segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Crime do Fazendeiro

Compartilhe:

Perto de completar sessenta anos, Polidoro era um homem rico. Possuía muito gado, vastas plantações e muitas propriedades espalhadas pela região onde morava. E era ali, ao pé da montanha, na mais bonita de suas fazendas, que ele vivia confortavelmente em companhia da esposa Madalena.

Foi numa tardinha, quando ele e a mulher descansavam na varanda de frente da casa, que Rosalina apareceu. Era uma mulher morena, de cabelos e olhos escuros e que, apesar do jeito maltratado, ainda conservava antigos traços de beleza.

A estória de Rosalina era como tantas outras. Vinha do sertão da Bahia à procura de serviço. Conhecia de pratos e temperos e já trabalhara em muitas fazendas como cozinheira. Queria saber se ali não estavam precisando de uma pessoa como ela, para a lida da cozinha.

A ideia de contratar a mulata foi de Madalena. Primeiro, porque tinha gostado dela! Depois, porque estava mesmo precisando de alguém para o lugar de Doralice que já não andava bem de saúde.

Rosalina instalou-se no quarto dos fundos com suas trouxas e cacarecos. Em pouco tempo mostrou toda sua habilidade com os tachos e panelas. Tinha realmente dons pra a culinária e, com seu jeito discreto e calado, foi ganhando a confiança da casa.

Tudo estaria muito bem se Polidoro não tivesse sido tomado de alucinante paixão pela cozinheira. O fato é que ele não tinha mais sossego desde que ela pisara naquela casa! Porém contava com aquele impedimento: era um homem casado e Rosalina, pelo que já tinha reparado, jamais se atreveria a olhar para ele.

E foi numa noite quente, quando a lua cheia entrava pela janela clareando o corpo adormecido da esposa que Polidoro tivera aquela ideia: iria matá-la. Queria ficar livre dela para viver seu grande amor com Rosalina.

Quando raiou o dia, o fazendeiro selou o seu cavalo, pegou uma ferramenta no paiol e subiu a encosta da montanha. Ia à procura de um lugar onde pudesse concretizar o que estivera planejando a noite inteira.

Parou o cavalo na estradinha que ia para o arraial e olhou à volta. Foi então que avistou um enorme pé de pequi no meio da mata fechada. Ali, pensou, dificilmente alguém teria acesso. Conhecia bem o lugar e achou que não haveria outro melhor para o que estava querendo. Era ali que iria abrir a sepultura.

O homem desceu do cavalo e se embrenhou no mato. Debaixo do pequizeiro, sem perder tempo começou a cavar. Como o terreno era úmido não teve muito trabalho e depois de certo tempo a cova já estava pronta. Agora, seria apenas esperar pela hora certa.

E a oportunidade de executar o engenhoso plano veio mais rápido do que Polidoro esperava. Era dia da festa do padroeiro, e todos os empregados da fazenda foram para o arraial. Naquela noite, a esposa, como de costume, retirou-se ainda cedo para dormir. Ele ficou ali pela sala esperando que ela pegasse no sono.

Dado um espaço de tempo e evitando qualquer ruído que pudesse acordá-la, Polidoro entrou no quarto mergulhado em silêncio e escuridão. Ouviu Madalena ressonar tranquilamente no lado esquerdo da cama. Respirou fundo e, sem hesitar, pegou o travesseiro e o comprimiu fortemente contra a cabeça da esposa. Sufocada, ela não deixou escapar um só gemido: estava morta!

Depois de certificar-se de que Madalena já não respirava, o marido arrastou o corpo ainda quente pelo assoalho e desceu com ele pela escada que dava acesso ao porão da casa. Lá, ele o depositou na parte traseira da caminhonete e cobriu-o com alguns sacos vazios.

Em seguida, voltou correndo ao quarto, apanhou uma mala de couro no armário e nela colocou roupas, joias e objetos pessoais da esposa. Aquele era um detalhe importante de seu diabólico plano para sumir com a mulher.

Voltando ao porão, o fazendeiro tomou a direção do veículo e partiu em direção ao pequizeiro da mata. Lá chegando, retirou rapidamente os galhos e folhas secas que cobriam a cova aberta dias antes e nela deixou rolar o corpo da mulher e a mala de couro. Feito isso, cobriu tudo novamente e ficou satisfeito. Tinha certeza! Ninguém jamais poderia suspeitar do que houvera ali.

