quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Pacto

Debaixo de uma quaresmeira, em um canto do cemitério, o coveiro cochilava numa tranquila madorna quando o pequeno cortejo avançou portão adentro. Algumas dezenas de pessoas, contando entre parentes e antigos conhecidos do finado Olegário, acompanhavam de perto o caixão escuro. A esposa, Dona Matilde, não viera. Estava ainda muito abalada pela morte do marido, ocorrida na véspera.

A tarde quente de outubro, sob o sol escaldante das três horas, parecia arder em chamas. A subida sinuosa pela estrada que ia do povoado até o campo-santo, no alto da colina, tinha deixado fatigado o grupo que compunha a fúnebre procissão. E para os quatro homens que, esfalfados, ofegavam sob o peso do ataúde, a chegada junto à cova recém-aberta era um verdadeiro alívio.

Agora que Olegário já descera à sepultura, antes de retomarem o caminho da vila eles podiam, enfim, tomar uma caneca de água fresca e esticar o corpo suado à sombra da frondosa gameleira, à beira da estrada. Ali, depois que todos tomaram o rumo de casa, eles ainda se deixaram ficar para recuperar o fôlego e recompor as forças. Somavam-se no grupo, três moradores do povoado, além de Jovelino, capataz da fazenda de Olegário, que era quem havia encontrado o finado no fundo de um precipício, na tarde anterior.
— Diabos, nunca vi defunto mais pesado! disse um dos homens, de nome Aniceto. Parecia chumbo puro.
— Enganou todo mundo! acrescentou Bento, que ainda resfolegava de cansaço. Tão magrinho que era, quem diria...

A prosa ali debaixo da árvore, não poderia tomar outro rumo. Girou em torno de Olegário, homem metido a valente que passara a vida espalhando malquerenças. Por onde andava, deixava suas rixas e a fama de briguento e fanfarrão. Já nem tinha a conta das quizilas que armara com o povo ali das cercanias de Colina dos Pinhais. A esposa, coitada, que aguentasse suas brutalidades! E não fosse ela mulher de muita paciência, já teria ganhado mundo há muito tempo. Filhos, dizia ele, por sorte não tivera, que não era homem de lidar com desgostos de família.

Ali entre a gente do lugar, Olegário era uma espécie de autoridade suprema. Quando chegava ao povoado com ares de manda-chuva e amarrava seu cavalo baio no mourão em frente à venda da praça, todo mundo já esperava. Ia contar aquelas lorotas que ninguém queria saber, mas que todos tinham que ouvir caladinhos. E ao caixeiro no balcão já ia dando logo a ordem: descesse uma boa talagada de pinga pra quem estivesse ali na hora, que era para esquentar a prosa.

Aniceto, frequentador do empório, recordava bem quando nos fins de tarde, o fazendeiro sentado sobre a saca de café, perto da porta, ia picando o fumo de rolo a canivete e contando suas gabolices. Ali, ninguém tinha licença para discordar do que ele falasse. E rir, só se ele também achasse graça. Era homem de desfeitear os velhos; fazer pouco das mulheres; zombar dos mais fracos e abusar de assombração. Por um dá cá aquela palha, ia logo levando a mão à peixeira reluzente, sempre bem afiadinha e guardada na bainha de couro curtido, junto à calça grossa de algodão.

Para todos os efeitos, era Olegário quem ditava as leis do lugar. Por ali, ninguém mexia um graveto se não fosse com o consentimento daquele que se autointitulava dono do vilarejo. E o melhor mesmo para se viver em paz, era baixar os olhos quando ele passasse e não arriscar opinião sobre o que ele desse como verdade.

Certa vez, correra aquele boato. Contavam, à boca miúda, que o fazendeiro fizera acordo com o diabo. Ambicioso que era, queria fazer fortuna. Diziam que tinha mandado buscar longe, no sertão da Bahia, um homem de nome Calixto, afamado por selar alianças macabras com o maligno. O povo todo pôde ver quando o mandingueiro apeou do trem que passara pela vila, logo cedo. Na estação, já o esperava Olegário com quem tomou os rumos da fazenda. Certeza, certeza, ninguém podia ter, mas que era esquisita aquela visita, lá isso era...

Agora, com o finado bem enterrado, sem o perigo iminente de sua temida peixeira, Aniceto não se conteve. Sem maiores rodeios, arriscou numa indagação mais direta com Jovelino: aquela estória de que Olegário tinha parte com o capeta, era deveras? O feiticeiro tinha mesmo vindo da Bahia para armar o acordo entre satanás e o fazendeiro? Ele, Jovelino, como cabra de confiança do homem devia saber de alguma coisa...

O fato é que Olegário, em pouco tempo, vinha mesmo conseguindo multiplicar sua riqueza. Comprara muitas terras, aumentara seu rebanho, tinha crescido nos lucros do comércio de café; diziam que nem tinha mais a conta dos seus imóveis na capital e parecia que tudo que tocava virava ouro. Aquela prosperidade toda, cismava o povo do lugarejo, era apenas pelo tino natural do homem para os negócios, ou haveria mesmo um dedo do Coisa Ruim naquilo tudo?

Diante das inquirições de Aniceto, Jovelino pareceu relutar, nunca tinha sido dado a muita conversa. Mas de repente, como se sentisse uma necessidade fremente de aliviar o peso do segredo que carregava consigo, ele confirmou: era tudo verdade. A mais pura e cristalina verdade! O patrão tinha mesmo um acordo com aquele lá de baixo, de quem, ele, Jovelino, evitava até de falar o nome.

