sábado, 10 de fevereiro de 2018

Terror na Capela

Desde que enviuvara de Malvina, Venâncio vivia sozinho na fazenda Cruzeiro. Os três filhos, já casados e morando longe, pouco apareciam.

O imenso e imponente casarão quase não tinha suas amplas janelas abertas. O fazendeiro reservara para seu uso apenas o quarto de dormir, o cômodo de banho e a grande cozinha com fundos para o pomar, onde uma cozinheira vinha todos os dias preparar-lhe as refeições.

Venâncio e Malvina tinham se casado cedo. Casamento sem amor, arranjado pelo interesse das famílias. Logo após a cerimônia no povoado, os noivos, praticamente dois estranhos, partiram para o Cruzeiro que era onde viveriam dali por diante.

E foi ali, no imenso casarão de telhado vermelho e grandes porões, cercado de vastas paisagens para a criação de gado que, em poucos dias de convivência, Venâncio descobrira a serpente com quem tinha se casado! A mulher era um poço de maldade! Vivia enfezada, a gritar pelos cantos da casa e a pisotear quem lhe atravessasse pela frente. Não perdoava deslizes, não permitia intimidades e infringia castigos atrozes à criadagem se alguma coisinha não lhe agradasse.

Quando lhe nasceram os filhos, três crias do Diabo, como gostava de dizer, transferiu aos pobrezinhos todos os seus rancores. Surrava-os sem piedade, trancafiava-os a pão e água e, não fosse a interferência de Venâncio morreriam à míngua em cárcere na própria casa.

Era inclemente também com os viandantes e pedintes que, por vezes, apareciam pelos terreiros da casa a implorarem uma esmolinha por amor de Deus, um prato de comida, ou um simples copo de água para refrescar o calor da tarde. Mandava que os expulsassem a chicote ou atiçava-lhes os cães de guarda cujos rosnados e dentes afiados eram afamados na região.

Quando Venâncio dava com a mulher debruçada sobre a janela, o olhar perdido sobre a mata, já atinava: estava a remoer alguma maldade das grandes! Uma das que mais gostava, ele sabia, era torturar as aves do terreiro, coisa que fazia em refinado ritual. Depois de deixá-las em cativeiro por vários dias sem comer, rolava diante delas um garrafão com tenros grãos de milho. Vencidos pela fome, os bichos punham-se a bicar desesperadamente o vasilhame, o que provocava na bruxa estrondosas risadas de satisfação.

Uma de suas piores atrocidades, ela a praticou contra o filho caçula. Jogou dentro do forno quente, onde seriam assadas as quitandas da casa, os filhotes de cães aos quais o menino dedicava grande afeto. Os pobrezinhos ganiam desesperados, esturricando-se ao forte calor da fornalha, o que arrancava do desamparado garotinho os mais tristes lamentos.

Ajoelhado aos pés da megera, o garoto implorava pelos filhotinhos, mas Malvina, tomada de implacável crueldade, não se rendeu a qualquer apelo. Com expressão de feroz alegria, retirou numa pá os restos enegrecidos dos bichinhos. Recolhendo-os num saco obrigou o menino a jogá-los no rio. Foi por aquela ocasião, chegando a tempo de assistir à medonha cena, que Venâncio explodiu todo o seu ódio contra a víbora e bradou-lhe numa praga:
— O fogo do inferno é pouco para seus crimes, obra de Satã! Nem a terra há de roer esses ossos encharcados de ruindade!

Malvina, porém pouco se abalava com a ira do marido. Em nada lhe incomodava o que dissesse o paspalho. Que se danasse! Saía pisando duro, nariz empinado e trancava-se na saleta do piano onde se punha a tocar tranquilamente. Agradava-lhe vê-lo irritado, bebendo-lhe o veneno, consumindo-se de raiva. E foi assim que um ódio cru, peçonhento e quase mortal, enraizou-se profundamente entre o casal.

