segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O fantasma do Trem Goiano

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Por volta de meia-noite, Bento acordou com um estrondo seguido de violento tremor que pareceu abalar as bases da casa. De um salto, pulou da cama tentando se orientar na escuridão do quarto. O que teria sido aquilo?! Será que tivera um pesadelo?! Porém o barulho, semelhante ao ribombar de um trovão, novamente se repetiu. Desta vez tão forte, que parecia vir ali do curral, no terreiro.

O homem correu até o quarto do lado leste e abriu em pares a grande janela que dava para o vale. De onde estava não podia ver com exatidão a estrada de ferro, mas calculou que vinha de lá todo aquele estardalhaço, pois avistava agora, grandes labaredas lambendo os céus. Ao longe, qualquer coisa parecida com uma bola de fogo se elevou acima das chamas e desmanchou-se no ar com uma nova explosão. Estarrecido, ele então se deu conta de que algum acidente terrível acontecera com o trem que passava às terças-feiras, vindo de Goiás.

Por um instante ficou sem saber o que fazer, mas logo, num impulso, resolveu descer a colina para ver de perto o acontecido. Talvez alguém estivesse precisando de ajuda e, naqueles arredores, certamente ele era o morador mais próximo. Vestiu-se rapidamente e foi ao curral selar o cavalo alazão, àquelas horas em repouso junto à cocheira.

À medida que se aproximava da estrada de ferro, o fazendeiro tornava-se mais apreensivo: o que iria encontrar pela frente poderia ser muito forte para uma pessoa sozinha. Assim que saiu da estrada da fazenda, já próximo à linha férrea, ele teve uma vaga ideia de toda a proporção do acidente. A coisa tinha sido gravíssima. Manteve-se à distância, pois vira que nada ali havia a ser feito. Pelo que tinha diante de si, sabia que a tragédia não poderia ter deixado qualquer sobrevivente!

O calor provocado pelo incêndio que devorava tudo era insuportável e uma espessa nuvem de fumaça escura impedia a visão exata do ocorrido. Parado a uma distância de segurança, Bento tentava atinar com o que poderia ter causado tamanha desgraça. Como não visse algo que pudesse ser feito, resolveu ir ao povoado de Rio Bonito, a alguns quilômetros, avisar ao conferente da estação sobre o sucedido.

Sob a porta fechada, o fazendeiro viu uma réstia de luz. Chamou por duas vezes o chefe ferroviário que veio atendê-lo ainda bocejando.

Imediatamente, inteirou-o sobre o assunto. A notícia pegou o homem de surpresa e ele pareceu confuso diante do relato da dramática situação:
— Agradeço-lhe o favor, disse afinal. Vou agora mesmo telegrafar para a Central e pedir os recursos necessários. Devem chegar o mais rápido possível.

Cavalgando a toda velocidade, Bento passou novamente pelo local onde a máquina se consumia em chamas. Porém resolveu tomar o caminho de casa e esperar o fim da noite. O melhor que tinha a fazer era tentar se acalmar. Ao entrar em casa, respirou aliviado quando pensou que a mulher, Marianinha e os dois filhos tinham ido passar alguns dias na fazenda dos sogros. Pelo menos a família estaria a salvo de presenciar, ali perto de casa, fato tão doloroso. Encostou-se na cama, mas não pregou olho! A visão do trem goiano não lhe saía da cabeça.

Assim que o dia clareou, depois de adiantar a lida do gado e as tarefas mais urgentes, Bento desceu novamente até a estrada de ferro. Viu que, àquelas horas, a notícia já havia corrido feito rastilho de pólvora, pois ali pelas sombras das árvores espalhavam-se várias dezenas de pessoas. Eram moradores das proximidades e do povoado que, movidos pela curiosidade, vinham ver de perto o ocorrido.

Sob a luz do dia, a tragédia se mostrava nua e crua com todo o seu horror. Agora, já não se viam mais as chamas de antes. O que havia era uma fumaça fétida e escura cobrindo toda a extensão do descarrilamento. O que restara da cabine, encontrava-se, em parte, soterrado num barranco e, ao longo dos trilhos, os inúmeros carros da composição eram um amontoado de ferragens retorcidas e cobertas de fuligem.

A manhã ia já pela metade quando os primeiros recursos chegaram ao local para avaliar a situação e dar início ao difícil trabalho de retirada dos destroços. Aquela empreitada ia ser das mais duras e levaria certamente muito tempo para ser concluída. Porém não havia o que esperar. Era preciso partir logo para o resgate dos corpos, ali perdidos entre a massa compacta de ferro em que se transformara a parte dianteira da máquina.

Enquanto se desenrolava a árdua tarefa de retirada dos restos do trem, Bento conversava com Murilo, dono da venda do povoado e quem, por último, estivera com Estêvão, o maquinista. Ainda em estado de choque, o homem não podia acreditar que aquela calamidade toda tivesse acontecido:
— O pior você não sabe! disse o vendeiro, com a incredulidade estampada na cara. Isso não foi mera fatalidade, foi por vontade...
— Como é? tornou Bento, com grande surpresa.
— É o que lhe digo. Estevão já tinha tudo na cabeça. Bebeu até tarde lá na venda, antes de pegar o comando do trem.

