domingo, 11 de fevereiro de 2018

Valsa Macabra

Desde pequena, Valquíria fora daquele jeito: uma menina petulante, rebelde, cheia de vontades. De um número de quatro irmãos, ela era a caçula. E agora que completara dezessete anos, se tornava cada vez mais intolerável!

Os pais, vindos de famílias conservadoras, eram pessoas extremamente religiosas e viviam para o trabalho nas obras da igreja, na prática da caridade e no cumprimento de preceitos que agradassem a Deus.

Tomé e Mariana, completamente frustrados, com frequência se perguntavam onde haviam errado com aquela filha. Era tão diferente dos outros irmãos! Será que viera ao mundo como uma provação, um desafio à fé que professavam?

De fato, o temperamento da moça era de enlouquecer qualquer um. Parecia viver para ser do contra e implicar com tudo e com todos. E se lhe diziam estar errada, aí sim, é que perdia mesmo as estribeiras. Gritava, esmurrava móveis e paredes, batia portas, aprontava horrores.

Valquíria era assim, uma criatura que se achava acima do bem e do mal e pouco lhe importava se vivia causando desgostos à sua volta. Porém, algo ninguém poderia negar a seu respeito. Era linda! De uma beleza que impressionava à primeira vista: rosto ovalado, pele clara, cabelos em densos cachos ruivos e ferinos olhos verdes que a um só tempo fascinavam e intimidavam.

Quando se tornou mocinha, os conflitos em casa aumentaram. Os pais não concordavam que já quisesse sair sozinha. Achavam que era muito jovem, quase uma menina ainda! Mas ela retrucava, despejando sua ira:
— Não sou uma prisioneira, quero ir às festas, ao clube, aos bailes! Não vou ficar em casa mofando feito uma solteirona.

Os gritos reverberavam pela casa e o estrondo das portas batendo chegavam à vizinhança que, abismada, sugeria aos pais mais limites para aquela garota. Como é que permitiam aquilo?!

Naquela noite de março, o pai sentiu que a casa viria abaixo quando ela chegou avisando que não iria perder o baile de máscaras promovido por uma famosa boate do centro da cidade. A festa era sensacional e nada a faria ficar em casa.

Porém, mesmo já antevendo a reação da filha, Tomé não desistiu.
— Hoje, não! gritou com firmeza. Você não vai de jeito nenhum!

Ela fixou nele seu olhar fuzilante que despendia chispas de raiva:
— E por que não? Posso saber?

Então, o pai tentou acalmar-se e explicou: não queria que fosse porque estavam numa Sexta-feira Santa. Naquele dia, era costume que a família ficasse em casa recolhida em oração. Afinal, recordava-se a paixão de Jesus Cristo, de quem eram seguidores em sua doutrina religiosa.

Valquíria olhou-o com desdém e ares de escárnio:
— Ah, era o que faltava! A família cisma com Deus e sou quem paga? Esqueçam, se pensam que vou entrar nessa.

A mãe, que chegara no momento, tentou intervir:
— Minha filha, seu pai tem toda razão. Será que deixar de ir a esse baile é um sacrifício tão grande assim? Sempre guardamos esse dia com respeito.

Mas a moça, indiferente aos apelos feitos, jogou os cabelos para trás, bateu a palma das mãos e decretou:
— Sinto muito, gente, mas já estou na boate. E mais, acrescentou, vou arranjar um namorado que me leve para o inferno, se quiser! Prefiro isso, a essa casa insuportável.

Pisando firme ela saiu da sala e foi para o quarto se arrumar. Os pais, completamente sem ação, ainda pensaram que talvez ela mudasse de ideia. Mas, não aconteceu. Depois de algum tempo eles a viram sair deslumbrante pela porta da frente, deixando para trás um rastro de perfume no ar. Estava belíssima com sua máscara de dama, luvas e saltos altos a caminho da festa.

Quando tomou o táxi na calçada, Valquíria já nem se lembrava mais da discussão em casa. Queria se divertir, valsar nos braços de um homem bonito e elegante que, depois de se apaixonar por ela, talvez a levasse para bem longe da vida que tinha.

Em frente ao prédio da boate ela saltou, atravessou a rua e subiu para o quinto andar. Quando entrou no recinto, a orquestra já tocava. Aos poucos as pessoas foram chegando e, espalhadas pelo ambiente, conversavam ou bebiam.

