quarta-feira, 21 de março de 2018

A Sinhá Braba

Compartilhe:

Pompéu, uma simpática cidade cravada próximo ao centro geográfico de Minas Gerais, cuja história começa com a chegada do paulista Antônio Pompéu Taques, em uma sesmaria onde se instalou e formou uma fazenda que ficou conhecida pelo nome de Pompéu, hoje um próspero município de agropecuária e pólo alcooleiro situado nos chapadões do alto São Francisco. Como atrativos naturais, a cidade apresenta a montanha da Serpente, a gruta das Orquídeas, com antigas inscrições nas pedras, e a represa de Três Marias, formada pelo rio São Francisco.

Eu conheci a cidade porque ficava no meu caminho para o norte de Minas onde tive uma propriedade rural. Às vezes pernoitava por ali, mais para conversar com as pessoas do local e ouvir suas histórias, principalmente das bravuras de seus antepassados e também para saborear uma cachaça local conhecida como Cabaceiras, esta eu garanto que nada fica a dever às boas de Salinas (Java, Meia Lua), porém muito falsificada, precisa conhecer a fonte.


Terra de povo bravo, como eles se autodenominam, Diz até que havia dois times de futebol no município, mas o delegado nunca permitiu que um jogasse contra o outro, somente contra times de fora.

Terra de Joaquina do Pompéu, figura histórica de matriarca de toda uma vastidão do Oeste mineiro.

Sua história é contada em duas consagradas obras literárias de grande valia: “Dama do Sertão” de Antônio Campos Guimarães e “ Sinhá Braba , Dª Joaquina do Pompéu ” de Agripa Vasconcelos.

Dr. Jorge de Abreu Castelo Branco , pai de Dª. Joaquina , nasceu em 1713 em Viseu , Portugal , formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, destinara-se à Igreja católica como padre, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Recebera ordens sacerdotais menores , das mãos de Dom Frei Manoel de Jesus e Maria , Bispo de Nanquim . Dedicando - se à carreira Eclesiástica veio tentar a vida no Brasil em 1747, residindo em Mariana/MG.

Abandonou os estudos para Padre e formou em Advocacia, casou em 20 de fevereiro de 1748, com Jacinta Tereza da Silva, nascida em Salvador na Ilha do Faial. O casamento foi realizado na localidade de Santo Antônio do Bacalhau/Bahia, na Igreja de Nossa Senhora de Guarapiranga.

O casal teve, além de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco, outros oito filhos.

Em 28 de março de 1762 Jacinta Tereza da Silva veio a falecer, o Dr. Jorge ficando viuvo , resolveu completar sua ordenação para padre , em menos de seis meses , já estava ordenado a presbítero . Exercendo sua profissão de advogado foi vítima de fofocas em Mariana e se mudou para Pitangui.


Joaquina nasceu no dia 20 de agosto de 1752 à meia-noite, em 3 de setembro do mesmo ano Joaquina foi batizada. Casou-se aos 12 anos de idade com o Capitão Inácio de Oliveira Campos, em 1764.
Já nesse período se revelam as primeiras expressões de um temperamento forte, arrebatado e independente. Embora, aos onze anos, estivesse apaixonada por Inácio, se vê obrigada, como era costume na época, a ficar noiva, por imposição do pai, de um homem do qual não gostava, o comerciante Manuel de Sousa e Oliveira. No dia do noivado, no entanto, recusou-se a um brinde com o “prometido”. Para espanto dos presentes, aproximou seu copo do copo do capitão de milícias, que comparecera à festa, e disse em alto e bom som: “Não é para beber a saúde do noivo escolhido? Pois eu bebo a saúde de meu noivo, capitão-mor Inácio de Oliveira Campos”. A atitude de Joaquina quase resultou num duelo entre Inácio e o noivo ultrajado, que acabou demovido da ideia.