Então Murilo contou que o maquinista tinha lhe avisado que naquela noite ia cometer uma loucura. Andava amargurado com umas coisas que lhe tinham acontecido. A mulher, com quem fora casado por sete anos, tinha resolvido ir atrás de uma antiga paixão. Deixara-o por outro e, desde então, ele não mais achava razão para tocar a vida.

Visivelmente transtornado, o vendeiro relatava que não botara fé naquilo que Estevão dissera. Conhecia-o de longa data ali da venda, onde sempre ia ter uma prosa com a gente do povoado quando o trem fazia parada na estação. Já há alguns anos, comandava o noturno das terças-feiras transportando cargas diversas entre o estado de Goiás e outras regiões. Em suas paradas ali pelo lugar, fizera muitas amizades. Nunca o imaginara capaz de qualquer desatino.

Naquela noite, dizia Murilo, bem que o notara meio esquisito. Fugindo aos hábitos, vira-o, em pouco tempo, esvaziar uma garrafa inteira de aguardente! Diante daquilo, bem que ficara preocupado com o exagero, mas quem era ele para ficar aconselhando um homem daquela idade? Na verdade não imaginara que falasse a sério sobre o desvario que pensava cometer. Se pudesse desconfiar que o tresloucado fosse mesmo dar cabo da própria vida, não o teria deixado ir. E ainda tinha o coitado do foguista, lá, cuidando do abastecimento da caldeira, sem suspeitar do destino que o aguardava.
— “Pinga é pra beber, trem é pra correr e maquinista é pra morrer”, disse o vendeiro em tom solene a Bento que o olhava admirado. Foram estas as últimas palavras que o infeliz pronunciou antes de assumir o comando do trem.

Somente depois de um difícil e demorado trabalho, foi que, enfim, puderam anunciar o encontro dos corpos prensados entre as ferragens. Completamente desfigurados, mutilados e queimados, quase nada nos cadáveres lembrava formas humanas. A violência da colisão e a explosão da caldeira deixaram praticamente irreconhecíveis o maquinista e o foguista, reduzindo-os a uma massa de sangue e ossos moídos. Dali seguiram direto para o cemitério do povoado. Avisadas as famílias em Goiás, o sepultamento deveria dar-se o mais rápido possível, pois as condições em que se achavam, não permitiam mais demora.

Quando a noite caiu, Bento voltou exausto para casa. As cenas de horror, destruição e morte que presenciara, tinham mexido profundamente com seus nervos. Ia levar muito tempo para se recompor daquele sobressalto e provavelmente o traria para sempre vivo na memória. Nunca poderia imaginar-se sendo testemunha ocular de tamanha catástrofe.

Com o desimpedimento da linha férrea, as atividades da ferrovia voltaram ao normal. Um novo trem passou a fazer o percurso de Goiás e, aos poucos, a tragédia da estrada de ferro transformou-se apenas num caso horrorizante sobre o qual as pessoas se lembravam em suas estórias. Porém certa noite, Bento, de um salto sentou-se na cama:
— Marianinha! gritou, sacudindo a esposa que dormia. A explosão!

A mulher estremunhada em seu sono, olhou confusa, o marido:
— Que é agora, homem?! Não há barulho nenhum. Você de novo com essa estória?!

Mas ele já a arrastava com força e, abrindo a janela, gritava enlouquecido:
— Veja, olha lá as labaredas! Enormes línguas de fogo varrendo o céu. É o trem de novo! Como é que não vê?

Marianinha pegando um copo d’água, tentava acalmá-lo. Agora, era aquilo quase toda noite: Bento cismava com o acidente do trem se repetindo! Jurava ouvir os estalos da caldeira explodindo; afirmava ver as enormes chamas consumindo os vagões e se revoltava quando ela lhe dizia que lá no fundo do vale não havia nada além da escuridão.

A vida de Marianinha virara um inferno ao lado daquele marido sempre atormentado pelo fantasma do trem acidentado. Até que um dia, deu por falta dele na cama. Viu a janela aberta e um arrepio lhe percorreu a espinha.

Sem hesitar, a mulher foi até o curral e constatou apavorada: o cavalo alazão fora selado! Desesperada, arriou o baio que sempre montava e partiu em disparada colina abaixo. Tinha certeza de onde encontrar o marido. Não errara! Lá, no ponto fatídico da estrada de ferro, estava ele, ou melhor, o que restara dele, depois da passagem do trem goiano por volta de meia-noite...

 Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - fotografia de Aender Mendes em Iguatama MG) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

3 comentários:
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  1. Bela história, narrada com o capricho de quem sabe fazê-lo e com final surpreendente e inusitado. Parabéns Marina.

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  2. Ótima história, ainda mais com a foto de Iguatama que é minha terra.

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