segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Simpatia para casar

Após algumas décadas separadas, as primas Maria Expedita e Alzira se encontraram nos festejos de fim de ano, no sítio da família.As duas não se largavam! Era tanta lembrança, tanto assunto para botar em dia!
—Ô Zirinha, foi ieu ti vê e mi alembrei do nosso tempo de mocinha!
—Ieu tamém Dita! Cê si alembra quando ieu vim mora na sua casa?
— Alembro como se fosse onte quando ocêis apontaro lá no morro e a cachorrada foi latino e fazendo festa, cê inté subiu na cerca do currar cum medo...
— Tenho sodade daqueles tempo. Aprindi que a vida num para pa nóis discansá não!
— Para não! Pa amanhecê onte tive uma sonharada concê e nem sabia qui nóis ia si incontrá aqui hoje!
—Zirinha, ocê inda tem a moda de querdita in sonho e simpatia?
—Ieu querdito uai!
—Cê pode mi arrumá um golin d’água?
—Vô lá dento buscá e já vorto pa nóis prusiá mais!
As duas primas cresceram juntas na fazenda. Duas moças prendadas e trabalhadeiras. Alzira sabia costurar e bordar como ninguém e Expedita ainda jovem já era a maior quitandeira da região. Diziam que tinha mãos fada para a culinária.
Certo dia, Alzira notou Expedita meio tristonha e resolver indagar:
—Qui asa caída é essa, Ditinha, o qui ocê tem?
—Nada não, prima... Deve de sê mode qui ieu tô naquês dia...
—Cê num mi ingana não! Conta o motivo dessa tristeza?
—Sabe o peão novo qui veio trabaiá pro pai?
—Sei, é o Jirimia, rapaiz lá das bandas do Desempenhado.
—Tô gostano dele e ele nem oia pra ieu... Será qui me acha feiosa, heim, Zirinha?
—Quê isso, minina! Num é pruquê ocê é minha prima, mas ocê é uma das moça mais bunita da redondeza, além de tudo é munto trabaiadêra. Quarqué rapaiz ia ti querê!
—Mai, ieu num quero quarqué rapaiz, ieu quero o Jirimia!
—Oia, ieu sei uma simpatia qui é tiro e queda mode fazê um rapaiz ficá doidim cum uma moça. A Tunica do Simão feiz e casô em pôco tempo!
—Zirinha, mi insinapelamordedeus! Faço o qui fô preciso pá casá cum o Jirimia!
—Oia Dita, posso até ti insiná e ajuda a fazê a simpatia. Mais o trem num é facim não! Picisa tê corage!
—Tô ficano agoniada! Fala logo Arzira!
—Premero nóis tem qui escrevinhá seu nome mais o nome do Jirimia numa fôia branca virge, isperá sexta fera de lua cheia, adispois caçá um sapo, colocá o bichim dento de uma lata e junto com os nome iscrito, fechá a lata e interrá num buraco de sete parmos de fundura, dibaxo duma arve de gameleira numa sexta fera de lua cheia.
—Credoincruz! Dessi jeito vô cabá ficando biata memo! Qui trabaiêra!
—Uai, cê quê ô num qué o Jirimia?
—Ieu quero sim! Tô doidinha mode ele!

Na primeira sexta feira de lua cheia as moças já estavam com os nomes escritos dentro de uma lata, assim que anoiteceu lá na roça, pegaram uma cavadeira e foram primeiro rumo ao brejo caçar o sapo.
—Ai Zirinha, ieu tenho medo de sapo. Cume qui vô pô a mão num?
—Ô Expedita, pensa só no seu príncipe Jirimia, que na hora de pega o sapo o medo some! Oia só quanta zoiarada briando no brejo! Deve de sê tudo sapo!
—Ô intão cobra! Deusmilivre guarde! O qui a gente num faiz por amor?

Depois de algum tempo no meio do mato e brejo conseguiram pegar alguma coisa.
—Amiga esse trem qui cê pegô num tem cara de sapo não! Tá pareceno mais uma jia, ô uma perereca das grande...
—Ahhh prima... Tá bão! É tudo da mema famia! Bambora cavá o buraco lá na gameleira do morro, num guento mais ficá com os pé insebado de barro desse brejão!

Se alguém passasse por aquelas bandas da fazenda do Seu Joaquim Bento, naquela sexta feira, iria estranhar aquela luz de lamparina no pastinho da gameleira grande. Ninguém acreditaria que havia ali duas moças cavando um buraco de sete palmos no meio do cerrado...
—Num aguento mais cavucá terra, Arzira! Será qui já tem sete parmo de fundura? Minhas mão tão cheia de bôias d’água!
—Cavaca mais Dita, tá munto razinho ainda. Tem qui fazê o trem dereito! Pensa no Jirimia qui cê guenta! E num esquece de mi convidá pá madrinha heim!

Quando terminaram o ritual e voltara exaustas para casa, já era quase madrugada.
—Pois, prima hoje dispois duma vida intêra ieu paro e fico recordano essas muluquice, as peleja da nossa mocidade...
—Ieu tamém Zirinha... A vida às vêis tem a moda de caçoá da gente. Sabe qui ieu quirditei do fundo do coração qui ieu ia casá cum o Jirimia?
—A vida é mei pirracenta às vêis, cumadi Expedita...
—Poco tempo dispois da simpatia qui nóis feiz, o moço Jirimia vortô pa terra dele, sem nunca sabê qui ieu amava ele... Passei dias, mêis e ano naquela janela isperano a puêra dos casco do cavalo dele na istrada...
—Prima Expedita... Ieu queria te falá um trem...
—Dispois cê fala. Dexa ieu abri o meu coração... O tempo passô, ocê qui nem pensava em casório, si ajeitô com o Tunico do Tião, ieu fui inté sua madrinha. Adispois cê foi simbora e ieu fiquei aqui na roça cuidano dos fio dos otros... Fiquei pa titia!
—Prima... Ieu preciso te contá uma coisa qui tá intalado na minha garganta...
—Adispois cê conta! Premero mi diga uma coisa: cê acha qui num deu certo foi pruque nóis pegô perereca no lugá dum sapo?
—Prima, a simpatia deu certo!
—Deu não, uai! Jirimia foi-se imbora. Nunca casei cum ninguém. Sô virge inté hoje nessa idade.
—Ditinha, cê tem qui mi perduá, prima. Alembra qui foi ieu qui escrevinhei os nome na fôia de paper?
—Alembro sim! Ieu pidi mode qui a sua letra era mais bunita qui a minha...
—Pois é, minha consciênça pesa inté hoje...
—Prima Arzira, ocê...?
—Ieu botei naquela fôia de paper num foi o seu nome mais do Jirimia...Iscrivinhei foi o meu nome mais o nome do meu marido Tonico...

Por Maria Mineira
*Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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