Apesar dos protestos paternos, Joaquina e Inácio acabaram se casando, em 20 de agosto de 1764. Ela com 12 anos, e ele 30. O casal mudou-se para uma pequena propriedade nos arredores de Pitangui: a Fazenda Lavapés. Conta-se que Joaquina se mostrou uma esposa trabalhadeira, sempre disposta a encarar a lida da fazenda. Em 1771 Inácio é designado para missões de apresamento de índios e negros fugidos nos sertões do oeste mineiro e recebe por isso, como recompensa, várias sesmarias que aumentam consideravelmente seu patrimônio. Com a morte de seu pai, em 1774, herda terras em Paracatu (região noroeste de Minas), e fica ainda mais rico. Como o capitão passava muitos meses fora de casa, a administração da Fazenda Lavapés ficava por conta de Joaquina, que se desincumbia com extrema competência da tarefa. Em 1784, o casal se muda para a Fazenda do Pompéu, localizada no centro-oeste de Minas, que pertenceu oficialmente a Manuel Gomes da Cruz até 1792.

Nesse tempo Dª Joaquina já tinha vários filhos; Félix de Oliveira Campos , que estava com 15 anos de idade quando Dª Joaquina foi para o arraial do “Inficionado” ( atual cidade de Santa Rita do Durão ) para passar a escritura da fazenda.

A “ Fazenda do Pompéu ” como era chamada naquele tempo, tinha: 40 cavalos, 40 escravos, 9.000 cabeças de gado, 3.000 éguas e 16 mulas de tropa. 

Naquele tempo a fazenda tinha um pequeno sobrado, já em ruínas . Nossa matriarca ao perceber isto, resolveu então construir o seu solar (casarão ) contratando para a construção o mestre de obras , Tomé Dias ( sabe –se que o casarão tinha 79 quartos de dormir espalhados por dois andares . Infelizmente, aquela relíquia foi demolida a 26 de abril de 1954 por pessoas divorciadas da História).

Em sua consagrada obra “Dama do Sertão” Antônio Campos Guimarães repete textualmente as palavras de Dª Joaquina;
“Tomé: quero construir a quatrocentos metros do lado esquerdo do casarão, um cemitério com uma Capela e uma cruz de aroeira para a minha família ( cemitério dos brancos ). Do mesmo lado distante mil metros , um cemitério para os meus escravos ( cemitério dos negros ), cercado com lascas de aroeira, bem fundo, para que os tatus não comam os meus negros depois de mortos, e uma cruz do mesmo tamanho da cruz do cemitério da minha família”

Em 1804 o marido de Dª Joaquina veio a falecer, Inácio já se encontrava paralítico. A fazenda do Pompéu já de despontava como celeiro agrícola do país.

Em 1808 chega no Rio de Janeiro a Corte Portuguesa Fugidos de Portugal devido ao bloqueio de Napoleão Bonaparte à Península Ibérica. Recém chegados ao Brasil Dª Joaquina Ajudou a D. João VI , nutrindo a Corte Portuguesa que era composta por 17.000 nobres, mandou o boi em pé e todos os mantimentos necessários, principalmente gado e roupas pois no Rio de Janeiro não havia alimento nem moradia para toda esta gente, a Corte Portuguesa passava grandes necessidades . D. João vendo a generosidade de Dª Joaquina, deu como retribuição, um cacho de bananas todo folhado em ouro e Dª Joaquina deu a ele um ananás (abacaxi do mato ) todo de ouro maciço . (Aqui devo relatar que escutei uma versão, na cidade, de que recebera uma banana de ouro e devolvera um cacho de banana em ouro maciço).

Em 1822 Dª Joaquina ajudou também a D. Pedro I na Guerra da Independência , dando a ele gado para a alimentação das suas tropas . 

Em 7 de dezembro de 1824 com 72 anos de idade a nossa matriarca veio a falecer de pneumonia , deixando para seus herdeiros , um milhão de alqueires de terra , mais de 1.000 escravos , 53.932 reses de criar , 9.000 éguas e 2.411 juntas de boi , seu latifúndio está hoje dividido em cerca de 200 fazendas importantes . A fazenda de Dª Joaquina abrangia várias extensões sendo as cidades hoje : Abaeté , Dores do Indaiá , Paracatu , Pitangui , Pompéu , Pequi, Papagaios , Maravilhas e Martinho Campos.

