terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O Homem da Perna de Ouro

Ali na região onde morava, Inácio era tido como o homem mais rico. Sua vida era correr de um lado para o outro, viajando por toda parte, cuidando de seus negócios, administrando sua imensa fortuna.

Certo dia, quando ia para uma cidadezinha vizinha, ele sofreu um gravíssimo acidente. A luxuosa carruagem em que viajava, soltou uma das rodas e ele veio a despencar por um abismo à beira da estrada.

Por verdadeiro milagre, o homem conseguiu se salvar, mas algum tempo depois, quando recobrou os sentidos no hospital, recebeu aquela terrível notícia:
— Tivemos que lhe amputar a perna direita, disse-lhe o médico. Estava completamente esmagada! Sinto muito.

Aquilo foi um grande golpe para Inácio, mas como não era homem de perder tempo com lamentações, logo reagiu:
— Não morri, sou um homem de sorte. O resto eu vejo depois.

E assim que se recuperou dos ferimentos e pôde voltar para casa, Inácio mandou que levassem até ele o ourives mais famoso daquelas redondezas. Quando o teve diante de si, foi logo explicando ao renomado artista:
— Quero que me faça uma perna todinha de ouro. A mais perfeita que puder! Sou um homem rico, não posso ficar andando por aí com uma perna qualquer.

O ourives tomou aquela encomenda como um grande desafio. Faria para o milionário a perna mais rica e bonita que alguém pudesse imaginar! Apenas precisava de certo tempo, pois uma perna assim não se faz de uma hora para outra. Só podia garantir que seria uma obra-prima para ninguém botar defeito.

Enquanto a perna de ouro não ficava pronta, Inácio ia se virando da melhor forma que podia com a que lhe restara. Até que um dia a boa notícia chegou. O trabalho do ourives estava prontinho. Era só experimentar e se preparar para o sucesso. E o resultado não poderia ter sido melhor. Tinha ficado mesmo espetacular aquela obra de arte toda dourada e reluzente.

Muito satisfeito, Inácio mandou espalhar aos quatro ventos aquela novidade. Ele agora era o Homem da Perna de Ouro. Queria que todos soubessem do grande tesouro que carregava consigo. Foi assim que se tornou mais conhecido que já era e, quando desfilava com sua nova aquisição, todos paravam para admirá-la.

Mas quando a notícia correu e chegou num subúrbio distante, arrancou rancorosos suspiros de certo homem chamado Felício:
— É sempre assim, resmungou ele em sua amargura. Uns com tanto, outros com nada. Imaginem! Uma perna de ouro só para deslumbrar o mundo e eu aqui nesta miséria!

Inconformado com a própria vida, o sapateiro Felício se remoía em sua ambição de ficar rico. Não suportava a ideia de que acabaria ali, naquela sapataria imunda e mal cheirosa, remendando calçados velhos em troca de algumas moedas. Ele queria mudar o próprio destino e algo lhe dizia que isso não iria demorar. Aquela perna de ouro, pensou, seria uma boa saída para seus problemas. Nunca mais precisaria se preocupar com dinheiro. Ah, se pudesse consegui-la...

Bem mais cedo que poderia imaginar, certo dia pela manhã, Felício teve uma agradável surpresa. Abalada, a cidade só falava sobre aquilo: Inácio tinha sofrido um mal súbito e, antes mesmo de ser socorrido, falecera durante a noite. Estava morto o Homem da Perna de Ouro!

Diante daquele fatídico acontecimento, Felício não conseguia esconder sua excitação. Alguns pensamentos sinistros já fervilhavam em sua cabeça. Aquela era a oportunidade que pedira ao Diabo. Era a sua chance de pôr as mãos no tesouro que tanto ambicionava. E não iria desistir por nada no mundo! Tomado de grande euforia, pôs-se a ruminar algumas ideias...

Naquele dia, desde as primeiras horas da manhã, a rádio local divulgava a morte do ilustre Homem da Perna de Ouro. A todo instante, o locutor, com uma voz solene como pedia a ocasião, convidava as pessoas para o funeral e dava detalhes sobre o sepultamento marcado para as últimas horas da tarde, no cemitério da cidade.

Enquanto ouvia atentamente o rádio em sua pequena sapataria, Felício urdia os seus planos. Tinha já tudo resolvido na cabeça! Iria antes ao cemitério e, sorrateiramente, lá deixaria bem escondido, um saco e uma ferramenta de cavar. Depois, seguiria para a casa do defunto como uma pessoa comum.

Naquela ocasião, pensava ele, ninguém iria estranhar sua presença. A cidade em peso estaria lá. Então derramaria algumas lágrimas, diria palavras de condolências à família e naturalmente acompanharia o féretro. A diferença é que não voltaria para casa como as outras pessoas, pois estaria muito ocupado tentando surrupiar aquela perna de ouro que não lhe saía da cabeça.