Depois de dançar um pouco, a moça admitiu para si mesma: o baile estava terrivelmente enfadonho. Olhou o relógio e viu que era exatamente meia-noite. Pensou em ir embora. E provavelmente teria mesmo ido se não tivesse avistado um homem elegante que acabara de cruzar a porta de entrada.

Olhou-o com interesse. Estava muito atraente em seu traje de cavalheiro. Terno escuro bem talhado e sapatos impecavelmente lustrados.

O rapaz encaminhou-se para o bar e pediu uma bebida. Sorvia a taça como se saboreasse cada gota nela contida e olhava ao redor.

Quando viu Valquíria junto à porta, foi até ela e tirou-a para dançar no exato momento em que começava a tocar uma valsa.

Virgílio, ele lhe disse, era seu nome. Valquíria, em êxtase, deixou-se levar pelo salão nos braços daquele cavalheiro tão gentil que lhe dirigia agradáveis galanteios. Ela pensava: seria aquele, o homem que estava procurando? Parecia sob encomenda para seu gosto exigente!

A noite toda, os dois estiveram juntinhos e somente quando anunciaram a última música se dispuseram a sair.
— Vamos passear um pouco pela cidade? propôs ele.

A moça achou que era uma boa ideia. Saíram para o estacionamento atrás da boate. Surpresa, ela viu quando o rapaz abriu a porta de um luxuosíssimo carro esporte vermelho, convidando-a a acomodar-se. Aquele automóvel, ela calculou, devia valer uma fortuna, só vira algo parecido em filme de TV.

Valquíria estava impressionada também com a corrente de ouro e o bracelete usados pelo rapaz. Tudo nele a seduzia: do sofisticado penteado ao perfume embriagante que usava. Devia ser muito rico! De onde surgira aquela figura? Só pensava que estava com uma tremenda sorte!

O automóvel deslizava pelas avenidas da cidade, ou melhor, parecia flutuar sobre o chão ao som de uma música suave e cristalina. Eles mantinham uma conversa trivial, mas na verdade, Valquíria estava muito mais interessada nos planos que tinha para os dois. Não iria deixar escapar facilmente aquele homem singular que lhe caíra nas mãos.

Depois de rodarem por várias horas, Virgílio estacionou numa plataforma. A vista era maravilhosa! A noite era escura e o mar refletia com um brilho fascinante as luzes noturnas. Foi então que ele ofereceu à moça uma pastilha com sabor delicioso. Tinha um gosto desconhecido que ela sabia com certeza nunca ter provado. Colocou-a na boca e deixou-a derreter-se aos pouquinhos.

Sem entender o que acontecia, Valquíria sentiu a cabeça girar. Foi ficando tonta, até que não viu mais nada. Quando despertou, já era dia alto! Procurou recordar os acontecimentos da noite passada e, aos poucos, foi se lembrando de tudo: do baile, do homem, do carro ali na plataforma, da pastilha... O que teria acontecido? Onde estaria o elegante cavalheiro com quem estivera?

Sentiu-se meio febril. Viu que estava só e seriamente resfriada. Achou melhor voltar para casa. Procurou pelos seus pertences e os encontrou todos em ordem na bolsinha de couro preto. Acenou para o primeiro táxi que passou na avenida à beira-mar e deu o endereço ao motorista. Ainda muito confusa, entrou em casa e evitou o olhar aflito dos pais parados no meio da sala.

Foi para o quarto e resolveu tomar um banho. Estava exausta e estranhamente trêmula. Entrou no banheiro e olhou-se no espelho. Foi então que viu a marca em seu pescoço. Aproximou-se mais da própria imagem refletida, pois não acreditava no que via.

Apavorada, Valquíria entrou em pânico quando entendeu do que se tratava aquele desenho em sua pele. Ali, na parte mais visível de seu pescoço, estava uma horrenda tatuagem que lhe provocava arrepios! Nitidamente, ela percebeu a figura macabra, de horripilantes chifres. Sabia muito bem quem era!

Completamente fora de si, a moça agarrou bucha e sabão e esfregou furiosamente o pescoço, mas foi inútil. O desenho escuro parecia irreversivelmente entranhado em sua pele. Tomada de terror, a garota caiu em si. Não sabia o que a horrorizava mais: saber que carregaria consigo para sempre aquela marca diabólica ou pensar que estivera a noite inteira nos braços de Satã...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (Imagem meramente ilustrativa. Pintura do artista plástico Rui de Paula) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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