Quando ia completar cinquenta anos, Malvina descobriu-se gravemente enferma. Nada do que comia parava-lhe no estômago. Sentia dores agudas, náuseas constantes e suores gelados pelo corpo. Consultando-se na Capital, de lá voltou condenada: pouco tempo de vida lhe restava. A ideia de uma morte próxima mexeu a mulher. De repente, sentiu um medo mórbido de morrer. A verdade é que não tinha lá quaisquer saldos positivos que lhe garantissem o sossego assim que seu corpo baixasse a terra. E, se o acerto de contas com o Criador era mesmo como diziam, estaria perdida! Vivera para infernar a vida dos outros. Tinha uma dívida enorme com o Todo Poderoso.

Malvina calou-se. Ia morrer, mas não daria a ninguém o prazer de sua desgraça! Porém andava tendo umas ideias. Precisava pô-las em prática enquanto era tempo. Não ia partir deste mundo sem assegurar o outro lado. Ah, isso não ia mesmo!

Assim, Venâncio sem entender nada, viu chegar à fazenda aquela caravana esquisita que se foi instalando pelos cômodos do terreiro. Só depois descobriu: aquela gente toda tinha vindo para construir uma suntuosa capela encomendada pela mulher. E ia ser coisa fina, cheia de luxos e riquezas, como não havia outra por aquelas bandas. O marido levou um susto. Será que a cascavel resolvera converter-se, redimir-se de seus pecados?

Porém havia outro detalhe mais surpreendente: ela queria um espaço reservado sob o sofisticadíssimo altar do Senhor. Ali seria sepultada entre ouro e pedrarias, sob as graças e bênçãos do Altíssimo. Depois de tantas perfídias em vida, as chamas eternas do inferno eram algo que não a atraía nem um pouco. E se o Todo Poderoso era exigente como diziam, com tanto luxo e riqueza não teria do que reclamar!

Pronta a igrejinha, agora era tratar da urna. Escolheu-a com o artesão mais afamado do lugar. Em madeira maciça e finíssimo acabamento em bronze. Deveria ser entregue em hora oportuna. Tudo arranjado, ela passou a contar os dias para o desenlace. Estava tranquila, ia partir em alto estilo. E foi assim, na certeza de um passamento brilhante que, numa noite densa, de fortíssima tempestade, a Dama da Foice chegou para arrebatá-la com seu negro abraço.

Finalmente cumpridos os rituais, a capela erguida em todo seu esplendor inaugurou-se para receber, sob o brilho de seu altar, o profano cadáver de Malvina. Enfim, a desalmada jazia “ao lado de Deus”. Sem deixar lágrimas nem saudade! Lacrada a vala no chão, tocou-se laconicamente o sino que repicou funesto sobre a mata. Os presentes se foram. Venâncio fechou a rica portinhola da igrejinha deixando ali sepultada a pior parte de sua história. Queria esquecer tudo aquilo! Pena que a capela estivesse ali, tão à vista, a lembrá-lo do fantasma cuja passagem por sua vida só lhe trouxera desgostos.

Sem a presença opressiva da mulher, o fazendeiro tentou viver em paz. Limitou as áreas de uso da casa, despediu a criadagem. Precisava de muito pouco, queria apenas experimentar uma vida de sossego.

Dez anos havia se passado desde a morte de Malvina quando tudo se deu. A noite já ia avançada. Venâncio acordou com o furor de uma tempestade rugindo lá fora. O vento sacudia as janelas e relâmpagos, a curtos espaços, riscavam o céu e clareavam as paredes do quarto.

O fazendeiro acendeu o candeeiro e segurando-o levantou-se para verificar as janelas que ameaçavam vir abaixo. Porém, quando chegou ao corredor, foi atingido por um violento golpe de ar gelado que atirou longe o lampião. Tudo mergulhou numa tenebrosa escuridão! Trêmulo e tomado por uma sensação que não sabia explicar, permaneceu imóvel no lugar onde estava.

