sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Para sempre Emília

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Ao chegar a hora de escolher a profissão que iria seguir, Emília não teve dúvidas: seria professora. Crescera vendo a mãe e as tias lecionando na escola do bairro e era lá também que, em breve, gostaria de trabalhar. 

Foi assim que, após cinco anos de intensa dedicação aos estudos do Magistério, a moça, enfim, havia chegado ao fim do curso. Aquilo merecia uma festa e ela não deixou por menos. Numa noite agradável de dezembro, comemorou com a família e os amigos a conquista de seu grande desejo. Tornara-se professora.

Da formatura ao lugar na sala de aula foi um pulo. Vinha já muito bem recomendada pela sua conhecida vocação e Dona Elvira, a diretora, não disfarçou seu contentamento quando, enfim, pôde confiar os pequenos alunos do primeiro ano às mãos de Emília.

Depois daquele começo, a fama da professora correu nas redondezas! Não havia quem melhor soubesse ensinar! O aluno que lhe caísse nas mãos, não ficava sem aprender tudo que fosse preciso. A mestra tinha extrema habilidade para o ensino, fosse das letras, das contas, dos mapas e até das noções de Língua estrangeira.

O tempo foi passando e Emília ganhando mais nome. Algumas famílias vinham de longe trazendo os filhos, coitadinhos, às vezes, já cansados de repetir o ano em outras classes. E ali, não tinha erro! Era sentar nos bancos da professora Emília que o fato se dava. Com aquele carinho, aquela voz que parecia mais cantar do que falar, aquele jeito mansinho, a mestra aos poucos ia operando seus milagres.

Às vezes, alguém lhe perguntava:
— Como é que você faz para essas crianças aprenderem?
— Faço nada, ora! respondia ela com simplicidade. É meu jeito. Faço por amor aos pequeninos.

Quando ao final do dia todos iam para casa descansar, ela não tinha pressa. Ficava por ali, arrumando os cartazes na sala, ajeitando os armários, aguando os vasinhos de flores que as crianças traziam para enfeitar as janelas. Só quando terminava tudo, é que cerrava a cortina de babados azuis, puxava a porta e saía. Com seus livros debaixo do braço ganhava a rua até onde morava, a algumas quadras.

A rotina da professora Emília era bem conhecida de todos. As pessoas sentadas na calçada, tinham já por costume vê-la passar todas as tardes, de volta da escola. Tinha sempre uma palavra amável, um sorriso, um afago para quem encontrasse.

O amor da moça para com seus alunos e para com a escola não era segredo para ninguém. E, às vezes, quando a viam passar pela rua, vinha algum comentário:
— Então, Emília, não se aposenta mais?

Ela fazia um risinho maroto e retrucava:
— Que nada. Minha vida é a escola. É lá que vou morrer.

E foi assim que, de uma forma esquisita e inesperada, um dia a cidade foi surpreendida por aquela notícia: a professora Emília morrera.
— Como foi isso?! As pessoas indagavam perplexas.

Ninguém sabia. O certo é que a faxineira da limpeza noturna dera com ela morta, debruçada sobre um livro aberto, na mesa da sala de aula. Parecia dormir serenamente como se quisesse absorver pela última vez a estória que andara lendo.

Aquela morte abalou a cidade. Era tão jovem, tão bonita, com tanta vida pela frente. E que vazio iria deixar ali na escola. Era tão querida de todos! Já há tantos anos encantando e ajudando tantas crianças!

Durante o sepultamento a comoção era geral:
— Morreu onde queria, diziam os amigos, tanto brincou com isso que acabou acontecendo.

O corpo da moça desceu a terra sob forte emoção. Antigos alunos vieram de longe. Amigos e companheiros de trabalho rendiam-lhe homenagens com bilhetes amorosos e flores. Foi um dia em que a cidadezinha parou e ninguém se lembrava de despedida mais comovente.

Por um bom tempo, uma tristeza profunda tomou conta da escola. Havia um luto velado nos corredores, pátios e jardins. Faltava a alegria de Emília e a suavidade de sua voz cantando as lições na sala de aula.

