quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Precisamos colher a chuva e plantar a sua água na terra

Ruínas de Moray, área de cultivo do povo Inca sob a forma de terraços. Cusco / Perú. Foto: Igor Messias da Silva
Por Igor Messias da Silva*
Cada vez mais ouvimos dizer que a água no mundo está acabando, mas você já parou para pensar como é que podemos fazer a água desaparecer? Se ela evapora, vira nuvem e cai novamente sob a forma de chuva. Se ela infiltra na terra, fica lá depositada e quando não couber mais água no solo volta à tona formando as nascentes, depois os riachos e rios até alcançar o mar. Se as plantas, os animais ou o homem a ingerem, ela sai através do suor, urina e evapotranspiração.

A água é um mineral indestrutível e a quantidade total de água no planeta Terra é praticamente a mesma desde que ele foi formado. O que está variando é a sua distribuição ao longo do globo terrestre. Lugares onde se tinha abundância deste recurso podem começar a ter quantidades menores, enquanto que o contrário também pode acontecer. São as chamadas mudanças climáticas, onde já é sabido pela ciência que o homem tem capacidade de interferir através principalmente da queima de petróleo que causa o aquecimento global.

Mas voltando à água, todo esse caminho percorrido por ela através das nuvens, das chuvas, do subsolo, dos rios e oceanos é chamado de Ciclo Hidrológico, e, por ser um ciclo ele sempre se renova.

Outro sério problema é a perda de qualidade da água. Cidades e indústrias que usam a água e depois lançam nos rios sem fazer o tratamento para despoluí-la, produtores rurais que lançam as fezes de currais e chiqueiros nos riachos fazem com que percamos água em condição de ser utilizada.

Além de denunciar os poluidores, cobrar dos políticos o saneamento básico e reduzir a quantidade de água que usamos no nosso dia a dia, o que mais podemos fazer?

Precisamos aprender a colher a chuva e plantar a sua água na terra! Fazer com que infiltre no solo ao invés de formar enxurradas e causar enchentes e alagamentos. E isso não é nada complicado, vamos aprender!

As áreas rurais são compostas basicamente pelas áreas naturais, que são os campos e florestas, as lavouras e as pastagens. Em áreas naturais, principalmente em florestas, a sábia mãe natureza se encarrega de colher a chuva através da densa vegetação, que impede a formação de enxurradas, dando tempo suficiente para que a água possa infiltrar no solo e assim garantir que as nascentes abaixo tenham água o ano todo.

Atuais áreas de cultivo sob a forma de terraços na ilha de Taquile, no lado peruano do Lago Titicaca. 
Foto: Igor Messias da Silva
Já nas áreas de pastagens e lavouras é preciso pensar formas de fazer com que haja máxima infiltração da água no solo e a primeira regra é: quanto mais coberto por plantas o solo estiver, estejam elas vivas ou sob a forma de palhada, seja capim ou lavoura, maior será a infiltração da água no solo!

Porém, devido à própria dinâmica de plantio, crescimento e colheita/pastejo, não será em toda época do ano que o solo estará totalmente coberto por plantas e poderá ocorrer a formação de enxurradas, sendo necessário implantar técnicas mecânicas que retenham a água das chuvas para que tenham maior tempo para infiltrar.

São técnicas simples e que são usadas há muito tempo pelo homem a partir de suas observações do ambiente natural. O povo Inca, que habitou a Cordilheira dos Andes na América do Sul até a chegada dos colonizadores espanhóis já usava técnicas que evitavam que a água se perdesse de uma só vez montanha abaixo. Eles construíram terraços e horizontalizaram seus terrenos de cultivo, aumentando a eficiência no uso da água. Tanto a que usavam rotineiramente na irrigação quanto a que caía sob a forma de chuva.

Esta forma de agricultura atravessou o tempo e ainda hoje é utilizada pelos camponeses locais para produzir os mesmos cereais de seus antepassados Incas.