Foi então que ouviu a zoeira infernal vinda da sala aos fundos. Alguém batia desvairadamente nas teclas do piano, provocando um estardalhaço que ecoava por todos os cantos do casarão. Terrificado, ele sentiu a presença macabra de Malvina na casa! Era ela. Voltara para atormentá-lo novamente!

Respirou fundo. Precisava fugir, mas não teve ânimo. Chegou-lhe então aos ouvidos uma gargalhada esganiçada vinda da escuridão e o fez estremecer. Um clarão cegante seguido do ribombar de um trovão, cujo ruído surdo e profundo parecia emergir das entranhas da terra, deixou-o atordoado. Teve certeza de que um raio fulminante atingira as imediações. No entanto, nada o faria sair do lugar naquele momento. Resvalou o corpo junto à parede, escorregou para o chão e ali, encolhido e assustado, deixou-se ficar até que o temporal passasse.

Quando o dia clareou, ainda em sobressalto, Venâncio foi até a varanda da frente. Pasmo de espanto, mal pôde crer no que via! A capela de Malvina, atingida pelo raio que caíra, era um monte de escombros. Correu até o local. O madeirame chamuscado e as lajes desabadas compunham um lúgubre cenário do que antes fora a igrejinha. Porém o pior estava por vir. Dentre os destroços, estupefato, o fazendeiro avistou, intacto, o caixão da finada! Num impulso correu até o esquife e desprendeu-lhe as travas. A tampa rangeu e saltou num impacto seco. Apavorado, o homem recuou levando as mãos ao rosto e deixando escapar um grito de horror. Nojo e medo se misturaram diante da horrenda visão. Ali estava o corpo da bruxa que a terra se recusara a destruir, tal qual ele praguejara uma dia.

Malvina era agora um esqueleto murcho e ressequido, salpicado por uma camada musgosa! A pele franzida em sulcos profundos, cabeça rodeada pela repugnante cabeleira esbranquiçada, as faces ossudas mostrando olhos secos e terrivelmente estatelados se projetando das órbitas nodosas.

Venâncio respirava com dificuldade. Um cheiro fétido e insuportável exalava da apavorante figura; penetrava-lhe sufocante pelas narinas; impregnava-lhe todo o corpo. Queria correr, sumir dali, mas sentiu uma vertigem repentina. Cambaleou sobre as pernas e caiu de borco no lamaçal que se formara com a chuva.

Quando recobrou os sentidos, de imediato, não soube onde estava. Porém as lembranças voltaram-lhe de chofre com todo o seu horror. Sentiu o corpo doído e um gosto acre de barro e sangue seco na boca. Tinha um corte profundo sobre o olho esquerdo que o impedia de enxergar direito. Ergueu-se pelos braços, o estômago ainda revirado de engulhos e, hesitante, procurou pelo caixão da maldita. Queria se certificar de que tudo não passara de um terrível pesadelo.

Porém, estarrecido, constatou: no chão vazio nada ficara da medonha visão. Onde estaria o caixão com o horror daquele hediondo cadáver? Que forças o teriam tragado? Chegou a duvidar do que vira, mas a capela toda desmoronada a sua frente não deixava qualquer equívoco.

Já em casa, o homem cismava sobre o acontecido. A tempestade, o piano, a gargalhada sarcástica ecoando pelo casarão, o raio, o trovão... Ela realmente preparara-lhe uma despedida com todo o requinte. Renegada pela terra, partiu para o reino definitivo das trevas. Mas até o último momento viera com sua zombaria, seu escárnio e domínio maligno! Exausto, Venâncio deixou-se cair pesadamente na cama. Sem forças, fechou os olhos e suspirou aliviado. Sem a sombra sinistra da perversa, abrigada entre as paredes da capela, que era agora um mausoléu caído por terra, ele enfim, poderia viver em paz...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (Imagem meramente ilustrativa. Fotografia de Chico do Vale em Itumirim MG) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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