Assim que se aproximou a hora do enterro, depois de passar pelo cemitério, Felício foi para a casa do ricaço, onde estavam velando o corpo. Fez tudo como havia planejado e ficou por ali, no meio das pessoas que cochichavam baixinho comentando o trágico episódio. Quando deram seis horas no relógio da sala, o cortejo atravessou os portões da mansão. Felício discretamente misturou-se à multidão.

O cemitério não era distante e em menos de uma hora tudo estava terminado. O corpo já descera ao chão, as últimas pás de terra foram lançadas sobre a tumba e a família pranteada, que ficara para o derradeiro adeus, acabara de sair acompanhada pelos amigos.

O sapateiro, que se escondera atrás de um enorme túmulo de pedra, saiu de seu esconderijo e sondou cuidadosamente os arredores. Tudo estava deserto e silencioso. Já era noite fechada e a escuridão tomava conta de tudo. O homem, por um momento, sentiu-se fraquejar. Será que conseguiria ir até o fim?

Enfrentando o medo que de repente lhe dava aquele lugar sinistro, o sapateiro já de posse da ferramenta, se aproximou da cova recém-fechada. Não ia ser fácil, pensou, mas quando se lembrou da riqueza que o aguardava sob alguns palmos de terra, ganhou novo ânimo. Valeria a pena qualquer esforço!

De repente, o tempo começou a fechar, o vento zumbia e açoitava as árvores do cemitério. Alguns raios riscavam o horizonte e ao longe se ouvia o ribombar dos trovões. Uma grande tempestade estava se aproximando. Felício cavava sem parar! O suor provocado pelo medo e pelo cansaço brotava-lhe por todos os poros e lhe grudava a roupa no corpo. Apavorado, o homem sentiu o voejar de alguns morcegos a sua volta e pareceu-lhe ouvir gemidos profundos vindos de algum lugar. Pensou que não fosse resistir...

Os primeiros pingos de uma chuva grossa e gelada caíam sobre a terra, quando ele sentiu que a ferramenta chocara-se com a madeira do caixão. Agora tudo estava por muito pouco. Aliviado, respirou fundo, pois suas forças já chegavam ao fim. Quase em desespero ele deu o último golpe que atingiu o ataúde levantando-lhe a tampa. Debruçado sobre o corpo do finado, ansiosamente rasgou-lhe a fina mortalha. E então Felício viu, iluminado pelo brilho momentâneo de um relâmpago, o objeto de seu grande desejo! Enfim, punha as mãos na cobiçada perna de ouro!

Um aguaceiro sem fim agora inundava a tumba e tudo ao redor. O homem, sem mais rodeios, arrancou violentamente a almejada peça, jogou-a no saco e disparou a esmo pela escuridão que cobria o lugar. Quando encontrou um canto propício, saltou os muros brancos do cemitério e ganhou a rua. Àquela hora, sob o forte temporal, a cidade parecia morta. Ofegante, com o coração quase a saltar pela boca, o sapateiro tomou a direção do subúrbio.

Já era quase meia-noite quando cruzou o portão de entrada de casa. Apertando contra o peito sua preciosa mercadoria, ele enfim viu-se seguro entre as quatro paredes de seu quarto. Colocou seu riquíssimo pertence na parte superior do armário, tendo o cuidado de trancar bem suas portas. Assim que se certificou de que estava bem seguro o seu tesouro, tratou de se livrar das roupas encharcadas e dos sapatos enlameados.

Por fim, sentiu-se terrivelmente exausto e fraco. Aquela aventura o deixara esgotado e precisava descansar um pouco. Uma dor aguda lhe tomava o peito; seu corpo todo tremia e doía-lhe respirar. Afastou as cobertas e deixou-se cair pesadamente na cama. Lá fora, a chuvarada caía incessante. O vento fazia bater os vidros da janela zumbindo com toda sua fúria!

Buscando se acalmar, o sapateiro puxou os lençóis sobre a cabeça e tentou ignorar a tempestade que rugia cada vez mais forte. Mas foi aí que, misturado aos uivos do vento, ele ouviu aquela voz vinda de longe, como um gemido tenebroso:
— Eu quero minha perna de ouro...

Aterrorizado, ele se encolheu sob as colchas. Aquilo não podia ser verdade. Será que estava delirando? Mas, após alguns minutos, a coisa se repetiu agora mais próxima:
— Eu quero minha perna de ouro...

O homem afundou o rosto no travesseiro e tapou os ouvidos para não escutar mais nada. Porém sentiu um bafo quente a soprar-lhe a nuca, e pela terceira vez aquele lamento horripilante entrou-lhe pelo cérebro, como se quisesse enlouquecê-lo:
— Eu quero minha perna de ouro...

Na escuridão do quarto, tomado por seguidos arrepios que lhe percorriam o corpo, Felício sentiu que estava completamente perdido.

No dia seguinte, quando a arrumadeira que fazia a limpeza semanal entrou no quarto, percebeu que algo muito estranho acontecera ali. Encontrou a janela aberta, o armário vazio e a cama de Felício toda desarrumada. Só não viu qualquer sinal do patrão. E até hoje, por mais que se tenha procurado, nunca mais se ouviu falar do sapateiro!

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura do artista plástico Alfredo Vieira) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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