A declividade da região dos Andes é muito maior que nossas áreas agrícolasno Brasil, portanto, podemos usar técnicas bem mais simples para que consigamos fazer nossa colheita de chuvas.
Barraginha na Fazenda do Queijo Dinho – Canastras Artesanais, em Piumhi/MG. Foto: Lucas Rodrigues
A primeira técnica consiste em interceptar a água nos locais por onde correm as enxurradas, construindo pequenas barragens de terra, popularmente conhecidas como barraginhas, que irão reter a água para que esta tenha mais tempo para se infiltrar no solo.

Ao interceptar a água, nossa barraginha vai se enchendo lentamente e, por mais que a infiltração no solo já esteja acontecendo, poderá chegar um momento em que ela ficará completamente cheia e a água excedente precisará sair por algum lugar. Nestes casos, o ideal é que a água não seja devolvida ao mesmo caminho por onde seguiria caso a barraginha não existisse. O melhor a ser feito é conduzi-la de forma que ela “dê um passeio pelo terreno” dentro de uma curva de nível, que nada mais é que um corte no terreno com uma declividade mínima, somente o suficiente para a água escoar até encontrar a próxima barraginha.

A curva de nível, ao fazer com que a água dê este passeio pelo terreno, aumenta a área em que ela terá contato com o solo e consequentemente a infiltração será maior, pois quanto maior a área de contato entre água e solo, maior será a infiltração. 
Barraginhas interligadas por curvas de nível no município de Caranaíba/MG. Foto: Igor Messias da Silva
Outro ponto a se considerar é que é mais seguro você construir diversas pequenas barraginhas que tentar armazenar toda a água da chuva em uma única grande barragem, pois caso esta venha a se romper, todo o solo revolvido para sua construção será levado pela enxurrada até o riacho mais próximo, causando assoreamento e fazendo com que sua intenção de ajudar o meio ambiente tenha um resultado completamente contrário.

As barraginhas e as curvas de nível podem ser construídas por máquinas do tipo retroescavadeira e não precisam ser implantadas todas ao mesmo tempo. Você pode ir adequando seu terreno à medida em que tiver recursos financeiros para isso. Uma boa pedida é começar construindo às margens das estradas para infiltrar a água que escorre pelas suas laterais em dias de chuva. O importante é estar sempre fazendo algo em prol do aumento da taxa de infiltração no terreno que está sob sua responsabilidade.
Barraginhas em série ao longo da estrada na Fazenda do Queijo Dinho – Canastras Artesanais, em Piumhi/MG.
Foto: Rodrigo de Oliveira
A legislação ambiental mineira, através da Lei Estadual Nº 20.922/2013 dispensa de qualquer tipo de autorização a construção de barraginhas, desde que estas não se destinem à represar qualquer curso d’água, mesmo aqueles que tem água só em alguns períodos do ano.

Cuidados devem ser tomados em áreas de alta declividade ou que concentrem uma quantidade muito grande de água em suas enxurradas. Lembre-se que caso as barraginhas venham a se romper, o impacto ambiental será negativo e não positivo como você deseja. 

Para ficar “no capricho” e aumentar a estabilidade das barraginhas pode-se cobrir o solo revolvido com vegetação rasteira, pois as plantas evitam que a força da água arraste este solo para longe.

Lembre-se também de conservar os locais de nascentes, pois de nada adianta infiltrar água no solo se as suas nascentes estiverem todas assoreadas, cheias de plantas invasoras ou com acesso a animais que irão pisoteá-la.

Gostou do assunto? Para saber mais sobre as barraginhas acesse o blog do Projeto Barraginhas da EMBRAPA: www.projetobarraginhas.blogspot.com.br

Se você tem uma chácara, sítio ou fazenda, tem também uma grande responsabilidade com a disponibilidade hídrica de toda sua região.Se quiser conhecer as barraginhas da Fazenda do Queijo Dinho – Canastras Artesanais que ilustram esta reportagem, basta ir até Piumhi. Visitantes são sempre bem vindos por lá! Faça sua parte e boa colheita!


 *Igor Messias da Silva
Engenheiro Ambiental, professor universitário e titular do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais – COPAM (2008 a 2016). Filho do Dinho da Serra da Canastra, onde desde 1972 produz com sua família o legítimo Queijo Canastra em Piumhi – MG. 

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