Aquela revelação não poderia ter causado mais impacto. Ali debaixo da gameleira, os três homens, de olhos arregalados, se juntaram ainda mais ao capataz. Pelo rumo da conversa, o desfecho prometia! Uma coisa era ouvir um boato, outra muito diferente era estar de frente com a testemunha do caso. Mal podiam esperar pelo que estava por vir.

Sem se fazer de rogado, Jovelino, alvo dos olhares ansiosos dos companheiros, foi logo contando. Despejou tudo aquilo que, por medo do patrão, guardara por muitos anos, mas que nunca deixara de queimar-lhe o peito como brasa viva. Lembrava-se de tudo, dizia. Calixto tinha chegado à fazenda pela manhã e ficara com o fazendeiro, às portas fechadas, o dia inteiro. Quando foi à noite, em hora já avançada, ele, Jovelino, olhava a lua de sua janela quando notara algo muito esquisito. Avistara uma luz amarelada escoando pelas frestas entre as tábuas do paiol que ficava no terreiro da casa grande da fazenda. Intrigado, foi ver do que se tratava. Quando se aproximou das paredes de madeira, continuou o rapaz, estreitou os olhos pela abertura iluminada. O que viu, deixou-o ainda mais encafifado: Lá estava o patrão com uma vestimenta branca que cobria seu corpo da cintura para baixo, deixando nu o seu peito. Estava deitado no chão, sobre um tecido vermelho-faiscante e tinha sobre o abdômen um punhal que reluzia à luz bruxuleante do lampião. Ao seu redor, andando em círculos, o bruxo Calixto lia palavras estranhas num livro negro. E enquanto as pronunciava, atirava sobre Olegário uma substância pardacenta que, em contato com o ar, virava uma fumaça espessa de odor insuportável!

Atingido pelo cheiro repugnante, contou o capataz, seu primeiro pensamento foi sumir dali, mas seus pés pareciam pregados no chão. Sentiu uma repentina zonzeira e um nó no estômago como se fosse vomitar. Paralisado, não conseguia despregar os olhos do macabro ritual no interior do paiol. Viu o feiticeiro pegar o punhal e com suas pontas afiadas traçar sobre o peito do fazendeiro uma marca que de longe lhe pareceu um estrela de pontas entrecruzadas.

Feito o desenho sinistro, Olegário permaneceu imóvel, e em seguida seu corpo foi violentamente acometido por uma crise convulsiva. Ficou ali se contorcendo e soltando uma espécie de grunhidos cavernosos como se o possuísse um espírito maléfico. Depois, repentinamente, ficou novamente inerte, como um cadáver sobre o lençol rubro no qual se misturavam algumas manchas de sangue que escorriam em filetes do ferimento em seu peito.

De súbito, contou Jovelino, uma cena ainda mais horripilante se seguiu: Calixto olhou fixamente Olegário estendido no chão. Aos poucos seu rosto foi se transfigurando numa imagem de aparência hedionda. Seus olhos pareciam soltar chispas de um fogo esverdeado e suas faces maceradas eram uma máscara diabólica e pavorosa! Uma gargalhada tenebrosa ecoou pelo paiol e, com voz rouca e retumbante que parecia vir das profundezas, ele sentenciou:
— Agora você me pertence, filho das trevas!!

Naquele momento, disse o capataz, ouviu-se o canto longo e estridente de um galo que ecoou por todos os cantos da fazenda. Estava selada a aliança do mal! Ele sentiu-se enregelar até os ossos e, tomado de um pavor sobrenatural, disparou em desabalada carreira pelo mato, até cair exausto junto à porta de casa. Meteu-se na cama e encolheu-se debaixo das cobertas. Queria se esquecer de tudo que vira. Mas durante todos aqueles anos, nunca mais se livrara daquela lembrança que o perseguia! Agora, com o patrão morto e enterrado, ele podia pelo menos contar para os companheiros o segredo que tanto o martirizava.

Quando Jovelino acabou seu relato, estava branco feito cera e suava em bicas. Os homens ao seu redor, profundamente impressionados, queriam saber mais detalhes: como era direitinho o demo que Calixto encarnara? Como tinha sido a vida do patrão depois daquele acordo? Porém, satisfeitas as curiosidades, o fato era só um: o fazendeiro vendera mesmo a alma a Lúcifer. E agora, o que seria dele ali debaixo da terra?!

A ideia de desenterrarem o caixão partiu de Aniceto. Que tal se dessem uma última olhadinha no defunto para verem como estava? A estória tenebrosa de Jovelino tinha aguçado a curiosidade de todos ali. E foi assim que, à noite, eles retornaram ao cemitério. Munidos de ferramentas e lanterna, puseram-se a desencavar o esquife. Quando deram com ele, retiraram-no cuidadosamente içado pelas alças laterais e o depositaram junto à tumba. A tampa de madeira foi levantada e Aniceto ajustou o foco da lanterna. Quando a luz clareou o interior da urna, o espanto foi geral. Estarrecido, o homem soltou um grito de surpresa:
— Um tronco de bananeira!
— Dona Matilde! disse Jovelino, matando a charada. Por isso, não deixou abrir o caixão, alegando cumprir uma vontade do morto. Também não foi ao enterro, sabia que o finado não estava lá...

Enfim, se clareava o mistério do peso descomunal do caixão. Enquanto eles ofegavam ao sol inclemente para sepultar uma bananeira, Olegário, tragado pelas forças das trevas, há muito tinha ido cumprir sua parte no pacto com o diabo...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura do artista plástico Rui de Paula) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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