Dª JOAQUINA representa a fibra das MULHERES MINEIRAS daquele tempo, MULHERES que sozinhas ou com seus maridos ajudaram na formação do ESTADO E DO PAÍS.
Algumas pessoas que conhecem a história de Dª Joaquina do Pompéu, dizem que ela era má, o que não é verdade, segundo Agripa Vasconcelos autor do livro “ Sinhá Braba , Dª Joaquina do Pompéu ” era uma mulher justa e caridosa, ao contrário de Maria Felisberta Alvarenga da Cunha ( Maria Tangará ) sua inimiga irreconciliável.

Agripa Vasconcelos diz em seu livro que Maria Tangará matou 60 escravos e mandou jogar seus corpos em uma cisterna a qual mandou entupir com terra onde plantou uma arvore . Verdade ou mentira?

Mas, segundo Gilberto Cézar de Noronha, professor de história da Faculdade do Alto São Francisco – FASF/LUZ e autor do livro Joaquina do Pompéu: Tramas de memórias e histórias nos sertões do São Francisco. Uberlândia: EDUFU, no prelo:

Este é um período bastante controverso da vida de Joaquina, sobretudo pelos seus negócios escusos que lhe renderam a fama de intransigente, violenta e desonesta: Referem-se a esse período as histórias, narradas ainda hoje, sobre suas práticas de roubo de gado e assassinato de boiadeiros, cujos corpos seriam enterrados embaixo de seu sobrado. Este, aliás, conhecido como o Solar de Joaquina do Pompéu, uma construção iniciada em 1785, era um casarão muito grande, de dois pavimentos divididos em 79 quartos, feito de esteio de aroeira em sistema de pau-a-pique, cujas ruínas se mantiveram de pé até 1954, quando foi demolido para a construção de uma rodovia. Os pontos controvertidos desse período são muitos: entre eles, a própria mudança do casal para Pompéu e a construção do imenso solar quando ainda não tinha a posse oficial da terra. A escritura da Fazenda do Pompéu é lavrada apenas em 1792, conforme registrado em uma ação de Antônio José de Faria movida contra Joaquina. O demandante acusava Joaquina de dar um golpe contra o antigo proprietário do Pompéu, aproveitando-se de sua idade avançada, comprando-lhe a terra por preço irrisório e, como se não bastasse, não lhe pagando tudo que devia. Uma série de cartas escritas entre 1792 e 1798 pelo próprio Manuel Gomes, endereçadas a Joaquina, hoje localizadas no Arquivo Público Mineiro, traz indícios de que ela atrasava o pagamento da dívida.

Em 1795, Inácio ficou paralítico e Joaquina assume os negócios e o controle do latifúndio. Com a morte do marido, nove anos depois, é que a grande proprietária, aos 52 anos, começa a construir, de fato, a sua fama. Desde então as versões sobre sua conduta moral e sexual são desencontradas. Alguns, como o poeta e jornalista Lindolfo Xavier, afirmam que a viúva todo-poderosa jamais pensou em casar de novo, mantendo-se “fiel à memória do marido, honrando-lhe o nome e as tradições”. Austera, portava-se como um verdadeiro comandante não poupando nem os dez filhos de sua disciplina quase militar. Mulher de grandes pudores, não se mostrava nua, no banho, nem para as escravas de confiança. Tratava e alimentava bem os escravos. Religiosa, caridosa com as causas da igreja católica, era respeitada até pelas autoridades reais.

Mas existe o “lado B” da viúva Joaquina do Pompéu, construído a partir dos pontos mais obscuros de sua vida e de sua condição de mulher, viúva, senhora de escravos que estava à frente dos negócios. Os que defendem sua memória dizem que tudo não passaria de “maledicência, lendas, coisas inventadas”, mas o fato é que algumas histórias que circulavam na época não lisonjeiam sua personalidade. Em vez de boa, seria muito cruel com os escravos. Em vez de honesta, era corrupta nos negócios. Pior do que tudo, pela ótica da sociedade colonial, tratava-se de uma mulher lasciva e mesmo “depravada”. Sua conduta escandalosa caiu em breve na boca do povo, que se encarregou de passar, de geração a geração, histórias que envolviam descomedimentos e sexo desregrado.

