domingo, 11 de fevereiro de 2018

Viagem para a Morte

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A lida na fazenda Serra Verde começava ainda na madrugada. Nem bem a aurora despontava, o patrão, Lourenço Junqueira, já comandava a peonada, deliberando tarefas e ditando ordens a torto e a direito. Homem diligente e severo, não tolerava corpo mole, nem camarada dado a muita conversa em seus serviços. Gostava mesmo era de ver as coisas andando e sua gente azafamada correndo de um lado para outro, acudindo as urgências que a grande fazenda demandava. 

Naquela sexta-feira, já aos primeiros clarões da alvorada, o fazendeiro montado em seu cavalo baio parou em frente à estalagem, ao lado do paiol onde pernoitavam os agregados da fazenda.
— Jacinto! chamou em altos brados. A hora já vai adiantada, homem!

Foi o tempo de molhar a cara no terreiro; vestir as roupas de serviço; pegar o chapéu na cabeceira do catre e o homem se abalou porta afora em direção à cozinha da casa grande. Tereza já tinha prontos, o café amargo e uma generosa cuia de farofa de miúdos de porco. Sentou-se no comprido banco de tábuas junto aos companheiros:
— Pra onde o carro vai hoje? perguntou Cornélio, ali do lado.
— Lá pro Cedrinho, respondeu Jacinto, enxugando a boca com o dorso da mão. Vão encher silo essa semana. Levo milho pra forragem.

Assim que acabou de engolir a refeição, o rapaz seguiu para o curral. Atrelou as juntas de bois ao carro, prendeu a esteira de taquara trançada entre os fueiros, que a carga de milho precisava estar bem acomodada. Enquanto alguns peões transportavam os balaios de espigas do paiol, ele ia untando os eixos das rodas, pois as estradas lá pras bandas da fazenda Cedrinho estavam que era poeira só.

Tudo pronto para a partida, o carreiro pegou o farnel provido de arroz, feijão preto, farofa e banana e ainda, a cabaça d’água com a caneca na boca, que Tereza lhe arranjara. Tinha pela frente boas léguas de estrada e o sol naqueles meados de março era de doer nos olhos e curtir o couro. Se tudo corresse nos conformes ia avistar a casa de Honório Albuquerque lá pelo meio da tarde.

Quando o carro de boi subiu morosamente as encostas do morro, os primeiros raios do sol já espalhavam fogo sobre os roçados de milho que se estendiam a perder de vista. Aquele ia ser um dia de matar. A quentura das primeiras horas já se fazia sentir. O que ajudava era que os bois estavam, já de véspera, bem descansados.

Enquanto as rodas do carro iam rangendo ao peso do carregamento, Jacinto, brandindo a vara de ferrão na ponta, dava voz de comando aos animais gritando seus nomes, mais por costume que por necessidade. Há anos naquela lida, os bichos na mansidão que Deus lhes dera, e na rotina do longo tempo de carretos, não lhe custavam qualquer trabalho. Era pôr o carro pra rodar e deixar as juntas seguirem.

Olhando a estrada sem fim, o rapaz, que ia completar trinta anos nos fins de dezembro, lembrava-se de quando fora parar ali na Serra Verde. Começara bem novinho, como guia, ajudando o pai, carreiro antigo e afamado de quem, mais tarde tomou a função, pois acabara tomando gosto pelo trabalho.


Na confiança de Seu Lourenço, Jacinto carreava de um lado pro outro a semana inteira. Ia ao povoado buscar mercadorias que chegavam pelo trem da Capital; levava provisões da fazenda para embarque; transportava toda sorte de cargas; e pelos agrados que deixava por onde andava, era muito conhecido e estimado em toda a região.

Conforme os planos, pelo meio da tarde, o moço entrou com o carro de boi pela porteira do Cedrinho. Enquanto descarregavam o milho, ele sentou-se à sombra de uma bananeira; serviu-se da marmita; de uma boa caneca d’água e estirou-se no chão com o chapéu cobrindo a cara. Embora tivesse pressa em retornar a Serra Verde, era preciso dar descanso aos bois, pois os pobres ainda resfolegavam pela exaustão sob o sol escaldante. Enquanto os bichos tomavam fôlego ali pelos pastos, o carreiro tirou também o seu cochilo.

O sol já despencava no poente quando o carro de boi, agora vazio e aliviado, atravessou os limites das terras do Cedrinho. Jacinto tinha consigo, como sempre ao final de uma tarefa, o sossego do dever cumprido. Só uma coisa lhe atazanava as ideias. Uma bobagem que sempre o inquietava: tinha receio da noite naquelas estradas ermas! Desde menino não conseguira se livrar da estranha sensação que a lúgubre solidão noturna dos caminhos lhe provocava. Seria medo? Achava que sim. Quando pequeno, ouvindo as estórias macabras contadas pelos peões à roda das fogueiras, não conseguia evitar o pavor diante daqueles casos que mexiam com sua imaginação.

