sábado, 17 de março de 2018

O Benzedor da Canastra

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Na roça, a maioria dos problemas de saúde era tratada com uma benzição, único recurso na hora do aperto. Ainda mais nos meados do século passado.
— Ô de casa!
— Quem é que tá aí?
— É ieu, Sô Juca. O Bastião da Tude.
— O qui ocê qué, Bastião?
— O Sô Pedo mandô ieu vim aqui chamá o sinhô, pá mode benzê o boi zebu. Aquele boizão de raça qui ele comprô lá no "Beraba", mêis passado. É qui ele foi ofindido de cobra cascaver. Tá lá morre num morre!
— Ô Bastião, ieu já falei procêis tudo qui num vô benzê mais nada, Uai! Nem gente e nem criação!
— Mais... Mais... Sô Juca... O boi vai morrê! Qui nem a vaca do sô Onofre que comeu erva venenosa e o sinhô num benzeu..
— Óia aqui Bastião, pru minha conta podexá morrê tudo! Ieu num quero sabê de prosa. Intão cê acha que ieu num mi alembro docêis tudo caçoano de ieu? Acha qu'eu isquici daquele dia lá na cumade Fia? Ocê memo foi um dos que ficaro mostrano as canjica e rolano de ri.

Sô Juca era estimado por todos ali da região, mas depois de certo acontecimento andava meio jururu. Passava o tempo com o Rosário nas mãos. Era visto diariamente montado no pangaré. Ia pela estrada afora contemplando os mistérios do Santo Rosário. Fazia isso de modo automático e nem percebia quando dava com o terço no lombo do cavalo e praguejando tentava apressar-lhe o passo:

— Diaxo de cavalo lerdo, sô!

Na região da Serra da Canastra, aos domingos, era costume o povo todo se reunir para rezar junto agradecendo as bênçãos e pedindo graças. Sô Juca era o rezador oficial das novenas. Naquele domingo a reza seria na casa de dona Maria Aparecida, mais conhecida como “Cumade Fia”. .

Dona Fia andava aperreada... Ela tinha uma mulinha de estimação que atendia pelo nome de Pomba, tal nome era devido a ela ser dócil e serena feito uma ave. O problema é que a mulinha em questão, fora infectada por uma doença que a deixara totalmente sem os pelos do lombo.

Povo concentrado, vela acesa no altar improvisado ali na sala. Olhares reverentes, terços em punho. Já iam caminhando para os finalmente, quando chegou a hora do oferecimento do terço. A hora dos pedidos de graças ao santo protetor de cada fiel. E como era costume nessa hora, Sô Juca invocava o santo e bradava em alto e bom som:

— Bamu rezá um padre-nosso pá mode sará o rematismo da cumade Chica.

E o povo respondia:

—Amém!
— Bamu rezá pru minino do cumpade Oripe que ta cum vento virado e lumbriga!
— Amém
— Bamu rezá pru Zequinha do cumpadi Onóro, qui istrepô o pé no arame farpado!
— Amém!
— Bamu rezá pá sará a manquera no cavalo do cumpadi Arfredo!
— Amém!
— Bamu rezá pá mode ispantá as cobra venenosa de nossos terrero!
— Amém!

E assim foi por mais uma dezena de intenções. Finalmente chegou a hora de rezar atendendo ao pedido da dona da casa. Sô Juca na sua santa inocência com o olhar piedoso disse aumentando a voz:

— Minha gente, agora pá terminá, bamu rezá um crendouspai com munta fé. Nóis tudo bamu pidi ao santo protetô, pá mode ele sará a Pomba da cumade Fia e fazê ela incabelá travêiiz...

Nessa hora o trem danou-se. A palavra dita não volta atrás. Bem que alguns tentaram segurar o riso que sufocava.

A Comadre Fia ficou corada feito pimenta madura e saiu correndo da sala...

Por Maria Mineira
*Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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