Para evitar maiores sofrimentos, pelo menos em situação temporária, a diretora, Dona Elvira, resolveu transferir os alunos de Emília para outro local onde tentaria adaptá-los à nova mestra.

Com a mudança das crianças, a sala que fora da professora permaneceu intacta em seus detalhes, tal qual a deixara a antiga ocupante. Ninguém, pelo menos por um tempo, queria mexer naquelas coisas. Tudo ficou ali, em seus devidos lugares: a cortina puxada, a porta trancada.

Os meses foram se passando e as coisas foram voltando à normalidade. Agora, os corredores, pátios e jardins invadidos pelo alvoroço das crianças, pareciam mais alegres. O vozerio, o toque do sino e as brincadeiras no recreio já davam novamente ares de escola àquele local.

Foi numa noite de sexta-feira que o fato ocorreu pela primeira vez. Sozinha ao fim das aulas noturnas, Elvira se preparava para fechar as portas da sala da direção quando ouviu aqueles passos.

O ruído provocado era o de madeira batendo no piso. A princípio, os passos pareciam estar longe, mas depois foram se tornando mais nítidos como se alguém estivesse se aproximando. Elvira não os estranhou. Deviam ser de algum funcionário em busca de algo esquecido.

Porém os toques cessaram como se a pessoa tivesse parado de repente. A diretora, curiosa, foi à porta. Sentiu uma lufada de vento frio varrer o corredor e não viu nada que lembrasse alguém vivo por ali. Assustada, voltou à sala e tentou se acalmar. Um arrepio percorreu-lhe o corpo quando ouviu novamente os passos que agora se afastavam. O barulho das pisadas foi diminuindo aos pouquinhos até que desapareceu por completo! Durante muitos dias, a diretora ficou terrivelmente impressionada com o acontecido. Mas preferiu não comentar o fato e resolveu esquecer tudo aquilo tentando convencer-se de que fora vítima da própria imaginação.

Tudo poderia realmente ter ficado esquecido caso um acontecimento novo não tivesse ocorrido. Algumas semanas depois daquela noite, o vigia foi chamado às pressas por uma professora. Ela o alertava para que vistoriasse a antiga sala de Emília, que ficava bem em frente ao local onde estava dando aula.

A professora afirmava que, apesar de a sala estar às escuras, ela vira claramente quando o tecido da janela fora afastado; alguém olhara através do vidro por algum tempo e depois cerrara novamente a cortina. Ela tinha certeza, havia alguém lá dentro!

O vigia abriu a porta, acendeu as luzes e, em companhia de Elvira e da professora, certificou-se de que tudo estava na mais perfeita normalidade. A diretora não disse nada, mas começou a pensar que talvez sua imaginação não fosse tão fértil como queria crer. Porém não realçou o caso e deu-o por encerrado. Não queria provocar alarde.

Em menos de dois meses, outro incidente voltou a ocorrer. Foi quando outra pessoa, desta vez, um aluno do noturno, fora avisar que tinham se esquecido de desligar a luz e o som na sala de dona Emília. Ele tinha sido o último a passar pelo corredor e vira que sob as frestas da porta havia claridade. Ouvira também uma música que tocava baixinho, vindo lá de dentro.

A diretora seguiu o garoto, já com o coração descompassado. Como seria possível aquilo? Diante da porta, os dois se olharam sem saber o que dizer. Ali não havia o menor sinal de luz ou de som. Tudo estava na mais completa escuridão e silêncio!

O garoto, todo atrapalhado, sentindo-se meio ridículo diante da diretora admitiu:
— Acho que me enganei. 


A diretora, terrivelmente pálida, mal conseguia articular as palavras:
— É, acho que sim. Você se enganou. Mesmo porque, esta sala permanece trancada o tempo todo.

Porém, para si, Elvira sabia que o garoto não estava equivocado. Apavorada, ela se convenceu de que tudo que estava acontecendo na escola não era apenas mera imaginação. Ali naquele lugar havia algo de sinistro, inexplicável e sobrenatural. Com certeza, dali por diante teriam que contar sempre com a presença da professora Emília entre eles...


Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura em tecido estampado de Chita do artsita plástico Gildásio Jardim de Padre Paraiso MG) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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