Agora, a caminho da Serra Verde ele pensava na noite que se avizinhava. Lembrou-se de que era Quaresma. Tinha cisma daquele tempo, pois o povo contava que era a época em que as forças do mal andavam à solta. Eram de arrepiar os cabelos e provocar calafrios, os fatos que davam por acontecidos ali pelos matos, caminhos e beiras de córregos das fazendas circunvizinhas!

E o que o perturbava ainda mais naquela hora, era a lembrança da folhinha Mariana pregada atrás da porta de seu quartinho que anunciava para aquela sexta-feira a chegada da lua cheia. Ele sabia que a visão da imensa forma redonda e mansa surgindo detrás do horizonte negro, sugeria um cenário pra assombração nenhuma botar defeito! Ele que se aguentasse firme ali no comando dos bois e que Deus o protegesse.

Para afastar os maus pensamentos, o carreiro pensou em algo que muitas vezes vira o pai fazer. Buscou na memória antigas modas de viola e pôs-se a cantarolar. Se estas pouco valiam para afastar os maus agouros, pelo menos não ouviria o pio melancólico das aves que chegavam com o entardecer. Sem os raios do sol que já se fora, a paisagem agora ganhava uma nova roupagem. E súbito, sem mais rodeios, a noite se fechou num completo breu.

Sentado à cabeceira do carro, Jacinto só enxergava o contorno dos bois no meio do escuro. Presas às cangas, as parelhas seguiam num cortejo lento e ritmado ao embalo das canções entoadas pelo moço. Tentando se distrair, o carreiro não despregava os olhos dos animais que, em movimento, lhe davam certo alento. Eram o único sinal de vida pulsante ali no deserto da estrada solitária.

De repente, o clarão fatídico se fez anunciar. Rasgando as trevas, o olho de prata foi surgindo devagar na linha do horizonte: era a lua cheia que derramava sobre os pastos o feitiço de sua láctea brancura. O coração de Jacinto se fechou num aperto dolorido. Tentou se concentrar na melodia dos tempos de infância. Havia ainda muito caminho pela frente e não podia deixar-se levar pelos efeitos da bandida que já boiava no céu, engolindo o escuro das grotas, invadindo cada canto de cerrado!

Foi na passagem da curva do pé de lobeira que o carreiro sentiu o resvalo do carro de boi. Algo assim como se as rodas estivessem emperradas ou travadas em algum buraco. De imediato, sentiu a alteração no ritmo dos bois que ganharam um andar dificultoso e arrastado, como se o carro estivesse carregado e insuportavelmente pesado. Jacinto sentiu-se gelar e interrompeu bruscamente a cantoria em que vinha. O que sucedia aos bois? E aquele carro que parecia quase parar e pesava como chumbo? Que danação era aquela?!

Súbito, o rapaz sentiu uma sensação esquisita ao mesmo tempo em que uma lufada de ar lhe atingia as costas. Virou-se e, então à luz da lua, deu com o horrendo bicho encostado à esteira na traseira do carro. Tinha uma aparência apavorante que o fez estremecer por inteiro. Sustentada sobre dois pés, a inusitada fera tinha o corpo coberto por longos pelos escuros e, das mãos exageradamente grandes, pendiam-lhe afiadas garras. A macabra figura de faces rugosas e cor pardacenta, ostentava uma espécie de sorriso sinistro com enormes dentes pontiagudos. No lugar dos olhos, dois orifícios redondos e vermelhos faiscavam feito brasas acesas! Por fim, duas orelhas eretas e pontudas encimavam a enorme cabeça.

Paralisado de pavor e completamente estarrecido diante da inesperada visagem, o carreiro sentiu o corpo percorrido por uma onda de arrepios gelados. Seus pelos se eriçaram e uma forte sensação de asfixia, como se uma mão invisível lhe apertasse a garganta, impedia-o de respirar. Queria gritar, mas nenhum som lhe saía da boca ressequida pelo medo. Ainda tentou impelir os bois com a vara de ferrão, numa tentativa de fazê-los disparar e assim afugentar a medonha aparição. Mas, domados por uma força sobrenatural os animais não arredavam do lugar!

Então, cheio de horror, Jacinto viu o repugnante monstrengo volver seus olhos lampejantes em direção à lua e soltar um longo e lamentoso uivo que se espalhou mato afora. O moço não teve tempo sequer de elevar a Deus uma última prece, pois o hediondo bicho já avançava para ele, com toda a ferocidade de suas enormes garras e presas, pronto para o ataque.

Ao amanhecer o dia, seguindo a força do hábito – ou o instinto natural, quem sabe? — os bois foram encontrados arrastando o carro vazio. Mas, do carreiro... Nunca mais se teve qualquer notícia!


Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (Imagem meramente ilustrativa. Pintura do artista plástico Alfredo Vieira) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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