Ansioso, o homem voltou para casa e esperou que o dia amanhecesse para espalhar a notícia que já havia preparado: Madalena fugira de casa! Conseguira enganá-lo direitinho. Só ouvira um barulho de motor se afastando em alta velocidade pela estrada. Ela se fora levando todas as suas coisas. Tinha ido para nunca mais voltar. Com certeza, se fora com algum antigo namorado...

No começo, a notícia causou certo rebuliço. O povo não esperava aquilo de uma mulher como Dona Madalena. Com o tempo, a estória foi caindo no esquecimento e ninguém estranhou quando Polidoro, coitado, tão sozinho, casou-se com Rosalina no fim do ano.

Foi então que se teve notícia das aparições no pé de pequi. Quem viu a primeira, foi Viriato, um morador das redondezas. Disse o rapaz que vinha sossegado pela estrada. A lua alta no céu iluminava o silêncio dos pastos. De repente, ele ouviu aqueles gemidos esquisitos vindos do lado do pé de pequi.

Branco feito cera, o vaqueiro contou que quando olhou, teve um baque tão forte que quase escorregou da montaria. Seu coração bateu tão acelerado que parecia querer saltar-lhe pela boca! Primeiro viu aquela luz azulada que parecia uma fumaça. Depois, aqueles gases translúcidos foram se condensando e tomando forma. Viraram um perfeito corpo de mulher que flutuava sobre o mato, agitando os braços como se pedisse socorro.

O cavalo, disse ainda Viriato, empinou-se nas patas traseiras e ficou empacado, arrepiando os pelos e relinchando feito um doido. O moço sentiu um calafrio que lhe avisou: estava diante de uma alma do outro mundo! Aterrorizado, percebeu que o fantasma caminhava em sua direção. Seu rosto foi fustigado por um vento gelado e ele pensou que fosse morrer sem ar.

Sem saber o que fazer, pois o cavalo não saía do lugar, Viriato gritou pelo seu santo de devoção e fechou os olhos. Ficou assim por algum tempo e, quando teve coragem de abri-los já não viu mais nada. Então o moço esporeou o cavalo que disparou em desabalada carreira e só estacou, bufando de cansaço, junto à porteira da fazenda.

Depois daquela aparição, muitas outras aconteceram. O lugar ganhou fama de mal-assombrado e ninguém se aventurava a passar por ali, à noite. Aquela assombração mexia com a imaginação das pessoas. De quem seriam aqueles gemidos? A quem pertenceria aquele corpo de mulher formado naquela luz? O que teria acontecido por ali que provocava todo aquele mistério? O certo é que alguma estória bem horripilante deveria ter acontecido naquelas redondezas. Certo dia, passando pelo lugar, o padre do arraial notou algo esquisito: o pequizeiro da mata havia secado. Sempre que passava por ali, gostava de admirá-lo. Mas agora, por algum motivo, vinha observando que a árvore estava desaparecendo aos poucos. Seus galhos tinham caído e, curiosamente, só haviam restado dois deles apontando para os lados. E quem reparasse com mais atenção poderia ver claramente: o pequizeiro havia tomado forma de uma perfeita cruz!

O padre olhou a árvore seca. Lembrou-se dos casos das aparições e algumas ideias passaram por sua cabeça. Sem comentar suas intuições, certo dia foi até o local e, armado de uma boa ferramenta, começou a cavar junto ao tronco. Algo lhe dizia que faria em breve uma grande descoberta. E realmente não demorou muito para que suas suspeitas se confirmassem. A ferramenta afiada que usava, de repente chocou-se com algum objeto esquisito sob a terra, provocando um barulho oco.

Aquilo foi o bastante! Mais algumas escavações e... Surpresa! O padre tinha diante de si uma cena impressionante: misturados à terra fofa e úmida, fragmentos de couro, resquícios de objetos corroídos e, quem diria, os restos de uma ossada humana!

Porém algo encontrado ainda intacto foi a chave de todo o mistério que ali se escondia: pendurada a uma corrente de ouro, estava uma foto em miniatura que o padre logo reconheceu. Era ela, a mulher do fazendeiro Polidoro, dada como fugitiva anos atrás. Enfim, se desvendava o mistério do hediondo crime. Estava vingado o fantasma de Madalena...


Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - fotografia de Arnaldo Silva. Bom Despacho MG ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

Nenhum comentário:
Faça também comentários