coisa que me dá prazer é a passagem pelas pequenas cidades mineiras, com seus traçados pitorescos, suas pracinhas, igrejas e coretos. Os bancos à sombra, as pessoas por ali sentadas distraídas numa boa prosa, falando sobre qualquer coisa. De que tratam no meio da tarde estes senhores de chapéus e rostos com sinais de muita vivência? Provavelmente falam do que já viveram, de tempos que já se foram... Com certeza, alguma saudade grassa por ali em meio às conversas, em tempos que já não dialogam com traços do passado... Fascinante os falares das praças, o eco dos dias idos. Minas tem disso, tem muito disso.

Passadas as cidadezinhas, as vilas e povoados alço olhares para o destino que me traz: as serras e seus mistérios. Vou conhecer o convento do Caraça, incrustrado na Serra do mesmo nome, em Catas Altas. Altamente suspeita sou eu para falar do assunto, pois a História me toca, revolve cada célula que me compõe. Tenho certeza de que o passado mora em mim, literalmente. Silêncio, recolhimento, a presença quase palpável dos dias idos é algo inenarrável. Não há palavras que definam a sensação de voltar duzentos anos no tempo. É algo que só vivenciando se tem a dimensão exata. O mosteiro com suas ruínas, sua arte sacra, seus jardins, seus complexos ambientais é um grandioso patrimônio histórico e cultural que fala grandiosamente por Minas.

Seguindo caminho, Minas agora é Mariana. Estar na Praça Minas Gerais é voltar num tempo que ficou na História, mas permanece vivo em suas igrejas, no pelourinho, na casa da câmara,marcando o surgimento da primeira cidade e primeira capital do Brasil. A Rua Direita, com seu casario antigo, lugar que encanta com seus solares e sobrados, testemunhando a época dourada dos barões, nos áureos tempos da mineração. E aí a imaginação, amparada pelos fatos históricos, não tem freio nem limites. É possível se adentrar cada porta daqueles casarões, sentar nas cadeiras de palhinha tomando chá com as elegantes senhoras da época em seus magníficos serviços de porcelana importada da Europa.

Mas, indescritível mesmo é me deparar com uma portinhola azul,na mesma Rua Direita, e descobrir o nome de seu ilustre morador “Alphonsus de Guimaraens”. Dá vontade de recitar “Ismália”e é isso que faço. Em frente à porta, recito sem constrangimento,o poema mais conhecido deste consagrado poeta mineiro. Tomara que ele esteja vendo de algum lugar e saiba que seus versos o imortalizaram... Ah, Minas, Minas e seus encantos. De Mariana para Ouro Preto... Mas, daí já é outra viagem e já foi contada uma primeira vez.


Por Marina Alves, escritora em Lagoa da Prata MG
Na imagem acima o sobrado que foi residência do poeta, escritor e juiz Alphonsus de Guimaraens, que lá viveu de 1913 a 1921.  Localizado na Rua Direita, 35 – Mariana – MG.

4 comentários:
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  1. Parabéns pelo magnífico texto. Deu-me uma imensa vontade de voltar a caminhar pelas ruas de Minas e de conversar com sua gente.

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  2. Um prazer enorme ler a Poeta e Escritora Marina Alves, é como se ainda estivesse vivendo no lugar!

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