Uma delas é que gostava de recrutar negros escravos para o seu deleite erótico. Naquele tempo os senhores podiam até fazer isso, mas nunca as mulheres. Dizia-se que dava ordens para que se colocasse o amante eventual “de molho” numa banheira, durante dias, antes dos seus serviços sexuais, a fim de retirar-lhe o “bodum”. Alguém chegou a vê-la enlaçada com um escravo à margem do córrego das Areias, em plena luz do dia, num lugar onde havia um monjolo. Segundo as más línguas, a engenhoca, com suas batidas intercaladas e constantes, ditaria o ritmo da cópula, enquanto transformava o milho em fubá. Ainda hoje, as pessoas da região contam risonhamente esta história concluindo quase sempre com uma frase inusitada: “Era uma pancada de lá e outra de cá! Na beira do corgo, êta mulher safada, Sô!”.
Fora esse lado mais obscuro, Joaquina foi – isto comprovadamente – anfitriã de viajantes estrangeiros que estiveram aqui a serviço do rei de Portugal e recebeu no seu solar os alemães Eschwege e Freyreiss, respectivamente em 1811 e 1813. Participou também, indiretamente, da Independência do Brasil, em 1822, enviando bois para as tropas de D.Pedro, na Bahia. Por sua influência política, embora “não tivesse exercido cargo eletivo”, é constantemente evocada como matriz de uma elite política regional mineira.

- Uma história interessante que ouvi em uma das minhas paradas, foi que uma de suas filhas reclamou que seu marido a estava traindo com várias mulheres. Joaquina mandou chamar dois dos seus melhores peões que cuidavam das castrações dos garrotes e ordenou que castrassem seu genro sem que corresse uma única gota de sangue. Assim foi feito.

Quando morreu, tinha 74 netos e 15 bisnetos (sua descendência direta está hoje entre 37 a 40 mil pessoas). Do seu testamento constavam 11 fazendas, 40 mil cabeças de gado e algumas centenas de escravos, fora baixelas de prata e bandejas e barras de ouro, entre outros tesouros. Mas talvez sua grande herança seja justamente a imagem múltipla que deixou: “sinhá braba” ou “dama do sertão”? É esta que até hoje povoa a imaginação da posteridade.

O barão e as más línguas
Quando fazia um levantamento das riquezas minerais do Alto São Francisco, a serviço do rei de Portugal, Wilhelm Ludwig Von Eschwege (1777-1885), o barão de Eschwege, hospedou-se no solar de Joaquina do Pompéu. Os resultados da viagem foram apresentados no livro Pluto brasilienses, escrito por volta de 1821 e publicado, pela primeira vez, em 1833, em Berlim. Na obra, o autor narra a chegada à Fazenda do Pompéu, registrando a sua surpresa com o tamanho da propriedade, que descreve como tendo pelo menos 150 léguas quadradas. Ficou também bem impressionado com a hospitalidade de Joaquina e a assistência por ela oferecida. Sua comitiva ficou ali abrigada por vários dias, munindo-se de víveres necessários à retomada da viagem em direção aos rios Indaiá e Abaeté. O barão registra, em nota de rodapé, seu agradecimento especial a Joaquina e procura esclarecer um boato que surgiu a respeito do mineralogista e da hospitaleira fazendeira: um suposto envolvimento amoroso seguido de um presente de mil bois oferecidos a ele por Joaquina. Segundo o próprio Eschwege, suas constantes hospedagens, “às vezes por semanas”, na casa de Joaquina, deram origem a “boatos que correm a meu respeito espalhados por alguns viajantes e subscritos por outros”. Para o viajante, entre os que poderiam ter contribuído para fazer circular a intriga estaria outro alemão, de nome Werner, que também se hospedou no solar. Mas talvez Eschwege estivesse mais próximo da verdade caso suas suspeitas recaíssem sobre os próprios moradores da região. Era a população do oeste mineiro que, em geral, espalhava aqueles comentários “maliciosos”, como, aliás, ocorre ainda hoje.

Nenhum comentário:
Faça também comentários